Capitulo 56 - Quando olho para o leste.
— Jura que não sabe como saiu? — perguntou Julia, olhando para as costas desnudas de Leticia.
— Que pergunta idiota. Acha que tem alguma clínica para remover tatuagens por perto? — respondeu ela, vestindo suas roupas após o banho.
Haviam criado tal hábito nas primeiras semanas vivendo naquele mundo, por conta do tempo e esforço necessários para tomar banho. Recolhendo água, balde a balde, do reservatório de Thierry. E o mantiveram, de forma que já não parecia natural a Julia banhar-se desacompanhada.
— E tem alguma para fazer tatuagens? — perguntou Julia, deixando a irritação transparecer na voz.
Coçou a cabeça, sentindo um incômodo no cabelo, grande demais para seu gosto.
— Eu não fiz tatuagem alguma — enfatizou Leticia. — Ela só apareceu do nada.
— E agora desapareceu — Julia completou.
Leticia bufou.
— Se desapareceu, então já não é mais problema — afirmou, saindo do banheiro, com os cabelos molhados descendo pelos ombros.
Queria que fosse assim, desejou Julia.
As duas caminharam pela casa, preparando-se para sair. Tinham assuntos a tratar no vilarejo. Madame Jackelin desejava que experimentassem algumas peças de roupas, além de deverem uma visita a Núrya e seu pequeno filho.
Despediram-se de Theo no jardim da frente, que treinava o controle de mana junto de Thierry.
O garoto havia conseguido progredir nisso bem mais do que elas. Aumentando o limite de disparos de sua bola de fogo de uma para três, sendo esse o limite que podia usá-las sem precisar de ajuda para andar.
Julia praticava com indisposição, causada pela falta de progresso. Ela não percebia qualquer mudança que fosse em seu corpo, tal qual Theo afirmava ocorrer. Demonstrando isso com seus disparos mágicos. Ela apenas se sentia mais cansada. Com o medalhão que Thierry lhe dera coçando em seu pescoço.
Leticia também não se mostrou muito animada. Praticando apenas quando Thierry pedia.
Mais por detestar ficar parada em silêncio, do que por outra coisa. E sempre que o fazia, era cercada pelos gatos que pareciam viver nas redondezas da casa de Thierry. Que a usavam como cama.
Sendo assim, as duas não davam tanta atenção para tal treino. Se concentrando mais nas aulas sobre história. Ou ao menos Julia se concentrava, absorvendo em sua memória estranhamente bem vasta nos últimos dias, as informações que aprendia.
Porém isso não importava naquele momento. Estavam saindo para uma pausa.
Podiam ver a névoa se formando entre as árvores secas, e os campos recém colhidos, sob a cobertura do céu branco, que ainda projetava alguma claridade sobre o mundo. Era uma fria manhã nublada de outono. Uma das últimas que ainda restavam. Pois o inverno estava chegando. E com ele a neve. Algo que Julia desejava ver com ansiedade.
Sempre vira filmes sobre o natal na infância. E sempre achava lindo as ruas e casas decoradas cobertas de neve que apareciam neles. O branco e o vermelho misturados repletos de luzes piscantes davam um charme especial para as noites do dia vinte e cinco. Ainda que vistas através de uma tela.
Não nevava em seu país, e ela nunca saira dele. Então essa era a primeira oportunidade de ver os flocos caindo pelo ar em direção a terra.
Esperava que caíssem logo. Até lá, olharia para o céu nublado com esperança.
Ao chegarem no ateliê, foram recebidas novamente pela mesma mulher de antes. A senhora Marjorie. Que aparentava estar com o humor pior do que a última vez. A verruga parecendo maior do que antes.
Talvez por Thierry não ter aparecido daquela vez..
— Chegastes tarde. Deveriam ter mais consideração pelo tempo de madame Jackelin e não deixá-la esperando de tal forma — murmurou, dobrando os lábios.
— Certo, foi mal. Agora podemos entrar? — perguntou Leticia.
A velha senhora ficou de lado e deixou-as passar.
Julia praticou uma mesura em agradecimento, aprendida com Thierry, fazendo uma sobrancelha de Marjorie levantar. Então as duas entraram.
