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Capítulo 20. A Luz que Desperta 11
A oficina de marcenaria ficava no mesmo galpão onde armazenavam as toras utilizadas como matéria-prima; o trabalho acalmava Wood de suas preocupações noturnas: moldar a madeira, criar objetos, utensílios dos mais diversos, oferecer nova vida ao que antes havia sido ceifado. Aprendeu com o pai tudo o que pôde: a usar os formões com habilidade ou mesmo a dar o acabamento adequado a cada peça.
Após terminar a fabricação dos móveis, levavam os objetos até a cidade e entregavam-nos a um revendedor — uma empresa com a qual negociavam há longa data — que distribuía os produtos segundo as solicitações locais ou externas.
Com uma demanda constante — seja por encomendas personalizadas, ou produzindo para o atacado —, a estabilidade financeira de Wood e Bart nunca fora abalada. Por vezes, participavam de projetos locais de construção de moradias, prestando serviço de carpintaria.
Enquanto Wood se encarregava da oficina, Bart foi até a cidade para entregar os produtos encomendados e comprar mantimentos. Roset, por sua vez, estendia a roupa que acabara de lavar, e os animais caçavam ou vagavam livremente montanha adentro, menos o alce, que se encontrava confortavelmente sentado ao lado da cabana de Wood.
O dia estava morosamente acalentado pela luz. No entanto, de repente, a calmaria do céu azul e claro do meio da manhã foi rompida; a cúpula celeste tingiu-se de vermelho e, pelas nuvens brancas, cortes negros espiralados materializaram-se. Roset sentiu a atmosfera multiplicar o peso. Seu corpo formigou e as mãos tremeram. — Wood! — clamou ela em busca de ajuda, e gritou apavorada perante a dor fulgurante que preencheu os nervos de seu corpo, uma que jamais havia sentido.
O Rubro largou os instrumentos e saltou da cadeira sem compreender o que estava acontecendo. Instintivamente, agarrou o machado fixado na parede e correu galpão afora; o céu carmesim contorcia-se violentamente.
Enquanto cruzava o amplo quintal, ouviu uma explosão às suas costas, advinda do cume da montanha de Homdotar. Olhou de relance e viu os pedregulhos saltarem, despencando do topo em um arco de impacto e deslizamento. Ele ignorou o inexplicável evento e voltou a atenção para Roset. Aproximou-se da moça que se encontrava na parte de trás da cabana do pai, ajoelhada e encolhida enquanto abraçava o próprio corpo trêmulo.
Gotas de água salgada despencaram dos céus em uma torrente efêmera e um redemoinho de vento cruzou a região, sugando detritos e os arremessando para o alto. Wood abraçou a mulher paralisada, levantando-a do chão e ansiosamente buscando o abrigo mais próximo entre a poeira que emergiu subitamente do ar revolto.
— O que está acontecendo? — perguntou aos gritos, mas o rapaz não teve tempo sequer de esperar uma resposta.
Dentre as nuvens, uma gigantesca e poderosa explosão ecoou, reverberando ondas de choque violentas que comprimiram o ar contra o solo e forçaram Wood a tencionar os joelhos para não ser derrubado e prensado contra o chão. À sua frente, com um barulho cortante e um impacto retumbante, uma criatura despencou violentamente dos ares, atingindo a mata circundante à propriedade; da queda seguiu-se um urro que o congelou, reforçando o desespero do já completamente aturdido rapaz.
Roset bateu em seu peito, pedindo para descer. Ela respirava pesadamente e tentava recompor-se do choque. — Já passou — disse Medelin, tentando focar a visão turva para entender o que estava acontecendo.
Dentre as árvores, um dragão de mais de três metros de altura surgiu, absolutamente desorientado. A criatura possuía um pescoço longo e torneado, protegido por escamas reluzentes em bronze, que também ornavam por todo o corpo em couraça. Da cabeça pequena, alongada, saltava um único chifre, e a cauda esguia balançava à deriva.
Estava de pé sobre as únicas duas patas que sustentavam o corpo maciço, e brandia duas de suas quatro asas laminadas à esmo, cortando como papel todas as árvores que se encontravam ao redor.
Wood e Roset observavam boquiabertos a magnífica criatura que roubava toda a atenção. O céu ainda vibrava escarlate e chamas negras varriam a atmosfera acima, mas nada era mais aterrorizante ou belo do que o Dragão de Bronze que avançava cambaleante diante deles.
— O que fazemos agora? — perguntou Medelin, recobrando o fôlego e encarando fixamente o grandioso réptil.
— Bem, animais são a sua área — respondeu o Rubro, imóvel e sem conseguir desviar o olhar.
— Nunca tentei me comunicar com um desses — afirmou a moça. — Não consigo sentir qualquer abertura. Acho que não tem como — lamentou ela, e pela primeira vez na vida, sentiu-se completamente frustrada.
O alce, que se encontrava estatelado no chão ao lado da cabana de Wood, levantou-se e saiu em disparada, com a intenção de entrar na floresta. Mas aproximou-se demais, mesmo sem intenção, da figura dracônica, que estava igualmente confusa.
Por instinto e reflexo, uma das asas lacerou o ar em um movimento invisível, mais veloz que o piscar dos olhos. O cervídeo sequer sentiu os golpes, talvez apenas uma brisa, enquanto seu corpo se partia em três partes que tombaram no chão.
— Gord… — sussurrou a mulher em choque.
Wood fixou as mãos no cabo do machado e avançou um passo.
