Aquela quinta-feira está mais tranquila do que o normal. Provavelmente por causa da chuva que, para Luna, é cura vinda do céu, mas, para a maioria, apenas um estorvo que estraga os planos. De fato, aquela água não estava na previsão; contudo, caía como se quisesse inundar toda a cidade. O sossego no asfalto ecoava no estúdio, embalado somente pelo barulho constante da chuva e pela música Felicidade, que tocava baixo nos alto-falantes de Luna.

      Num breve momento de estiagem, Bianca saiu do estúdio para comprar pães de queijo. Luna aproveitou a deixa e foi para a rua fotografar os espelhos d’água. O frio da garoa contra as bochechas quentes parece neve derretida. Uma grande poça se formara no gramado em frente ao estúdio e, refletida nela, a antiga araucária, com azaleias na base, produziu uma imagem magnífica. A árvore majestosa invertida no espelho fez Luna lembrar-se de como as fotografias invertem a realidade, assim como ela mesma conseguiu inverter a própria existência. Click.

      Pela janela da cozinha, Gabriel observava a jovem correndo na garoa até um ipê amarelo. Ah, aquele ipê… A árvore, agora quase sem flores, contava apenas com inúmeros botões, vagens e algumas poucas folhas, mas mantinha o tapete dourado sob seus pés. Luna fotografava tudo: a árvore, o asfalto, uma janela vermelha fechada com vasos de folhagens. Ela corre na chuva e, protegido sobre a própria pele, Gabriel percebe, mesmo sem querer, que Luna é o caos na mais pura liberdade.

    — Grandes fotógrafos fotografam grandes coisas. Os melhores fotografam as pequenas — Daniel recita, assustando um Gabriel distraído.

    — Mas existem coisas que não merecem atenção — Gabriel responde, ainda olhando a chuva fina formando anéis na poça de água.

    — A beleza pode e deve ser vista principalmente no que é imperfeito, Gabriel. No Japão, existe uma técnica chamada Kintsugi, ‘emenda de ouro’ — Daniel diz, fazendo aspas no ar. Puxa uma cadeira e se senta ao lado da janela, observando o céu que desaba devagar. — Esta técnica se baseia em pegar os cacos de uma cerâmica quebrada, que outrora seria descartada, e colar cada pedaço com pó de ouro misturado a cola. No final, a cerâmica não fica exatamente igual ao que era, mas, ainda assim, recebe uma beleza resiliente.

      Gabriel não diz nada. Reflete sobre aquelas palavras observando Luna, ainda correndo na chuva, o rosto brilhante e, provavelmente, longe de algum dia já ter sido reduzida a cacos descartáveis.

      A chuva engrossa. Luna encontra Bianca no caminho e ambas correm para o estúdio. Gabriel já está de volta em seu lugar. As mulheres entram na sala. Luna passa as mãos no rosto, secando a umidade, enquanto Bianca reclama, arrependida por ter saído sem guarda-chuva.

    — Luna! A barista me contou que você deu um showzinho lá esses dias — Bianca comenta, ofegante, sacudindo o casaco.

    — Um ‘showzinho’? — Luna pergunta, com a sobrancelha erguida.

    — Bem, ela não usou essas palavras. Disse que você discutiu com um cara na fila porque ele estava sendo grosseiro.

    — Ah, isso é verdade — ela ergue os ombros, sentando-se na cadeira.

      Gabriel lembra; ele estava lá, viu o ‘show’ ao vivo e, mesmo incomodado com a situação, viu uma força nela que ele mesmo nunca teve. Marina entra com uma garrafa de café quentinho.

    — É mesmo, Luna? O que aconteceu? — Daniel pergunta, interceptando a expressão no rosto de Gabriel, que fingia desinteresse.

    — Não foi nada demais. É só que algumas pessoas acreditam que têm o rei na barriga, e tudo bem. Mas isso não lhes dá o direito de serem covardes com os outros.

