Capítulo 5 - Fardo
Os quatro perderam o receio de sair à noite quando perceberam que a névoa não escureceu, permanecia branca como estava de dia. A corrupção não tinha mais o que almejar na cidade, ao menos enquanto a presença deles não fosse notada. Mesmo assim, Elicia continuava usando a magia de afastar constantemente.
A caminhada até a oficina levava cerca de dez minutos normalmente, mas, com Viktor precisando do apoio de alguém para andar e não podendo se esforçar muito, eles gastaram o dobro do tempo para chegar lá.
Viktor era orgulhoso, e não permitiu que continuassem o carregando para os lugares. Para piorar a situação, uma tempestade despencou na metade do caminho.
Elicia apoiava seu amigo sem muito esforço, ela era bastante forte fisicamente, considerada alta para uma mulher com seus 170 centímetros e Viktor era apenas cerca de cinco centímetros mais alto que ela.
Mesmo com a chuva forte, ela ainda perdeu-se em pensamentos durante a caminhada.
Ela pensava em como não se sentia adequada para o papel de líder que estava reivindicando diante do grupo. Sentia-se mal por enganá-los com palavras nas quais ela própria não acreditava. Sentia-se péssima por estar se sentindo mais péssima por aquele motivo do que pelos heróis com quem ela passara um ano e agora estavam mortos, ou pelas pessoas da cidade que tiveram as almas roubadas e desapareceram sem deixar vestígios.
Elicia juntava os cacos de si mesma para seguir em frente, ou melhor, para se arrastar em qualquer direção que parecesse em frente. Tentava manter a postura disciplinada que fazia dela ela mesma, ou ao menos a imagem que construíra de si para parecer com alguém que ela admirava e não via a muito tempo. Ao se olhar no espelho com aquela aparência, ela esperava recordar de sua mãe.
Será que sua mãe estaria em melhores condições ao enfrentar os mesmo horrores que ela? Ela sabia que não, caso contrário, não estaria morta. Ou teria ela encontrado horrores piores que aqueles? Elicia não sabia, mas agarrava-se aquela imagem de confiança para arrastar os outros consigo.
Mesmo se mostrando forte, por dentro ela se sentia encurralada. Se estivesse sozinha, não poderia se mover. Ela acreditava precisar mais dos outros três do que eles precisavam dela. Talvez todas as suas decisões se provassem equivocadas, e toda a sua realidade se provasse um erro. Talvez ela apenas os lideraria para uma morte pior do que a indignidade de desistir. Talvez ela estivesse colocando um fardo desnecessário nos ombros cansados de seus companheiros.
Mas ela não tinha mais o direito de desistir, não depois de implantar esperança no coração daqueles que tinham desistido dela. Esse seria o seu fardo, e ela o carregaria até o dia do triunfo, ou até o momento de sua morte.
Os quatro chegaram à oficina completamente encharcados. Haviam roupas extras nos armários e algumas toalhas nos banheiros, então a água não era um grande problema. O edifício era enorme, tinha cinco andares de altura, ocupava um quarteirão inteiro e era ocupado por cerca de trezentos pesquisadores oficiais mais os aprendizes e zeladores, totalizando um fluxo de cerca de quinhentas pessoas durante o dia. Ou era assim antes de todos eles serem apagados da existência.
Todos se secaram e trocaram de roupa para as vestes simples disponíveis no local, um conjunto de calças marrom claro e camisa branca que sempre estava disponível aos montes devido a diversos tipos de acidentes que poderiam destruir as roupas dos pesquisadores.
Dentro da oficina, Elicia parou de afastar a névoa, já que, por algum motivo desconhecido, ela não estava invadindo os edifícios da cidade.
Viktor comandava os outros a encontrar alguns itens específicos em diferentes andares e salas do prédio. Tendo passado quase dez anos naquele lugar antes do último ano de treinamento, ele o conhecia como a palma da mão.
Uma hora depois, o grupo se reuniu numa das salas de descanso para avaliar os itens recuperados.
A sala não era muito espaçosa mas era aconchegante, composta de dois sofás grandes e uma mesa de centro, além de algumas decorações e almofadas.
— Alguns desses são artefatos mágicos que normalmente os heróis não levam em viagem, pois o número de pessoas por expedição dispensa seu uso. Esses outros vocês sabem o que fazem, levamos eles nas carroças, mas não é necessário voltar naquele acampamento para recuperá-los se tudo está disponível aqui.
— Entendi, — Luna comentou — mas o que esses aí fazem? Eu nunca os vi antes — terminou apontando para o primeiro grupo de artefatos.
— Esse aqui é nada mais que um alarme, ele ativa quando algo se aproxima a mais de dez metros e alerta aqueles vinculados a ele com magia, sem fazer barulho. Funciona tanto para feras quanto para espectros. Ele normalmente não é utilizado porque só pode vincular três pessoas e, num grupo de dez, sempre haveria alguém de vigia, mas, para o pequeno grupo de agora, será útil.
