Vance permaneceu imóvel entre os escombros, incapaz de desviar os olhos do céu. Sua mente ainda tentava alcançar o que havia acabado de acontecer, mas as imagens pareciam escorregar sempre que ele tentava organizá-las. Acima da cidade, as enormes asas negras despencavam através das nuvens rasgadas, girando lentamente enquanto fragmentos dourados se espalhavam ao redor delas como folhas levadas pelo vento. A cena possuía algo de irreal, algo que parecia pertencer mais a um sonho do que ao mundo que ele conhecia. Durante alguns segundos, tudo o que conseguiu fazer foi observar. 

    Ele sequer tinha visto o golpe. 

    Nenhum movimento chamou sua atenção. Nenhuma explosão de luz atravessou os céus. Nenhum som antecedeu o que aconteceu. Em um instante a criatura mergulhava sobre a cidade como uma calamidade viva, trazendo consigo uma pressão capaz de esmagar qualquer coragem restante. No instante seguinte, as asas já estavam separadas de seu corpo. Sua mente insistia em procurar o momento perdido entre uma imagem e outra, algum detalhe que explicasse aquela mudança absurda, mas tudo que encontrava era um vazio. Era como se uma parte da realidade simplesmente tivesse sido apagada diante de seus olhos. 

    Então o mundo voltou a se mover. 

    Um estrondo atravessou a cidade inteira, profundo o bastante para fazer as pedras sob seu corpo vibrarem. Logo depois veio outro, ainda mais forte, seguido por uma sequência de impactos que se espalharam pelos céus e ecoaram entre as construções destruídas. Ao longe, colunas de fumaça se deformavam violentamente, abrindo caminhos impossíveis por entre as nuvens de poeira. Casas já enfraquecidas terminavam de desmoronar, lançando destroços pelos ares enquanto ondas de choque atravessavam ruas inteiras. Em alguns momentos, Vance acreditava enxergar algo se movendo acima da fumaça. Uma sombra. Um vulto. Uma forma rápida demais para ser acompanhada. No instante seguinte ela desaparecia, deixando apenas o rugido distante de outro impacto colossal. 

    Ele tentou continuar olhando. 

    Tentou acompanhar o que acontecia lá em cima. 

    Tentou entender como alguém podia enfrentar uma criatura daquele tamanho. 

    Mas seu corpo já não o obedecia da mesma forma. 

    Uma dor violenta atravessou sua cabeça sem qualquer aviso, tão repentina que sua visão vacilou imediatamente. O mundo pareceu inclinar por um instante enquanto uma pressão pesada se acumulava atrás de seus olhos. A fumaça espalhada pela avenida começou a perder definição. Os contornos dos escombros se tornaram menos nítidos. Até mesmo as grandes rachaduras espalhadas pelo céu pareciam mais distantes agora, como se algo estivesse lentamente puxando tudo para longe dele. Vance piscou algumas vezes tentando recuperar o foco, mas a sensação apenas piorou. 

    Os sons começaram a desaparecer primeiro. 

    Os estrondos que faziam a cidade inteira tremer já não pareciam tão próximos quanto antes. O som dos incêndios se tornou abafado. Os gritos vindos das ruas se misturaram em um ruído distante e confuso, incapaz de formar qualquer palavra compreensível. Era como se ele estivesse afundando lentamente sob águas profundas enquanto o restante do mundo permanecia na superfície. 

    A escuridão veio logo depois. 

    No início apareceu apenas nas bordas de sua visão, discreta, quase imperceptível. Então começou a avançar aos poucos, ocupando cada vez mais espaço. As cores perderam intensidade. O azul espalhado pelas rachaduras do céu enfraqueceu lentamente. O brilho das chamas pareceu distante. A fumaça, os escombros e as sombras começaram a se misturar até formarem uma única massa indistinta diante de seus olhos. 

    Seu corpo parecia afundar junto com ela. 

    Os músculos perderam força. Os dedos relaxaram entre as pedras quebradas. Até o peso da própria respiração começou a parecer distante. O mundo continuava se movendo ao redor dele, mas já não conseguia alcançá-lo. Tudo ficava cada vez mais longe, cada vez mais escuro, cada vez mais silencioso. 

