Notas de Aviso
Contatos: https://linktr.ee/youkaimakai Doações pix: o.abismo.de.om@gmail.com
Capítulo 19. A Luz que Desperta 10
A floresta adensava-se à medida que o Rubro e a senhorita Medelin investigavam mais profundamente seu interior.
Ela queria encontrar novos animais com os quais se conectar. Ele era quem melhor conhecia a região e estava apto para enfrentar imprevistos. Além do fato óbvio — trazer predadores — afugentava os pequenos.
Roset queria um castor, um cervo e uma raposa da montanha. Também queria um esquilo, mas esse ela já tinha acabado de encantar. O roedor repousava tranquilamente sobre o ombro da jovem.
— Devagar — orientou Wood, rastreando a presença de um animal.
A mulher imediatamente tocou o solo, concentrando-se nas raízes que teciam a consciência florestal.
— Um cervo — disse ela com enorme empolgação.
— Consegue se aproximar dele? — perguntou o rapaz que, ao virar-se, se deparou novamente com a cena.
— Ah, de novo não — reclamou indignado, ao perceber a mulher tirando o vestido. — Dá pra parar de fazer isso? — suplicou, virando o rosto.
Roset ignorou a implicância do rapaz.
— As roupas limitam minha energia e suprimem a minha conexão com os animais; eu preciso tocá-los — explicou a mulher.
— Você se acostuma. Um corpo é só um corpo, Wood! — disse ela, e, enquanto se afastava floresta adentro, completou: — Não tem por que sentir vergonha de quem somos.
Ainda sem entender as palavras de Roset, o rapaz refletiu e considerou a experiência com o pai, os banhos que tomavam juntos. E seguindo esse pensamento, considerou válida a argumentação da mulher. Sentou-se sobre as folhas e esperou.
O esquilo escalou o cabo do machado que segurava e subiu pelo seu braço até o ombro, cutucando, com as pequenas patas, o lóbulo de sua orelha esquerda.
Pouco tempo depois, Medelin retornou acompanhada de um lindo cervo bege com bolinhas brancas na pelagem. O animal roçou os chifres em uma árvore e olhou para o jovem à sua frente. Wood habilmente esquivou-se de uma lambida no rosto e recuou arrastando-se com as mãos e com os olhos arregalados de susto.
Roset caiu no riso, enquanto içava o vestido do chão.
— Venha, Wood, vamos investigar o rio ali embaixo — disse, recobrando brevemente a seriedade.
Agora acompanhados de um esquilo e de um jovem cervo, desceram pela inclinação e conseguiram sentir a umidade do ar se intensificar. O barulho da água escorrendo entre as rochas gradualmente aumentou, até se tornar um ruído constante.
O rio que ali descia era chamado de Kolki. Ele desaguava mais abaixo no rio Kenski, ampliando o volume das águas que se tornavam navegáveis.
— Roset — chamou Wood quando encontraram as águas revoltas do rio.
— Sim — atendeu a mulher.
Rubro estava com uma expressão apreensiva no rosto. A ansiedade do assunto começou a transbordar na sua mente.
— Sabe… — começou ele. — Como você é diferente, o que entende de sonhos? — perguntou, sentindo alívio no peito.
Roset ponderou. Afastou uma teia de aranha e andou até um grande galho caído coberto por musgo. Encostou no galho e olhou nos olhos de Wood.
— Bem, não muito. Minha consciência é superficial; não consigo adentrar pensamentos ou a imaginação. — Ela indicou para que o cervo se aproximasse, colocou a mão sobre a cabeça do animal e depois a afastou.
O cervo abaixou-se e deitou no chão, elevou as patas para o ar e mostrou a barriga branca para a mulher.
— Posso fazer pedidos e ser respeitada. Sei quem são e onde estão; eles me entendem e me aceitam — explicou Medelin. Ela abaixou-se para acariciar o ventre do cervo obediente.
— Me conte o que lhe perturba, Wood — pediu Roset.
O rapaz refletiu por um instante. — E aquilo que fez com a árvore? — perguntou, relembrando o evento ocorrido há alguns dias.
Roset parou de acariciar a barriga fofa do animal. — Qual árvore? — desconversou sem olhar para Wood.
O Rubro andou alguns passos e observou a correnteza que ricocheteava entre as pedras no leito do rio.
— Roset — chamou ele, sem encará-la. — Você fez a mesma coisa com a gente? Não fez?
