O ensaio terminou no final da tarde, o céu de Curitiba assumindo um tom de ouro velho, filtrado pela umidade que insiste em pairar sobre a cidade. Marina e Bianca permanecem no parque organizando as maletas de maquiagem e os trajes de formatura, enquanto Daniel, com sua diplomacia habitual, discute os termos finais do trabalho com a diretora do curso de estética.

      Gabriel e Luna decidem voltar a pé. O parque não é longe do estúdio. Mais cedo, enquanto aguardavam a entrega dos módulos de MDF, decidiram que caminhar seria mais inteligente; encontrar estacionamento naquela região, especialmente no início da tarde, é sempre um desafio que nenhum dos dois está disposto a enfrentar. Os outros foram de carro, carregado de equipamentos pesados.

      Caminham pela calçada em silêncio. É um silêncio diferente do que habitava o estúdio; aqui, ele é preenchido pelo som dos pneus no asfalto e pelo burburinho distante da cidade que se apressa para voltar para casa. O ar gelado morde as bochechas, vindo lembrar que o inverno se aproxima sem pedir licença, trazendo aquela brisa cortante que obriga as pessoas a se encolherem dentro de seus casacos. Gabriel mantém uma distância segura, uma zona de amortecimento que ele faz questão de preservar, mas não está tão longe assim. Mesmo fora de sua visão periférica, ele sente a presença de Luna. É como se ela emitisse uma frequência própria, uma vibração que ele não consegue ignorar por mais que tente.

      Luna, um passo atrás, observa Gabriel de soslaio. Ele está com as mãos enterradas nos bolsos do casaco escuro, o queixo levemente abaixado para fugir do vento. O cabelo dele, um pouco mais longo do que ela notara na cafeteria, ondula com as rajadas de ar. Ele é mesmo muito alto, ela reflete, comparando suas alturas nas sombras projetadas na calçada pelas luzes amareladas dos postes que começam a acender. As sombras, longas e distorcidas, parecem brincar de se tocar antes que eles mesmos o façam.

      Gabriel revisita o ensaio na memória. A presença de Luna destoava de quase tudo. Enquanto as alunas, maquiadas e bem-vestidas, posavam de salto alto, a fotógrafa desfilava naquele All Star manchado. O cabelo, em um coque desalinhado, seguia o caminho do vento. Vestindo uma camisa duas vezes maior do que ela e um short preto, Luna ainda parecia brilhar no meio de tanta pompa. Os rapazes a olhavam com curiosidade, enquanto ela parecia nem perceber a atenção que recebia. Guiava o ensaio como se tivesse trinta anos de experiência, e cada clique era cuidadosamente elaborado. Gabriel percebeu também a expressão de satisfação que Daniel exibia a todo momento, sem nunca interromper o processo criativo dela. Ele a treinou muito bem, Gabriel deduziu.

      De repente, Luna para. Gabriel nota a ausência imediata de passos — seus ouvidos tornaram-se estranhamente sintonizados com o ritmo dela — e olha para trás, procurando-a. Luna está estática diante de uma árvore outonal solitária. Folhas douradas, amarelas e marrons se espalham como uma juba indomável pelos galhos retorcidos, enquanto no chão, um tapete seco range sob os pés dela, anunciando sua presença para a natureza.

      Ela posiciona a câmera com uma agilidade que Gabriel ainda acha fascinante. Click.

    — Uma árvore? — Gabriel pergunta, a voz saindo um pouco rouca pelo frio. Ele para a alguns metros, observando-a.

    — Sempre uma árvore — ela responde, sem desviar os olhos do visor. Ela abre um sorriso que parece iluminar o próprio rosto de dentro para fora. — Elas são as melhores testemunhas, Gabriel. Elas guardam tudo.

      O sorriso dela. Gabriel se pega olhando para o limite dos lábios dela, onde o batom já sumiu há horas. A maçã do rosto está levemente pressionada para cima pela alegria do clique, e as pequenas linhas finas que se formam no canto daquele olho mostram que ela não sorri apenas com a boca, mas com toda a alma. Ele desvia o olhar bruscamente para os próprios pés, mas algo mudou. Ele começa a entender. Luna não busca a foto perfeita no sentido técnico; ela busca o que passa despercebido pela maioria. Ao examinar a árvore com calma, ele percebe: contra o céu de crepúsculo, a silhueta é realmente marcante.

    — O que te faz fotografar? — Ele pergunta, movido por uma curiosidade que vence sua resistência habitual.

    — É porque eu sei que essa imagem, do jeito que está agora, com essa luz exata e esse vento, vai desaparecer em um segundo — ela responde, aproximando-se do tronco rugoso. Gabriel a segue, atraído pelo campo magnético daquela convicção.

    Nos galhos sinuosos que se alastram lá no alto, uma bola de pelo preto se espreguiça com uma elegância quase aristocrática.

