Índice de Capítulo

    A manhã estava fria e escura. Sentia a brisa bater em seu corpo, enquanto os pés a conduziam até o rio.

    Joen e Marrise a acompanhavam, conversando sobre o bebê de Núrya e comentando sobre o trabalho no ateliê, e reclamando da senhora Marjorie. Reclamação essa, sempre acompanhada de uma zombaria costumeira sobre a velha mulher.

    Natallie ria e brincava junto delas, enquanto caminhava com um novo incômodo em suas pernas.

    Suas coxas pareciam inchadas. Ao menos pensava isso. Sua mãe sempre comentava sobre como as coxas tinham aumentado quando estava grávida. Então as suas também deviam inchar.

    Era o segundo mês sem sangue de moça escorrendo por suas pernas, e Natallie sabia o que significava. Logo o seu jovem senhor ganharia um herdeiro. E ela não imaginava o sorriso em seu rosto quando o soubesse.

    A ideia a ajudava a esquecer a grande deformidade pela qual o corpo iria passar.

    Logo sua barriga ficaria inchada, e o restante do corpo, mais sensível. Teria dificuldades em andar, e também não poderia entregar-se ao seu amado. E assim seria até a criança nascer.

    Preocupava-se que ele talvez não gostasse disso. E agradecia por seu jovem senhor não estar no vilarejo enquanto seu corpo mudava.

    Ele a amará, certamente a amará!

    Ainda conseguia sentir o amor dele em seu corpo. O calor de suas mãos firmes. O hálito quente e vívido. A forma como a fazia tremer apenas em falar seu nome… 

    Ele a amava, ela sabia.

    — Acreditam vós, que vi aquelas duas mais uma vez no vilarejo? — comentou Joen, virando o pescoço para trás, enquanto caminhava, para falar.

    — As duas, você diz. Que duas? — Marrise perguntou, esfregando os olhos inchados pelo sono.

    — As que moram junto a sir Thierry.

    — De fato, elas foram até o Ateliê. Aparentemente para provar vestidos a pedido de madame Jackelin — explicou Natallie, sentindo uma leve náusea enquanto andava.

    — Meu pai disse-me que são bruxas, vindas da floresta de Gauss — comentou Joen, voltando a olhar para frente.

    — E por que motivo sir Thierry teria bruxas em sua casa? Ele não tinha matado uma? — questionou Marrise.

    Joen virou-se mais uma vez para trás, andando de costas.

    — Meu pai diz que quando ele matou a bruxa, ela lhe jogou uma maldição para sempre obedecer a vontade de outras bruxas. Por isso deixou a cidade sagrada, e veio para cá.

    Natallie riu.

    — Bem me pareceu mesmo que aquela Carmen era uma bruxa. A forma como os tecidos sumiram de meu baú fora muito estranha — comentou, sentindo os lábios se dobrarem num beicinho.

    — Tecidos? — Marrise franziu uma sobrancelha.

    — Novamente isso, Natty? — Joen suspirou, exasperada.

    — Sim, aquela bruxa há de me pagar — declarou, lembrando do dia em que foi trocada por Carmen. Não viajando junto da caravana do cavaleiro, e de seu amado Lohan.

    Por conta disso amaldiçoaria Carmen todos os dias até o fim de sua vida.

    — Não faço ideia de como ela o fez. Porém por sua causa não estou em um palácio a essa altura — esbravejou.

    — Como sabes que foi ela?

    — Sei, e apenas isso. Um dia aquela ladra me há de pagar — gritou, apressando o passo.

    O caminho as levou a um pequeno fluxo de água raso, ao pé de um bosque de faias, não muito longe da vila. Ele seguia, entre pedras, grandes e lisas, até um pequeno lago natural, onde a água se represava, antes de se juntar ao grande rio que separava as terras em volta do vilarejo da floresta de Gauss.

    Descobrira o lugar numa noite em que seu jovem senhor a raptara pela janela de sua casa, para um momento de amor que jamais esqueceria.

    Lembrava de tê-lo dito quando já voltavam que o acompanharia na viagem para o baile em Repouso das Garças, e da expressão de surpresa que ele fez, sem conseguir esboçar qualquer resposta.

    Por um curto período de tempo, àquele havia sido o dia mais feliz da sua vida.

    Até que na manhã seguinte, não encontrou os vestidos e fora substituída pela garota com trato irritante.

    Podia irritar-se, sim. Mas não faria mal, no fim. Logo, salões e bailes seriam parte de sua rotina. No ano seguinte, quando o seu jovem senhor retornasse, a faria sua senhora. Ela sabia.

