Capítulo 11: Mãe
O homem continuava próximo à janela, observando o oceano como se tivesse acabado de comentar algo banal, mas a atenção de Vance já não estava nele. Sua respiração ficou mais pesada. As imagens que haviam retornado momentos antes começaram a se reorganizar dentro de sua cabeça, encaixando-se umas às outras com uma clareza cruel.
As imagens voltaram com força total, sem espaço para qualquer outra coisa, o céu se partindo acima da cidade, os gritos ecoando entre as ruas tomadas por fumaça e destroços, pessoas correndo sem direção enquanto sombras impossíveis desciam das rachaduras abertas no firmamento, Elena sendo arrastada para longe diante de seus olhos, o braço estendido na tentativa inútil de alcançá-la, a mão daquela criatura fechada ao redor de seu corpo enquanto ela desaparecia cada vez mais alto entre as nuvens. Algo se apertou dentro de seu peito.
Antes mesmo que seus pensamentos conseguissem acompanhar a avalanche de lembranças, seu corpo já havia tomado uma decisão. As cobertas foram empurradas para o lado, seus pés tocaram o piso metálico da enfermaria e uma onda de dor atravessou cada parte de seu corpo quase no mesmo instante, subindo pelas pernas, apertando suas costelas e queimando sob as bandagens, mas aquilo já não era suficiente para mantê-lo deitado.
Na verdade, todo o seu corpo doía, mas algumas partes se destacaram, uma fisgada atravessou suas costelas, outra subiu pela perna esquerda e uma terceira explodiu próximo ao ombro ainda enfaixado. Seus joelhos vacilaram. Por um instante o chão pareceu inclinar junto ao balanço do navio.
— Ei.
A voz do homem surgiu atrás dele.
— O que acha que está fazendo?
Vance ignorou.
Os dedos agarraram a estrutura metálica ao lado da maca, a mesma haste que sustentava a bolsa de soro presa ao seu braço. As rodas rangeram quando ele forçou o próprio peso para frente. O sangue correu mais rápido pelas veias. Pequenos pontos escuros surgiram diante de seus olhos.
Ainda assim ele deu o primeiro passo.
— Vou andar um pouco — Vance finalmente respondeu — por favor, não me interrompa.
O homem observou em silêncio enquanto Vance atravessava a enfermaria arrastando a haste metálica ao seu lado. O som das rodas acompanhava cada movimento, misturando-se aos gemidos dos feridos espalhados pelas outras macas e ao rangido constante do casco do navio.
— Você que sabe…
Vance continuou andando.
A haste metálica rangia a cada avanço, as rodas pequenas vibrando sobre as emendas do piso enquanto seus dedos permaneciam fechados ao redor do metal com força suficiente para fazer os nós embranquecerem. Uma fisgada atravessou suas costelas quando deu mais um passo. Ele não diminuiu o ritmo. E assim seguia, a dor era presente em cada movimento que ele ousava fazer.
Passou por homens cobertos de ataduras, por mulheres recebendo atendimento sobre mesas improvisadas, por crianças dormindo enroladas em cobertores cinzentos. Algumas possuíam queimaduras. Outras carregavam cortes profundos. Em vários rostos ele reconheceu traços familiares da cidade.
Nenhum deles era o rosto que procurava.
A saída da enfermaria surgiu adiante.
Quando atravessou a porta, uma corrente de ar salgado atingiu seu rosto.
O corredor além era largo, construído em metal escuro reforçado por vigas grossas que desapareciam no teto. Pessoas caminhavam de um lado para o outro carregando caixas, medicamentos e suprimentos.
O suor escorria pela lateral de seu rosto. Seus dedos apertavam a haste metálica com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Algumas pessoas tentaram pará-lo. Um médico chegou a dar dois passos em sua direção antes de desistir quando percebeu a expressão estampada em seu rosto.
— Ei, por acaso você sabe… onde está Alice Morren?
O médico parou no meio do corredor ao ouvir a pergunta. Os olhos desceram primeiro para as ataduras espalhadas pelo corpo de Vance, depois para o suporte metálico que ele empurrava ao lado e, por fim, para a expressão sombria que carregava no rosto.
— Alice Morren? — repetiu o homem enquanto tentava puxar a memória. — Acho que ouvi esse nome na ala dos sobreviventes.