    A última imagem que conseguiu distinguir foi o céu partido acima da cidade. As enormes fissuras luminosas ainda cortavam as nuvens destruídas, espalhando um brilho fraco por entre a fumaça que cobria o horizonte. Então até aquilo começou a desaparecer, engolido lentamente pela escuridão crescente. 

    Pouco a pouco, o brilho sumiu. 

    Os sons desapareceram. 

    E o mundo inteiro afundou junto dele.

    … 

    Um balanço suave e constante embalava seu corpo para frente e para trás. Era um movimento estranho, quase hipnótico, completamente diferente dos tremores violentos da cidade destruída ou das carroças que costumavam atravessar as ruas de pedra. 

    Logo depois vieram os sons. Passos ecoavam em algum lugar próximo, acompanhados por vozes abafadas que se misturavam ao ranger grave de estruturas metálicas sob tensão. Em certos momentos ele ouvia o choque seco de ferramentas sendo colocadas sobre mesas, em outros apenas murmúrios distantes e o som constante de algo batendo contra uma superfície muito maior. Tudo parecia chegar até ele através de uma camada grossa de água, deformado e distante, como se sua mente ainda estivesse presa entre o sono e a realidade. 

    Quando tentou abrir os olhos, as pálpebras pareceram pesar mais do que deveriam. Uma faixa estreita de luz atravessou sua visão e o obrigou a piscar várias vezes antes que o mundo começasse a ganhar forma. O brilho espalhou manchas claras por todo o seu campo de visão e, durante alguns segundos, ele enxergou apenas sombras borradas misturadas a pontos luminosos. Aos poucos os contornos se estabilizaram. Acima dele existia um teto formado por placas metálicas reforçadas, atravessado por vigas grossas e tubulações que desapareciam entre as estruturas superiores. Nada daquilo lembrava qualquer construção da cidade. Não existia madeira, não existiam pedras. Apenas metal. 

    Ou talvez, algo parecido com metal. 

    O cheiro chegou logo em seguida. Sangue, metal, e ao mesmo tempo, um cheiro que agrada seu nariz, algo como uma flor perfumada aromatizava o ambiente, misturados também, a um aroma salgado que parecia vir de muito longe. O contraste foi suficiente para despertar algo dentro dele. 

    Seu coração acelerou e os músculos reagiram por instinto. Vance tentou se erguer, impulsionado pela urgência que ainda permanecia enterrada em algum lugar da memória, mas a tentativa terminou quase no mesmo instante em que começou. Uma dor aguda atravessou suas costelas, outra queimou no ombro e uma terceira explodiu atrás dos olhos, obrigando seu corpo a afundar novamente no colchão. O ar escapou entre seus dentes enquanto ele permanecia imóvel, esperando a dor diminuir. 

    Somente então percebeu o estado em que se encontrava. Faixas cobriam parte de seu tórax, envolviam o ombro esquerdo e desapareciam sob o lençol que cobria suas pernas. Pequenos curativos apareciam espalhados pelos braços sempre que o tecido deixava algum espaço visível. Cada movimento revelava novos pontos de desconforto. 

    Com mais cuidado, virou a cabeça e observou o ambiente ao redor. Fileiras de macas ocupavam boa parte do compartimento, algumas vazias, outras preenchidas por homens, mulheres e crianças cobertos por ataduras. Pessoas vestindo túnicas brancas caminhavam entre eles carregando caixas metálicas, recipientes de vidro e instrumentos desconhecidos. 

    Enquanto observava aquilo, o ranger grave voltou a ecoar através das estruturas. Desta vez ele prestou atenção. O som vinha das próprias paredes. Um ruído profundo e ritmado percorria o metal ao redor, acompanhado por vibrações suaves que atravessavam o chão e alcançavam sua maca. A sensação despertou algo em sua mente. Lentamente seus olhos percorreram o compartimento até encontrarem uma pequena janela circular instalada próxima ao teto. Através dela era possível enxergar apenas uma faixa estreita do exterior. 

    Era algo totalmente azul, e com algumas aparentes ondulações. 

    Era água. 

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