O gotejamento irregular encontra a calha de alumínio num leve tilintar; as folhas da árvore dançam perdidas sob o rugido cantante do vento. Em poucos segundos, a água que caía contida se torna desenfreada e abundante, como se tivesse pressa de existir. As incontáveis plantas vibram no mais puro verde, deleitando-se com o aguaceiro repentino.

      O quarto recebe a luz natural contida atrás das nuvens de chuva. A cama de casal, alinhada com a grande porta de vidro, permite um ângulo perfeito do jardim com a grande árvore no centro. A consciência de Luna desperta antes que os olhos possam reagir. Ela sorri.

    — Está chovendo! — Senta-se na cama; os cabelos estão desgrenhados e secos demais.

      Na noite passada, tudo estava estranho. Ela desligou o chuveiro com xampu ainda no cabelo, os fios embaraçados contra a escova. Amanhã eu lavo de novo. Preparou a salada de frango que ama — mas que ficou salgada demais —, um prato simples preparado tantas vezes que parecia impossível de errar. Pelo menos era o que pensava. Exausta por motivos que desconhecia, decidiu ler antes de dormir, mas esqueceu de entender as palavras. Depois de ler o mesmo parágrafo três vezes, desistiu de pensar.

      Deitou-se. Sob as pálpebras, o olhar de Gabriel se repetia de novo e de novo, trazendo aquela inquietação sombria. Enrolou-se nas cobertas sentindo os três grandes gatos deitados em volta dela; o ronronar suave contra seu corpo a embalava para o sono. Dormiu, mas foi um sono agitado e cansativo.

      Agora, ela está no meio da chuva. Não pensou muito; levantou-se apressada, necessitada. Os pés descalços afundam na grama encharcada. Ela abre os braços e deixa a água fria escorrer pela pele. Os cabelos grudam no rosto. Fecha os olhos e apenas respira, sentindo a cura que vem do céu e a grama sob os pés puxando-a para a terra. Uma vez ela leu sobre essa magia, mas há muito não a praticava; hoje, sente-a acontecendo.

      Gabriel chega tarde. Sobe as escadas em silêncio, evitando qualquer encontro com os vizinhos. Toma banho, prepara um sanduíche e come assistindo ao noticiário. Dorme com frio — sente o frio a noite inteira. Acorda antes do despertador, com a chuva interrompendo o silêncio.

      O quarto dele é pequeno, vazio. Faz pouco mais de um mês que se mudou para o apartamento. Não trouxe muitas coisas, só o essencial. No canto do quarto, sobre a cômoda de mogno, uma pilha de caixas pequenas acumula poeira. Ele as observa; quer abri-las, mas sabe que o peso delas ainda é insuportável. Desvia o olhar, respira fundo e levanta-se. Mais um dia.

      Toma banho perdendo-se na névoa do boxe. Prepara o café; o chiado da cafeteira ecoa pelos cantos e o vapor embaça a pequena janela. A chuva cai lá fora, constante, cinza. Ele observa o horizonte enquanto o café, num esforço inútil, luta para aquecê-lo por dentro. Escova os dentes; o homem no espelho parece um desconhecido. Pega o guarda-chuva preto antes de descer as escadas e sair para aquela manhã que parece relutante em aparecer.

      Eles saem ao mesmo tempo, mas não estão no mesmo lugar.

      Luna chega ao Estúdio Âmbar e o cheirinho de café a recebe logo na porta. Daniel e Bianca estão sentados no hall.

    — Muito bom dia, meus caros amigos! — ela cumprimenta, empolgada, com um sorriso largo que chega até os olhos.

    — Bom dia, Srta. Fotógrafa — Daniel responde com um aceno de cabeça.

    — Bom dia, Luna. Que empolgação é essa? — Bianca pergunta, penteando os fios de cabelo com os dedos.

    — Chuva! — Luna diz, chacoalhando a jaqueta do lado de fora da porta.

      Bianca a encara como se Luna estivesse falando uma língua desconhecida. — Eca, Luna. Nunca vou entender você. Meu cabelo fica uma droga nesses dias.

    — O meu também! Mesmo assim, eu amo um dia chuvoso.

    — E ensolarado. E frio. E ventoso — Daniel completa.

    — Tudo dá para fotografar. Cada clima tem sua magia — ela diz, afastando-se em direção à sala, as botas de borracha marrom com glitter deixando pequenas marcas úmidas no chão.

      Gabriel já está sentado à mesa, com os olhos fixos na tela. Quando ouviu a voz de Luna, altiva e animada demais, sentiu um pulsar exagerado no peito.

    — Bom dia — ele diz, sem olhar.

    — Bom dia — ela responde, no mesmo tom. Mas a voz dele faz algo reverberar dentro dela. Uma inquietação esquisita. Luna se senta; as mãos um pouco trêmulas buscam o botão de ligar o monitor.

      Marina aparece com uma caneca de café e a entrega para Luna com um abraço de lado.

    — Bom dia, Marina! Conseguiu terminar de ler o livro? — Luna pergunta, inspirando profundamente o aroma antes de dar um gole.

    — Bom diia, terminei! Que história, chorei horrores — Marina diz, com as mãos no coração.

