Capítulo 1 - A partida dos heróis
~ Dia 1 do mês 4 do ano 555 na penumbra. ~
O dia amanheceu abençoadamente mais claro do que de costume, a camada de névoa fantasmagórica que cobria o mundo fora da barreira estava mais fina, e portanto, permitindo maior incidência da limitada luz na Cidade do Sol.
Cidade do Sol, um nome bastante irônico considerando que há mais de quinhentos anos a luz não brilhava diretamente sobre ela. Eram os anos da penumbra.
Elicia acordou de bom humor naquele dia, vestiu seu traje formal e se preparou para a cerimônia de partida dos heróis. Dessa vez ela não assistiria em meio a multidão, dessa vez ela seria aplaudida e glorificada junto de seus companheiros.
A cada 5 anos a Cidade do sol enviava um grupo de “heróis” para fora da barreira com a missão de chegar ao coração do miasma e purificar o mundo, e Elicia considerava uma honra ser escolhida, mesmo sabendo que nenhum grupo em quinhentos anos tivera sucesso e que ninguém jamais voltara vivo.
Seu traje era simples, mas organizado, Elicia presava pela disciplina não apenas nos treinamentos diários, mas em todos os aspectos de sua vida, e sua forma de vestir-se não era exceção. Seu manto branco com alguns bordados dourados em forma de rosa harmonizava com seu cabelo cobre e seus olhos alaranjados, a armadura de couro mal aparecia sob o manto.
Deixou para trás a casa onde viveu 19 anos sem olhar para trás, seus pertences já haviam sido movidos para uma das carroças de carga. Ela subiu no palco da praça da cidade com o orgulho que se esperava de uma heroína, e a atmosfera solene a envolveu enquanto o líder da expedição fazia seu discurso. O público aplaudiu como sempre, e em poucos minutos o grupo de 10 pessoas estava saindo dos limites da cidade e prestes a passar pela barreira protetora que impedia o miasma de profanar a cidade.
Um ar melancólico parecia rodear o grupo, era uma saudade premeditada, todos ali sabiam dos riscos e da alta probabilidade de nunca mais voltar a ver seus entes queridos que ficaram para trás. Mas apesar de nunca ter havido retorno, não era um esforço inútil, pois através de artefatos especialmente preparados, todo o conhecimento adquirido por cada grupo retornava à cidade quando todos os heróis davam seu último suspiro. Munidos de todo conhecimento acumulado, cada grupo estava mais preparado que o anterior, e a esperança de retornar o mundo ao abraço do dia ensolarado e da noite estrelada não morrera nestes cinco séculos.
Os heróis da vez, o centésimo décimo primeiro grupo de expedição, adentrou na neblina e começou sua jornada em direção ao primeiro ponto de acampamento seguro. Deveriam chegar lá antes do cair da noite, na escuridão qualquer ameaça inesperada e perigo inimaginável poderia surgir do miasma negro. Eles mantinham um ritmo não muito acelerado, mas constante, montados em seus lobos gigantes que também puxavam as carroças.
Elicia era responsável por afastar a névoa com sua magia peculiar que lhe permitia “gerenciar”, de certa forma, a corrupção espectral. Ela tinha a habilidade de “aproximar” e “afastar” o miasma, uma habilidade muito rara de ser manifestada, mas que era de valor inestimável quando descoberta.
A proteção do grupo era uma tarefa simples que não exigia muito esforço, e, dessa forma, não muita concentração também, então sua mente vagava intermitentemente.
— No que tanto pensa essa cabeça dura? — Uma voz familiar interrompeu os pensamentos dela. Era Viktor, seu amigo de infância de personalidade reservada. Ela não o via fazia uma semana devido aos preparativos para a viagem.
— Em como o silêncio é agradável. — Ela respondeu afiada.
Viktor exibiu um sorriso irônico e beliscou seu braço.
— Ei!
— Vamos, pare de fazer beicinho, achei que você estaria mais animada depois de passar a vida toda falando da “grande” honra de expandir os conhecimentos da humanidade como uma heroína. — Ele esticou a fala na palavra “grande” em tom de ironia. — Agora chegou sua hora de brilhar, senhorita estrela.
— Ora, não se preocupe, senhor nublado, minha luz será suficiente para compensar a falta da sua. — Ela respondeu com um sorriso zombeteiro.
Eles então riram juntos de forma contida, não querendo chatear os outros membros da equipe que ainda nutriam sentimentos de melancolia.
Viktor tinha a mesma idade de Elicia e era praticamente o oposto dela, enquanto ela era disciplinada e bem humorada, ele era bastante despreocupado e um tanto aborrecido na maior parte do tempo, mas, quando estavam juntos, a familiaridade de toda a vida os permitia relaxar de suas posturas habituais e mostrar um lado libertadoramente mais infantil.
Ele tinha olhos verdes e cabelos negros desgrenhados alcançando a altura do queixo por falta de corte. Não ligava muito para aparência além da higiene básica e achava a impecabilidade da aparência de Elicia muito exagerada. Ele vestia uma armadura de couro preto fosco e um manto cerimonial verde musgo.