Sabiam onde o escritório de madame Jackelin ficava, mas Marjorie as seguiu mesmo assim. Passando à frente delas. Parecia mais vigiar do que guiar. E assim parou ante a porta e a abriu.
A madame sentava, descansando em uma poltrona baixa, repleta de cobertas de tecido grosso. Uma tesoura, grande como os dedos de um homem, estava em sua mão direita, enquanto a esquerda segurava um pedaço de pergaminho. As pernas cruzadas de uma forma relaxada.
— Ora, por obséquio, entre. Não precisa bater, sendo essa a terceira vez no dia que o faz, Marge — repreendeu, deixando a senhora Marjorie corada. Julia pôde perceber a verruga em seu rosto murchar de repente.
— Peço desculpas mais uma vez, nobre senhora.
— As recebo com humildade.
Os olhos da madame sequer olharam para ela. Apenas analisava atentamente o pergaminho a sua frente.
— Aqui… aqui estão as garotas de sir Thierry — anunciou apressadamente a senhora Marjorie, embolando a língua.
Madame Jackelin ergueu o rosto, fitando-as com os olhos desconcentrados.
— Deixe-as comigo. Pode sair — instruiu ela, erguendo a mão e a abrindo no ar.
A senhora Marjorie, envergonhada, saiu do cômodo, fechando a porta com extremo cuidado.
Julia observou. Percebendo o claro nervosismo e constrangimento de Marjorie, o embaraço de Leticia, também assistindo a tudo. Como também, a completa calma com que madame Jackelin fingiu irritação. A forma como rosto se contraía, sem ser acompanhado por completo pelos olhos, que mantinham um traço de calma lucidez.
— A senhora atua bem — comentou Julia, impressionada. Não pensando muito antes de dizer.
Madame Jackelin mostrou uma breve expressão de surpresa, então abriu-lhe um sorriso esperto.
— Sim, sempre me foi muito útil — disse, fechando o pergaminho e o pondo de lado. — Fico feliz em ver suas figuras. Darão bons manequins. Pegou uma sineta da mesa e a tocou.
Esperaram por alguns segundos. O suficiente para Julia notar que o manequim onde antes estava o vestido de mangas longas se mostrava vazio. Perguntou-se o que teria achado a mulher para quem foi feito.
Então a porta lateral do cômodo se abriu e dela saiu a jovem assistente da madame, que Julia lembrava ter visto tantas vezes e de tantos modos.
Natallie trazia em suas mãos muitas peças de roupas. A maioria, vestidos de variadas cores. Os depositou numa penteadeira, próxima a porta em que saíra e parou, esperando ao lado, com as mãos juntas sobre o colo.
Julia a encarou notando nela, as mesmas impressões que vira na outra vez. Porém tendo mais tempo para descobrir o que realmente lhe chamara atenção: o rosto mais rosado. A pele mais brilhante. A forma como o cabelo parecia mais vívido. O corpo sendo, de alguma forma, mais feminino por inteiro. Já sentira uma coisa parecida, sabia, mas não conseguia perceber o que era.
Assim, encarou, até perceber que estava sendo mal educada.
Madame Jackelin, sem prestar muita atenção na assistente, se dirigiu até a janela e fechou as cortinas, deixando seu escritório iluminado apenas por algumas luzes azuis presas à parede. Luzes semelhantes às que Thierry usava.
— Pode nos deixar, Natallie — disse Jackelin, num educado tom de comando.
A garota o fez, deixando Julia sem descobrir o que lhe havia de diferente. Madame Jackelin, então assumiu um rosto satisfeito e entregou os primeiros vestidos
— Achei que a senhora estivesse com raiva — observou Leticia, com um franzir de sobrancelhas.
— Ah, minha querida. Como bem viu sua amiga, sou dotada da arte do teatro, e, embora nunca tenha me prestado a estar numa companhia teatral, sei muito bem desempenhar meus próprios papéis. Principalmente o da “senhora aborrecida”, tal como presenciaram vós — explicou ela, separando dois vestidos do montinho feito em sua mesa.
Caminhou com eles até Julia e Leticia. Entregando para uma um azul turquesa, cujas mangas iam até as mãos, sendo amarradas por nós entre os dedos, e outro, prateado para Leticia. Cuja cor se destacava em muito de sua pele mais escura.
