Capítulo 3 - Lar vazio
Após o ataque repentino, seis dos dez heróis estavam mortos e um estava gravemente ferido. Viktor estava à beira da morte quando Willbert, o último dos sobreviventes, apareceu. Ele permanecera agachado em posição fetal durante a batalha, era um covarde.
Elicia sentia-se indignada depois de ouvir aquele discurso sobre enfrentar ursos gigantes em caçadas gloriosas após devolver a luz ao mundo, mas, apesar de covarde, Will era um curandeiro, e apenas graças a ele Viktor ainda não estava morto.
Will praticou os primeiros socorros depois de ser arrastado por Luna, e por mais que ultrajasse a Elicia admitir, ele era muito bom no que fazia. Depois de estabilizar Viktor com magia, Will o costurou com delicadeza e aplicou uma pomada para então fazer um curativo com bandagens. Ele tinha mãos suaves e habilidosas apesar de seu corpo parecer o de um brutamontes.
Após o alívio da tensão de Elicia ao saber que Viktor estava fora de perigo imediato, ela perdoou Will internamente pela covardia, ele não era nem de longe o guerreiro mais habilidoso do grupo de heróis, e a maior parte desses guerreiros habilidosos estava espalhado em mais de um pedaço pelo acampamento. Ele apenas tentara sobreviver, assim como Elicia, e ela própria também estaria morta se Viktor não a tivesse salvado duas vezes durante a batalha.
O choque do ataque repentino em um lugar que deveria ser seguro fora o maior responsável pela morte daqueles heróis.
O acampamento ainda estava longe de ser seguro naquele momento. Elicia estava afastando a névoa o melhor que podia, mas seu poder não era páreo para a névoa negra que aparecia à noite. Ela procurou no acampamento por alguns minutos pelo mecanismo gerador da barreira, era difícil se concentrar na tarefa com a tensão que afligia sua mente, um novo ataque poderia acontecer a qualquer momento.
Ao encontrar o mecanismo, um novo choque a atingiu com força.
A barreira estava intacta, ainda estava “funcionando” como sempre, mas a névoa havia sido capaz de passar por ela. Aquela realidade desestabilizou Elicia ainda mais, e um pensamento correu por sua mente fragilizada.
“A cidade…”
Se a barreira do acampamento não surtia mais efeito contra a névoa, a barreira da cidade que operava sob a mesma tecnologia não estaria na mesma condição?
— Nós precisamos voltar para a cidade, agora! — Elicia gritou.
— O que? A cidade, agora? — Luna parecia atordoada.
— A barreira do acampamento, ela está intacta…
Luna pareceu entender imediatamente a implicação do que Elicia disse.
— Mas como nós vamos viajar até lá agora? Os lobos fugiram, a visibilidade na névoa só vai até onde a sua magia alcança e temos um ferido que não vai poder se mover sozinho por um tempo, você planeja abandoná-lo?
O questionamento de Luna era válido e lógico, e Elicia se viu sem palavras para responder a ele.
— Você tem razão… — foi tudo que Elicia pode responder.
— Vamos ter que esperar o amanhecer e procurar nossos lobos, e torcer para o garoto acordar, vai ser muito mais difícil viajar com ele dormindo. — Will se juntou a conversa. — Talvez enquanto isso devêssemos descansar e… enterrá-los. — Terminou com um gesto apontando para os mortos espalhados ao redor.
— Eu sinto muito. — Elicia disse com sinceridade olhando nos olhos de Will. Ele e Max eram os únicos heróis com parentesco entre si.
— Tudo bem, eu… eu vou ficar bem, eu acho. — Ele passou uma das mãos pelo cabelo.
O tempo naquela noite parecia estagnado, cada segundo custava a passar. Elicia estava exausta de afastar a névoa por horas a fio, e, por sorte, nenhum espectro os atacou no restante da madrugada. Para os heróis sobreviventes poderia parecer um bom sinal, mas Elicia tinha um péssimo pressentimento sobre isso, talvez os espectros apenas estivessem ocupados demais em outro lugar para notá-los ali.
Durante alguns momentos ela ouvia respirações mais pesadas e orações baixas. Ela apenas ficou quieta ao lado de Viktor, não tinha intenção de penalizar seus companheiros restantes pelo luto, eles tinham direito de senti-lo, contanto que não os atrapalhasse na tarefa de manter-se vivos.
A penumbra da manhã finalmente apareceu e a névoa clareou. Luna e Will saíram para procurar os lobos enquanto Elicia ficou para proteger seu amigo. Depois de uma hora os dois voltaram com quatro lobos.
