Capítulo 48: Alfredo.
Ela era uma estrela no vácuo social.
Fosse um homem, uma mulher, um idoso ou um bebê, todos paravam para vê-la. Não era só “bonita”, não. Era linda. A Vênus do Século Vinte e Um.
Seus lábios eram naturalmente vermelhos, rubros como maçã. Suas bochechas eram rosadas, e seus olhos eram quase fechados. Quase, muito quase.
Era como se estivesse sorrindo.
Eram olhos divertidos, sim, olhos brincalhões, e faziam rir quem os visse. A cura para a tristeza era vê-la nos olhos.
Seu corpo era esguio e gracioso, e o jeito como suas mãos se moviam ao falar, ao expressar a mínima ideia que fosse, era como ouvir a orquestra tocar pelos lábios e a batuta dançar nos dedos.
Ah, música! Sim, sua voz era doce. Céus, que voz doce tinha aquela garota! Era o mel para os ouvidos. Ela também sabia cantar, e bendito era aquele que ouvia!
Tudo parecia flutuar ao seu redor, como se ela fosse um centro gravitacional de atenção. Alguém poderia chamar de feitiço, e ele não seria louco de negar.
Sim, ele.
O garoto caminhava ao lado dela, fazendo o possível para não encarar demais. Não queria que ela pensasse que ele era esquisito.
Parafraseando Phil Collins, contra todas as estranhezas, para todos os efeitos, ele era o seu melhor amigo. Nada mais, nada menos. Melhor amigo.
Os outros zoavam com ele. Claro que zoavam. Diziam que ele tava na friendzone, que ela só queria a atenção de alguém e, como qualquer um servia, a dele havia calhado.
Eles não tinham dó.
— Vai, Alfredo!
— Não esquece de engraxar os sapatos dela, Alfredo!
— Fez o almoço da princesa, Alfredo?
— Terminou o trabalho dela, Alfredo?
E o nome dele nem era Alfredo, para começo de conversa.
— Esses meninos… — riu a “princesa”, junto de outras duas garotas. — Falando nisso, Alfredo, eu realmente…
— Aqui! — disse ele, profissional, enquanto entregava 4 folhas cheias de texto. — Tentei imitar o jeito como você fala, para o professor não perceber.
— Brigada!
Ela o recompensou com um sorriso tão, mas tão radiante, que o fez esquecer o cansaço. Precisou terminar o trabalho dele e o dela na noite anterior. Havia dormido apenas uma hora.
Mas quem se importa? Ela estava feliz, então estava tudo certo.
— Ah, e eu esqueci de…
— Não seja por isso — falou ele, entregando um tupperware vermelho. — Hoje tem bife acebolado.
— Você é um anjo, sabia?
— Ah, ah! Queria que alguém fizesse o meu almoço… — reclamou uma das garotas. Era Tânia, a que tinha os cabelos tingidos de laranja.
— Pois é, né. A Alicia tem sorte de ter um Alfredo na vida dela — emendou Ana, que usava uns óculos pequenos. — Eu preciso acordar cedo pra fazer o meu, senão mamãe passa uma hora fazendo o café pra todo mundo.
E ela tinha 5 irmãos.
— Deve ser difícil, né, Alfredo?
— Nada, é de boa. Eu aproveito e faço o meu também — respondeu ele, meio sem jeito. — É como dizem, “dois coelhos numa cajadada só”.
— Sei…
— Não, sério, é realmente de boa. Eu gosto de fazer comida.
— Você é bem estranho, sabia? Nem eu gosto de fazer comida. Comer é bom.
— Uhum, comer é bom — concordou Tânia, cruzando os braços. — Agora, fazer? Pô, fazer é uma droga. Além de gastar um tempo, você ainda fica cheirando a tempero. Fala sério! Hoje mesmo eu levei uns cinco minutos no banheiro!
— Por que? — indagou Ana.
— Porque eu fritei ovo com cebola e alho. Sabe como é difícil tirar o cheiro da cebola? E do alho, então? Deus me livre. Vou começar a comprar lá no refeitório, mesmo.
