Sino do desespero
DOOOOOONG.
O som grave do sino atravessou as ruas de pedra como uma onda invisível. As janelas estremeceram levemente. Pássaros levantaram voo dos telhados ao mesmo tempo enquanto conversas morriam no meio das frases.
Vance sentiu o peito vibrar junto ao toque.
Depois veio o segundo.
DOOOOOONG.
Dessa vez, mais forte.
As pessoas começaram a parar no meio da rua. Comerciantes erguiam o rosto lentamente. Alguns moradores levavam a mão ao peito em silêncio, outros apenas encaravam as torres de oração com a expressão vazia.
Elena franziu a testa.
— De novo…
A mãe de Vance já havia mudado completamente de expressão.
DOOOOOONG.
E então, quase ao mesmo tempo, todas as pessoas que seus olhos alcançavam ergueram as mãos para o céu.
Era como se todas essas pessoas já tivessem feito isso milhares de vezes, e de fato fizeram.
Comerciantes abandonaram suas barracas no meio da rua. Guardas abaixaram as lanças. Crianças ajoelharam ao lado dos pais enquanto dezenas de vozes começavam a se misturar em orações baixas.
As mãos permaneciam erguidas em direção ao firmamento.
Vance observava tudo em silêncio.
As pessoas não pareciam assustadas.
Não de verdade.
Pareciam acostumadas.
Como se aquele ritual existisse muito antes delas nascerem.
— Vá, garoto. Levante os braços.
A voz firme de sua mãe cortou seus pensamentos.
Antes que pudesse reagir, ela segurou seus pulsos e os ergueu junto aos dela, forçando-o a repetir o gesto entre a multidão ajoelhada.
— Não fique parado numa hora dessas.
O olhar dela permanecia preso ao céu enquanto murmurava a oração junto dos outros.
— “Que os deuses sustentem o firmamento…”
— “Que os céus permaneçam vivos…”
As palavras atravessavam as ruas como um coro antigo.
Vance sentiu o vento frio tocar seu rosto enquanto olhava para cima entre os braços erguidos da multidão.
E então assim seguiu. Minutos inteiros preenchidos por orações e frases decoradas que, na cabeça de Vance, nunca pareciam fazer muito sentido.
As pessoas continuavam repetindo as mesmas palavras enquanto caminhavam pelas ruas, algumas ainda segurando pequenas oferendas junto ao peito. O clima estranho permanecia no ar mesmo depois que os sinos finalmente silenciaram.
Vance apenas acompanhava sua mãe e Elena em silêncio.
Ao chegarem em casa, o cheiro familiar de madeira antiga e ervas secando próximo das janelas trouxe uma estranha sensação de conforto. A porta rangeu baixo quando sua mãe a empurrou, revelando o interior simples da residência iluminado pela luz suave da manhã.
Os olhos de Vance vagaram pelo ambiente até pararem em um retrato pendurado na parede principal.
Um homem de cabelos escuros observava a pintura com expressão séria. Sobre o ombro dele havia um manto pesado marcado por um símbolo circular que Vance conhecia bem demais.
A marca dos Impuros, ou melhor, da Ordem Sagrada, como eles se chamavam.
Nessa marca tinham duas asas e no centro uma estrela com uma lua em baixo.
Vance ficou olhando por alguns segundos antes de falar:
— Ei mãe… quando ele vai voltar?
A mulher parou no meio do movimento.
Por um instante, apenas o som da chaleira fervendo lentamente no fundo da cozinha preenchia a casa.
Ela evitou olhar na direção do retrato.
— Difícil dizer… — respondeu em voz baixa enquanto retirava o casaco devagar. — Na verdade, ele já está três dias atrasado.
O silêncio que veio depois pareceu pesado demais.
Elena abaixou discretamente o olhar.
Vance voltou a encarar a pintura.
Três dias.
Seu pai nunca se atrasava.
O vento soprou do lado de fora, fazendo a janela estremecer levemente.
Então, de repente…
DOOOOOONG.
O toque atravessou a cidade mais uma vez, mais pesado agora, como se o próprio metal dos sinos estivesse sendo forçado além do limite. O som permaneceu vibrando pelas paredes da casa mesmo depois de desaparecer, fazendo a madeira antiga ranger suavemente junto das janelas.
A mãe de Vance ergueu os olhos devagar.
Alguma coisa estava errada.
Muito errada.
— Quatro vezes…? — Elena murmurou baixo, quase sem perceber que tinha falado.
Vance sentiu um aperto estranho no peito ao perceber a expressão da mãe mudando completamente. O rosto dela perdeu a pouca tranquilidade que ainda restava enquanto seus olhos permaneciam presos na direção da janela.
— Mãe…?
Sem responder, ela atravessou a sala rapidamente e afastou a cortina. A rua do lado de fora já não parecia a mesma de poucos minutos atrás. Comerciantes abandonavam barracas abertas, moradores atravessavam a avenida principal às pressas e guardas empurravam pessoas para dentro das casas enquanto gritavam ordens por toda parte.
DOOOOOONG.
O sino ecoou outra vez.
— Fechem as portas!
— Todo mundo pra dentro!
— Rápido!
Os gritos atravessavam as ruas junto do som de passos correndo sobre a pedra molhada pela manhã. Vance se aproximou alguns centímetros da janela, tentando entender o que estava acontecendo, mas a mãe segurou seu ombro antes que pudesse olhar direito.
— Fique longe daí.
A voz dela saiu firme demais.
Elena apertou a flor cinza contra o peito enquanto observava a movimentação lá fora com os olhos arregalados.
— Isso já aconteceu antes…?
A mãe de Vance demorou um instante para responder.
— Nunca desse jeito.
Ela se afastou da janela logo em seguida e caminhou rapidamente até um pequeno armário próximo da cozinha. As portas de madeira bateram umas nas outras quando ela abriu a gaveta inferior e puxou alguma coisa escondida sob tecidos antigos.
Um revólver.
O coração de Vance pareceu errar uma batida.
Ele nunca tinha visto aquela arma dentro de casa.
Os dedos da mãe tremiam enquanto verificava o tambor e colocava munições uma a uma no compartimento metálico. O som seco das balas encaixando ecoava pela sala silenciosa de forma quase desconfortável.
Aquilo assustou Vance mais do que os próprios sinos.
Ele nunca tinha visto sua mãe tremer antes.
Então veio o primeiro grito.
Desesperado o bastante para atravessar todas as paredes da vizinhança.
Elena levou a mão à boca imediatamente. Vance ficou imóvel enquanto outro grito surgia logo depois, mais próximo dessa vez, seguido pelo som violento de algo pesado atingindo madeira.
CRASH.
Vidros se partiram em algum lugar da rua.
Passos começaram a ecoar do lado de fora da casa, rápidos e desordenados, misturados ao som de pessoas correndo sem direção. O caos começava a tomar conta da cidade enquanto os sinos continuavam tocando sem parar, cada vez mais altos, cada vez mais graves.
E então, acima deles, alguma coisa pareceu quebrar.
O som veio do céu.
— Senhora Alice, me desculpe, mas eu tenho que achar meus pais. — E então ela abriu a porta e em um milésimo de segundo saiu correndo como um animal faminto.
— Elena! NÃO!
Mesmo assim não adiantou. Instintivamente, Vance foi atras dela.
— Vance, até você? — Ela tentou segurar seu ombro, mas tudo que conseguiu foi pegar o ar.
— Desculpe mãe, eu juro que dessa vez eu não vou dormir fora.
E então Vance correu.

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