    — Eu te falei. Nunca mais esqueci do Zezé — Luna concorda, juntando as sobrancelhas e colocando também as mãos sobre o peito, imitando a aprendiz.

    — Verdade. Não estava preparada para a morte do Portuga — Marina fala, com os olhos marejados. — Olha, não posso nem lembrar.

    — Sim. O fato de ele passar pelo luto completamente sozinho, tendo apenas seis aninhos, destrói meu coração — Luna diz, as lágrimas se acumulando, enquanto afaga a mão da jovem.

    — Qual foi o livro que deixou vocês assim? — Daniel pergunta, aproximando-se das duas com curiosidade.

    — Meu Pé de Laranja Lima — Marina responde, fungando. — Um livro que destrói corações.

    — Um daqueles que você lê num dia, mas leva a vida toda para esquecer — Luna complementa, emocionada.

    — Ah! Olha só. O Estúdio Âmbar também é cultura — ele responde, orgulhoso. — Eu li esse na faculdade. Impossível esquecer.

      Em sua mesa, Gabriel sente o coração vacilar. Ele também conhece a história; hoje, a menção machuca de forma diferente. Mesmo que tente lutar contra a maré de lembranças, a voz das duas atravessa a barreira invisível que ele colocou entre eles.

    — Compartilhei uma nova pasta, Gabriel — Luna informa, limpando a garganta.

      Ele abre o Drive e seleciona o próximo ensaio. As fotos explodem na tela e ele congela. Nas imagens, uma família sorri: mãe, pai e um garotinho ruivo posam em um cenário de floresta. O menino, em pé, abraça o pai pelo pescoço, que sorri satisfeito, enquanto a mãe abraça os dois de olhos fechados. Estão sentados em uma manta xadrez com uma cesta de piquenique à frente. A floresta parece viva; a profundidade de campo simula a presença verdadeira da família em um bosque encantado.

      Luna observa de relance, agora de pé, encostada no vão do escritório de Daniel. Gabriel fecha os olhos e engole em seco. A mandíbula dele trava; ele aperta o mouse com mais força do que deveria. Hesita por um momento, então se levanta bruscamente e sai da sala, com os olhos perdidos em algum lugar. No corredor, ele solta o ar num suspiro silencioso. Luna percebe o movimento, mas não entende; escuta apenas a porta do banheiro se fechando com força.

      No banheiro, Gabriel senta-se no vaso sanitário com a tampa ainda fechada. O coração bate em um ritmo frenético. As mãos trêmulas tapam os ouvidos com força e ele luta contra as lágrimas enquanto engole em seco, na tentativa de empurrar o bolo que sobe na garganta. Percebe, alguns minutos mais tarde, que precisa sair dali. Joga água gelada no rosto e na nuca, respirando fundo algumas vezes para tentar limpar o ar pesado que preenche os pulmões.

      Quando ele volta, a expressão é uma máscara de neutralidade, mas os olhos estão ainda mais distantes. Desvia de Daniel, que está parado sob o vão conversando com Marina, e senta-se, pegando o mouse para iniciar a edição, tomando cuidado para não olhar por muito tempo para as pessoas sorridentes na imagem. Definitivamente, uma edição prejudicada.

      Luna toma cuidado para não olhar naquela direção, prestando atenção na conversa animada entre Daniel e Marina.

    — Chefe, eu sempre quis saber: por que o estúdio se chama Âmbar? É uma pedra, não é? — Marina pergunta, curiosa.

    — Tecnicamente, não é uma pedra. É uma resina de árvore que leva milhões de anos para fossilizar. Ou seja, o âmbar teve paciência o suficiente para virar história — ele responde, pegando a carteira do bolso da calça.

    — Uau! Eu não sabia. Mas por que você escolheu esse nome?

    — Porque o âmbar preserva coisas que já deveriam ter desaparecido há muito tempo — Daniel responde, sorrindo, enquanto tira uma pequena amostra de dentro da carteira. — E aqui nós fazemos o mesmo. Nós eternizamos os momentos.

      Ele mira o fragmento contra a luz. O pedaço tem cerca de três centímetros; é irregular e liso, num tom de mel escuro e translúcido que revela uma pequena folha milenar aprisionada ali dentro.

      Marina observa, fascinada, a pequena amostra que guarda a história.

    — Que incrível, Chefe! Agora faz todo o sentido — ela diz, olhando o âmbar na palma da mão com uma expressão de adoração, como se o objeto fosse precioso demais para ser tocado.

      Luna, tomada de coragem, observa Gabriel por cima do monitor. O rosto dele está parcialmente escondido, a cabeça baixa. A carteira continua sobre a mesa e sua mão desenha, lenta e repetidamente, num movimento quase nervoso, um círculo sobre o couro marcado. Luna absorve a cena devagar, sentindo o estômago inquieto. Gabriel é como aquele pedaço de âmbar que Daniel venera: possui algo especial, mas está preso sob uma camada impenetrável.

      Ela volta os olhos para a tela, tentando se lembrar do que estava fazendo. Os outros parecem não perceber a mudança no ar, mas ela sente de uma forma quase mística.

      Definitivamente, aqueles olhos conhecem a dor.

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