— E enfrentar aquela fila de gente? Tá é bestando — falou Alícia, dando umas cotoveladas no “mordomo” .
O garoto coçou a cabeça.
— É só pedir dele. Né, Alfredo?
— Pois é, eu faço — concordou ele, confiante.
— Olha aí. Enfim, queria falar uma coisa, mas acabei esquecendo…
— O quê? — perguntaram os outros três, ao mesmo tempo.
Ela inclinou a cabeça pro lado, pro outro, e as pessoas, passando por eles, achavam graça.
— A Semana da Cultura?
— É! Era isso aí — falou ela, aliviada. — Eu cansei de ensaiar.
— Mas já? — riu Ana. — Tem nem três dias, como você já se cansou?
— Ah, sei lá, eu não gosto do repertório das meninas, sabe? Eu não sou muito chegada no punk.
— Ah, mas punk é legal — disse Tânia, levando a mão ao peito, se sentindo ofendida. — Nunca ouviu Wet Leg? Paramore?
— Escutei, mas não faz o meu tipo. Gosto de coisa pra dançar. Coisa bem pop, sabe? Sinto que meu baixo vai ficar duro, se ficar tocando rock.
Ana achou graça.
— Que foi?
— Nada. — E virou o rosto para Alfredo, murmurando: — Ela só não sabe tocar direito!
Ele quis defendê-la, mas, antes que pudesse…
— Ei, não é a…
— Alícia, bom dia! Pronta pro ensaio de hoje?
Era uma garota de cabelos espetados para frente, batom negro, camisa do Bad Religion e a clássica jeans rasgada combinada com tênis all-stars.
— Hoje tu pega American Jesus!
— Sobre isso… — falou Alícia, fingindo nervosismo. — Eu…
E, bem, quem conhecia Alicia de Santos Almeida de perto, como aqueles três, sabia que ela não gostava de deixar os outros na mão. Não porque se sentisse mal, aliás…
— …Tenho uma ideia.
Ela só gostava de manter a própria imagem.
— O Alfredo pode ficar no meu lugar. Ele que me ensinou a tocar, sabia? Vai ser mais útil que eu.
— Isso é verdade? — perguntou Ana, incrédula.
— É sério, ele até tinha uma banda no fundamental. Né, Alfredo?
Ele, paralisado por um instante, voltou para a Terra ao ser chamado.
— Alfredo?
— Sim, sim. Eu tive uma banda no nono ano. A gente só durou uma noite.
— A noite do baile de formatura, você quis dizer — corrigiu Alicia.
— Não é grande coisa…
A garota da camisas do Bad Religion o estudou dos pés à cabeça. Apertou os olhos, focando no rosto dele.
— Tem alguma coisa na minha cara?
— Sim. É, é bonitinho. Vai servir. Mas, já que esse é o caso, a gente precisa começar agora.
— Agora?
— É. Você não sabe o que a gente vai tocar, e a apresentação já é na segunda que vem — Ela deu uma volta em torno dele, parando diante de suas costas. — Anda!
Ela o empurrou. Ele olhou para Alicia, Ana e Tânia, como se pedisse socorro, mas elas apenas deram um sorriso amarelo.
Ele foi sequestrado.
— — —
Tirado de sua rotina de “Ir para a escola com a Alícia”, o garoto foi levado para os confins do colégio. A Escola Estadual Amélio Prado tinha dois prédios…
Até aquele dia, pelo menos.
Depois de passarem do prédio em que ficavam as salas do Terceiro e o Segundo anos, atravessaram o campo de futebol, que era consideravelmente largo, e pararam diante de um matagal.
Aquilo era suspeito.
— Onde… onde estamos indo?
— Para o QG.
Muito suspeito.
Ela afastou o o mato, que chegava até o peito, e havia, para a surpresa dele, uma trilha que serpenteava até uma casa de madeira.
“Por que eu me meti nisso, hein?”
Balançou a cabeça e seguiu a garota.
Algum tempo passou e, depois de esmagar uma quantidade considerável de lacraias, eles chegaram na casinha. Parecia estar caindo aos pedaços.
