Capítulo 6 - Até o dia em que eu voltar
Elicia andava sem rumo pelos corredores da oficina. Luna e Will tiveram o bom senso de não seguí-la depois de ouvir os gritos. Eles não ouviram a conversa intencionalmente, era apenas que Elicia gritava realmente muito alto. Talvez fosse alguma técnica vocal que os líderes e vice-líderes aprendiam para fazer seus comandos serem ouvidos em meio a batalhas ferozes.
Eles não sabiam o que Viktor dissera, mas podiam imaginar, e agora, ambos sentiam-se tolos por, assim como ele, não terem visto a situação de uma perspectiva mais ampla.
Não havia pressa que pudesse levá-los mais longe, de fato.
Elicia sentiu-se ainda mais perdida depois da discussão com Viktor. Ela estava arrependida por gritar com ele, mas também estava firme em seu posicionamento. Na verdade, ela queria gritar ainda mais alto, para ninguém em particular, mas para extravasar todo seu medo e toda sua frustração. No entanto, ela não faria isso, não enquanto restasse qualquer pessoa que a pudesse ouvir.
…
No dia seguinte, todos fizeram de conta que a “cena” do dia anterior não havia acontecido. Viktor passou a se incluir nos planos sem necessidade de mais um sermão, e Elicia reivindicou formalmente a liderança da missão, eleita por unanimidade.
Depois de uma semana de preparativos, tudo estava pronto para partirem na expedição.
Era estranho como aquela semana passara de forma tranquila, com a tempestade da primeira noite se prolongando até o dia presente.
Nenhum inimigo atacou, e a névoa, que não se dispersava com a chuva, permanecia inofensivamente branca.
Apesar da aparente segurança da cidade, ninguém se atreveu a andar sozinho, no máximo separaram-se em duplas para cumprir as tarefas.
Ao fim da semana, Viktor já estava recuperado o suficiente para viajar. Todas as pessoas aptas a tornarem-se heróis possuíam físicos muito acima da média devido à magia. Além de resistência e força, também apresentavam uma capacidade de recuperação impressionante.
Mesmo que o ideal fosse esperar mais uma semana para que ele se recuperasse completamente, todos concordaram em partir antecipadamente. A pressão mental de permanecer na cidade completamente vazia era avassaladora, agredindo severamente sua sanidade. Eles podiam ir com calma nos primeiros dias, mas precisavam partir.
Sob a chuva incessante, Elicia olhou uma última vez para trás, para os portões da cidade. Ela se dera ao trabalho de escalar o grande muro e ativar os mecanismos para fechar os portões, um gesto de cuidado para com a cidade, que ela não desejava ver ocupada pelas feras. A cidade do Sol não pertenceria a ninguém além de seu povo.
Também era como quando se fecha a porta de casa ao sair, esperando encontrá-la em segurança ao voltar. Elicia não sabia se um dia voltaria, mas tinha esperanças de que aquela despedida fosse um “até logo”. Não, até logo não, se ela voltasse, não seria em breve. Era mais apropriado dizer “até o dia em que eu voltar”, assim não importava quanto ela demoraria.
Ela voltou sua cabeça para frente e seguiu de queixo erguido, montada em seu lobo gigante.
…
Mesmo decidindo ir com calma na primeira semana, eles forçaram a marcha até a segunda área de acampamento para não passar pelos túmulos dos heróis caídos. Chegando lá, Viktor adaptou o dispositivo de barreira para funcionar com o poder de Elicia. O experimento com a barreira portátil fora um sucesso, então não havia motivo para a modificação não funcionar também nas barreiras fixas.
Entretanto, ainda existia uma limitação naquela alternativa, que era quanto o próprio poder de Elicia surtia efeito contra a névoa. Não era absoluto, mas era eficaz, além de extremamente necessário.
Como o artífice brilhante que era, Viktor elevara ao máximo a eficiência da magia usada pelo artefato, drenando muito pouco de Elicia e ainda apresentando um resultado satisfatório. Isso era possível ao usar apenas a “característica” do poder de Elicia e compensar o gasto energético com os cristais mágicos que já alimentavam as barreiras.
Para a barreira portátil, Luna buscara um dos cristais que alimentavam a iluminação da praça central, cuja capacidade como bateria era quase infinita.
— E você teve a audácia de se considerar um peso morto. — Elicia exibia um sorriso irônico enquanto injetava sua magia no dispositivo.
O dispositivo tinha uma aparência simples, um cristal amarelo pontiagudo incrustado em um círculo de bronze com runas entalhadas. Uma cúpula removível de ferro o cobria enquanto não estava sendo utilizado para protegê-lo de ações externas. Neste acampamento, assim como no primeiro, o dispositivo ficava no chão.
— Vamos esquecer disso, está bem?
— Claro. — Elicia ainda exibia aquele sorriso.
Viktor suspirou e se sentou em frente a fogueira que Will havia acendido.
O local do segundo acampamento ainda ficava na planície, mas, com a névoa e a chuva, não era mais possível ver a cidade antes mesmo de alcançar o primeiro.
A chuva continuava a cair, mas pelo menos a função da barreira que repelia intempéries ainda era eficiente, então eles permaneceriam secos e aquecidos dentro dela.
Os lobos gigantes deitaram-se amontoados, aparentemente gostavam bastante da companhia uns dos outros.
— Será que existem outros lobos gigantes por aí? — Will divagou.
— Por que desse tipo de pergunta? — Luna questionou-o.
— Sabe, seria legal se, mesmo sem humanos, ainda houvessem animais por aí, vivendo suas vidas sem se importar com a névoa… Eu só pensei que talvez esses carinhas sejam os últimos de sua espécie, assim como nós, e isso é triste.
— É realmente muito triste que sejamos os últimos de nossa espécie, eu não entendo como você consegue se importar com lobos quando os humanos estão quase extintos.
Will pareceu murchar diante do comentário de Luna.
— Não seja assim, Luna, — Elicia interveio — Will só estava vendo as coisas por outra perspectiva. Veja bem, nós também vamos salvar os lobos gigantes e todos os outros animais da cidade se recuperarmos o orbe, então é um questionamento válido.
Luna suspirou e sua expressão se suavizou. Ela olhou para cima, para o céu oculto pela névoa negra.
— Talvez exista algum lugar onde a névoa não tenha alcançado, e lá talvez existam todos os animais que nós vimos nos livros de história antiga. Minha avó dizia que existem outros mundos além deste, e que muitos deles nunca perderam a luz. Talvez em um desses mundos uma outra versão de nós esteja acampando sob a luz da lua, por nenhum motivo além de esporte…
— Eu acho que não. — Viktor comentou.
Os três olharam simultâneamente para ele.
— Se for um mundo parecido com esse, está chovendo lá também, então, sem luz da lua para nós. — Ele terminou dando de ombros.
Todos deram uma risada leve juntos. O clima entre os quatro permaneceu tranquilo, e começaram a revezar os turnos para descansar naquela noite.
Luna fazia seu turno de guarda quando o artefato de alarme ativou-se.

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