    Com tal certeza, seguiu o fluxo de água até o pequeno lago em que fora amada.

    O azul claro da água em constante movimento se espalhava por entre rochas, grama, e as muitas faias de galhos nús em volta das margens pedregosas.

    Joen e Marris soltaram suspiros maravilhados. Provavelmente nunca haviam visto lugar igual.

    Não era difícil crer isso.

    Muitos desses lugares ficavam espalhados naquelas terras, e muito pouco eram visitados. O medo dos mais velhos afastava tanto a eles, quanto os mais novos.

    Ignorância camponesa, pensou Natallie, lembrando as palavras de seu jovem Senhor para se referir aos moradores do vilarejo.

    Porém Natallie nada tinha dessa ignorância.

    Não tinha o medo dos mais velhos, ou a ingenuidade dos mais novos. Era uma mulher. Seu jovem senhor a havia feito uma, ao menos. E, quando ele retornasse no ano seguinte, a faria sua senhora, sabia.

    As três tiraram suas sapatilhas e vestidos, guardando-os bem juntos sob uma pedra lisa, protegidos do vento.

    Lançaram-se no lago, sentindo a água fria no corpo. Nadaram, espirrando água uma na outra, como crianças em pleno verão. Ainda que o inverno estivesse próximo.

    Haviam saído do vilarejo cedo. Sem avisar os pais onde iam.

    Natallie deveria estar no ateliê, porém tinha pouco interesse em fazer ajustes nos vestidos das “duas bruxinhas” companheiras de Carmen. Joen haveria de ajudar a mãe a cuidar das irmãs mais novas o dia inteiro. Porém saira antes de acordarem, e pretendia voltar para casa apenas quando tivessem almoçado.

    Marrise teria de ir para a cozinha do castro, preparar comida para a guarnição, porém fora convencida pelas amigas a passear até alí.

    Talvez alguém às fosse sentir falta. Porém isso não tinha importância, refletiu Natallie quando tivera a ideia de levá-las até aquele lugar. Pois logo estariam de volta.

    Essa era a certeza em sua mente enquanto iam, enquanto banhavam-se, e enquanto se vestiam. Era o seu pensamento enquanto voltavam pelo mesmo trecho raso do riacho. Até que um som estranho veio por detrás das árvores.

    Viraram os rostos, em direção ao bosque de faias.

    Alí, viram algo que não era um homem, sobre duas pernas. Pequeno, com a cabeça desproporcional ao corpo. Tinha pele verde, orelhas pontudas, usava roupas de couro… E era mais do que um.

    Muitos mais. Observando-as como pequenos espectros na escuridão das árvores nuas.

    Natallie não pensou. Não se moveu. Por um momento não respirou. Sentiu apenas o mais enrijecedor e profundo frio que já havia sentido em seu estômago. Uma dor profunda era causada no peito, aumentando à medida que seu coração parecia voltar a bater.

    Sabia o que eram. Nunca os vira, mas sabia. Todos sabiam. Todos falavam e avisavam.

    Então a palavra finalmente veio, junto do grito da amiga.

    — Goblins — gritou Joen, virando-se para correr, até que algo a acertou e ela caiu junto à margem do rio, como uma fruta madura.

    Não mais se moveu. Nem Natallie ou Marrise. Ao menos até os pequenos monstros correrem em sua direção.

    Marrise fora a primeira.

    Virou-se chorando e gritando. Correndo da forma desajeitada que sabia. Natallie a acompanhou, levantando as saias. Sentindo os pés mais pesados do que quando caminhava para o lago. Não parecia se mover ou se afastar.

    Ouviu os berros e olhou para trás. Algo voou por sua vista, passando a centímetros de seu rosto. Ela se desequilibrou e quase caiu, devido ao susto.

    Percebeu que mais corriam ao redor delas, cercando-as a distância pelas laterais.

    Desejavam pegá-las, como haviam pegado Joen.

    Não podia parar, sabia. Precisava fugir. Precisava correr.

    Podia correr, podia fugir junto Marrise que estava adiante dela. Pensou isso e então viu uma pedra acertar as costas da amiga que corria na frente.

    Seu grito atravessou o ar, e ela desabou, rolando pelo chão.

    Natallie a alcançou, e estava prestes a parar para levantá-la. Porém uma flecha acertou o ombro da amiga, que guinchou, chorando de dor. E Natallie continuou a correr, ouvindo os berros e gritos atrás de si.