As luzes tinham aquele tom amarelado, fazendo aquele fraco zunido que se ouvia ao chegar perto. Havia um fogão de duas bocas, uma botija pequena…
E um emaranhado de fios, extensões e benjamins.
— Carne nova, gente!
— GRAÇAS A DEUS! — berrou uma garota, enrolando uma fita num fio desencapado. — Não aguentava mais a patricinha, puta merda!
Ele quis brigar, mas ignorou.
Depois de terminar o que estava fazendo, a garota amarrou os cabelos. Tinha um piercing no lábio e um na sobrancelha direita. Seus cabelos eram tingidos de azul, mas somente nas pontas.
— Lena, prazer. Essa tonta aí nem deve ter se apresentado ainda — falou ela, rindo. — Eu sou a líder, e a Beca, essa que te trouxe, é a minha guitarrista. Ela faz a base, eu mando o solo.
E, como se tivesse ouvido, uma segunda garota saiu do banheiro, ajeitando as calças.
— Essa aí é a Ira L.
— Ira L? — repetiu ele, interessado.
— Lari de trás pra frente — explicou.
“Sério?”
— Ela é a nossa batera. Enfim, somos as Lombrigas.
“Que nome, hein?”
— O baixo tá bem ali — apontou para o instrumento, esquecido em cima de um sofá velho. — Pluga lá e vem.
Ele fez o que mandaram e voltou.
— Sabe cantar?
— Eu era do coral da igreja.
— Dá pro gasto — Ela se agachou e ligou alguma coisa. — Tu faz o backing vocal, fechou?
— Uhum.
Lena pegou uma stratocaster, enquanto Beca empunhava uma Les Paul claramente de segunda mão. Estavam no meio do que deveria ser a “sala de estar”. Ira L pegou um banquinho e, com as baquetas em mãos, assumiu a Bateria.
O garoto se posicionou do lado esquerdo de Lena, pois Beca já era o “braço direito” dela. Com o baixo em mãos, testou o som.
Zoooooom…
A energia fez os dedos vibrarem. Talvez fosse alegria. Afinal, fazia quase um ano desde a última vez que tocou num baixo.
— Sotaisei Riron. Conhece? — perguntou a líder, sem pretensão.
— Ki ni Naru?
— Heh, essa mesma.
Ira L berrou “um, dois, três, quatro” e eles começaram. A voz de Lena, apesar da cara de má, era incrivelmente suave. Perfeita para aquela música. Ele ficou surpreso. O japonês dela era meio estrambólico, mas era bom.
Ele começou a balançar o corpo, relembrando como fazia. Suas linhas começaram a penetrar a bateria, complementando-a, convidando-a para uma dança. Ira L não sabia quem ele era, nem ele sabia quem era Ira L, e nem precisavam.
Lena improvisou uns berros, em algo meio Jack White, coisa que não havia na música original. Pegou a melodia do vocal e transformou em solo, brincando com os pedais. Ele sentiu a alegria de estar em sintonia com o universo…
Até que…
— GAH!
Uma faísca explodiu, quando ele encostou o baixo no pedestal do microfone. Seu corpo tremeu. Tremeu loucamente em menos de dois segundos. Ele sentiu tudo e nada ao mesmo tempo.
— ALFREDO!
— — —
Imagens e vozes desconexas trocaram planos e cenas na mente dele.
— Vai se foder, tu é pop pra cacete.
— Groove é o meu ovo, irmão. Tem que ser martelada. Martelada, tá ligado? É pra quebrar a cabeça dos caras.
— Irmão, vai tocar samba, então. Jazz, sei lá.
A primeira banda. A bandinha do baile. É, eles não eram fãs de coisas dançantes. Diziam que era coisa de normie — e ele precisou pesquisar para descobrir o que era. Foi um dos motivos pelos quais a coisa durou só uma noite.
Três meses de ensaio resumidos num baile de formatura.
Microfonia, risadas, berros, suco na roupa e macarrões no cabelo. Eles foram zoados e curtidos a festa inteira. Quando tudo acabou, se xingaram uma única vez e foram embora, cada um pro seu lado, levando os instrumentos consigo.
