O sol começava a sangrar no horizonte de Lancrey, tingindo o céu de um laranja profundo e melancólico. Era a exata mesma cor do fogo que ardia na garganta daquela abominação.

    No silêncio do seu quarto, Caelan piscou com força, tentando espantar a imagem que piscava atrás de suas pálpebras toda vez que fechava os olhos. O ambiente cheirava a chá de salgueiro, bandagens limpas e ao unguento de cânfora que os médicos haviam lhe dado.

    Com um chiado seco escapando por entre os dentes trincados, o garoto ergueu os braços trêmulos e puxou a camisa de linho limpa por cima da cabeça. O movimento fez suas costelas protestarem em um coro de agonia aguda.

    Ele parou de pé diante do espelho antigo que adornava o canto do quarto. A luz fraca do fim de tarde revelava a verdade que a armadura militar costumava esconder.

    Caelan encarou o próprio reflexo. Ele sempre imaginou que a primeira vez que voltasse de uma expedição nas Terras Exímias, ele teria o porte de um herói. A postura de Gravios. O olhar inabalável de um verdadeiro Explorador.

    Mas o garoto no espelho era apenas um sobrevivente quebrado.

    Uma cicatriz vermelha e recente, ainda com os pontos grosseiros dos médicos de campo, cortava sua bochecha esquerda — a lembrança da pedra estilhaçada pelas garras do Alfa. O ombro direito ostentava um hematoma tão profundo que a pele parecia tingida de nanquim e roxo escuro. Seu abdômen e costelas eram um mapa feio de marcas amareladas e esverdeadas, evidências físicas de um corpo que foi jogado contra o desespero absoluto.

    Ele engoliu em seco. A pior parte não eram os machucados. A pior parte era o frio constante no estômago. O fantasma da paralisia. O eco de uma voz no escuro dizendo “Não”.

    A porta de madeira do quarto rangeu suavemente, abrindo uma fresta.

    Caelan não deu um sobressalto. Os instintos forjados pela queda o mantiveram estático, apenas os olhos se movendo em direção à porta. Mas a tensão em seus ombros derreteu assim que ele viu quem estava ali.

    Liriel estava parada no batente. Ela usava roupas simples, os cabelos escuros presos no rabo de cavalo habitual, as duas tranças laterais caindo pelos ombros. Nas mãos, ela segurava um pequeno pote de argila contendo mais da pomada medicinal e algumas faixas de linho limpo.

    Ela olhou para o irmão, sem camisa, vulnerável diante do próprio reflexo.

    — Oi — Liriel murmurou. A voz dela, geralmente firme e analítica, saiu num fio macio e hesitante.

    Caelan abaixou o olhar para as próprias mãos, sentindo a vergonha do seu próprio medo pesar mais que os hematomas.

    — …oi — ele respondeu, a voz arranhada.

    Ela deu um passo para dentro, fechando a porta com o pé. O olhar analítico de pesquisadora de Liriel varreu as marcas no corpo dele. Ela sabia ler mapas e registros de ruínas antigas como ninguém, mas ali, ela estava lendo o corpo do irmão. E a história que ele contava era aterrorizante.

    — Como você tá agora? — ela perguntou, parando a uma curta distância.

    Caelan abriu a boca para responder o clássico “estou bem”. Era o que um recruta diria. Era o que Gravios esperaria. Mas as palavras morreram na garganta. Ele desviou o rosto, o maxilar tremendo levemente enquanto lutava contra o nó que se formava em seu peito. O silêncio que preencheu o quarto era ensurdecedor.

    Liriel colocou o pote e as ataduras sobre a cômoda. Ela suspirou, um som carregado de uma empatia dolorosa, e deu mais dois passos, diminuindo a distância entre eles.

    — Tá tudo bem, viu? Mesmo — ela disse, a voz ganhando uma doçura rara.

    Ela parou bem de frente para ele, forçando-o suavemente a erguer os olhos.

    — Eu não sei o que você viu lá embaixo, Cae. Nem o que você ouviu… — ela fez uma pausa, os olhos marejando levemente ao ver a sombra profunda na expressão do irmão. — Mas eu sei que isso te abalou muito. Que te quebrou um pouco por dentro. Eu tô vendo isso agora. O Fronte rouba uma parte de todo mundo que vai até lá… mas, por mais que a gente ainda pense no escuro, pelo menos você tá aqui agora, irmãozinho. Inteiro. Vivo.

    O impacto daquelas palavras quebrou a última represa dentro de Caelan.

    A exaustão de tentar ser uma estátua de pedra finalmente ruiu. Um sorriso trêmulo e frágil puxou o canto dos lábios machucados do garoto. Ele não era um herói de lendas. Era só um garoto que quase perdeu a vida e a irmã de criação, Mirel, nas entranhas do mundo.

    Caelan deu um passo à frente, abrindo os braços para abraçá-la.

    O movimento brusco fez uma pontada violenta rasgar suas costelas. Ele soltou um grunhido gutural de dor, as pernas vacilando.

    Mas ele não caiu. Liriel foi mais rápida. Ela o segurou firmemente, passando os braços ao redor das costas dele com cuidado cirúrgico para não apertar os hematomas, e o puxou para um abraço seguro, afundando o rosto no ombro não machucado do irmão.

    Ela cheirava a pergaminho e sabão de cinzas. Cheirava a casa.

    Caelan fechou os olhos com força, escondendo o rosto na curva do pescoço dela.

    — Eu prometo pra você, Liriel — Caelan sussurrou. A voz embargada, rasgada pela emoção, mas carregando o nascimento de uma convicção dura como aço. — Eu vou acabar com aquela coisa. Eu tive medo… tanto medo que eu esqueci como se respirava. Mas da próxima vez… da próxima vez eu terei coragem.

    Liriel apertou levemente o abraço, uma de suas mãos subindo para fazer um carinho lento e reconfortante nas costas enfaixadas do irmão. Ela o conhecia. Sabia que aceitar o próprio medo era o primeiro passo para não ser devorado por ele.

    — Então promete que não vai morrer tentando também, seu idiota — ela sussurrou de volta, a voz trêmula entregando o choro contido.

    Caelan apertou o tecido da roupa dela.

    — Eu prometo.

    Eles ficaram ali por longos minutos, uma ilha de humanidade no meio do quarto silencioso, enquanto o sol terminava de se esconder lá fora, afundando Lancrey nas sombras do crepúsculo. O abraço era uma âncora, puxando Caelan de volta das profundezas da Cratera de Ashfall para a superfície da realidade.

    Lentamente, Liriel se afastou. Ela passou as costas da mão nos próprios olhos e deu um sorriso complacente, batendo de leve no peito dele, num lugar onde não havia hematomas.

    — Quando estiver melhor, e se quiser me contar o que realmente aconteceu lá embaixo, você sabe onde me achar, nas bibliotecas ou nos mapas — ela disse, retomando um pouco da postura prática, pegando o pote de argila da cômoda. — Mas agora, senta aí na beirada da cama. Vamos trocar essa pomada.

    Caelan obedeceu, sentando-se devagar enquanto o frio do entardecer começava a invadir o quarto. Ele olhou para a janela e, em seguida, para o pequeno papel dobrado com o selo de cera negra de Gravios, repousando na cabeceira.

    Ao pôr do sol.

    O sol havia se posto. A hora da verdade no escuro estava apenas começando.

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