Capítulo 14 — O Duelo (2)
Com a pergunta de Kaedra, meus pés fraquejaram momentaneamente. Era uma simples questão, onde eu poderia responder apenas com sim ou não. Mesmo assim, minha garganta secou sem dizer nada.
— Sua espada se movia graciosamente. Sempre tentava buscar uma brecha nos meus movimentos. Mas, curiosamente, você nunca desferiu um golpe fatal.
As palavras continuavam a escorrer de seus lábios conforme seus olhos estranhos se estreitaram. Sua posição de batalha ridícula me permitia atacar e ela, talvez, nem pudesse reagir a tempo. Mas continuei ouvindo suas baboseiras.
— É realmente estranho. Como pode um jovem tão proficiente com a espada ser tão ingênuo?
Os nós de meus dedos se tornaram mais brancos quando o aperto sobre minha espada se fez mais forte que antes.
A Cavaleira Negra continuava a falar, mas suas palavras não eram mais registradas na minha mente. Enquanto sua boca se mexia, minha cabeça estava em outro lugar.
“Como ela descobriu? Mesmo que minha lâmina não tenha atingido sua garganta ou coração, ainda desferi diversos ataques nessas regiões.”
Era confuso, como se ela pudesse ouvir meus pensamentos e enxergar minhas lembranças. De alguma forma, quando meus olhos se perderam no mar de sangue dos dela, pensei que essa ideia pudesse ser verdadeira.
— Um rapaz tão bom, mas que não possui qualquer experiência em matar. Como alguém pode ser tão alheio a algo inerente a todo ser vivo? Afinal, matar não é o ato que mais simboliza a vida?
Quando suas últimas palavras foram ditas, não perdi mais tempo. Eram apenas ideias malucas.
Sem me importar com seu sorriso torto, balancei minha espada em direção ao seu rosto quando me aproximei.
Mas o mesmo som de aço contra aço ressoou pelo ambiente.
— Magoado? — ela perguntou. — Tudo bem, então. Venha com tudo o que têm.
— Sua…
Sentindo minha cabeça latejar com suas palavras, liberei toda a mana que eu havia acumulado no corpo. E o efeito foi imediato.
Um tom azulado que só poderia ser visto ao infundir mana aos olhos tomou a arena, condensando o ar. Suspiros pesados escaparam dos espectadores, mas não me importei muito.
Mesmo que eles sentissem dificuldade em respirar, não iriam morrer.
Então, a lâmina prateada de minha espada começou a mudar. Tão lentamente que era quase imperceptível, um brilho pálido começou a escapar dela.
Clank!
A cada novo golpe, uma estranha onda de choque ainda mais pesada que a anterior era sentida. Em um instante, a expressão zombeteira de Kaedra se desfez.
Seu cenho se fechou conforme a joguei cada vez mais para as bordas da arena. Por mais vergonhoso que fosse, porém, eu não recuaria agora.
Mesmo que Aurora sentisse-se decepcionada pelo meu estilo atual, ainda continuaria. E o motivo de tudo isso se devia a algo que, aos poucos, compreendi.
Esta mulher de corpo estrangeiro, familiar da região Sudeste do império, era forte demais.
— Hoho~, finalmente lutando como um louco. Amei.
A espada dela rasgou o ar em direção ao meu pescoço. Um único erro e minha cabeça voaria. Mas não permitiria isso.
Clank!
Movi rapidamente minha própria arma, desviando a trajetória do ataque. E, aproveitando-me de seu corpo exposto, desferi um golpe de cotovelo em sua barriga.
Os pés da mulher derraparam pelo chão enquanto ela evitava cair. Foi quando ela finalmente chegou até onde eu queria.
— Droga, me encurralou, hein? — ela disse em escárnio, embora seus olhos estivessem opacos.
Naquele momento, suas costas tocaram o limite da arena improvisada.
“Perfeito”, pensei ao segurar a espada firmemente em frente ao meu corpo. “Agora, posso terminar essa luta que se estendeu demais.”
Enquanto avançava contra Kaedra, a mantendo ocupada, comecei a juntar a mana antes dispersada pela arena. O brilho de minha espada aumentou sutilmente.
Os danos causados pela minha espada tomaram lentamente a arma de Kaedra, criando cicatrizes em seu corpo. Não deveria demorar muito para que ela se partisse.
Só mais um pouco. Bastava que terminasse de reunir a mana na espada e tudo chegaria ao fim.
Apertando o cabo com mais firmeza, minha espada rasgou o ar em busca da carne da cavaleira. Se não fosse desviada, ela encontraria os músculos abdominais da mulher.
Crack!
Mas minha espada encontrou apenas o muro de tijolos que delimitava a arena.
A Cavaleira Negra havia desaparecido em um instante.
— Perdi ela!?
Ignorando o som da parede de tijolos colapsando, tentei girar minha cabeça em busca dela. Porém um forte aperto no meu ombro direito me paralisou.
