Epígrafe: Se a vida fosse sempre como no primeiro olhar.

    Vasta e oca, a escuridão pressionava de todos os lados. Um vento frio que cortava até a medula. Sombras mutáveis, flutuando, circulando. Relâmpagos silenciosos espalhavam um verde pálido e fantasmagórico, iluminando o mundo por um instante fugaz, para então desaparecerem sem deixar vestígios.

    Scree!

    O canto agudo de um pássaro perfurou os ouvidos de Ding Songyan, despertando-o abruptamente. Centelhas de lucidez romperam a névoa de seu torpor.

    “Onde… Onde estou…”

    “Um sonho?” A percepção o atingiu de estalo e, com ela, as memórias voltaram em uma enxurrada.

    “Merda!” Proferiu em um xingamento interno, amargo e furioso, enquanto começava a juntar as peças do que havia acontecido.

    “Como eu fui dar de cara com um bando de lunáticos daqueles?”

    Em sua juventude, ele fora astuto, precoce, bom nos estudos e decente nos esportes. Sempre se considerava superior, olhando os outros de cima e desdenhando de quem estivesse ao redor, a arrogância típica de quem nunca havia sido humilhado. Então ele deixou a escola, e o mundo real não demorou a colocá-lo em seu devido lugar. Sua confiança e orgulho foram despedaçados. Ele jamais admitiria isso em voz alta, mas sabia: havia se tornado inseguro e excessivamente sensível durante aquela fase da vida.

    Infortúnio acumulou-se sobre infortúnio. Sua família passou por sérios problemas. Ele poderia ter se afogado naquilo, nos padrões autodestrutivos, nas explosões de raiva, nas feridas que infligiu às pessoas mais próximas, se alguém não tivesse permanecido ao seu lado o tempo todo, encorajando-o e dando-lhe estabilidade. Pouco a pouco, ele recuperou a confiança. No fim, ele conseguira, seus negócios prosperaram e ele se tornou um homem de posses consideráveis.

    Ele achou que, dali em diante, tudo só iria melhorar. Após um banquete de negócios, decidira esticar a noite em um restaurante ao ar livre com alguns investidores e parceiros-chave, relembrando o passado e brindando ao futuro. Em dado momento, um dos investidores começou a discutir com um grupo de rapazes na mesa ao lado, e o empurra-empurra começou. Ele interveio imediatamente para mediar, tentando acalmar os ânimos. Calculando que tinha mais a perder do que eles, estava até preparado para se curvar e pedir desculpas ali mesmo. Quem poderia prever…

    “Ei, qual é o seu problema? Você vai mesmo puxar uma faca por causa de uma bobagem dessas? Se você tivesse dado na cara que era um desequilibrado, eu teria ficado bem longe. Um investidor morto é melhor do que eu morto! Que tipo de lunático faz uma coisa dessas?”

    “Que bom. Parece que ainda não morri… quer dizer, provavelmente nem acordei ainda…” Os pensamentos de Ding Songyan continuavam confusos, pesados com o mesmo torpor.

    Ele tentou se forçar a acordar do sonho. Seu corpo parecia paralisado sob algo invisível, e cada movimento exigia um esforço monumental. Seus olhos estavam presos na escuridão como se estivessem emaranhados em cortinas. Quando os abria, não conseguia enxergar claramente; quando os fechava, eles pareciam não se vedar.

    Scree!

    O canto do pássaro ecoou novamente, ecoando de algum lugar distante, como se viesse de um mundo inteiramente diferente, indistinto e enevoado. Ding Songyan moveu-se em direção ao som por instinto, tropeçando, cambaleando para a frente. A cada passo, ele ficava mais desperto. Cada passo tornava-se mais fácil.

    A escuridão ao seu redor dissipou-se como fumaça. As sombras desapareceram como figuras de um sonho. O canto incessante dos pássaros parecia ser a única coisa real naquele mundo. Então, de repente, um feixe de luz rompeu as trevas. Depois outro. E mais outro.

    Os olhos de Ding Songyan abriram-se abruptamente, mas logo se fecharam com força pelo impacto da claridade. Lágrimas marejaram seus olhos.

    Scree, scree, scree. Scree, scree, scree…

    O canto claro e brilhante de um pássaro envolveu seus ouvidos vindo de muito perto, como se estivesse separado dele por apenas uma parede.

    — Você acordou? — Uma voz seguiu-se ao som, radiante de alívio, mais bela do que qualquer canto de passarinho.

    Ding Songyan esperou que seus olhos se ajustassem à luz e os abriu novamente.

    Ele analisou seu corpo, procurando pela dor que deveria estar ali, e olhou para a pessoa à sua frente.

    Era uma garota de quatorze ou quinze anos, com o cabelo preso em dois coques espirais altos. Vestia uma túnica pálida com bordas prateadas sobre uma saia de seda amarelo-ganso. Suas feições eram harmoniosas, delicadas e vívidas, cheias de vida.

    Ela estava agachada diante dele, observando-o com evidente preocupação.

    Ding Songyan já havia frequentado banquetes de sobra, já havia comido, bebido e visto sua parcela do mundo. Mesmo assim, a beleza da garota o deslumbrou por um instante. Contudo, eram outras questões que ocupavam sua mente com mais urgência:

    “Que hospital é este? Usar hanfu durante o plantão não é pouco profissional? Não é exatamente o tipo de coisa que inspira confiança nos pacientes!”

    — Eu… Qual é o meu estado? — As palavras arranharam sua garganta, e ele notou como sua voz parecia seca, como se pertencesse a outra pessoa.

    Ao mesmo tempo, por força do hábito, começou a observar o ambiente ao redor. Bastou um olhar para que ele congelasse novamente.

    Aquilo não era um hospital. Era um templo em ruínas, com sua estátua de pedra lascada e quebrada, e ervas daninhas brotando por entre as fendas dos ladrilhos. A luz do sol entrava inclinada pelas brechas das paredes e pelas janelas vazias, trazendo consigo os últimos ecos do canto dos pássaros que se distanciavam. Ele estava sentado no chão, escorado em um pilar de madeira.

    “Confundido com um cadáver, desovado em algum lugar esquecido por Deus e encontrado por uma garota de hanfu que saiu para tirar fotos?” O pensamento emergiu de seus dias de escola passados lendo webnovels, automático e irônico.

    Ele descartou a ideia quase imediatamente. Testemunhas demais. Havia uma viatura policial estacionada na esquina. Aquele bando de idiotas jamais teria tido a chance de sumir com um corpo.

    A garota respondeu à pergunta dele com uma alegria genuína: — Eu verifiquei. Você está bem!

    “Bem?” Ele olhou para baixo, em direção ao abdômen.

    Nem um vestígio de dor… E este cenário… Estas roupas…

    “Não pode ser. Eu transmigrei? Não, por favor. Eu nem comecei a aproveitar a vida ainda!”

    Ding Songyan ergueu a cabeça devagar e olhou para a garota, escolhendo as palavras com cautela.

    — E você é…?

    Ele já havia feito uma análise silenciosa de seu corpo atual e não encontrou nada. Nem um único fragmento de memória pertencia àquela carne. Seu próprio passado, por outro lado, aguçado pelo que acabou de reviver, estava mais claro do que nunca.

    Sendo assim, tentar interpretar um papel que desconhecia só serviria para desmascará-lo. Não importava o quão rápido fosse seu raciocínio, uma mentira exigiria outras mentiras para se sustentar. Assim que tudo dependesse de farsa, ser descoberto seria apenas uma questão de tempo.

    Era melhor, portanto, falar verdades parciais. Não havia necessidade de manter um disfarce. Ele não precisaria quebrar a cabeça atuando todos os dias ou viver em constante estado de medo. As pessoas ao seu redor encontrariam suas próprias explicações plausíveis.

    A garota de coques espirais curvou-se um pouco, com os olhos brilhando de repente. Ela inclinou a cabeça com o ar brincalhão de uma atriz de teatro e perguntou com um sorriso travesso: — Meu querido irmãozinho, não reconhece a sua própria irmã mais velha?

    Ela examinou o rosto dele enquanto dizia isso. A expressão dele não mudou. Continuou sério. Continuou franzindo a testa.

    — … — O sorriso congelou no rosto dela. Algo próximo ao pânico surgiu em sua voz enquanto ela perguntava, abandonando completamente a brincadeira: — Segundo Irmão, você não se lembra de mim?

    Ding Songyan balançou a cabeça devagar, com toda a aparência de sinceridade.

    — Não me lembro de nada.

    A garota levantou-se num salto. — Vamos! Temos que ir para casa agora mesmo. Papai e Mamãe vão levar você a um médico. Ai, não!

    Ela travou no meio do movimento, congelada no lugar como uma figura pintada em uma tela de seda.

    — O que houve? — Ding Songyan perguntou por instinto.

    Ela fez uma careta de dor. — Minhas pernas ficaram dormentes.

    Ding Songyan jogou a cabeça para trás e olhou para as vigas do teto cobertas de teias de aranha.

    Ele se levantou também, confirmando que vestia um roupão de erudito na cor branco-da-lua. Sua estatura era praticamente a mesma de antes da transmigração, por volta de um metro e oitenta.

    — Pronto, melhorou! — A garota finalmente recuperou a sensibilidade nas pernas e agarrou a manga dele imediatamente, pronta para puxá-lo para fora. Ding Songyan deu um passo para trás, impassível, fazendo com que a mão dela agarrasse o ar.

    — Er… — Ela olhou para cima, com os olhos muito expressivos cheios de perplexidade.

    Ele falou, sem pressa: — Como posso saber se você é realmente minha irmã?

    — Bem… eu… — Ela o encarou, completamente sem saber o que dizer, como se aquela pergunta jamais, em toda a sua vida, tivesse lhe ocorrido como uma possibilidade. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu.

    Ding Songyan explicou, com extrema seriedade:

    — Senhorita, não me lembro de nada. Se você quisesse me fazer mal e eu simplesmente acreditasse na sua palavra e a seguisse até sua casa, eu não correria o risco de dar de cara com algo terrivelmente assustador?

    — Isso… isso é verdade… — Ela estava visivelmente convencida. Então, seus olhos brilharam. — Já sei! Sei o que fazer! Vou voltar e buscar o Papai e a Mamãe. Eles podem provar que sou sua irmã!

    Ding Songyan lançou um olhar para a garota, que claramente ainda não havia atingido a maioridade.

    — E como eu saberia se as pessoas que virão são realmente meu pai e minha mãe?

    — … — A boca dela esqueceu de fechar.

    Um longo momento se passou. Seus lábios se uniram com força. Uma névoa indistinta acumulou-se nos cantos de seus olhos brilhantes.

    Ela desabafou, magoada, urgente, meio em pânico: — Eu trago os vizinhos! Levo você ao yamen1! O Papai é escrivão no yamen. Todos os colegas dele o conhecem. Todos eles podem jurar que ele é seu pai de verdade! Eu sou sua irmã mais nova de verdade…

    — Está bem. Eu acredito em você. — Ding Songyan falou de repente.

    — Ah… — A garota olhou para Ding Songyan, atônita.

    “Assim, do nada?”

    Ding Songyan inclinou levemente a cabeça.

    — Posso notar que você está sendo sincera.

    Oferecer-se para ir à sede da administração local, o yamen, por iniciativa própria e citando tantas testemunhas, não era o comportamento de alguém tecendo uma farsa.

    “Estou pronto para apostar que você nunca assistiu ao Show de Truman!”

    — Sinceramente… — Ela inclinou a cabeça, estudando-o com cautela por um longo instante, e então murmurou sem muita convicção: — Não deveríamos ir ao yamen de qualquer forma, só para garantir? Você me deixou na dúvida se é mesmo o meu Segundo Irmão. Precisamos de outra pessoa para olhar por você… as roupas… o rosto… a altura… a marca de nascença… tudo bate…

    Enquanto ela deliberava, Ding Songyan fez uma checagem rápida em seu corpo. Sem ferimentos. A energia estava surpreendentemente intacta. Seguindo o exemplo de todos os dramas de época e novels que já havia consumido, ele uniu as mãos em uma saudação de punho cerrado.

    — Senhorita, como devo chamá-la?

    — Como deve me chamar? — Ela de repente pareceu achar graça. — Você sempre me chamou de Irmãzinha. Segundo Irmão, você realmente esqueceu tudo, não foi?

    Ela refletiu por um momento e então explicou em detalhes: — Você é o meu Segundo Irmão. Nós temos um irmão mais velho. Papai e Mamãe estão ambos vivos. Estamos aqui na Província de Dingjiang há quase meio ano, sob o amparo de nossa prima, a irmã mais velha Qin, por parte de mãe. O meu nome de batismo é Qingyan. Você pode me chamar de Irmãzinha ou Irmã Qingyan. Qualquer um serve.

    Ding Songyan absorveu a informação e permitiu que sua postura relaxasse, apenas um pouco.

    — Qual é o nosso sobrenome?

    Qingyan emitiu um som suave e ergueu a mão para prender uma mecha solta de cabelo atrás de seu coque.

    — Segundo Irmão, você esqueceu até isso? Nós somos do Clã Ding.

    “Ding…” Algo se aguçou no olhar de Ding Songyan. Um pressentimento que ele não esperava.

    — E qual é o meu nome?

    Qingyan inclinou a cabeça e o encarou por um longo tempo. Então, ela soltou um suspiro baixo e disse, num tom suave e um pouco triste: — Seu nome é Ding Songyan.

    ……….

    Notas da equipe de tradução da illusia:

    Após um bom tempo parado, o grande mestre Cuttlefish That Loves Diving lançou uma nova obra. Essa, ainda mais que todas as outras, é complexa e rica em detalhes sobre a mitologia e história chinesa. Por esse motivo, reunimos provavelmente a maior equipe que já tivemos, com o objetivo de trazer uma tradução de alta qualidade e garantir a melhor experiência possível para vocês, leitores.

    Não haverá combos de capítulos, pois estaremos focados em manter a tradução sempre em dia com o original. Ainda assim, caso desejem apoiar nosso trabalho, ficaremos imensamente gratos por qualquer doação.

    Vento Leste (tradutor) – cd257395-b041-4a84-ac90-7489444b88cd
    Porta (revisor) – ccb30f8a-8453-4908-a0c5-955a825ec93f
    Os outros dois integrantes, Douglas e Asu, decidiram não colocar os deles.

    1. Na China Imperial, precisamente a partir da Dinastia Qing, o termo se referia ao escritório administrativo que lidava com as questões burocráticas da região que se localizava. Variando desde de um magistrado de uma província aos seis ministérios.[]

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