— Sempre tive curiosidade em saber como ficaria um vestido como esse em alguém do seu povo — comentou a costureira, depositando o vestido nos braços de Leticia.
— Meu povo? — disse ela, levantando uma sobrancelha.
— Sim. Nunca tive a oportunidade de visitar N’toto. Mas já conheci muitos homens e mulheres vindos de lá. Disseram ser um belo lugar — Madame Jackelin parecia pintar um quadro, fazendo gestos rápidos com as mãos, enquanto falava. Então começou a alisar um dos braços, prosseguindo. — E a pele deles era sempre tão preta que reluzia ao sol. De uma beleza que não via aqui. Nunca quiseram experimentar nossos vestidos, no entanto. Usavam sempre as mesmas túnicas e mantas coloridas. Simpáticas, sim. Porém faltavam-lhe uma beleza singular. Por isso me sinto felizarda por tê-la.
Leticia olhou para Julia, com o cenho franzido. Um dar de ombros foi a única resposta que pôde pensar.
— A senhora é estranha — acusou Leticia.
Madame Jackelin não pareceu se importar, ao passo que tornou a falar, batendo palmas.
— Uma vez que ambas já têm a primeira roupa, podem trocar-se.
Leticia e Julia trocaram olhares, antes de experimentarem os vestidos.
Madame Jackelin foi até o lugar almofadado onde antes estava e sentou-se na mesma posição em que a encontraram ao entrar no estúdio.
— A senhora disse que atua de acordo com a ocasião, né? — perguntou Julia, sendo ajudada por Leticia a desamarrar os nós nas costas, que prendiam o vestido que usava. Alternando logo depois, retirando os da amiga.
— Sim, assim faço.
— E qual a ocasião que estávamos, para tratar a senhora Marjorie daquele jeito… eh, madame? — disse, percebendo a ousadia da pergunta apenas depois.
— Sim, a pobre velha ficou toda pálida. Pensei que ia cair dura no chão a qualquer momento — completou Leticia, retirando completamente o vestido e ficando apenas com as roupas de baixo comumente usadas pelas mulheres daquele mundo. Muito semelhantes a calçolas que Julia via mulheres vestindo, em filmes e novelas de época.
A boa madame suspirou, rindo num arrastar de ofegantes sons cansados.
— Apenas estava farta de seus muitos e vazios elogios, e das muitas reclamações a respeito das ajudantes. De fato, não estava com raiva, apenas fingi.
— Por quê a senhora só não foi sincera e disse que ela tava sendo chata? — perguntou Leticia.
— A resposta a isso é bem simples. Sinceridade não existe onde fui criada, apenas o fingimento. Fingir que algo é bom. Que é belo. Que somos amigas, ou que eu a odeio. Fingir que sou outra pessoa, que não eu.
— Isso deve ser cansativo — afirmou Julia.
— Ser nós mesmos também não é? — declarou, rasgando o pergaminho que tanto prestava atenção em quatro partes e as escondendo no interior de seu vestido.
O sorriso quase imperceptível no canto dos lábios, os olhos o acompanhando por completo. A forma como os braços se portavam, abraçando o próprio corpo. Parecia satisfeita com algo.
Leticia franziu os olhos, enquanto Julia virou a cabeça de lado, olhando aquela mulher de aparência tão elegante, porém com a expressão corporal de uma adolescente guardando um segredo da mãe. Não podia concordar mais com uma opinião dada pela amiga. Madame Jackelin era realmente estranha.
— E onde a senhora foi criada? — questionou Leticia.
Madame Jackelin pôs as mãos sobre o colo.
— Num lugar incrivelmente maçante, a que detesto lembrar — disse por fim.
As duas trocaram de roupas mais três vezes. Cada peça era de uma forma diferente da anterior. Algumas pareciam mais formais, outras não eram diferentes dos vestidos comuns que usavam todos os dias.
Julia notou que todas tinham sulcos, na bainha, mangas e barra, feitos de forma que não divergiam da costura nos tecidos. Perguntava-se o motivo, caso não fosse apenas estética.
Ao terminarem, colocaram novamente as próprias roupas, e madame Jackelin guardou as peças na mesma sala que as tinha pego.
Ao voltar, reabriu as cortinas.