    — Essa Luna… ela é realmente maluquinha! — Daniel ri. Aos 58 anos, ele ainda tem mais entusiasmo do que muitos jovens. — Mas é isso mesmo, não devemos recuar.

    — Ai, Luna, me desculpe, mas fazer barraco é tão démodé — Bianca revirou os olhos. — Você precisa canalizar sua intensidade em coisas mais úteis e menos constrangedoras.

      Aquelas palavras de Bianca agiram como um gatilho, destravando uma porta que Luna mantinha fechada a sete chaves. De repente, o cheiro de café e madeira do estúdio desapareceu, substituído pelo odor de lustra-móveis e o silêncio opressor da casa de sua mãe.

      Ela tinha dezesseis anos. Lembrava-se da mesa de jantar simples, mas impecável, onde o tilintar dos talheres contra a porcelana parecia mais alto do que qualquer conversa. Luna havia acabado de contar, entre risadas vibrantes e gestos largos, uma história boba sobre algo que vira na escola. Sua alegria preenchia a sala, transbordando pelas bordas.

    — Luna, por favor — a voz de sua mãe, baixa e polida, cortou o ar como uma lâmina fria. — Você fala demais. Não percebe que estamos tentando jantar? Uma moça deve se comportar. Você ri muito alto. — A mãe calou-se, mas as palavras ouvidas tantas vezes se repetiram na cabeça dela: ‘Luna, você fala demais’, ‘Luna, você chora muito fácil’, ‘Você… é sempre demais, Luna’.

      Aquele ‘demais’ ecoou como uma sentença. Durante anos, Luna acreditou que era um erro de fabricação. Na faculdade, tentou ser a versão cinzenta de si mesma. Engoliu as gargalhadas, secou as lágrimas antes que alguém pudesse vê-las e vestiu roupas que a faziam desaparecer nas paredes. A sensação de um pássaro enjaulado — as asas batendo contra grades invisíveis — era sua única companhia constante. A dor no fundo da garganta, aquele nó que nunca se desfazia, tornou-se sua normalidade. Ela era uma fotografia em preto e branco tentando sobreviver em um mundo saturado.

      Contudo, houve o dia do basta. O dia em que, diante do espelho, olhando aquele vestígio de desastre nas costas, ela percebeu que o pássaro não estava preso porque a gaiola estava trancada, mas porque ela tinha medo de voar. Naquele instante, sentiu o peso dos ossos ficar mais leve, como se a gravidade tivesse desistido de puni-la. Decidiu, com uma clareza cortante, que seria tudo o que quisesse. Se fosse para ser ‘demais’, que fosse então um transbordamento incontrolável.

    — Ai, Bi, me poupe! Eu sou quem eu quero ser — Luna respondeu firme, mas o eco daqueles anos de repressão ainda soava fundo em seus ouvidos.

    — É isso, Lu! Seja você! — Marina exclamou, entregando-lhe uma caneca de café.

      Gabriel tomava o café, concentrado, mastigando o pão de queijo quente. Mas ele viu. Viu algo estremecer no olhar dela. No fim das contas, ele pensou, talvez ela também fosse uma pilha de cacos. A voz de Daniel o buscou nas profundezas de seus pensamentos.

    — Equipe, como o ensaio de hoje foi cancelado, transferimos para amanhã — o chefe informa, quebrando o gelo. — Bianca e Marina precisam estar lá às onze para preparar as modelos. Você e o Gabriel, Luna, podem ir mais tarde, lá pelas uma da tarde.

      Gabriel engasgou com o café, sentindo o nariz arder. — Eu preciso ir também?

    — Sim. Precisamos de um videomaker e, segundo seu currículo, você tem experiência. Né?

    — Ah… sim. — Gabriel não queria ir. Mas não teve escolha.