O Dragão observou o corpo do animal à sua frente, fitou o rapaz negro que portava um machado e uma mulher de vestido longo com os olhos embargados. Abaixou a cabeça com gravidade e, enquanto recuperava o foco, encarou a carcaça mais uma vez. Suas asas secundárias vibraram fazendo-o planar sobre o ar. Batiam tão velozmente que o vento fez Wood prender os pés no solo para não ser empurrado. Roset se abaixou e agarrou o chão tentando evitar que fosse arrastada pela rajada emitida pela criatura.
Com as patas livres, o Dragão de Bronze coletou as partes do animal abatido, moveu as asas restantes e elevou-se aos céus sem olhar para baixo.
…
Roset levantou-se devagar. As lágrimas escorriam de seus olhos, descendo mornas por seu rosto. Ela bateu a mão sobre o vestido, espalhando, mais do que limpando, a terra úmida incrustada sobre o tecido. Wood observava a criatura sumir à distância.
Com renovada surpresa, a mulher fixou os olhos na luz.
— Wood — chamou ela, puxando a manga da camisa do rapaz.
Ele virou-se para atender ao chamado e percebeu um brilho, primeiramente sobre a face de Medelin e, depois, ao buscar a fonte do que a iluminava, encontrou a luz que sempre estivera ali, consigo, mais intensa e nítida do que nunca.
Como uma pequena estrela pura do tamanho de uma melancia, a luz vibrava, pairando no ar; sem emitir calor, revelou em seu interior o contraste de uma figura reptiliana, tão branca quanto ela própria, que observava de dentro da esfera luminosa, com um olhar atento. Mas aos poucos a circunferência dissolveu-se enquanto a intensidade emanada encolhia e retornava à sua anterior e discreta forma.
— O que foi isso? Você viu, Wood? — perguntou Roset, mudando o foco de sua atenção para o rapaz.
Sem saber por qual motivo, uma forte emoção preencheu-lhe o peito. O Rubro, que normalmente não se abalava com a intensidade dos sentimentos, dessa vez simplesmente não resistiu; soltou o machado sem perceber que o soltara e, com aflição, tentou enxergar novamente o que há pouco desaparecera.
— O que foi, Wood? — perguntou a mulher, preocupada com a súbita expressão desolada do rapaz.
Ele abaixou a cabeça e, controlando a voz para não transmitir o que sentia, apenas disse a verdade:
— Não sei.
O céu ainda sangrava em feridas aéreas, enquanto a temperatura gradualmente diminuía e o vento ziguezagueava indeciso, sem saber para onde seguir.
Muita coisa acontecera e ainda transcorria, indiferente aos espectadores. Tanto Medelin quanto o rapaz estavam reféns do caos repentino da tormenta que havia se instalado. O mundo, de um instante para o outro, parecia ter virado do avesso.
Caminharam apreensivos, amparando um ao outro, em direção à varanda da casa.
— Será que estão todos bem? — perguntou Roset, resistindo à solidão que lhe estrangulava o coração.
Wood sentiu a boca seca; estava perdido dentro de si. Não conseguia pensar com clareza, mas fez um esforço para atender à mulher.
— Consegue chamá-los? — perguntou ele, enquanto guiava a madrasta pelos degraus da cabana.
Ela cerrou os punhos com força, concentrando a mente junto a todas as conexões que possuía. Os ruídos vibraram, mas nada conseguia “ouvir”.
— Não consigo — disse ela, sem saber o que fazer.
Entraram na casa e sentaram-se à mesa, emocionalmente exaustos.
Medelin apoiou os braços na superfície da mesa e deitou a cabeça sobre eles, deixando os cabelos cobrirem sua pele. Sentiu o corpo pesado e fechou os olhos.
— Será que o Abismo explodiu energia? — perguntou, para si mesma. — Mas dizem que isso só acontece a cada cem anos. É cedo demais. — E sem mudar de posição, questionou:
— O que acha, Wood?
A questão de Roset vagou sem ser ouvida. Apenas o eco do seu próprio nome colidiu com a consciência do rapaz, mas o Rubro não reagiu.
— Wood? — chamou Medelin. — Está me ouvindo?
— Wood? — A apreensão escalava em sua voz.
— Wood? — Ela estava à sua frente, apertando o rosto dele com as mãos. O olhar. O desespero. Roset gritava.
Amparado por braços sombrios, um esquelético homem, envolto em trapos que mal podiam ser chamados de vestes, era carregado. Os escombros ainda deslizavam, pedras partidas de um chão que cedera, de uma parede arremessada contra o choque incandescente da atmosfera. O pó governava o ar enquanto uma chuva de detritos ainda despencava por todos os lados.
As pernas sombrias caminhavam cuidadosamente, escalando e depois descendo a colina composta por materiais e destroços sem nome. O que quer que aquilo fosse, agora não mais o era. E sob um céu carmesim, revolto em um turbilhão de chamas negras, o estrondo ainda reverberava.
O homem fitou o rosto da figura que o carregava, os olhos castanhos ainda vibrantes, apesar do rosto cadavérico. Estendeu a mão moribunda para tocar o braço sombrio que o sustentava, apenas para, inutilmente, transpassá-lo.
— Wood! — berrou Roset, balançando violentamente o corpo do rapaz.
As pupilas negras retomaram o foco. Wood piscou com força, recobrando o controle sobre a própria mente.
Apertou as mãos de Roset, acalmando-a. A mulher perdeu a força nas pernas e deixou o corpo ceder até o chão, sentando-se e abraçando a perna do rapaz.

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