— Obrigada por virem. Mande minhas saudações ao cavaleiro. Digam-lhe que não demore muito para me visitar novamente — disse, e então despediu as duas.
Saindo do ateliê, ambas seguiram em direção a casa de Núrya. Encontrando-se com o jovem esposo dela, que trabalhava um móvel de madeira na entrada da casa, portando um martelo de ferro negro, com a cabeça esbranquiçada por conta das batidas frequentes. Algumas outras ferramentas rudimentares estavam espalhadas em desordem pelo chão.
— Olá, senhor Piercy — saudou Julia, sorrindo.
— Ah, olá, moças — Ele ergueu o rosto simpático, e meio coberto por alguns vestígios de barba — Ah, a senhorita és a companheira do Edwardo, correto? — perguntou, olhando para Julia.
— Sim… eu sou — confirmou, sentindo-se um tanto constrangida.
— A Núrya está? — perguntou Leticia, olhando para a janela frontal da casa.
— Sim, está lá dentro, na cama com o “Arruna” — respondeu ele, deixando Julia confusa.
— Arruna? — perguntou Leticia, franzindo as sobrancelhas.
— Sim, nosso filho — explicou, Piercy, abrindo um sorriso modesto ao falar “filho”.
— Ah, você quer dizer “Aruna”, não? — corrigiu Julia, lembrando-se da pronúncia correta, dita pela velha parteira.
— Isso, quer dizer, nossa… não consigo pronunciar bem o nome dele. A senhora Diane deu-lhe um nome complicado — explicou-se, levando uma mão à testa suada. — Por favor, não digam a Núrya que eu errei o nome de nosso filho de novo. Ela aprendeu no primeiro dia, repetindo e repetindo. Eu, no entanto — Fez uma expressão desconsolada.
— Não se preocupe — Julia ergueu as mãos com as palmas para baixo, num gesto calmante.
— Aliás, o que é isso que o senhor está fazendo? — perguntou Leticia, olhando para o móvel de madeira incompleto.
— É uma cama para Núrya e “Ayruna”. Minha esposa às vezes deseja dormir com ele, porém nossa cama é demasiado pequena para nós três, e o berço dele é demasiado frágil para os dois.
— Então a Núrya pediu que o senhor construísse? — continuou questionando Letícia.
— Não pediu. Apenas estava cansado de vê-la se aninhar com nosso filho, sentada numa cadeira à beira de seu leito.
Julia não pôde deixar de sorrir ao comentário do jovem esposo, ao mesmo tempo que um calor surgia em seu peito. Por algum motivo, sua mente voltou aos seus pais. Aos raros bons momentos que lembrava deles.
— Está fazendo um bom trabalho — declarou.
Piercy olhou para o trabalho inacabado a sua frente e agradeceu.
— Podem entrar, se desejarem — ofereceu, e ambas seguiram pela porta.
Nurya sentava-se numa cadeira ao lado da janela do quarto. A luz outonal do dia iluminava um pouco de sua face repleta de sardas, envolta pelas mechas soltas de seu longo cabelo. O filho, em seu colo, se apossava de um dos seios, alimentando-se calmamente. As pequenas mãos agarrando-se aos cabelos negros da mãe.
Julia e Leticia pararam na entrada do cômodo. E lá permaneceram, até que a jovem mãe às notou, abrindo um sorriso meigo.
— Bom momento é esse para receber visitas — declarou, olhando para o filho.
— Oi, Núrya. Não queríamos incomodar — declarou Julia, pondo um pé para dentro do quarto.
— Em nada me incomodaria tê-las aqui. Isso é claro, para me ver e não ao senhor meu esposo — Ergueu uma sobrancelha, fingindo seriedade.
Leticia soltou um riso de desdém.
— Relaxe quanto a isso — declarou.
Núrya sorriu e baixou os rosto novamente para a criança em seus braços.
— Já está tão grandinho. Pergunto-me quanto tempo mais levará para que ande — comentou, sem tirar os olhos dele.
Julia lembrava de já ter presenciado uma conversa parecida entre mulheres, quando mais nova. Depois que sua tia teve o primeiro filho. Detestara a peste desde a primeira vez que o encontrara após ele aprender a falar e andar.
Rezava para que não sentisse o mesmo com Anura.
