O oceano se estendia até onde a vista alcançava, refletindo a luz do sol em milhares de brilhos espalhados pela superfície. Durante alguns segundos ele apenas observou aquela paisagem sem compreender. Sua mente tentava encontrar alguma explicação lógica para aquilo, alguma forma de encaixar esse tanto de água no lugar onde deveria existir uma cidade. As ruas, as casas, os templos, as muralhas… tudo havia desaparecido. Restava apenas o horizonte azul avançando em todas as direções. 

    Foi nesse instante que as memórias retornaram de verdade. Não surgiram de forma gradual. Vieram como uma lâmina atravessando sua mente. O céu quebrado. As criaturas descendo das rachaduras. Os gritos. O corpo do pai de Elena caído entre os escombros. A mãe dela chorando. Elena sendo erguida em direção aos céus pela mão daquela coisa impossível. Cada imagem reapareceu com uma clareza dolorosa, arrancando qualquer resquício de confusão que ainda permanecia. 

    Mas isso ainda não explicava, na visão de Vance, o imenso lago a sua volta. 

    Os dedos de Vance se fecharam lentamente sobre o lençol. O tecido amassou sob sua mão enquanto ele permanecia imóvel encarando o teto metálico acima de si. A dor espalhada pelo corpo continuava presente, mas parecia distante agora. Pequena. Insignificante diante do peso que se acumulava dentro de seu peito. O balanço constante do navio continuava se fazendo presente no ambiente ao redor, os homens de branco continuavam trabalhando e os feridos continuavam gemendo em suas macas, mas tudo parecia muito longe. Restava apenas aquela sensação vazia crescendo silenciosamente enquanto as últimas imagens de Elena desaparecendo entre as nuvens insistiam em permanecer diante de seus olhos. 

    Foi então que uma voz surgiu próxima dali, quebrando o silêncio que existia apenas dentro de sua cabeça. O tom carregava um humor leve, quase deslocado em meio ao ambiente carregado do hospital improvisado. 

    — Olha só… o garoto finalmente decidiu voltar. 

    Vance virou o rosto devagar. 

    Do outro lado da enfermaria, encostado próximo a uma das colunas metálicas do compartimento, estava o mesmo homem da máscara. O manto escuro permanecia sobre seus ombros, agora marcado por novos cortes e manchas espalhadas pelo tecido. 

    Vance permaneceu encarando o homem por alguns segundos. Agora, longe da fumaça, dos incêndios e do caos que havia consumido a cidade, conseguia observá-lo com muito mais clareza. O manto escuro parecia ainda mais desgastado do que lembrava. Cortes atravessavam o tecido em diferentes direções, alguns antigos, outros recentes, enquanto manchas escuras secavam sobre a superfície como marcas acumuladas ao longo de inúmeras batalhas. A máscara metálica continuava presa ao lado esquerdo do rosto, escondendo parte da mandíbula e da bochecha, mas o restante permanecia exposto. As olheiras abaixo dos olhos denunciavam noites mal dormidas, e pequenas cicatrizes espalhadas pelo nariz e pela sobrancelha sugeriam uma vida inteira passada em combate. 

    O homem percebeu o olhar prolongado e abriu um pequeno sorriso de canto. 

    — Perdeu alguma coisa? 

    Vance não respondeu. Seus olhos já haviam se afastado dele e voltado para a pequena janela circular instalada na parede metálica da enfermaria. Do outro lado existia apenas água.  O horizonte se estendia em todas as direções sem encontrar muralhas, montanhas ou qualquer referência familiar. O azul das águas se misturava ao azul do céu em uma linha distante que mal podia ser distinguida. 

    Depois de alguns segundos observando aquela paisagem impossível, Vance finalmente falou. 

    — Onde eu estou? 

    O homem acompanhou seu olhar até a janela e pareceu compreender imediatamente a verdadeira pergunta escondida por trás daquelas palavras. Ele se afastou da coluna onde estava apoiado, caminhou até uma mesa próxima e pegou uma garrafa metálica antes de tomar um gole demorado. 

    — Você está a bordo do Leviatã! 

    Vance continuou olhando para ele. 

    O silêncio fez o homem soltar um suspiro divertido. 

    — Um navio. 

    A explicação não ajudou em nada. 

    Pelo contrário. 

    — Eu sei o que é um navio — respondeu Vance com a voz ainda rouca — Estou perguntando o que é toda essa água. 

    Dessa vez o sorriso desapareceu. O homem girou a garrafa lentamente entre os dedos enquanto observava a água além da janela. 

    — Então você sabe, o que é um navio, mas não sabe o que é o oceano? — Ele virou seu rosto para Vance — Isso nem faz sentido. 

    — Navio é um barco, só que maior, não é? Já ouvi conversas assim. Agora oceano… 

    O homem permaneceu olhando para ele por alguns segundos. 

    A expressão divertida desapareceu aos poucos, substituída por algo muito próximo da incredulidade. Seus olhos estudaram o rosto de Vance como se procurassem algum sinal de brincadeira escondido ali, alguma indicação de que aquela conversa não passava de uma piada mal colocada. 

    Não encontrou nada. 

    Vance parecia genuinamente confuso. 

    Então o homem soltou um pequeno suspiro e levou a mão até a própria testa. 

    — Certo… isso explica mais coisas do que eu gostaria. 

    Ele caminhou até a janela circular e apoiou uma das mãos na moldura metálica. Por alguns instantes ficou observando o horizonte do lado de fora, como alguém organizando os próprios pensamentos antes de começar uma explicação complicada demais. 

    — Aquilo lá fora é um oceano. Água salgada. Muita água salgada. Mais água do que você conseguiria atravessar durante toda a sua vida andando na mesma direção. 

    Os olhos de Vance se estreitaram. 

    A explicação parecia absurda. 

    — Isso não existe. 

    O homem soltou uma risada curta. 

    — Existe. Estamos navegando nele neste exato momento. 

    — Mas… por quê? 

    A pergunta escapou antes que ele pudesse impedir. 

    O homem virou a cabeça. 

    — Por quê? 

    — Sim. 

    Vance apontou para a janela. 

    — Por que estamos aqui? 

    Dessa vez a risada foi um pouco mais longa. 

    — Essa talvez seja a pergunta mais difícil que você poderia fazer. 

    O silêncio pairou entre os dois por alguns segundos. 

    Lá fora, o oceano continuava se movendo em ondas suaves enquanto a luz do sol se espalhava sobre a superfície como milhares de fragmentos de vidro. 

    O homem apoiou os braços na janela. 

    — Até então, o lugar que você chamava de lar, não era nada menos que um grão minúsculo dentro de uma bola de terra e fogo gigante. — Então ele levou a mão até a lateral do rosto e soltou os fechos da máscara metálica. 

    O metal deslizou devagar, revelando por completo as cicatrizes escondidas sob a peça. Uma marca antiga atravessava sua mandíbula até próximo da orelha, larga o bastante para parecer resultado de algo muito maior que uma simples lâmina. Outras menores se espalhavam pela pele como linhas apagadas pelo tempo. Ainda assim, a expressão permanecia tranquila. 

    — Estamos te levando para o mundo real, garoto. Se prepare. 

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