— Ei, ei. Você está vivo, garoto?

    A voz surgiu distante, muito distante.

    No começo ela pareceu apenas mais uma distorção atravessando aquele vazio, como os sons quebrados que vinham e desapareciam desde que sua consciência começou a afundar naquele lugar estranho. O pequeno ponto diante dele ainda pulsava lentamente, espalhando ondas suaves pela escuridão infinita.

    — Ei, garoto.

    Dessa vez a voz veio mais forte.

    O ponto desapareceu.

    Como uma gota de tinta dissolvida em água, tudo ao redor começou a perder forma. A escuridão rachou em pequenos fragmentos de luz enquanto o vazio inteiro parecia ser arrastado para longe dele.

    E então a dor voltou.

    Ela surgiu devagar no início, como pequenas agulhas atravessando a pele em pontos separados do corpo. Primeiro o ombro, onde uma fisgada queimou forte o bastante para arrancar um tremor involuntário de seus músculos. Logo depois as costas começaram a latejar sob o peso dos impactos que havia sofrido, e então a sensação se espalhou sem pedir espaço, atravessando braços, pernas, costelas e cada parte do corpo ao mesmo tempo, como se todas as dores que haviam desaparecido por alguns instantes tivessem decidido retornar juntas.

    Vance puxou o ar de forma brusca.

    O movimento veio quase por instinto, mas seus pulmões reagiram como se tivessem sido preenchidos por fogo. Uma pontada atravessou seu peito enquanto o ar entrava de forma descontrolada e quebrada, fazendo seu corpo se curvar imediatamente. Uma tosse pesada escapou de sua garganta e trouxe consigo o gosto metálico do sangue, quente o bastante para escorrer pela lateral de sua boca enquanto sua visão ainda lutava para recuperar alguma clareza.

    As sensações continuavam voltando aos poucos. O cheiro de fumaça queimou suas narinas, misturado ao cheiro de madeira consumida pelo fogo e algo mais forte espalhado pelo ar, algo que lembrava ferro e cinzas. O calor dos incêndios tocava sua pele de um lado enquanto uma corrente fria atravessava o outro, carregando poeira e pequenos fragmentos de pedra pelo ambiente destruído ao redor. Tudo parecia pesado, confuso e distante, como se sua mente ainda estivesse presa entre dois lugares diferentes.
    Uma fisgada atravessou seus pulmões e o fez tossir imediatamente. O gosto de sangue tomou sua boca outra vez enquanto sua visão retornava em pequenos flashes confusos.

    Ele piscou algumas vezes, lentamente, como se as próprias pálpebras tivessem se tornado pesadas demais para levantar. A visão oscilava a cada tentativa. Formas surgiam e desapareciam diante de seus olhos enquanto manchas de luz e sombras se misturavam em algo impossível de compreender. O brilho vindo das enormes rachaduras espalhadas pelo céu atravessava a fumaça que cobria a cidade, criando clarões irregulares que faziam o mundo inteiro parecer distante, quebrado, quase como um sonho prestes a desaparecer.

    No meio daquela confusão, uma sombra atravessou sua visão.

    Primeiro surgiu apenas como uma mancha escura entre a luz espalhada acima dele. Aos poucos ela se aproximou e parou exatamente sobre seu corpo, bloqueando parte do brilho que caía dos céus destruídos. A silhueta permaneceu imóvel por alguns instantes enquanto Vance forçava os olhos cansados a recuperar o foco.

    Os contornos começaram a surgir lentamente.

    Uma cabeça.

    O desenho largo dos ombros.

    Um manto pesado balançando junto ao vento carregado de cinzas.

    Cada detalhe parecia sair da fumaça aos poucos, como se aquela figura estivesse sendo construída diante dele pedaço por pedaço.

    Os detalhes começaram a ganhar forma lentamente conforme sua visão recuperava clareza. O homem era alto, alto o bastante para fazer sua presença parecer ainda maior quando observado daquela posição caída entre os escombros. Um manto escuro descia de seus ombros até próximo das pernas, pesado e gasto em algumas partes, marcado por cortes, manchas secas e pequenas queimaduras espalhadas pelo tecido como cicatrizes acumuladas ao longo dos anos.

    Sobre as costas, preso ao tecido que balançava junto ao vento, existia um símbolo que Vance conhecia bem demais.

    Duas asas abertas.

    Uma lua minguante no centro

    E uma estrela logo acima.

    A marca da Ordem Sagrada.