O artefato mencionado tinha a aparência de um pingente redondo de pedra roxa com detalhes de arabescos de metal prateado. Tinha também um fecho para poder pendurá-lo em roupas ou bolsas.
Viktor explicou sobre os outros dois artefatos. Um deles tinha a função de transmitir mensagens entre dois dispositivos gêmeos que formavam uma esfera ao uni-los, tinha um alcance bem grande e poderia ser útil no último caso do grupo precisar se separar. O outro era um pouco mais peculiar.
— Isso é uma barreira portátil. De vez em quando era necessário sair da cidade por alguns motivos, mas como a matriz utilizada parece não surtir mais efeito contra a névoa… Bem, talvez eu consiga modificá-lo para funcionar com a magia de Elicia, que ainda tem capacidade de afastar a névoa. Se der certo, pode os manter seguros durante os descansos.
“Os manter” Elicia não deixou passar aquelas palavras de Viktor. Ele parecia não estar se incluindo no plano. Os outros dois pareceram desconfortáveis ao ouvir aquela frase, mas nada disseram.
— O que você quer dizer com “os manter seguros”?
— Elicia… Vocês dois podem nos deixar a sós por um momento?
Luna e Will assentiram e saíram da sala em silêncio.
— É exatamente o que parece, se der certo, “vocês” — ele enfatizou a palavra — vão ficar seguros. Não tem como eu ir junto Eli.
Ele utilizou o apelido de Elicia ao ver-se sozinho com ela.
— O que?!
— Com o meu ferimento, eu só vou atrasá-los!
Viktor estava sentindo dor. E ele também estava se sentindo um fardo.
Viktor era uma pessoa pessimista. Ao ver sua situação atual, ele já se considerava morto. Seu talento com engenharia mística já era a especialidade menos útil no grupo de heróis, todos eles precisavam aprender a operar e implantar os dispositivos de barreira, ele apenas era uma “garantia” de que problemas adicionais poderiam ser resolvidos caso ocorressem.
Ele também era um lutador decente, mas agora essa característica era inútil, já que ele sequer podia andar sozinho no momento.
— E minhas habilidades não são essenciais para valer a pena me levar nesse estado. Vocês têm mais chances me deixando para trás e… — Ele não pode terminar o argumento quando foi interrompido por Elicia.
— Você é um grande idiota, sabia disso? É rápido em apresentar motivos que justifiquem abandoná-lo, mas sua cabeça dura não consegue pensar que você só se feriu porque EU não consegui reagir a tempo, — Ela começou a gritar — Se for colocar minhas habilidades na balança, então eu não tenho a capacidade de me defender sozinha, e se não tenho essa capacidade, eu não deveria ficar para trás também?!
Elicia estava furiosa.
— Não ouse, Viktor, não ouse tentar me convencer de que eu deveria deixá-lo para trás! Só sobramos nós quatro para fazer qualquer coisa, e cada um é valioso demais para ser abandonado. Mas, escute, não me interessa se o mundo ter acabado é justificativa suficiente para levar você comigo, eu jamais o abandonaria! Independentemente do motivo para fazê-lo ou não.
Viktor calou-se. Elicia continuou.
— E outra coisa, por que você está assumindo que vamos partir imediatamente? São dois anos de viagem até o ponto mais avançado em direção ao coração da corrupção, que é o único lugar do qual temos qualquer conhecimento sobre para onde o orbe pode ter sido levado. Se apressarmos muito o passo podemos reduzir esse tempo em um terço, mas ainda é mais de um ano, e depois não temos ideia alguma. Pressa não vai nos levar mais longe. Há tempo suficiente para você se recuperar, e para nos prepararmos novamente para uma viagem tão longa.
— Se você ainda achar necessário, me dê algum tempo, e eu vou encontrar quaisquer justificativas a mais para você sentir que é importante! Só… por favor… não me deixe… — Lágrimas começaram a brotar nos olhos de Elicia, mas antes de deixá-las cair, ela se virou e saiu da sala.
Viktor ainda estava atordoado com o discurso de Elicia e não tinha palavras para refutá-la. Ele esperava que ela, que sempre fora tão racional, entendesse seu ponto sem muita discussão, mas ele estava errado, e ela certa. Ela pensara muito a frente enquanto ele só enxergava o dia presente.
Ela estava certa, e tinha justificativas muito mais racionais do que as dele para sustentar seu argumento. Tinham também aquelas palavras sobre o motivo não importar, e ele ainda não sabia como processá-las adequadamente.
Além da dor na ferida, sua cabeça latejava. Ele deitou-se no sofá e deixou o cansaço levar sua consciência novamente.

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