Capítulo 58 - As vozes dos que ficaram.
Uma pira ardia em frente ao castro, causando um buraco dentro da névoa noturna que encobria o vilarejo. Fora usada na noite de luzes para celebrar a colheita, a vida, e o favor de Ellday sobre os fiéis. Agora era usada para iluminar uma reunião de homens cansados de procurar, e fartos de encontrar.
Seus rostos sombrios se amontoavam, com uma abundante variação de medo em suas expressões. Todos olhavam para a toalha estendida em frente a pira, onde foram depositados os resultados da busca.
As três garotas desaparecidas.
Roupas rasgadas e enlameadas, membros arrancados e órgãos jogados ao chão, numa trilha que seguia desde as proximidades dos bosques ao redor do vilarejo, até o grande rio que dividia as terras de sir Alóis da grande Gauss. Continuando em um rastro macabro para dentro da floresta. Pior do que a visão daquilo, era saber que a trilha continuava além do que fora recolhido.
O prefeito Doniz se mantinha em pé, à frente e no centro de todos, encarando o amontoado do que antes fora as jovens com uma palidez realçada pela luz fantasmagórica do fogo.
E ao lado dele, os pais das três. Homens e mulheres. Ajoelhados, em pé, ou desmaiados, todos eles. Chorando com gemidos mudos.
Com uma capa cobrindo a cabeça, Thierry observava-os, compadecendo-se de suas reações. E compadecendo-se de Doniz. Nunca apreciara os momentos em que tinha de anunciar a um pai ou uma mãe que seus filhos não mais retornariam para casa. Quanto mais, filhas, que na flor da idade estavam.
Levou o medalhão em seu pescoço aos lábios. Beijou-o e fez uma prece.
Talvez por puro hábito. Talvez por ainda acreditar. Não era importante saber. Não naquele momento.
Um espaço se abriu entre os que observavam e Pier Rosei o atravessou, se aproximando da pira. Parou de frente para os vestígios, e, com as mãos trêmulas, teceu sinais de condolências, antes de iniciar sua prece. Depois ofereceu seu lamento aos pais, e rezou, silenciosamente.
Thierry meneou a cabeça em aprovação. Um bom sacerdote. Um bom homem. Esperava que mais assim estivessem entre as fileiras da Santa Pérgamo. E poucos homens como ele.
O momento de contemplação piedosa durou poucos minutos, no entanto. Um dos pais se levantou, e virou-se para o prefeito.
— E então, o que será feito? — perguntou, com a voz lamentosa e estridente.
— Perdão, meu senhor? — O prefeito piscou em surpresa, retirado de seu estado de suspensão.
— Minha filha. Ela… isso… — O pai ergueu a mão em direção às partes desmembradas, e quase caiu de novo. Porém continuou falando — O que será feito?
Doniz limpou a garganta, e com visível esforço, fez uma expressão digna.
— Senhor… quero dizer, senhores. Lamento por suas perdas, de forma tão… — Parou de falar, com a boca aberta. Lambeu os lábios e continuou — O pier Rosei fará uma cerimônia, e faremos o possível para dar a suas filhas um enterro digno…
— Enterro? — gritou outro dos pais, interrompendo o prefeito. Era o intendente do castro — Para todos os infernos essa ideia de enterro, Doniz. Minha menina foi estraçalhada por monstros, como os restos de uma cabra dada aos cães. Eu não quero enterro, quero essas criaturas do mesmo modo que elas foram deixadas — exclamou por fim, iniciando uma onda de murmúrios, que então se transformou em gritos de apoio.
— Acalmem-se, senhores. Eu… acalmem-se, eu entendo a sua dor, mas — ergueu a voz, tentando aplacar os ânimos, porém os brados continuaram.
— Não nos peça calma, não fostes tu que recolheu as partes. E nem é tua filha quem está aí — Um dos homens apontou para as partes e frente ao fogo.
— Não devemos ser levados pela raiva, meus senhores. Precisamos primeiro, dar às meninas um descanso digno após o sofrimento — argumentou píer Rosei, erguendo a voz de forma cerimonialista e calando algumas das vozes queixantes.
— Descanso? — Um dos homens mais barulhentos, um velho lenhador com a pele manchada cuspiu. — Como elas terão descanso, se metade delas continua para lá da floresta, píer?
Uma das mães começou a chorar ruidosamente, fazendo com que os outros recomeçassem com os berros.
Thierry olhou para o prefeito. O homem calvo, de rosto cevado e geralmente rosado, estava comprimindo os lábios trêmulos, com uma expressão rubra de nervosismo na face. Parecia não conseguir respirar.
— E o que propõe fazermos? Devo eu tomar os corpos em minhas mãos e ressuscitá-las? Não sou Ellday ou o seu primeiro. Não posso fazer isso. Sinto, pelos pais, tanto quanto sentiria se fossem minhas filhas em seu lugar, mas não há nada para fazermos, senão lamentar e dá-las o devido descanso — bradou, elevando o volume da gritaria causada pelos que se reuniam.