    O rosto permanecia parcialmente escondido por uma máscara metálica cobrindo parte da mandíbula e da bochecha esquerda. Pequenos riscos atravessavam a superfície escura do metal, alguns profundos o bastante para parecerem marcas deixadas por garras ou lâminas. O restante do rosto permanecia exposto.

    Ele parecia cansado.

    Os olhos carregavam olheiras leves e pequenas cicatrizes cortavam a pele próxima do nariz e da sobrancelha. Seus cabelos loiros caíam de forma desorganizada sobre a testa, cobertos por poeira cinza e pequenas partículas de cinzas trazidas pelo vento.

    Mesmo assim, algo chamava atenção.

    Apesar do caos ao redor, apesar dos incêndios, dos monstros e do céu partido acima deles, o homem mantinha uma expressão estranhamente calma.

    Como alguém que já tinha atravessado cenários parecidos muitas vezes.

    Presa à cintura descansava uma espada longa de lâmina escura que parecia mais absorver luz do que refletir.

    O homem permaneceu observando Vance por alguns segundos antes de erguer uma sobrancelha.

    — Heh… ainda está acordado? Achei que você tinha ido encontrar os deuses pessoalmente.

    Vance permaneceu encarando o homem por alguns segundos. A voz havia chegado até ele, as palavras também, mas pareciam atravessar uma camada grossa de água antes de alcançar sua mente. O mundo inteiro ainda girava lentamente ao redor. As rachaduras espalhadas pelo céu pulsavam acima da fumaça enquanto pequenas partículas douradas continuavam caindo entre as construções destruídas como chuva vinda de algum lugar impossível.

    Ele tentou se levantar.

    Uma dor violenta atravessou suas costelas no mesmo instante.

    Seu corpo mal saiu do lugar.

    O homem observou aquilo em silêncio antes de soltar um pequeno suspiro cansado. Então se agachou ao lado dos escombros e apoiou um braço sobre o joelho enquanto o manto escuro se espalhava ao redor.

    — Péssima ideia.

    A voz saiu tranquila, quase preguiçosa.

    — Se continuar se mexendo desse jeito, seu corpo vai desmontar antes de eu terminar a conversa.

    Vance mal ouviu a última parte.

    Os olhos dele procuravam alguma coisa entre a fumaça.

    Seus olhos atravessaram a fumaça espalhada pela avenida enquanto a mente ainda tentava organizar as imagens ao redor. A visão continuava oscilando entre pequenos borrões e clarões vindos das rachaduras no céu, fazendo tudo parecer distante e fora do lugar, mas mesmo assim ele forçou os olhos cansados a continuar procurando. Em algum lugar no meio daquela destruição eles precisavam estar. Sua mãe, Elena, os pais dela… alguém precisava ter escapado.

    Seu olhar percorreu lentamente a avenida principal. A rua que algumas horas antes ainda carregava barracas, comerciantes e pessoas andando de um lado para o outro havia desaparecido sob montanhas de pedra, madeira e fumaça. O chão de pedra estava aberto em rachaduras profundas que cortavam a cidade como cicatrizes gigantescas. Partes de casas continuavam queimando entre os escombros enquanto pequenas chamas surgiam e desapareciam carregadas pelo vento. Algumas silhuetas atravessavam a fumaça em desespero, carregando pessoas feridas nos braços ou chamando nomes que desapareciam junto ao som dos incêndios.

    Os olhos de Vance continuaram procurando entre aqueles rostos.

    Tudo que encontrou foram gritos e rostos desconhecidos.

    Os dedos de Vance afundaram entre as pedras quebradas ao seu lado enquanto seus olhos continuavam procurando cada vez mais rápido, recusando aquela ausência absurda diante dele.

    Ao lado dele, o homem permaneceu em silêncio por alguns instantes. Seus olhos acompanharam Vance enquanto o garoto continuava procurando rostos familiares entre a fumaça, até que lentamente sua expressão perdeu parte da leveza que carregava antes.

    Então o homem levou a mão até a cintura e retirou um pequeno objeto metálico preso ao manto. Uma luz azul surgiu entre seus dedos por um breve instante e logo desapareceu.

    — Para todas as equipes próximas — a voz dele saiu firme dessa vez — encontrei sobreviventes na região leste. Situação crítica. Continuem avançando.

    Um estrondo atravessou os céus antes mesmo da resposta chegar.

    Vance ergueu os olhos quase por instinto.

    Ao longe, acima das construções destruídas, uma silhueta atravessou o céu em velocidade absurda.

    — Merda… mais incômodos chegando.

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