O caminho de volta parece três vezes mais longo do que a ida. O clima que, há poucos minutos, era leve e quase descontraído sob a presença do gato e da árvore, agora pesa como chumbo. Ele sorriu; a expressão foi um clarão que desapareceu mais rápido do que deveria, mas Luna a registrou. O peso da câmera em seu ombro agora é o peso de uma prova: se está no sensor digital, existiu. E o fato de ter existido parecia ser o maior crime que Gabriel poderia cometer contra si mesmo.

    — A foto ficou muito boa, Gabriel — ela tenta abrir, novamente, aquela porta que ele bateu com força na sua cara. Sua voz sai pequena, lutando contra o vento que canaliza entre os prédios.

    — Ótimo. É por isso que estamos aqui, não é? Para produzir material — Gabriel responde, o tom gélido e monocromático. Ele aperta o passo, os ombros rígidos desenhando uma linha reta de indiferença. Retoma a postura de “editor eficiente”, transformando a caminhada em um trajeto puramente funcional. Distante. Inalcançável.

    O vento curitibano atravessa a rua, cortante como uma navalha. O silêncio se instala outra vez, mas é um silêncio ruidoso, cheio de coisas não ditas. O cheiro de café torrado e pão fresco vindo de uma padaria de esquina invade as narinas de Luna, despertando um desejo súbito de conforto. Sem esperar aprovação, ela entra no estabelecimento antigo. O ambiente é quentinho, saturado pelo cheiro de fermento e o vapor das máquinas de café. Ela não hesita; pede dois cafés pretos, fortes e sem açúcar — é assim que ele geralmente toma no estúdio. Ao sair, o coração dá um solavanco de alívio ao vê-lo encostado em um poste, os olhos fixos em algum ponto invisível do horizonte. Ele a esperou.

    O café faz pouco para aplacar o frio que vem do asfalto, mas é o suficiente para empurrar o nó de ansiedade que insiste em bloquear a garganta de Luna. Se Daniel estivesse ali, com certeza diria: “Uma fotografia não salva o momento, Luna. Ela só prova que ele existiu”. E, agora mais do que nunca, ela sabe: aquele sorriso existiu. E foi capturado só para ela.

    Gabriel toma o café em pequenos goles, sentindo o líquido queimar a língua. O peso da carteira no bolso parece ter dobrado. Por muito tempo, ele suprimiu cada centelha de alegria; chegou a acreditar que o mecanismo de sua felicidade estava permanentemente quebrado. Agora, a lembrança do próprio sorriso queima. Aperta. Sufoca como uma gola apertada demais.

    — Você gosta de gatos? — Luna insiste, tentando furar a bolha de gelo. Ela viu a ternura dele com o bichano e não aceita a negação.

    — Não — ele responde, seco, sem desviar os olhos do caminho.

    — Você sempre morou em Curitiba? — Mais um passo em direção ao muro dele.

    — Não.

    — E por que escolheu aqui para viver agora?

    — Porque aqui o frio justifica o isolamento — ele sentencia. As palavras saem como uma declaração de princípios. Gabriel não está em Curitiba pelo clima; ele está em Curitiba pela desculpa social de se fechar em casacos e silêncios.

    Luna absorve as palavras enquanto caminha. Aos poucos, começa a entender a engenharia por trás daquele distanciamento. Há uma profundidade dolorosa em cada “não” que ele pronuncia.

    — Sabe… você não é tão frio quanto tenta parecer, Gabriel. A forma como você segurou aquele gato…

    Ele para bruscamente e a encara. Os olhos sombrios, quase negros sob a luz cinza da tarde, são assustadores. É um olhar de aviso.

    — Você fotografa o que quer ver, Luna. Não o que está lá. Você enxerga luz onde só existe sombra porque é conveniente para o seu mundo colorido.

    Luna toma um gole de café, engolindo a raiva e a frustração que sobem em ondas. Antes que possa articular uma resposta à altura, o sinal abre e uma fila de carros acelera. Um motorista apressado passa perto demais da sarjeta, mergulhando os pneus em uma poça de lama escura acumulada pela chuva do dia anterior.

    Gabriel reage por puro instinto, uma memória muscular de proteção. Ele alcança o ombro de Luna e a puxa para si com força. O impacto é imediato: as costas dela se chocam contra o peito dele, e o mundo ao redor entra em slow motion. O cheiro de Gabriel — uma mistura de sabão neutro, o frio da rua e o aroma amargo do café — a atordoa. A distância que ele lutou para manter some em um segundo. O foco se perde.

