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    Havia lama.

    Sim, aquele frio líquido, viscoso e gosmento tinha que ser lama. Seus ossos doíam. Todos eles, sem exceção. Suas articulações se recusavam a se mexer.

    No entanto, a mente estava limpa e, por alguma razão, era isso que importava. Alguma coisa lhe dizia que, desde que continuasse assim, tudo ficaria bem.

    Abriu os olhos, mas foi inútil. Estivessem eles fechados ou não, a escuridão era a mesma. Não havia como discernir nada de nada. 

    Céu e terra eram a mesma coisa no escuro. O que ele sabia, porém, é que estava numa espécie de elevação. Talvez fosse uma montanha.

    Que lugar era esse, e como foi parar ali? Não sabia. Por que estava ali? Também não sabia. Não havia quem pudesse responder, pois ele mesmo não lembrava de nada.

    A própria ideia de “lembrar” era estranha. O que havia de ser lembrado, se não existia nada, afinal de contas? Era como se nunca tivesse existido uma vida antes dessa, antes das trevas…

    Como se… como se sempre tivesse sido assim. Sim, ele sentia que nunca havia saído dali. Não importava o que fizesse, não importava o que tentasse, seu destino era estar ali.

    Não havia saída.

    “Espera… saída?”

    Ninguém pensaria em saídas, se não soubesse de entradas. E se havia entradas, devia existir algo fora dali. Um “exterior”.

    Sim, isso mesmo. Aliás, como alguém que, nunca tendo visto ou vivido nada, nada além daquele lugar, saberia o que é “escuridão”?

    Afinal, sombras e trevas surgem da ausência de luz. Logo, se ele nunca viu a luz…

    “Que estranho…?”

    Ele sentia que havia algo de errado não apenas naquele mundo, mas nele mesmo. 

    — Eu não sou daqui. Eu não pertenço a esse lugar…

    Sim, ali não era sua casa. Casa? Ele queria vê-la. Sabe-se-lá onde era, ou quão longe fosse, ele queria voltar. 

    — Ela… ela precisa de mim.

    Ela?

    — Eu… eu preciso dela.

    Sim, havia alguém aquela casa. Alguém que o esperaria, mesmo que fosse para sempre. 

    — Não posso demorar… não posso ficar aqui!

    Ele fechou os punhos.

    — Vamos, vamos! Pernas, vamos! Levantem, levantem!

    Precisava vir, e o mais rápido possível!

    — Dro…droga!

    Quis socar o chão, mas nem isso conseguiu. Do mesmo jeito que os joelhos, os cotovelos não queriam flexionar de jeito nenhum.

    Era como se dissessem “não, eu não quero!”. 

    Travavam, emperravam como engrenagens sem óleo ou graxa. E, se isso não o fizesse parar, começavam a doer, a latejar.

    — Vamos, eu preciso… eu preciso sair daqui!

    Eles sabiam. Claro que sabiam, mas, mesmo assim, não queriam. Negavam trabalho. Para quê se levantar?

    Se levantar para quê? Para cair de novo? Para andar, pegar, andar e pegar de novo, de novo e de novo, para chegar ao mesmo ponto, mesmo lugar? 

    Ele sabia disso também quanto eles. Claro, esteve com eles desde o início. Não precisava de ninguém para saber do quanto tentou.

    Tentou o quê? Lembrar do quê, de quem? Não importava. Se havia algo para alcançar, e alguém para ver, o restante era só isso.

    Restante.

    Mesmo que o seu corpo não quisesse, mesmo que sua mente não soubesse, mesmo que o mundo o fizesse parar, ainda assim ele continuaria.

    Era mais forte do que ele.

    — Isso, isso! É disso que eu tô falando!

    Começou a rir, quando finalmente obteve respostas físicas de seu corpo. Reclamava de todas as formas possíveis, estralando do jeito mais nojento que conseguia, mas estava ali, se erguendo.

    Quando ficou numa posição próxima de uma flexão, ele arrastou a perna esquerda e firmou o joelho na lama, usando a planta do pé e os dedos das mãos para um impulso…

    E conseguiu. Estava de pé. Cambaleando, mas de pé.

    A próxima luta foi erguer o braço. Sem poder ver ou ouvir, só conseguia sentir que estava, pouco a pouco, saindo da inércia.

    Em algum momento, seu punho fechado estava acima da cabeça.

    — Eu vou sair… EU VOU SAIR!

    Tropeçando, mas iria.

    — — — 

    Você já ouviu falar do Teorema do Macaco Infinito?

    — Não… acho que não. É sobre o quê?

    Um macaco infinito.

    — Sério?

    Tô brincando.

    — É sobre o quê, então?

    Se você pudesse ter infinitas máquinas de escrever, com infinitos macacos para fazer uso delas, em um período de tempo que vá ao infinito, veria que é possível eles escreverem todas as obras que a humanidade já fez ou ainda fará.

    — Ok, isso é loucura.

    A grande questão, Unome, é que o tempo considerado é infinito. 

    — Certo…

    Se você pudesse fazer algo… tocar violão, por exemplo. Mesmo que você não tenha talento, se tivesse tempo infinito, com certeza você aprenderia.

    — Claro, né, em algum momento eu… ah, entendi! Caramba, faz sentido.

    Pois é. Ou seja, desde que você tenha tempo, tudo é possível. Qualquer coisa que você queira é real, no futuro.

    — Qualquer coisa?

    Qualquer coisa.

    — Hum… mas parece que você tem mais coisa pra dizer.

    É porque eu tenho. Consegue adivinhar?

    — Deixa eu ver… acho que não.

    Você tentou?

    — Pra quê? Você é mais inteligente que eu. Seria inútil pensar nisso agora…

    Isso, é exatamente isso. “Agora

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