Os lobos gigantes da Cidade do Sol eram disciplinados e obedientes, não fazia sentido terem fugido durante a batalha na noite anterior e Luna trazia uma explicação para essa questão:
— Eles estavam todos espalhados por perto caçando, graças a eles nenhuma fera nos atacou durante a noite. Tinham realmente muitas delas por perto, apenas cinco dos lobos sobreviveram, um deles eu tive que sacrificar…
— Esses caras realmente estavam nos protegendo. — Completou Will.
— Fico feliz que ao menos sobrou um lobo para cada sobrevivente, bem, três já seriam suficientes, já que o Viktor não vai poder montar sozinho. — Elicia comentou enquanto reunia as armas que podia carregar.
— Você está planejando sair agora? Como nós vamos levar… — Luna estava indagando quando foi interrompida por Elicia.
— Eu levo ele, apenas me ajudem a subi-lo no lobo.
Luna suspirou, ela estava hesitante com a ideia de voltar para a cidade e tentava adiar a tarefa o máximo que podia, tinha medo do que poderiam encontrar, e, mesmo se estivessem todos bem, ela temia a vergonha de voltar fracassada após um dia da partida.
Elicia, pelo contrário, estava resoluta. Ela precisava saber se a cidade estava segura, e caso realmente estivesse tudo bem, Viktor poderia se recuperar muito melhor lá. Ele era tudo que ela ainda tinha, tendo crescido juntos no mesmo orfanato, ela esperava que significasse algo semelhante para ele também.
Ele acordou durante a viagem de volta sentindo o vento em seu rosto e uma dor aguda em sua barriga. Os lobos corriam de forma muito estável, então demorou alguns segundos até perceber que estava em cima de um. Um braço em volta de seu peito o segurava firmemente.
— Você está acordado. — A voz de Elicia saiu junto de um suspiro de alívio.
— O que houve depois que eu caí?
Elicia o pôs a par da situação, e ele só pôde aceitar ser carregado na viagem de volta.
…
Os quatro chegaram cerca de seis horas depois à estrada principal que levava aos portões da cidade, bem menos tempo do que levaram na viagem de ida, já que estavam sem as carroças.
Ao avistar os portões, o pressentimento ruim de Elicia se intensificou. Quando se aproximaram, puderam ver… nada. Não haviam os vigias habituais das muralhas, que sempre estavam em patrulha. Ao adentrar os portões, nenhuma alma viva pode ser encontrada.
A névoa estava dentro da cidade, como eles temiam, mas esperavam encontrar a cidade em batalha ou gerenciando a crise de alguma maneira. As pessoas que deveriam estar em pânico não estavam em lugar algum.
Eles entraram nas casas, nos estabelecimentos e nos prédios oficiais, ninguém a vista. Eles foram aos quartéis, vazios. Até mesmo os animais da cidade haviam desaparecido, e no lugar onde todos deveriam estar, restava apenas a névoa branca, inofensiva, mas presente.
Viktor esperava por seus companheiros na praça do centro, não podia fazer esforço ou a ferida abriria. Quando eles voltaram com as notícias, ele fez uma sugestão:
— Levem-me à oficina de magia, talvez eu possa descobrir algo lá.
Na oficina, ajudaram-no a se sentar em uma das cadeiras e lhe alcançaram o que ele pediu. Viktor era, além de combatente, a pessoa responsável por implantar os artefatos que ergueriam novas barreiras depois de alcançarem o último ponto de acampamento seguro. Ele tinha bastante talento com confecção de itens mágicos.
Todos os heróis sabiam todas as funções, mas cada um deles tinha a própria especialidade, e ninguém do grupo sabia tanto sobre engenharia mística quanto ele.
Luna voltou depois de alguns minutos com um cristal esférico transparente azulado que Viktor orientou a tirar de uma das torres de transmissão da praça central. Ele pegou o cristal e o colocou dentro de uma pequena caixa na qual vinha mexendo nos últimos minutos.
— Vocês devem ter reparado que a iluminação da cidade ainda está funcionando, isso significa que talvez a névoa não tenha interferido com a tecnologia da cidade além da barreira. Talvez possamos ver as gravações de segurança da praça central se isso funcionar.
Viktor infundiu magia na pequena caixa, e então uma imagem retangular formou-se no ar, como um holograma.
O que eles viram na imagem estava além de todas as suas expectativas.

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