    O momento se estende. A mão dele é grande e permanece firme em seu ombro, os dedos apertando o tecido da jaqueta dela. Luna sente o peito de Gabriel subir e descer com força; a respiração quente dele encontra a curva do seu pescoço, enviando um arrepio que percorre sua espinha de cima a baixo. Ali, colada a ele, ela sente que a sombra dele é, na verdade, um calor abafado.

    — Você está bem? — Ele pergunta, a voz falhando por um milésimo de segundo antes de ele se afastar com uma pressa que beira o pânico.

    — Eu… estou sim — ela responde, lutando para que suas pernas não cedam. O frenesi de seus batimentos cardíacos é tão alto que ela teme que ele possa ouvir. — Obrigada.

    Do outro lado da via, um carro passa buzinando. Daniel, Marina e Bianca acenam da janela do veículo da empresa, sorrindo diante da cena que, de longe, parecia um abraço. Droga. Gabriel, subitamente tomado por um mal humor defensivo, retoma o caminho a passos largos, sem esperar que Luna se recomponha ou que o café pare de tremer em sua mão.

    O resto do trajeto até o estúdio é um vácuo sensorial. Luna não vê os carros, não sente o vento; ela está presa na memória tátil daquela mão em seu ombro. Gabriel, por outro lado, sente ainda mais frio. As mãos enterradas nos bolsos, o passo de quem foge de um incêndio; tudo o que ele quer é a segurança de suas quatro paredes.

    O estúdio está iluminado quando chegam, e o silêncio dos colegas é carregado de uma curiosidade desconfiada. Luna tenta parecer normal, mas suas mãos trêmulas ao descarregar a câmera a traem. Se despede e segue para o carro, sua caixinha de conforto. No trajeto para casa, a voz de Ana Carolina no rádio parece narrar sua própria confusão, mas ela mal escuta a letra. Toda a sua atenção está voltada para o simples ato de manter o Fusca na pista.

    Ao chegar em sua pequena casa, Luna abre a janela. O oxigênio parece escasso dentro do carro parado. O coração ainda acelera ao menor pensamento no peito de Gabriel contra suas costas. Ela escuta a própria pulsação como se estivesse submersa. Aquele breve momento de contato arde nela como brasa que se recusa a apagar.

    Gabriel, no entanto, vive um inferno diferente. Ao chegar em seu apartamento, tira a carteira do bolso e a coloca sobre a mesa de vidro com um baque surdo. O peso físico some, mas a gravidade ainda esmaga seu peito. A saudade permanece ali, guardada naquele volume da carteira que ele tateia obsessivamente, muitas vezes sem nem perceber o que está fazendo. Ele respira com dificuldade, tentando desesperadamente esquecer de tudo — principalmente de Luna.

    Joga as roupas no chão e entra embaixo do chuveiro ainda frio, agarrando-se à estúpida ideia de que aquele oceano de emoções pode simplesmente descer pelo pequeno ralo no canto. O banho é longo, mais longo do que o necessário. Sob o fluxo da água quente, que embaça o espelho e preenche o banheiro de vapor, o controle que ele exercitou o dia inteiro finalmente escapa por entre seus dedos. A proximidade de Luna, o cheiro doce dela, o toque instintivo e, principalmente, aquele sorriso roubado na árvore colidem com as lembranças que ele jurou preservar como um santuário inviolável.

    Ele desaba.

    Não é um choro silencioso de cinema; é uma dor visceral que ocupa todo o espaço do boxe. É um choro que tranca o nariz, que faz o coração doer fisicamente, como se estivesse sendo espremido por mãos invisíveis. Gabriel chora até que o fôlego falte, até que o rosto queime e os olhos se tornem fendas inchadas, quase incapazes de enxergar através da névoa.

    Ao fechar o registro, o silêncio que sobra é opressor. Ele apoia a testa contra os azulejos frios, tentando aterrar-se. A luz fraca do banheiro revela, em sua mão esquerda, a marca clara e persistente no dedo anelar. Uma cicatriz de pele mais clara que o resto do corpo, onde o sol nunca bateu por anos. Uma marca que o tempo, por mais implacável que seja, ainda não foi capaz de apagar.

    Gabriel está dividido entre o homem que foi e o homem que o Estúdio Âmbar está forçando-o a ser. Ele está sentindo exatamente o que prometeu nunca mais sentir. E, enquanto o vapor se dissipa lentamente, ele percebe com um pavor genuíno que, por mais que tente se esconder no frio de Curitiba, a vida — barulhenta, colorida e insistente como Luna — está começando a transbordar novamente por suas fendas.

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