    Precisava escapar. Não podia ser pega.

    Seria uma senhora de grandes terras. A esposa de Lohan, um futuro Conde. Condessa Natallie Fréive, a chamariam. E condessas não podiam ser mortas por goblins.

    Seu jovem senhor não deixaria. Ele a resgataria. Como um bravo cavaleiro a resgataria.

    Ao menos assim pensava, até uma dor se abater contra seu ombro esquerdo, derrubando-a no chão, como tantas vezes viu homens derrubando árvores na infância.

    Passou um tempo longo, de dor agoniante, junto a terra repleta de grama. Mal podia respirar, ou mover o braço esquerdo sem uma dor atravessar suas costas.

    A luz branca do céu nublado batia contra seu rosto, até que sombras se puseram entre ambos.

    Tentou engatinhar mas grunhiu uma vez pela dor aguda em seu ombro, e depois gritou pela pancada forte de algo duro contra seu joelho.

    Rasgaram-lhe o vestido e as calças de forma violenta, e Natallie temeu pelo pior das histórias que já ouviu. No entanto, nada disso aconteceu. Os goblins a puxaram pelos braços, arrastando-na.

    Berros, grunhidos e sons semelhantes a risadas guturais eram as únicas coisas que Natallie ouvia ao ter os braços e pernas agarrados por fortes mãos esqueléticas até as árvores.

    Chorou consigo mesma, tentando gritar, mas sendo calada por um um tapa ou um soco cada vez que o fazia.

    Desejou mais do que nunca para que alguém a fosse ajudar. Os guardas do vilarejo, os homens do campo, seus pais. Lohan. Porém estava longe dos campos, em um lugar onde as patrulhas não passavam, sem que seus pais soubessem. E tão pouco Lohan estava presente para resgatá-la. Seu jovem senhor havia partido há muito tempo.

    Estavam sozinhas. Ela, Joen, Marrise, e a criança.

    Os momentos seguintes foram para Natallie como um martírio de anos em poucas horas.

    As criaturas as arrastaram, sem nenhum cuidado, por entre galhos, pedras, lama e plantas espinhosas.

    O pior porém era quando paravam.

    Antes de chegarem ao rio, os monstros agarraram a Joen e partiram-lhe um braço com uma machadinha de metal.

    Seu grito pareceu viajar pela água, mais alto do que o canto dos pássaros nunca foi.

    Lançaram o membro no chão e então prosseguiram, amarrando cada uma a um deles, com cordas, e atravessaram-nas. Joen, que fez a travessia inteira sangrando, pareceu pálida ao chegar do outro lado. Tremendo descontroladamente e soltando pequenos gemidos. Um dos goblins grunhiu para outro, e este desfez o nó que prendia a garota.

    Natallie fechou os olhos chorando, não desejando ver o que estava para acontecer.

    Ao final, os monstros simplesmente desmembraram-na, como a um carneiro cevado. Carregando seus membros e órgãos com eles, e espalhando-os por seu caminho, floresta de Gauss adentro. Arrastando Natallie e Marrise, que choravam o tempo todo.

    Porém não por muito tempo. Pois a mesma coisa fizeram com ela. Cada criatura tendo a sua vez, e depois a degolaram, carregando suas partes e as espalhando. O sangue nas mãos deles sujaram Natallie, quando voltaram a carregá-la mais para fundo na floresta.

    Natallie rezou a Ellday todas as preces que aprendera, e criou dezenas de outras novas. Porém isso de nada parecia adiantar, quando os monstros pararam pela terceira vez e a cercaram.

    Já era noite, e tudo que via eram suas silhuetas no escuro completo daquela floresta amaldiçoada. Um deles abriu suas pernas e ela sentiu algo cheirá-la em um lugar onde só uma pessoa além dela, já tocara.

    Um grunhido diferente ecoou dele, passando para todos os outros como num coro.

    A luz da lua azul surgiu do céu. Iluminando porcamente as frestas entre as árvores esqueléticas do outono. Natallie viu a silhueta retirar algo de sua cintura. Uma pequena lâmina de metal, que reluzia a luz azul da lua.

    Então tremeu, lembrando do que se dizia, entre os anciãos do vilarejo, ocorrer a mulheres grávidas pegas por goblins.

    Retiram os bebês de dentro de seus corpos e os devoram na frente da mãe 

    As violam, até as engravidarem. E suas crias comem as crianças dentro do ventre.

    Tremeu, pois sabia que em breve descobriria a resposta.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota