Capítulo 5 - O Terror da Rua Chengyu
A luz fria e límpida do luar filtrava-se pelo papel oleado das janelas, lançando um brilho tênue que despojava o quarto de sua escuridão cavernosa e aterradora, substituindo-a por uma paz tranquila que convidava ao sono.
Ding Songyan ponderou em silêncio por um momento, depois virou a cabeça em direção ao biombo e sussurrou:
— Irmãzinha.
Não houve resposta, exceto pelo som fraco e rítmico de uma respiração constante, que só se podia ouvir prendendo a respiração e concentrando-se intensamente.
“Ela está dormindo…” Ding Songyan desviou o olhar.
Ele percebeu subitamente que não havia perguntado sobre o verdadeiro estado da Mansão Zhen, onde ela se localizava dentro da Província de Dingjiang, ou se havia estado envolvida em alguma disputa recente.
Sim, ele começou a suspeitar que o destino bizarro que acometeu seu antecessor, um mero e comum contador de histórias, poderia estar realmente ligado à Mansão Zhen.
“Esquece, pergunto amanhã de manhã…” Ding Songyan fechou os olhos, tentando pegar no sono, mas permaneceu acordado por um longo tempo.
Após se formar, trabalhou por dois anos e depois passou muitos outros construindo seu próprio negócio, sempre morando longe de sua cidade natal e retornando no máximo duas vezes por ano. Embora tivesse experimentado momentos de solidão e melancolia no meio da noite, ansiando por casa, ele se manteve, em grande parte, endurecido, muitas vezes zombando de si mesmo por ter um coração de pedra. Contudo, naquele exato momento, sentia uma inexplicável e avassaladora sensação de tristeza da qual não conseguia se livrar.
Os antigos podiam dizer: “Que possamos viver longamente e compartilhar a beleza da lua, mesmo separados por mil léguas.1”, mas para ele, esta lua não era mais a lua do seu passado, e esta manhã certamente não era a manhã de outro tempo.
De repente, Ding Qingyan murmurou algo por trás do biombo:
— Quero aprender artes marciais…
A voz foi se perdendo, e não houve mais nada.
“Falando dormindo, hein…” Ding Songyan abriu os olhos, olhando instintivamente para a tela simples.
Após algumas respirações profundas, ele sussurrou para si mesmo:
— Quem não quer aprender artes marciais?
Ele voltou o olhar para as vigas sombrias. Nesse instante, Ding Qingyan murmurou outra frase, indistinta e confusa:
— Mãe, Segundo Irmão, não vou deixar que vocês sofram bullying novamente…
Ding Songyan ficou paralisado, atônito por um longo tempo, antes de soltar uma risada seca e autodepreciativa. Em meio aos ruídos da jovem se revirando na cama, seu coração foi se acalmando aos poucos, e o sono finalmente começou a dominá-lo.
…………
No dia seguinte, a chegada do carro de coleta de dejetos humanos dissipou a escuridão e despertou a manhã.
Ding Songyan carregou seu próprio balde de dejetos até o pequeno pátio e viu seu pai, Ding Shengyi, abrindo o portão principal. O movimento fez com que os mosquitos perto do olmo se dispersassem em debandada, atraindo um enxame de mariposas que estavam escondidas em algum lugar desconhecido.
Depois de despejar o conteúdo do balde na carroça e usar a água da lavagem para nutrir a árvore, Ding Songyan ouviu Ding Shengyi, que usava um chapéu quadrado de erudito, dizer à sua mãe, Liu Yuzao, com um olhar de inveja:
— O homem encarregado daquela carroça veste roupas grosseiras por fora, mas seda por dentro. Eles são mais ricos do que os chefes de polícia do yamen.
— Este negócio de excrementos humanos é realmente lucrativo!
— Quem consegue fechar um negócio desses não é gente comum. — respondeu Liu Yuzao, indiferente.
— Na minha opinião, o Templo Dangkang é o verdadeiro benfeitor do povo. Eles oram por bênçãos e colheitas abundantes, harmonizam os fenômenos celestiais e enviam seus discípulos por todo o interior para ensinar técnicas agrícolas e a arte da compostagem. Desde que Sua Majestade ascendeu ao trono, temos tido colheitas fartas todos os anos, e o preço do fertilizante tem aumentado constantemente. — Ding Shengyi estava diante do olmo, escovando os dentes com uma escova de cerdas de porco.
E assim, a luz da manhã se dissipou em meio à conversa ociosa da família e à sua refeição simples de mingau ralo e acompanhamentos. Enquanto Liu Yuzao e os outros retiravam as tigelas e a mesa quadrada, Ding Shengyi puxou Ding Songyan para um canto.
— Você tem coisas para fazer hoje; não se prejudique. Aceite estas duas moedas de prata. — O erudito de meia-idade olhou para as costas de Liu Yuzao e colocou um pedaço de prata quebrado na mão de Ding Songyan, sussurrando: — Isso não é do cofre da família; é minha própria economia. Fique com isso.
Sem um tostão, Ding Songyan não recusou. Ding Shengyi permaneceu em silêncio por dois instantes antes de acrescentar em voz baixa:
— Tenha cuidado hoje. Não corra riscos só porque você tem o patrocínio da Mansão Zhen.
Dito isso, deu um tapinha no cotovelo de Ding Songyan, pegou um leque dobrável e saiu pelo portão.
Antes que Ding Songyan pudesse voltar à sala principal para ajudar sua mãe e irmã, Ding Daniu se aproximou, coçando a cabeça com uma expressão de vergonha:
— Segundo Irmão, não tenho nenhuma prata comigo; dei tudo para a mamãe. Se você não encontrar nada para comer ao meio-dia, venha me procurar no cais. Eu compartilharei minha comida com você.
— Certo. — concordou Ding Songyan.
Assim que Ding Daniu saiu, Liu Yuzao terminou de arrumar tudo e foi até Ding Songyan com um chapéu de véu de gaze preta.
— Hoje vou transcrever escrituras budistas. Aqui estão duas moedas de prata. — O tom da mulher era neutro, como se ela não quisesse pressionar Ding Songyan demais. — Se você ficar perambulando pelo Templo Dangkang, vai parecer muito suspeito. Se houver algo que você goste de comer, compre; se houver algo que lhe agrade, compre.
Ao receber mais uma moeda de prata, Ding Songyan não sabia o que dizer.
Ao ver sua mãe sair do pátio e fechar o portão atrás de si, Ding Qingyan, que havia penteado o cabelo em dois coques, caminhou até a porta da sala principal e acenou para Ding Songyan com um olhar travesso:
— Segundo Irmão, venha aqui, venha aqui.
Ding Songyan aproximou-se e deu uma risadinha:
— Eu jamais ousaria pegar de suas economias secretas.
A menina fez beicinho:
— Você me despreza, não é? Você não me vê como sua irmã, certo?
Ela fingiu estar prestes a chorar.
Vendo que Ding Songyan não estava acreditando em nada daquilo, ela bufou:
— Eu só queria te dar algumas moedas de cobre. Você vai ao Templo Dangkang hoje; com certeza vai querer ouvir as histórias, saber mais sobre os tempos antigos e sobre o mundo das artes marciais. Você realmente consegue se conformar em usar prata para dar uma gorjeta?
“Ela me conhece bem…” Ding Songyan realmente pretendia ouvir as histórias para obter uma compreensão preliminar do mundo.
Ele pensou por um instante e disse:
— Tudo bem, me dê um pouco.
Ding Qingyan sorriu radiante e voltou saltitando para a ala oeste, trazendo consigo uma bolsinha de dinheiro bordada com motivos florais e com um leve aroma.
Dentro havia alguns pequenos lingotes de prata e muitas moedas de cobre espalhadas.
— Essas moedas foram dadas pela Irmã Nansheng, e são as gorjetas que você me dava sempre que voltava das suas histórias. Você me dizia para guardar meu próprio dinheiro e não depender só do papai e da mamãe. Ainda tem bastante no baú… — Ding Qingyan tagarelava enquanto contava as moedas.
Enquanto falava, ela foi gradualmente se calando.
Quando Ding Songyan pegou as moedas, Ding Qingyan sorriu novamente e acenou com o punho:
— Segundo Irmão, mesmo que você tenha esquecido essas coisas, eu não esquecerei!
Ding Songyan suspirou interiormente e só conseguiu dar uma resposta superficial:
— Talvez um dia eu me lembre.
Ele examinou as moedas e descobriu que havia dois tipos principais: “Tesouro Valioso Xingping”, com a inscrição “Valor Cinco”, e “Tesouro Circulante Jianwu”, totalizando cerca de cinquenta wen.2
“Os caracteres estão em escrita regular, tradicional… Consigo reconhecê-los, mas não consigo escrevê-los…” Depois de vestir um robe tradicional3 de cor clara, Ding Songyan guardou as duas moedas de prata em um bolso costurado na parte de trás do cotovelo e colocou as moedas de cobre na bolsa em sua cintura.
Ele então perguntou:
— A mãe acredita no budismo?
— Não, — Ding Qingyan balançou a cabeça. — Mamãe vai lá a trabalho. Muitas famílias ricas, para demonstrar sua piedade, transcrevem grandes quantidades de escrituras budistas ou taoístas, seja por conta própria ou contratando outros para fazer. Como são principalmente as mulheres da casa que apreciam isso, elas gostam de contratar mulheres como mamãe, de famílias decentes e alfabetizadas. Quando eu tiver idade suficiente, também poderei ir.
— Nossa mãe ganha a vida transcrevendo escrituras? — Ding Songyan entendeu agora e confirmou que tanto o taoísmo quanto o budismo existiam neste mundo.
— Não há muito desse trabalho; geralmente acontece apenas durante festivais budistas ou nos aniversários das senhoras mais velhas das casas ricas, — disse Ding Qingyan, segurando a bolsa de dinheiro bastante pesada. — A mãe geralmente trabalha como cabeleireira; ela vai até as mansões internas para ajudar as mulheres com seus penteados elaborados, além de fazer depilação facial, limpar orelhas e assim por diante. Se não há trabalho, ela fica em casa lavando roupa e preparando comida comigo.
Ding Songyan assentiu com a cabeça e, em seguida, olhou para Ding Qingyan com certa preocupação:
— Então você costuma ficar sozinha em casa?
Ding Qingyan deu uma risadinha ao ouvir isso:
— Segundo Irmão, não se preocupe. Há cinco torres de vigia aqui, e as técnicas de cultivo da Seita Xiaoming e da família Yi são excelentes para observação de longo alcance. Ninguém vai me intimidar.
— Além disso, sou muito durona. Todos os meninos e meninas da Rua Chengyu me ouvem.
Enquanto falava, a menina acenou com o punho novamente:
— Eu sou a chefe da Rua Chengyu!
Antes que Ding Songyan pudesse responder, a garota piscou, e seu sorriso se abriu como uma flor:
— Mas fico muito feliz que você esteja preocupado comigo.
— Isso mostra que, mesmo que você tenha esquecido o passado, nosso vínculo como irmãos ainda existe!
Bang, bang, bang. O portão do pátio foi batido naquele instante.
— Ding, segundo irmão, hora de ir! — Uma voz semelhante ao grasnar de um pato soou de fora.
Ding Songyan olhou para Ding Qingyan e, vendo sua irmã assentir levemente, caminhou até o portão.
Do lado de fora, estava um jovem vestindo uma túnica azul-esverdeada de mangas estreitas, com os cabelos presos em um pano preto. Segundo a estimativa de Ding Songyan, ele tinha menos de 1,7 metro de altura. Parecia apresentável, mas estava curvado e assustadiço, com um olhar um tanto evasivo.
— Ah, a Irmãzinha Qingyan também está aqui, — disse o jovem, passando o olhar por Ding Songyan para cumprimentá-la primeiro.
“Onde mais minha irmã estaria senão em casa?” Ding Songyan ergueu uma sobrancelha para o jovem.
O jovem recuou e riu sem jeito:
— Irmão Ding, precisamos ir ao Templo Dangkang. Ouvi dizer que você teve alguns problemas ontem?
Nesse momento, Ding Qingyan gritou a alguns passos de distância:
— Xu Chang’an, espere um momento. Tenho algumas palavras para o meu Segundo Irmão.
— Tudo bem, Irmãzinha Qingyan. — Xu Chang’an assentiu rapidamente e acenou para ela.
Ding Songyan voltou para o lado de Ding Qingyan, fazendo um sinal para que ela falasse.
A garota puxou Ding Songyan de volta para a sala principal e baixou a voz:
— Aquele homem é Xu Chang’an. Ele também mora na Rua Chengyu, perto do poço. Você gostava de ir ao Templo Dangkang com ele.
— Ele… ele é um ladrão.
— Um ladrão? — Ding Songyan tocou a manga da camisa, preocupado.
Ding Qingyan riu:
— Ele não se atreveria a roubar de você. Se o fizesse, eu, a chefe da Rua Chengyu, o faria se arrepender!
— De qualquer forma, me ajude a escolher um presente hoje para dar ao terceiro filho da família Qu mais tarde. Nós o incomodamos ontem, então devemos mostrar nossa gratidão. Não devemos dever muitos favores; é difícil retribuí-los. Lembre-se, ele gosta de brinquedos mecânicos. Eu lhe darei o dinheiro esta noite.
“Essa é realmente a coisa certa a fazer…” Ding Songyan concordou com a abordagem de sua irmã.
A garota deu mais algumas instruções e explicou brevemente a situação na Mansão Zhen antes de deixar Ding Songyan e Xu Chang’an saírem da Rua Chengyu.
— Irmão Ding, o que aconteceu com você ontem? — No caminho, Xu Chang’an não conseguiu esconder sua curiosidade.
É claro que ele também estava genuinamente preocupado com Ding Songyan, pois este era, em sua própria mente, o futuro cunhado. Ding Songyan manteve a calma e a compostura, respondendo a uma pergunta com outra pergunta:
— Quando você saiu do Templo Dangkang ontem?
— Depois do mercado noturno. Vim te procurar, mas você já tinha ido embora, — respondeu Xu Chang’an sem levantar suspeitas.
“O comportamento do meu antecessor ontem foi realmente um pouco estranho…” Ding Songyan não respondeu à pergunta de Xu Chang’an, preferindo usar suas palavras para obter mais informações.
Em meio à conversa, os dois caminharam até o Templo Dangkang, na zona leste da cidade da prefeitura.
Do lado de fora do templo, havia um mercado enorme, fervilhando de gente amontoada. Havia vendedores oferecendo frutas, verduras e carne seca; joias e jade; facas, lanças e armas; leques de flores e peixes de açúcar. Havia artistas demonstrando fogos de artifício e artes taoístas, jogando cuju4 e fazendo malabarismos; e havia aqueles que tentavam atrair as pessoas para jogos de azar ou vendiam remédios divinos falsos e alcaçuz.
Em meio à cacofonia de gritos, Ding Songyan e Xu Chang’an chegaram ao lado da barraca de um contador de histórias:
— Da última vez, falamos sobre como Jin Shaochong, um verdadeiro discípulo da Seita Changliu no Reino Gan, buscava desafiar o mundo com sua espada. Quem diria que, antes mesmo de chegar a Nova Yu ou ao nosso Grande Zhao, ele seria derrotado no Monte Wuqiu, no Reino Gan, por Su Yuzhang, a quarta discípula da atual geração da Seita da Donzela Celestial, que usou os ‘Doze Caminhos do Grande Vazio’ para destruir sua ‘Técnica da Espada das Sete Mortes’? Ela até comentou que sua fraqueza era que sua ‘intenção de matar não era firme’.
— Por causa disso, Su Yuzhang tornou-se famoso em todo o mundo e foi incluído por entusiastas no Ranking da Árvore de Jade das Artes Marciais, com o comentário: ‘Claro, bonito e elegante; romântico e desinibido.’
- Esta frase vem do poema clássico Shui Diao Ge Tou, ou Prelúdio à Melodia da Água, escrito por Su Shi durante a dinastia Song na China. O verso original foi dedicado ao irmão do poeta, de quem estava separado. A lua cheia simboliza reencontro, saudade e conexão espiritual entre pessoas distantes, tornando essa frase uma das expressões mais famosas da literatura chinesa clássica sobre laços que permanecem mesmo separados pelo tempo e pela distância.[↩]
- 建武通宝 (Jianwu Tongbao) e 兴平重宝 (Xingping Zhongbao) seguem a nomenclatura tradicional das antigas moedas imperiais da China, combinando o nome de uma era ou reinado com expressões monetárias clássicas. Na tradução, optou-se por adaptar Xingping Zhongbao como “Tesouro Valioso Xingping” e Jianwu Tongbao como “Tesouro Circulante Jianwu”. O termo 通宝 (Tongbao) era amplamente usado em moedas de circulação oficial, carregando a ideia de moeda corrente, enquanto 重宝 (Zhongbao) transmite a noção de algo precioso, valioso ou de maior importância monetária.[↩]
- 直裰 (Zhíduō) é uma vestimenta tradicional masculina da antiga China, muito associada a estudiosos, monges, eruditos e oficiais durante as dinastias Ming e Qing. Trata-se de uma túnica longa e reta, geralmente de mangas amplas, usada sobre outras camadas de roupa e presa por faixa ou cinto. O nome pode ser entendido literalmente como algo próximo de “robe reto” ou “túnica reta”, refletindo seu corte simples e vertical. O Zhíduō era frequentemente utilizado por intelectuais confucionistas e praticantes religiosos por transmitir sobriedade, disciplina e elegância discreta, tornando-se um símbolo visual de refinamento acadêmico e vida contemplativa.[↩]
- É o nome de um antigo esporte chinês reconhecido pela FIFA como o principal precursor do futebol moderno[↩]
Pix da equipe:
Vento Leste (tradutor) – cd257395-b041-4a84-ac90-7489444b88cd
Porta (revisor) – ccb30f8a-8453-4908-a0c5-955a825ec93f

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