    ***

      O dia seguinte nasceu ensolarado. A umidade apenas maximizava o brilho da manhã gelada. O silêncio no estúdio era ensurdecedor. Bianca e Marina já haviam saído, e o vazio das salas parecia ampliar cada pequeno ruído. O som da vida lá fora, o trânsito acontecendo, o gorjeio dos pássaros… era a perfeita antítese da atmosfera do estúdio. O tique-taque do antigo relógio na parede parecia absurdamente alto. Luna percebeu o som, até então desconhecido, e se questionou se ele de fato sempre funcionou assim.

    — Preciso que vocês dois fiquem aqui até as treze horas — Daniel instruíra antes de sair. — Vai chegar uma entrega de módulos de MDF para o cenário novo e eu preciso que alguém receba.

      Luna não entendeu bem por que precisava que os dois ficassem para receber uma entrega, mas não questionou. Eles saíram, levando a leveza junto. Ela já havia ficado sozinha muitas vezes no estúdio, mas nunca fora assim. Então notou que, provavelmente, o silêncio de Gabriel é que pesava sobre eles.

    — Você gosta de qual tipo de música? — Luna perguntou para ele, tentando aliviar a tensão que parece querer sufocar a sala.

    — Não gosto de nenhuma — ele respondeu, seco, sem desviar os olhos do monitor — desligado, diga-se de passagem.

    — Você não gosta de música?! — Luna rebate, estarrecida. Ela para com a mão suspensa sobre o mouse, encarando-o como se ele tivesse acabado de confessar um crime hediondo. — Gabriel, isso é.… impossível. Como se vive sem uma trilha sonora para os pensamentos?

    — Apenas vivo — ele respondeu, curto. O monitor desligado à sua frente refletia apenas sua silhueta tensa.

      Luna não se conforma. Para ela, o silêncio não é ausência de som, é um vácuo que suga a energia do lugar. Sem dizer mais nada, ela abre sua playlist favorita. O cursor flutua sobre as opções, mas ela decide confiar no destino e clica no modo aleatório. Para Luna, o acaso sempre tem uma mensagem a entregar.

      Os primeiros acordes de violão de Só Hoje começam a preencher o vazio da sala, subindo pelas vigas de madeira e dissipando um pouco do ar pesado. Gabriel, como em tantas outras vezes, reconhece a canção no primeiro segundo. O som o atinge como um choque físico.

      Houve um tempo, que agora parecia pertencer a outra encarnação, em que as melodias ocupavam cada espaço de seus dias. Ele se lembrou, num flash indesejado, de um show em que esteve; a multidão, as luzes e o momento em que cantou essa música especificamente tão alto, com tanta alma, que suas cordas vocais se recusaram a funcionar no dia seguinte.

      Mas ele expulsa a memória com a força de quem espanta um fantasma. Gabriel não “gosta” mais de música; para ele, elas não são entretenimento, são invasoras. Hoje, ele prefere o zumbido mecânico dos computadores e o ruído branco da chuva lá fora, porque são neutros e não exigem nada em troca. Música exige sentir. Elas carregam histórias e cheiros que ele se esforça para não ler. Cada nota é uma rachadura na parede que ele levou anos para construir.

      Satisfeita, Luna fecha os olhos por um breve instante, deixando-se embalar pela voz do cantor. Ela começa a tamborilar os dedos ritmicamente num dos poucos espaços vazios de sua mesa lotada de lentes e memórias. Ela sente o desconforto emanando dele — uma energia densa e gélida que parece lutar contra as ondas sonoras —, mas recusa-se a desligar. Luna acredita que o estúdio é como uma caixa de ressonância; ela precisa fazer o ambiente vibrar de novo para não se deixar sufocar pela sombra que Gabriel trouxe consigo.

      O tique-taque do relógio agora dança no compasso da música, e a poeira, iluminada por um raio de sol pálido que atravessa a chuva, parece seguir o ritmo dos dedos de Luna na madeira.

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