— Daqui a pouco vai começar a engatinhar — comentou — e depois sairá correndo para todos os lados.
A expressão da mãe inquietou-se.
— Sim, mas não desejo que vá para lugar nenhum. Quero que fique aqui comigo, mesmo quando crescido.
— Tem certeza? Ele vai ser mais pesado que agora — brincou Leticia.
— Ainda que cresça dez metros, e pese cem quilos, não sairá do meu colo — declarou, apertando o pequeno em seus braços.
Anora puxou mais os cabelos da mãe, apertando-os com suas mãozinhas.
— Desculpa por eu dizer, mas acho que você vai ser uma sogra horrível — ponderou Leticia.
— Definitivamente — respondeu Núrya, convicta.
Pensou mais uma vez em sua tia grávida. Não conseguindo deixar de comparar ambas as situações que nada tinham haver além da gravidez.
Olhou para Núrya com mais atenção, lembrando de quando ainda estava grávida. Então o rosto de Natalie lhe veio à mente, como num simples lapso, e arregalou os olhos. Compreendendo enfim.
Pensou no rapaz escudeiro, com quem a vira sair do meio da mata naquela tão vergonhosa noite de luzes. Um rapaz que Eduardo detestava. E tudo que conseguiu fazer foi suspirar.
Pobre garota…
Olhou para Núrya e o filho enroscado em seus cachos. Ouviu as marteladas que Piercy dava no lado de fora. E sentiu novamente um calor no peito, com o rosto de Eduardo lhe vindo à memória.
Um dia. Quando tudo for diferente.
Continuaram conversando, sem notar o tempo passar, até a luz que entrava pela janela começar a esmorecer. Não se via o sol no céu nublado. Mesmo assim, Julia sabia que em breve ele se poria. E antes disso, as duas deveriam voltar, como Thierry bem disse.
— Agradeço-lhes por essa boa visita. Espero que me façam mais, pois seria indelicadeza duas moças deixarem uma jovem mãe solitária — comentou, Núrya.
— Não estou eu também contigo aqui, minha esposa? — indagou Piercy, tendo terminado o trabalho com o móvel e o carregando para dentro da casa com a ajuda de um vizinho. Faltando-lhe apenas um colchão forrado.
— De tua companhia, nunca sou solitária, senhor meu marido. Mas há mais de um tipo de solidão nesse mundo — disse, sorrindo para o filho. — Qualquer dia, quando esta mãe tiver mais saúde iremos aos rios, junto de meu Aruna.
Julia engoliu em seco e olhou para Leticia, lembrando-se do seu segundo dia naquele mundo. As mãos nojentas em seu corpo. Os sons grotescos de suas línguas animalescas. Uma lembrança que parecia mais distante do que realmente era. E ela gostaria que fosse.
— Acho melhor fazermos outra coisa — sugeriu.
— Sim, sim, rios não são o melhor lugar para uma criança tão nova — disse Leticia, a acompanhando.
Núrya ergueu uma sobrancelha.
— Esqueci quanto trabalho tive para convencê-la na última vez. Embora não disponha mais de minha bela barriga, agora possua uma bela criança, o que me dá plenos direitos de ser persuasiva — alegou em seu tom de infantil sabedoria.
Julia suspirou, sorrindo, pronta para perder outro embate com a jovem mãe.
— Ela tem razão. Quando for mais seguro, todos iremos, sim. No entanto, agora, deves repousar — declarou Piercy, pondo uma mão no ombro da esposa.
Julia assentiu. O bom marido deveria saber o que a preocupava. As criaturas que sempre preocupavam a todos, antes de sir Alóis expulsá-las para dentro daquelas florestas de tão terrível fama.
— Voltaremos outro dia — declarou Leticia, se aproximando de Anora e apertando suas mãozinhas.
Assim, despediram-se, e partiram, voltando pelo caminho entre os campos. Julia olhou para o céu, notando que mudara da gigantesca nuvem mesclada de branco e cinza, para rasgos esparsos de nuvens negras. Espalhadas entre o alaranjado poente longínquo e o escuro véu, que crescia onde deveria ser a nascente.
Daquela direção, ventos frios sopravam. E Julia os detestou, sem entender os motivos para isso.

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