O coração de Vance acelerou.
— Onde?
O médico apontou para uma escadaria ao final do corredor.
— Convés inferior. Setor quatro, se não me engano. A maioria dos civis foi levada para lá.
Vance não esperou o restante da explicação.
Voltou a caminhar imediatamente, quase tropeçando na própria pressa. A haste metálica acompanhou o movimento de forma desajeitada, as rodas vibrando sobre o piso enquanto ele atravessava o corredor. O suor continuava escorrendo por sua testa e a dor seguia presente em cada passo, mas agora parecia distante, abafada pelo único pensamento que ocupava sua mente.
Ela estava ali, viva.
A escadaria surgiu diante dele alguns minutos depois.
Imaginar descer aquilo parecia pior que caminhar.
Cada degrau arrancava uma nova fisgada de suas costelas e fazia o ombro enfaixado protestar violentamente. Em alguns momentos sua visão escureceu nas bordas e ele precisou parar por alguns segundos para recuperar o equilíbrio, respirando fundo enquanto o navio balançava sob seus pés. Ainda assim continuou descendo.
Quando alcançou o convés inferior, encontrou algo completamente diferente da enfermaria.
O compartimento era enorme.
Fileiras de camas improvisadas ocupavam boa parte do espaço. Cobertores haviam sido espalhados sobre o chão. Famílias inteiras dividiam pequenos cantos entre caixas de suprimentos e divisórias temporárias montadas às pressas. O ar carregava cheiro de remédios, suor, maresia e comida simples sendo preparada em algum lugar próximo. Vozes preenchiam o ambiente em um murmúrio constante.
Os olhos de Vance começaram a percorrer o local.
Rosto após rosto.
Grupo após grupo.
Homens sentados ao lado de familiares feridos. Crianças adormecidas sobre cobertores improvisados. Mulheres conversando em voz baixa enquanto seguravam canecas de metal entre as mãos. Alguns rostos carregavam alívio por ainda estarem vivos. Outros pareciam vazios, perdidos em pensamentos que ninguém ao redor seria capaz de compreender.
Cada vez mais rápido.
Seu olhar saltava de uma pessoa para outra sem permanecer tempo suficiente em nenhuma delas. A cada segundo que passava sem encontrar quem procurava, uma nova tensão se acumulava dentro de seu peito. O barulho constante das conversas, dos passos e do navio rangendo ao redor parecia se tornar cada vez mais distante.
Seu coração batia forte o bastante para doer.
Tão forte que ele conseguia senti-lo pulsando nas têmporas e ecoando pelos ouvidos. A ansiedade apertava sua garganta enquanto seus olhos continuavam vasculhando o compartimento, recusando-se a parar até encontrar um rosto familiar.
Então ele viu uma mulher sentada próxima a uma parede metálica.
Por um instante não a reconheceu.
Seus cabelos negros estavam bagunçados. Havia manchas de poeira espalhadas pelas roupas brancas e uma faixa envolvia parte de seu braço. Os ombros permaneciam curvados enquanto ela observava o chão em silêncio, parecia alguém que estava esperando por algo.
Mas era ela, sua mãe. Vance parou no mesmo instante. Todo o barulho ao redor pareceu desaparecer de uma vez, como se alguém tivesse arrancado o som daquele compartimento. As conversas, os passos, o ranger constante do navio avançando pelo oceano, tudo ficou distante e abafado, reduzido a um ruído sem importância diante da figura sentada à sua frente.
Alice ergueu a cabeça naquele mesmo instante, talvez sentindo o peso daquele olhar sobre si.
Os olhos dos dois se encontraram.
Por alguns segundos ela não se moveu.
A expressão permaneceu congelada, presa entre a esperança e a descrença, como se sua mente precisasse de tempo para aceitar o que estava vendo.
Então ela se levantou.
— Vance…
Ela deu um passo e depois outro.
E então atravessou a distância entre eles quase correndo.
A haste metálica escapou dos dedos de Vance quando os braços dela o envolveram. O suporte tombou para o lado, as rodas girando livremente sobre o piso. Uma dor aguda atravessou suas costelas quando o abraço o atingiu, mas ele sequer reagiu.
— Mãe…

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