O homem continuou olhando para o céu enquanto o vento carregava cinzas ao redor dos dois. Os olhos permaneceram presos naquele ponto distante por alguns segundos e, então, um pequeno sorriso cansado surgiu no canto de sua boca, como alguém que acabara de encontrar trabalho extra no pior momento possível.

    Acima deles, a silhueta voltou a surgir entre as nuvens quebradas.

    Dessa vez Vance conseguiu enxergar melhor.

    A criatura atravessava o céu em movimentos bruscos, rápidos demais para algo daquele tamanho. Possuía quatro membros longos presos a um corpo estreito e deformado, coberto por algo que lembrava pele ressecada esticada sobre ossos. As asas abertas pareciam ter sido costuradas a força em suas costas, tortas e cheias de rasgos escuros que balançavam junto ao vento.

    Ela girou a cabeça lentamente.

    O movimento pareceu errado desde o início. Não lembrava uma criatura viva observando algo, nem o gesto natural de alguém procurando um alvo. As articulações mudaram de direção em pequenos estalos secos até a cabeça completar um ângulo impossível, torto o bastante para fazer Vance sentir um arrepio subir pela espinha.

    Então ela parou.

    Permaneceu imóvel entre as nuvens rachadas, suspensa acima da cidade destruída enquanto as enormes asas deformadas se abriam aos poucos. Fragmentos escuros caíam delas durante o movimento, se desfazendo antes de alcançar o chão.

    Mesmo daquela distância, Vance sentiu algo apertar seu peito.

    Era além de medo.

    Os músculos se contraíram levemente, a respiração ficou presa por um instante e seus dedos afundaram entre as pedras quebradas ao seu lado.

    Os olhos da criatura permaneciam distantes demais para serem vistos com clareza.

    Mesmo assim, Vance teve certeza.

    A coisa estava olhando para eles.

    E no instante em que esse pensamento atravessou sua mente, o corpo monstruoso começou a se mover.

    Um grito atravessou o céu.

    O som surgiu fino no início, quase distante, como metal sendo arrastado sobre pedra. Então cresceu de forma brutal. A vibração atravessou o ar, atravessou as construções destruídas, atravessou o chão aberto em rachaduras e atingiu a cidade inteira como uma onda invisível.

    Vance levou as mãos aos ouvidos por puro reflexo.

    A dor atravessou sua cabeça imediatamente. Os dentes cerraram com força enquanto sua visão tremia enquanto sua orelha parecia querer explodir. Ao redor deles, janelas ainda intactas se despedaçaram ao mesmo tempo e pedaços de vidro explodiram pelas ruas junto do som das estruturas rangendo sob aquela pressão absurda.

    A criatura mergulhou.

    O movimento veio tão repentino que, por um instante, pareceu que ela simplesmente havia desaparecido do céu. O corpo deformado atravessou as nuvens quebradas em linha reta enquanto enormes correntes de ar explodiam ao redor de suas asas rasgadas. As rachaduras espalhadas acima da cidade refletiam sobre sua pele escura em flashes azulados, fazendo sua silhueta surgir e desaparecer entre fumaça, cinzas e clarões.

    O homem soltou um longo suspiro.

    A reação pareceu estranhamente simples diante daquilo.

    Como alguém olhando uma chuva começar no pior horário possível.

    — Ah… então você escolheu a gente.

    Ele se levantou devagar dessa vez.

    Os joelhos se esticaram sem qualquer pressa enquanto o manto pesado escorregava pelos escombros ao redor de suas pernas. Em seguida girou os ombros uma vez para trás e depois para frente, fazendo pequenas sequências de estalos ecoarem através do corpo como alguém aquecendo antes de uma caminhada comum.

    A luz azulada espalhada pelas fissuras no céu deslizou sobre a máscara metálica presa ao lado de seu rosto. Pequenos riscos cortavam a superfície escura do metal, refletindo brevemente aquele brilho frio enquanto sua mão caminhava lentamente até a espada presa à cintura.

    Foi então que Vance percebeu algo estranho.

    A fumaça ao redor começou a mudar.

    No início pareceu apenas o vento alterando a direção. Pequenas correntes atravessaram a avenida carregando poeira, cinzas e fragmentos de madeira queimados entre os destroços. Mas alguns segundos depois aquilo continuou.

    E continuou.

    As partículas deixaram de atravessar a rua.

    Elas estavam girando.

    Pequenos pontos escuros começaram a circular ao redor do homem em movimentos lentos, formando espirais largas que cresciam cada vez mais. As cinzas subiam pelas pernas, contornavam sua cintura e atravessavam seus ombros antes de voltarem para baixo novamente, como se uma força invisível tivesse despertado ao redor dele.

    O tecido do manto foi puxado para trás.

    Linhas azuladas surgiram sob a pele de seu braço direito logo em seguida.

    No início eram pequenas marcas espalhadas próximas ao pulso, finas como fios de luz correndo sob carne e músculos. Então começaram a avançar lentamente, se espalhando pelo antebraço, alcançando o pescoço e subindo em direção ao rosto como raízes despertando sob a própria pele.

    Ele virou a cabeça lentamente por cima do ombro, como alguém que havia escutado apenas mais um inconveniente surgir no meio do caminho. Os olhos encontraram Vance por um breve instante através da fumaça espalhada pela avenida destruída. Mesmo com incêndios consumindo construções ao redor, mesmo com o céu partido pulsando acima deles e aquela coisa descendo dos céus, sua expressão permanecia praticamente igual.

    Calma.

    Uma calma estranha, pesada, quase absurda diante daquele cenário.

    Cinzas atravessavam o espaço entre os dois carregadas pelo vento enquanto pequenos fragmentos dourados caíam das rachaduras acima, girando lentamente ao redor de seu corpo antes de desaparecerem no chão destruído. O brilho azulado espalhado pelos céus passava pelo metal preso ao lado esquerdo de seu rosto, desenhando pequenos reflexos sobre as marcas e cicatrizes acumuladas ao longo dos anos.

    Então ele abriu um pequeno sorriso cansado.

    — Tente respirar e continuar vivo por mais alguns minutos, garoto.

    Sua mão desceu lentamente até a espada presa à cintura.

    Os dedos tocaram a empunhadura escura.
    No mesmo instante, o mundo ao redor pareceu prender a respiração. As cinzas que atravessavam a avenida perderam velocidade. Pequenos pedaços de madeira queimando ficaram suspensos no ar por um instante breve demais para ser compreendido. Até o vento pareceu hesitar enquanto algo pesado começava a surgir ao redor daquele homem.
    E então a espada deixou a bainha. Só alguns centímetros, apenas o suficiente. Uma luz azul profunda escapou pela abertura estreita como uma respiração presa dentro daquela lâmina por tempo demais. O brilho atravessou a fumaça, cortou as cinzas espalhadas pela avenida e iluminou os olhos de Vance por um breve instante.

    Acima deles, a criatura continuava caindo.

    Mas dessa vez, sem suas asas.

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