A mulher continuou concentrada no jovem cervo deitado no chão. Após alguns segundos levantou-se, aproximou-se do enteado e também fixou a atenção na correnteza das águas.
— Um rio se adapta ao solo, mas ao mesmo tempo o molda — respondeu Medelin. — O solo o recebe e agradece pela companhia, mesmo que a terra seja revirada.
Wood olhou para Roset e sentiu a tensão emanar do corpo da mulher. Abriu a boca para expressar a incompreensão, mas ela tocou em seu braço, o que o fez, imediatamente, desistir de questioná-la.
Sem que a voz de Roset lhe penetrasse os ouvidos, Wood ouviu. Primeiro os batimentos cardíacos ecoaram por sua pele, acelerados e ansiosos, temerosos; depois o sussurro etéreo preencheu-lhe a mente, invadindo-lhe a cognição. Eu pedi permissão, e ela gentilmente me cedeu sua vida. As plantas são generosas demais, sempre me oferecem tudo o que têm…
— Eu odeio essa gentileza, mas eu a desejo, Wood. — As lágrimas escorreram naturalmente através da face de Medelin, contrastando com o grato sorriso que — involuntariamente — tomou conta de seus lábios vermelhos.
Ela subiu os olhos lentamente, desde o abdome, até encontrar o rosto do enteado.
— Por mais que a água molde o solo, sempre existiram pedras, não é mesmo?
Com a mão esquerda, a mulher tocou o tórax do jovem. Com a direita, esticou a gola do vestido e abaixou o tecido até revelar o seio nu.
Wood franziu a testa sem compreender.
— Me toque, Wood — pediu Roset, explicitamente.
— Não — respondeu o Rubro, absolutamente consternado, recuando dois passos e afundando o pé na lama do leito do rio.
Respondi à sua pergunta, Wood? O eco novamente invadiu os sentidos e os sentimentos do rapaz.
— Por mais que o rio remova a terra, sempre existiram pedras! — afirmou Medelin, subindo o tecido para cobrir o busto. — Perdão, Wood — disse ela e, em seguida, esfregou os olhos com a manga do vestido, recobrando o controle.
Rubro estava estático. O frio das águas subiu-lhe pela sola do pé, apaziguando a tensão que endurecia-lhe os músculos, mas não conseguiu deixar de encarar a mulher.
Roset estalou os dedos e o cervo aproximou-se novamente dela, que o recebeu com carícias e um abraço irrecusável.
— Por favor, me conte sobre os sonhos. Eu farei o que puder para ajudar — suplicou Medelin, com sinceridade, enquanto se sentava à margem das águas, mergulhando os pés no rio e tremendo ao sentir a gélida sensação.
…
— Como vamos alimentar todos esses animais, Roset? — perguntou Bart, com legítima inquietação na voz.
Medelin estava cercada pela alcateia de lobos, quase invisível dentre a pelagem de tantos animais que requisitavam sua atenção.
Ela caminhou, desviando dos canídeos como se dançasse entre eles. Sua pele alva reluzia por mais uma tarde na montanha que ela agora chamava de lar. Aproximou-se do marido e tentou alcançar seu rosto barbado para falar perto de seu ouvido, mas ele era alto demais. Então saltou, estendendo os dois braços sobre o pescoço do lenhador e aproximando-se do rosto dele, enquanto o homem a amparava nos braços.
— Eles sabem se virar — sussurrou ao ouvido de Bart. — Deveria guardar sua preocupação para os nossos filhos.
A voz baixa e rouca de Roset estalou na mente do homem indefeso.
— Que filhos? — perguntou o lenhador, empertigando-se.
Medelin beijou-lhe os lábios demoradamente. Soltou-se de seus braços e voltou a atenção para as casas ao redor.
— Precisamos construir mais cabanas — disse ela, ruflando a barra do vestido carmesim e balançando os longos cabelos castanhos, enquanto girava sobre os calcanhares para observar novamente o marido.
— Você consegue? — perguntou Roset, sorrindo.
Bart olhou ao redor, medindo com a mente o quanto teria de trabalhar para erguer mais choupanas.
— Claro que consigo — afirmou o homem, com orgulho. — Sou lenhador, marceneiro e carpinteiro.
— E um ótimo pai — completou Medelin.
Encabulado, Bart a agradeceu silenciosamente, sem conseguir expressar o que sentia em palavras.
— Ah, só não abrace mais o urso, entendeu? — orientou Roset. — Ele não gosta.

Wood

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.