O grupo de soldados no interior do tanque acompanhava a cena à distância, protegidos pela carcaça blindada enquanto mantinham o campo de batalha sob vigilância constante, e o que presenciavam naquele momento destoava completamente do padrão esperado para aquele confronto. O motorista manteve o veículo em posição estratégica, ajustando levemente o ângulo enquanto o operador da torre não desviava a mira do canhão, mantendo-a travada na díade formada por Eleonor e Bruno, pronto para reagir a qualquer mudança brusca.

    — Aqui é o Soldado Tony Rivera, câmbio… — a voz surgiu pelo rádio com uma tensão evidente, ainda que controlada, como alguém que compreendia o peso da informação que estava transmitindo. — Eleonor utilizou sua Arte Esotérica no alvo… não é o Rover… eu repito, Eleonor utilizou sua Arte Esotérica no alvo, e não é o Rover.

    Houve um breve silêncio após a transmissão, como se até mesmo a frequência precisasse de um instante para absorver aquilo. A informação não apenas corrigia a identificação do inimigo — ela alterava completamente o cenário, transformando o que antes era uma ameaça conhecida em algo novo, não catalogado, e potencialmente ainda mais instável.

    — Quem é o alvo, Tony? — a voz de Rizzotto surgiu do outro lado da frequência, firme e direta, sem espaço para ruídos ou interpretações, exigindo uma resposta imediata mesmo estando fora do campo de batalha.

    Dentro do tanque, Tony manteve os olhos fixos na cena à frente, observando Eleonor e Bruno ainda conectados pela execução da Arte Esotérica, enquanto organizava as informações com rapidez antes de transmiti-las.

    — Foi de fato um nascimento de um safira, senhor… não foi um truque. — respondeu, a voz mais controlada agora, mas ainda carregada pelo impacto da confirmação.

    — O status do ataque pode se dar como encerrado, se a Cigana neutralizou o alvo. — disse Rizzotto, a voz firme e objetiva mesmo à distância, já reorganizando mentalmente o cenário com base nas novas informações. — Irei contatar Rarenzzy e Rache para que retornem com o Índio e o Matthew para a Residência Sanctz.

    Dentro do tanque, Tony manteve o olhar fixo na cena à frente, acompanhando a díade imóvel no que restava da rodovia, agora reduzida a fragmentos de concreto e metal, com a antiga estrutura da ponte servindo apenas como um esqueleto quebrado ao fundo.

    — Copiado. — respondeu, encerrando a transmissão de forma direta enquanto ajustava levemente sua posição, voltando toda a atenção para Eleonor e Bruno, que permaneciam conectados no centro daquele campo devastado.

    A batalha, naquele ponto, havia se transformado em algo completamente bizarro, quase desconectado da realidade que existia ao redor, pois no centro daquele cenário destruído permaneciam dois corpos azulados completamente imóveis, como estátuas cravadas no que restava da rodovia, enquanto seus olhos brilhavam em um tom alaranjado intenso, ofuscante o suficiente para se destacar mesmo em meio à poeira e à luz difusa do ambiente.

    Não havia mais troca de golpes.

    Não havia deslocamento.

    Apenas silêncio… e algo acontecendo além da superfície.

    Eleonor estava dentro da psique de Bruno.

    Seu poder não apenas acessava memórias — ele organizava, estruturava, dava forma àquilo que antes era fragmentado, transformando a vida do rapaz em algo compreensível dentro de um fluxo contínuo. As lembranças se materializavam como cenas, conectadas umas às outras em uma progressão lógica, como se estivessem sendo exibidas em um filme, onde cada momento carregava peso, contexto e consequência.

    Mas não era apenas visual.

    Era interpretação.

    O que surgia diante dela não era um amontoado caótico de lembranças, e sim um roteiro — uma linha narrativa que convertia sentimentos, decisões e traumas em algo legível, direto, transmitido à sua mente com clareza cirúrgica. Cada memória vinha acompanhada de intenção, de emoção, de significado, permitindo que Eleonor não apenas visse o que Bruno viveu, mas compreendesse o porquê daquilo tê-lo moldado.