    — Ah, um gatinho! — Luna exclama. Ela nem olha para Gabriel, mas ele sabe que os olhos dela estão brilhando sob as pálpebras. — Vem, Mimi… Psi, psi, psi!

      O gato observa, intrigado. Ele tem olhos de jade que parecem julgar a pressa humana. Lambe a pata com indiferença, passa na orelha esquerda. Depois na direita. Click. Mais uma foto guardada no âmbar digital de Luna.

    — Gatos são assim, eles não vêm quando chamamos — Gabriel comenta, permitindo-se um leve tom de ironia. — Eles decidem se você é digna da atenção deles.

    — Vem, gatinho… — Ela se abaixa, ignorando o frio que sobe pelo asfalto, e bate levemente com a palma da mão entre as folhas secas, criando um som rítmico.

      O gato aceita o convite. Desce com uma agilidade líquida e se aproxima lentamente, cheirando o ar saturado de café e frio. Ele observa os dois com curiosidade felina e, finalmente, se entrega, esfregando o lombo na mão de Luna.

    — Ah, muito bem! Que gatinho fofo — Luna diz com aquela voz de criança que usamos apenas com seres puros.

      Gabriel analisa a cena. Luna parece ter voltado à infância; há tanta afeição em cada gesto, uma ausência total de defesas. Ela abraça o felino, que aceita o carinho, e beija o topo da cabecinha dele. O ronrono do animal é tão alto que preenche o silêncio que antes era desconfortável entre os dois.

    — Tira uma foto nossa? — Ela pede, de repente, estendendo a câmera para Gabriel.

      Ele a pega com um cuidado excessivo, como se o equipamento fosse feito de cristal. Afasta-se, buscando o melhor enquadramento, tentando aplicar os conceitos técnicos de Daniel. Click. Ele vê pelo visor o contraste do cabelo escuro dela com os pelos pretos do gato e a luz morna do poste. A cena transmite uma paz insuportável.

      Luna, então, coloca o gato nos braços de Gabriel. Ele congela.

    — Segura ele com cuidado. Solta ali quando eu pedir — ela instrui, recuperando a câmera e apontando para a base do tronco, onde as raízes grossas rasgam o solo como veias de madeira.

      Gabriel segura o gato, sentindo-se absurdamente desajeitado. O peso morno e vibrante do animal contra o seu peito é um lembrete físico de que ele ainda está vivo e é capaz de sentir calor. Luna se afasta, estuda a luz lateral que agora incide sobre o cenário e ajusta o foco.

    — Pode soltar!

      Gabriel deposita o gato preto gentilmente entre as raízes e recua. Obviamente, o animal não fica parado para posar; ele começa a se afastar com o rabo erguido, caminhando sobre o tapete de folhas douradas. Alguma coisa se agita dentro de Gabriel, um calor já esquecido que sobe da base do estômago. Uma vontade radiante de simplesmente… ser. Click.

     Na fotografia, a árvore se espalha majestosa pelo visor. As folhas secas cobrem o chão como moedas de ouro, e o gato preto posa de lado, em pleno movimento. Mas, ao lado dele, está Gabriel. O rapaz observa o rastro do animal, distraído, com um sorriso leve e genuíno nos lábios.

      Luna congela ao olhar pelo visor durante a visualização rápida. Peraí. O quê? Ele está sorrindo…

      É o primeiro sorriso dele desde que se conheceram. Não é um sorriso de polidez ou ironia; é um sorriso natural, sem as paredes que ele ergue todos os dias. Por um instante, através da lente, ele parece apenas um rapaz comum. Feliz. Sem o peso do mundo nos ombros.

      Como se o pensamento dela ecoasse nele, Gabriel percebe o que aconteceu e enrijece instantaneamente. A sombra retoma seu lugar, implacável e gélida. Ele enfia as mãos de volta nos bolsos, uma carranca defensiva nublando seu rosto. A urgência de retomar o caminho seguro da indiferença acelera seus movimentos.

      O estômago de Luna se agita com a descoberta. Ela guardou aquilo. Ela possui o registro do momento em que a alma dele apareceu na janela.

    — Pronto? — Ele pergunta, a voz agora irritada, como se quisesse puni-la pelo que ele mesmo sentiu.

    — Linda — ela responde, sentindo o peso da palavra. Eu capturei, ela pensa, mas guarda a câmera rápido demais na bolsa lateral. Ela sente que aquele breve instante precisa ser protegido, escondido até do próprio Gabriel.

    — Não foi o que eu perguntei — ele diz, seco, passando por ela e retomando o ritmo acelerado, quase fugindo.

      Luna desliga a câmera, mas não consegue tirar aquele sorriso da mente. Ela caminha um passo atrás dele, observando as costas largas de Gabriel, sentindo que, de alguma forma, o enquadramento do mundo deles nunca mais seria o mesmo.

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