Ele ficou para ajudar o baterista.
— Eles são idiotas, não esquenta.
— Relaxa.
— Tu toca bem, mano. A gente que é otário. E sabe o que é engraçado? A batida que eu faço é pop.
— Eu sei — respondeu o garoto, rindo, enquanto desmontava a caixa.
— Eles nem ligam. Desde que seja rápido e barulhento, “é rock”. Tu tem mais futuro que a gente.
— Tu acha?
Os pais do baterista apareceram, levando as coisas para o carro.
— Eu acho. Bom, falou! A gente se vê por aí.
E nunca mais se viram.
Ele ficou ali, esperando a vez dele de ser buscado pelos pais. Sentou na beirada do palco, vendo o pessoal fingir desarrumar as mesas. Tinham copos, pratos, confetes, balões por todo o lado. Ia ser um inferno limpar aquilo.
De repente…
— Eu gostei. Você deve tocar desde pequeno, né?
Uma garota sentou ao lado dele.
— Mas você não tava se divertindo.
— É, pois é… — respondeu, suspirando.
— Bom, eu… Eu sou Alícia, da turma A.
Ele deu um pulo.
— Q-que foi?
— Nada.
Ela era simplesmente uma das garotas mais populares da escola.
— Eu queria fazer o pessoal dançar, mas os caras queriam tocar rock pauleira.
— Mas a gente dançou!
— É, mas foi mais por causa da bagunça do que pela música em si — reclamou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Não que eu seja um profissional, mas… ah, sei lá. Talvez eu só seja chato, mesmo.
— Não, não. Eu entendi. Você sabe ler o ambiente.
Aquela frase…
— Eu sei bem como é. Eu sou bem cabeça dura. Tenho as coisas bem definidas na minha cabeça. Pra mim, tudo parece óbvio… Ah, mas pras pessoas…
“Ela me entende!”
E foi aí que começou. Eles viraram amigos, e passaram juntos as férias do nono ano para o primeiro do Ensino Médio. Deram a sorte de entrar não apenas na mesma escola, mas na mesma sala.
Por viverem juntos, andando para cima e para baixo, os boatos começaram.
— Eles tão namorando?
— Mas eu ainda não vi eles se beijarem…
— Ela tá usando ele?
— Acho que ela só não tem muita opção, se pá.
— Mas que opção merda, né?
— Moleque sem graça da porra.
Não tinham dó.
Ele ouviu muita coisa. Ouviu que ela provavelmente tava dando uns amassos, uns pegas com outro rapaz; que talvez ele fosse um cachorrinho submisso.
Ele não discutia. Não revidava, não negava. Não porque não se importava. Na verdade, ligava até demais para o que diziam. Afinal, estavam certos.
Ele realmente era um cara qualquer. Seu guarda roupa se resumia em preto, branco e cinza. Calças jeans, bermudas e calções velhos. Seu gosto musical… os sucessos do momento? Os filmes que assistia… os que tinham mais avaliações?
Realmente. Até o fato de ter sido baixista em uma banda de uma noite só, no meio disso, nada queria dizer.
Lembrou que todos os seus dias eram voltados para Alícia. Mas, por que? Ora, porque ela era legal. Porque era divertida. Porque era bonita, e entendia ele. Sim, ela era a única pessoa no mundo que sabia como ele se sentia.
E por isso ele… fazia o almoço dela? Os trabalhos? Amarrava o sapato? Carregava a mochila? Ajudava a comprar roupas, a arrumar a casa dela e o quarto?
Isso…
Não fazia muito sentido.
Tudo era sobre ela. Ouvia as mesmas músicas, via os mesmos vídeos, jogava os mesmos jogos, falava das mesmas fofocas, seguia as mesmas trends. Até o humor dela ditava como ele se sentia. Os problemas dela? Discutidos com ele.
Mas e as coisas que ele gostava? E as coisas que ele lia? Quer dizer, qual foi a última vez que ele leu… Não, que ele fez o que realmente queria?
“O que eu tô fazendo?”

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