    Eleonor foi conduzida a uma cena simples, quase deslocada diante de tudo que havia presenciado até então, onde uma família de quatro pessoas ocupava um espaço cotidiano, carregado por uma normalidade que contrastava violentamente com o caos do presente. Ali estavam o pai e a mãe de Bruno, junto do próprio garoto e de sua irmã, Emma, em um momento que não carregava tensão aparente, mas que, ainda assim, possuía um peso silencioso que só poderia ser compreendido por quem o viveu.

    O pai se destacava pela presença física, um homem negro alto, na casa dos quarenta e poucos anos, com sinais de desgaste que não condiziam totalmente com sua idade, como se o tempo tivesse avançado de forma desigual sobre ele, marcando sua expressão com traços de cansaço acumulado. Ao lado dele, a mãe apresentava um contraste evidente, uma mulher branca de cabelos longos e lisos que desciam com naturalidade sobre os ombros, enquanto seus olhos verdes, intensos como esmeralda, traziam uma serenidade aparente, quase como um ponto de equilíbrio dentro daquele núcleo.

    Bruno e Emma completavam a cena, ainda inseridos naquele contexto familiar que, à primeira vista, parecia estável, comum, longe de qualquer sinal do que viria a se tornar.

    Aquela não era uma incursão ativa, mas uma imersão passiva, onde sua presença não existia para aquele ambiente, assim como a mente de Bruno, naquele ponto da memória, não tinha qualquer percepção dela. Ela era apenas uma espectadora, deslocada no tempo, acompanhando os eventos como alguém que assiste a algo já escrito, incapaz de interferir no roteiro que se desenrolava diante de seus olhos.

    — Bruno Rossi… nascido em 20 de agosto de 1997, na Sardenha, irmão gêmeo de Emma Rossi, embora não sejam idênticos… — disse Eleonor, a voz baixa e constante enquanto as informações fluíam diretamente em sua mente, organizando-se de forma automática conforme a própria estrutura da Arte Esotérica traduzia aquelas memórias em dados compreensíveis.

    As cenas continuavam a se formar ao redor, mas agora não eram apenas imagens soltas; vinham acompanhadas de contexto, de detalhes precisos que preenchiam as lacunas entre um momento e outro, permitindo que ela entendesse não só o que havia acontecido, mas quem Bruno era dentro daquela linha de eventos. Cada fragmento de informação se encaixava como parte de um dossiê vivo, montado em tempo real dentro de sua consciência.

    Por fim, a imagem se completou de forma definitiva, estabilizando-se como uma cena clara e contínua, revelando um dia ensolarado do ano de 2005, onde a luz natural invadia o ambiente e preenchia a sala com uma sensação de tranquilidade quase esquecida. A família estava reunida, posicionada de forma simples, sem tensão aparente, enquanto o espaço ao redor carregava os traços de uma rotina comum, distante de qualquer indício do que o futuro reservava.

    Os pais conduziam a conversa de maneira didática, explicando com paciência sobre os astros e planetas, utilizando referências simples para que Bruno e Emma pudessem compreender, respondendo diretamente a uma curiosidade que havia surgido horas antes, quando ambos tiveram contato com aquele conteúdo na escola. Havia naturalidade na interação, um fluxo leve entre pergunta e resposta, como um momento cotidiano de aprendizado compartilhado.

    Bruno e Emma ouviam atentos, absorvendo cada detalhe, enquanto a conversa se desenvolvia de forma orgânica, sem pressa, sem peso, apenas um recorte comum da vida que, naquele instante, parecia intacto.

    — Esse cara teve uma infância normal, aparentemente… os pais dele parecem não saber o que o filho carregava, ou então ele tomou esse poder. — disse Eleonor, a voz baixa e analítica enquanto seus olhos percorriam cada detalhe da cena, não como alguém que apenas observa, mas como quem desmonta cada informação em busca de uma falha.

    Sua mente trabalhava de forma estruturada, descartando hipóteses superficiais e conectando o que via com o que havia presenciado no campo de batalha, até que a própria lógica a obrigou a corrigir o curso do pensamento. — Não… eu vi o feixe de luz, essa foi a primeira transformação dele, mesmo se tivesse usurpado, ele teria obrigatoriamente ter ficado azul antes — concluiu, ajustando sua leitura com firmeza, compreendendo que aquilo não se tratava de aquisição ou transferência, mas de algo latente, presente desde o início e que apenas agora havia sido ativado sob as condições certas.

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