Tamanha era a força que deixei a espada em minhas mãos cair no chão de terra.
“O que é isso?”
Meus olhos lentamente se moveram em direção ao meu ombro, e foi quando encontrei uma mão calejada me segurando.
— Muito bom. Muito bom mesmo, Arthur — a voz de Kaedra chegou aos meus ouvidos. De tão perto, senti o bafo quente dela tocar minha pele.
Mas isso me causou apenas arrepios.
Pois quando encontrei seus olhos vermelhos, a imagem zombeteira da mulher alta fragmentou-se por inteira.
— Mas ainda é decepcionante.
Seus olhos estavam vidrados, opacos demais para que pertencessem a um ser vivo. Inconscientemente, uma questão me veio à mente.
Ela seria mesmo humana?
Infelizmente, não tive tempo de pensar muito sobre. Em um piscar de olhos, um de seus punhos se chocou contra o meu plexo solar.
— Argh! — gemi de dor quando meu corpo caiu no chão.
Toda a mana que reuni na espada começou a escapar sem controle da lâmina.
Da multidão, um suspiro em uníssono escapou. E, logo, as vozes que gritavam por uma luta impressionante se calaram, dando lugar a um silêncio sepulcral.
Tentei agarrar meus músculos latejantes — suprir a dor que sentia —, mas meus braços mal se moveram.
Caído com o rosto no chão, lancei um olhar vago para a cavaleira sobre mim. Mesmo que fosse de dia, estranhamente não pude ver nada além daquele brilho sanguinário.
Embora tentasse reunir a mana ao meu redor, ela já não me obedecia mais. Em algum momento, ela simplesmente se dissipou em meio ao ar.
— Verdadeiramente uma decepção. Mas não é culpa sua. Pelo menos não por inteiro.
Embora sua voz soasse em meus ouvidos, não dei muita atenção à ela. Movi lentamente minha cabeça, ignorando a terra que sujava meu rosto, e busquei alguém na multidão.
Enquanto meu olhar vagava pelos cidadãos de Veldoren, encontrei tantas faces familiares. Havia tantas pessoas que me conheciam ali que ajudei nos últimos anos.
Entre eles, havia Dolores.
Ela, que me olhava com pena, cobriu os olhos de seus filhos o máximo que podia, mas eles ainda me observavam através de seus dedos magros.
Meus olhos continuaram a se mover lentamente.
“Onde ela está?”
Encontrei Lya entre as pessoas, seus olhos esmeralda arregalados. Sua boca se abriu e fechou repetidamente, mas nada saiu dela.
Movi meus olhos outra vez.
Rostos novos, talvez da caravana surgiram, mas logo ignorei todos eles. Pessoas antigas também se mostraram, figurantes em minha vida que eram estranhamente presentes.
Mas, não importava o quanto procurasse, não encontrei-a.
“Ela… foi embora? Minha… Aurora? Meu estilo foi realmente tão repulsivo?”
Minha palma se fechou subitamente, capturando um pouco de terra quando agarrei o chão. Mesmo que meu corpo quase não existisse naquele momento, ainda tentei me levantar.
Mas era tão difícil.
— É melhor continuar ai.
A sola da botina de Kaedra caiu sobre minhas costas, derrubando-me outra vez. E, outra vez, tentei me levantar.
“Não posso decepcionar minha mestra… Não a mulher que tudo me deu…”
— Por favor, não resista mais.
A cavaleira chutou minhas costelas, fazendo uma ardência sem tamanho roubar-me o fôlego.
Talvez fosse minha audição falha, mas a multidão parecia tão silenciosa…
Quando me preparei para me levantar outra vez, uma energia perturbadora tocou minha pele. Então, quando ergui meus olhos, notei algo terrível.
A lâmina da espada de Kaedra, que sempre esteve tão opaca, começou a brilhar. Mas longe de seu um brilho puro, era sanguinário.
Com um vermelho intenso, usurpou todos os olhares da multidão. E a pressão que rastejava pelo corpo…
Tentei me levantar. Precisa fazer isso.
Mas ela não me permitiria.
— Acho que… eu mesma terei que te parar.
A ponta de sua espada pareceu levantou-se alto no céu, tampando os raios de sol que tocavam meu rosto.
A lâmina carmesim, quase como uma extensão de seus próprios olhos, era a única coisa que brilhava naquele momento. E então, ela desceu sobre mim.
Rasgando todos os sons, ofuscando todas as expressões da multidão, a lâmina desceu sobre meu ombro direito.
Ela queria me aleijar? Seria horrível se fosse o caso. Mas… eu simplesmente não conseguia revidar.
Quando busquei fechar meus olhos, no entanto, vi um estranho vulto. Era magro, mas alto. Numa postura que me era familiar.
Com um simples balançar de sua espada, o ataque de Kaedra foi bloqueado.
E mesmo com minha visão escurecendo aos poucos, sabia quem era.
— Mestra…
Finalmente, tudo se apagou.

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