— Vamos atrás deles — gritou um.
— Mataremos todas aquelas criaturas, uma por uma — bradou outro.
Píer Rosei tentava em vão trazer calma ao prefeito e aos que discutiam com ele.
Thierry suspirou amargamente e deu um passo à frente. Aproximou-se da fogueira, e quando estava à vista de todos, baixou a capa, descobrindo seu rosto.
Nesse momento, como se dividindo a mesma boca, todos se calaram, num momento de expectante silêncio.
Pier Rosei, prefeito Doniz e todos os outros, olharam-no com genuína surpresa em seus olhos. Thierry tentou ignorá-los. Foi em direção às mães, e deu suas condolências, ouvindo o choro de cada uma.
Então se voltou para a multidão e aos pais revoltados. A quanto tempo não sentia o calor e o frio de falar a uma turba?
— Senhores — começou a dizer —, que querem com isso? Há aqui três mulheres chorando por suas filhas que nunca mais verão em vida. Respeitem a dor dessas mães, ao menos essa noite — clamou, vendo os rostos incertos e depois envergonhados de alguns. — O que havemos de fazer depois, poderá ser discutido noutro momento. Mas agora, deixem os entes com sua dor.
— Mas os monstros, eles continuam aqui. Podem levar mais mulheres e crianças — gritou o velho lenhador com manchas na pele.
— Ora, Manon, cale-se e deixe o sir Thierry falar — berrou Paul, o líder dos lenhadores, agarrando o ombro do homem com seu único braço, e o puxando para trás.
— Por isso, homens — continuou Thierry —, eu peço que retornem aos seus lares e cuidem de suas famílias da melhor forma que puderem. E tenho, eu, certeza de que o prefeito cuidará do resto, da melhor forma que ele puder, correto — Thierry olhou de lado para Doniz, e este pareceu balançar de surpresa.
— Erm… obviamente — bradou, tentando soar confiante.
Thierry voltou a olhar para a multidão, ouvindo os murmúrios, suspirando em alívio ao vê-los amainando.
Então um homem idoso veio em direção ao fogo, separando-se do resto da multidão.
Era magro, como se não comesse a muito tempo, estava pálido, com uma tez doentia, e tinha um rosto que parecia moldado para uma expressão de constante tristeza.
Passou pelos pais e parou de frente para os corpos dispostos na toalha. Observando-os em silêncio.
— Cuidar de nossas famílias, o senhor diz? — disse, sem deixar de olhar para os membros — Eu cuidei do meu menino por mais vinte anos depois que minha esposa faleceu. Dei-lhe o nome de Chamlet. O vi pescar o primeiro peixe. Ensinei-o a cultivar, e dar valor ao que crescia no solo. Dava-lhe broncas quando perdia dinheiro no jogo. E dividia com ele taças de vinho quando voltava para casa alegre, dizendo que tinha ganhado — sorriu de forma amarga, olhando para Thierry e então engoliu em seco. — Preocupei-me quando entrou na guarda, alistado pelo cavaleiro.
“Ele não era corajoso, mas mesmo assim foi, dizendo que talvez poderia fazer algum dinheiro. Na manhã em que partiram para lutar com os ursos, pedi que voltasse vivo. Queria que ele retornasse, não importando como, apenas desejava o filho de minha mulher ao meu lado. Queria ver seus filhos, meus netos. Queria que os ensinassem a cultivar a terra, que eles chorassem por mim e me enterrassem. Queria-o aqui. Porém ele nunca voltou. Minha casa está vazia, senhor Thierry. Não há o que cuidar mais — terminou, com as lágrimas escorrendo pelo rosto magro.
— Sinto, realmente. No entanto, se dermos ouvidos à raiva, mais irão morrer dessa forma — declarou Thierry.
— Não. Não sente — o velho sacudiu a cabeça — Se não entende esses homens como eu, então não sente. Desejava ter ido eu, lá, e ter morrido no lugar de meu filho. Isso é o que nós sentimos, meu senhor.
Um grito de afirmação irrompeu do meio dos homens amontoados. Seguido por outro. Então, como em coro, a multidão voltou a clamar pela mesma coisa.
Thierry fechou os olhos, engolindo em seco.
Em suas memórias viu um homem com o manto do pardal azul, erguendo a voz contra uma multidão furiosa, da qual ele próprio fazia parte.
Então abriu os olhos, encarando a turba.
Soube naquele momento o que devia ter sentido aquele homem ao se ver derrotado, tal qual Thierry fora naquele momento. Porém não por cavaleiros, guerreiros e menestréis de guerra da elite dos elldens, como foi com seu antigo companheiro, mas sim por simples camponeses.
Em seu coração pediu perdão ao companheiro que não via há dez anos. E como ele deve ter feito, apenas rezou pelo porvir, em derrota.

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