Infelizmente sua descontração durou pouco, pois assim que se afastaram o suficiente da cidade, começaram a ouvir vozes etéreas clamando por sangue, os sussurros dos espectros. Ouvir os sussurros significava que os espectros estavam perto o suficiente para potencialmente notá-los, o que geralmente prenunciava uma batalha.
Não demorou muito para o grupo começar a ver silhuetas borradas do que um dia foram seres humanos em meio a névoa que escurecia gradualmente. As silhuetas se aproximavam aos poucos e os heróis já haviam assumido posições de guarda, preparados para o combate iminente. Foi quando um pulso de energia transparente subitamente empurrou a névoa como se fosse uma rajada de vento, mas sequer balançou um fio de cabelo dos humanos.
As silhuetas humanoides se tornaram mais indistinguíveis a medida que a névoa cinza escura voltava a uma tonalidade cinza clara, ainda não branca, mas relativamente segura, até que desapareceram sem deixar rastros. Esse era o poder de “afastar” de Elicia, que dispersava a corrupção do miasma, diminuindo o poder de espectros mais fortes e até mesmo expulsando espectros mais fracos. Além disso, também podia afastar fisicamente o miasma até certo ponto, como uma barreira semelhante à da cidade.
Devido a ela constantemente afastar a névoa fisicamente, quando a corrupção se acumulou e a névoa escureceu, os espectros não os atacaram imediatamente, precisando se aproximar primeiro, o que a deu tempo suficiente para liberar um pulso de dispersão, que, além de clarear a névoa, expulsou aqueles espectros relativamente fracos.
O grupo não teria problemas em lidar com espectros daquele nível, mas levaria algum tempo para acabar com todos eles, e o tempo era algo precioso demais para desperdiçar com uma batalha que poderia ser evitada. Eles precisavam chegar a área segura antes do anoitecer. A noite a névoa se tornava completamente negra, e nenhum tipo de dispersão poderia protegê-los dos perigos que podiam surgir dela.
Nas próximas horas todos seguiram em silêncio, temendo que qualquer barulho desnecessário pudesse atrair feras e atrasá-los em seu passo. Eventualmente chegaram ao primeiro acampamento, e, aliviados, começaram a descarregar os itens necessários para o pernoite.
As “áreas seguras” eram nada mais que pequenos espaços que podiam comportar um acampamento de cerca de dez pessoas mais seus lobos gigantes, cercados por barreiras mágicas que mantinham o miasma fisicamente fora. Eram como a barreira da cidade, mas em menor escala. Essas barreiras eram formadas por artefatos preparados pela oficina de magia da Cidade do Sol, e os grupos de exploração anteriores os plantaram e ativaram em intervalos de um dia de viagem cada.
Atualmente podia-se ir muito longe viajando entre os acampamentos seguros, garantindo cerca de dois anos de viagem em direção ao coração da corrupção, mas ainda não existia qualquer perspectiva de chegar ao destino final. Tal progresso pareceria pouco em comparação com a quantidade de grupos enviados, mas na realidade fazia pouco mais de cem anos que essa estratégia vinha sendo utilizada, e era bastante difícil avançar constantemente depois de ultrapassar o limite até onde o grupo anterior chegara.
Elicia sentou-se em uma pedra em frente a fogueira e retirou suas botas para arejar os pés enquanto observava o cenário do acampamento. Era um local completamente aberto em meio à planície que rodeava a cidade, contudo, nada podia ser visto além da barreira, a luz não penetrava na névoa negra, gerando a sensação de que o local estava cercado por uma parede maciça.
Depois de descansar um pouco, cada um dos heróis se ocupou de alguma tarefa na montagem do acampamento, e, depois de cerca de duas horas, todos estavam sentados em torno da fogueira aproveitando sua refeição, um ensopado simples e nutritivo que aquecia seus estômagos e também seus humores.
Eli encontrou seu lugar ao lado de Viktor e largou no chão o lampião que trazia consigo.
— Um minuto de sua atenção, por favor! — O comandante da expedição chamou. — Sei que todos aqui estão familiarizados até certo ponto devido ao último ano de treinamento conjunto, mas gostaria que usássemos este momento para nos apresentarmos melhor como pessoas, e não como os soldados que conhecemos até agora.
De fato, no último ano a maioria deles só conhecera as habilidades de seus companheiros, e não muito de suas histórias pessoais. Com aquela iniciativa o capitão tinha o objetivo de aproximar o grupo, criando motivações mais pessoais para todos se protegerem mutuamente além da necessidade básica de sobrevivência.
Os heróis concordaram com acenos de cabeça, todos entendiam o propósito daquela interação.
— Muito bem, então eu começo. Meu nome é Maximillian Darv, tenho vinte e quatro anos e sou o seu capitão nesta jornada, espero poder justificar constantemente a confiança que depositaram em mim!

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.