A adrenalina é uma mentirosa cruel. Ela convence o corpo de que os ossos não estão quebrados, de que os músculos não estão rasgados e de que o sangue perdido não faz falta. Mas, assim que a escuridão do Fronte começou a ceder lugar à névoa cinzenta e mais rala da superfície, a mentira acabou.

    A cada passo que os afastava das Terras Exímias, o veneno do cansaço se infiltrava mais fundo.

    O silêncio entre eles não era mais tático; era exaustão absoluta. Vorn arrastava a perna direita, usando a maça como uma muleta improvisada, o rosto pálido pela perda de sangue. Trok caminhava com a besta abaixada, os olhos vidrados, o peito subindo e descendo de forma irregular. Gravios liderava a marcha. A postura do General, sempre ereta e inabalável como as estátuas da cidade morta, agora pendia levemente para o lado esquerdo. Sua armadura amassada parecia pesar toneladas.

    Logo atrás, Caelan mantinha um braço firme ao redor da cintura de Mirel, sustentando quase todo o peso da garota. Ela mancava, os olhos semicerrados, a respiração fraca. O próprio Caelan sentia agulhas quentes perfurando suas costelas a cada lufada de ar. Seus joelhos ameaçavam dobrar a cada irregularidade do terreno.

    Mas então, através da névoa espessa e do cheiro de cinzas, um brilho alaranjado cortou a escuridão.

    Não era o fogo doentio de uma abominação. Era o calor tremeluzente dos braseiros colossais de Lancrey.

    A base da muralha do Fronte erguia-se majestosa, uma cicatriz de pedra e fogo separando a humanidade do esquecimento. Apenas ver as chamas dançando no topo dos portões fez um suspiro coletivo e trêmulo escapar dos lábios secos do esquadrão. Era a linha de chegada.

    No alto da muralha, acima dos pesados portões de ferro, o vento frio castigava as tochas. O General Kenshi, um homem de postura esguia, com o rosto marcado por cicatrizes de garras antigas e cabelos curtos grisalhos, mantinha os binóculos de latão pressionados contra os olhos. Sua expressão era uma máscara de tensão.

    Ao seu lado, dois soldados da vigília noturna trocavam sussurros nervosos.

    — Já se passaram doze horas do limite, senhor — murmurou um dos vigias, apertando a lança. — O esquadrão do General Gravios nunca se atrasa. Se eles não voltaram até agora…

    — Cale a boca e vigie a névoa, soldado — cortou Kenshi, a voz ríspida, sem afastar os binóculos do rosto. Ele conhecia Gravios há vinte anos. Sabia que o homem era uma montanha de teimosia, mas o Fronte não respeitava montanhas. O Exímio engolia lendas no café da manhã.

    Kenshi ajustou o foco das lentes, varrendo a borda da floresta petrificada.

    E então, ele viu.

    Cinco silhuetas disformes emergiram da névoa. Não marchavam. Arrastavam-se. Pareciam fantasmas arrancados do submundo.

    Kenshi abaixou os binóculos bruscamente, os olhos cravados na planície.

    — Pelos Deuses… — ele sussurrou. Então, virou-se para o pátio interno, a voz explodindo com a autoridade de um trovão: — ABRAM OS PORTÕES! O ESQUADRÃO ESTÁ DE VOLTA! EQUIPES DE RESGATE, AGORA!

    Os soldados na muralha congelaram por uma fração de segundo antes de a surpresa dar lugar à euforia. Gritos ecoaram. O som estrondoso de correntes e engrenagens começou a girar, erguendo o colossal portão de ferro negro.

    Lá embaixo, o som mecânico chegou aos ouvidos do grupo de Gravios.

    Foi o gatilho.

    A mente de um Explorador no Fronte opera sob a premissa de que qualquer fraqueza significa a morte. Mas, ao ouvirem os portões se abrindo, ao verem dezenas de soldados correndo em sua direção com tochas e macas… a mente entendeu que eles estavam seguros. E, quando a mente desliga a chave da sobrevivência, o corpo cobra a conta.

    O primeiro a ceder foi Gravios.

    O homem de ferro, a Lenda de Lancrey, parou de andar. Ele olhou para os soldados se aproximando, soltou um suspiro longo, e suas pernas simplesmente falharam. Ele não caiu de joelhos; desabou de uma vez, a armadura colidindo pesadamente contra a terra cinzenta. A escuridão tomou sua visão antes mesmo que seu rosto tocasse o chão.

    — General! — Vorn tentou avançar, mas seu corpo também desligou. O gigante tombou para o lado, a maça rolando de sua mão inerte. Trok caiu de joelhos, vomitando bílis e sangue na terra.

    Caelan apertou o braço ao redor de Mirel, tentando dar mais um passo. Ele via as tochas balançando. Via Kenshi correndo à frente dos médicos, gritando ordens que soavam abafadas, como se Caelan estivesse debaixo d’água.

    Só mais um passo, Caelan pensou.

    Mas a garota pesou demais. O mundo girou em um borrão alaranjado e negro. As pernas de Caelan tremeram violentamente, os joelhos cederam e ele desabou sobre a terra fria, protegendo o corpo de Mirel com o próprio na queda.

    A última coisa que Caelan sentiu antes de perder a consciência foi a mão áspera de Kenshi agarrando seu ombro, e a voz desesperada do General ecoando:

    — Tragam os médicos! Urgente! Não deixem eles morrerem na porta de casa!

    O som não era de vento. Nem de pedra caindo. Nem de vozes sussurrando no escuro.

    Era o tintilar suave de vidro contra vidro.

    Caelan piscou. A luz era branca, filtrada por um tecido grosso, ferindo seus olhos por um momento. O cheiro de podridão e ozônio havia sumido, substituído pelo aroma ardido de álcool destilado, sálvia e linho limpo.

    Ele tentou puxar o ar e sentiu o peito repuxar. Estava sem armadura. Sem a túnica suja. Seu torso estava despido, firmemente enfaixado do abdômen até as costelas. Havia curativos grossos sobre o ombro direito, uma faixa cobrindo parte da testa e unguento espalhado sobre cortes que ardiam nos braços.

    Ele estava em uma tenda médica do acampamento interno.

    — Devagar, garoto. Seus pulmões engoliram poeira suficiente para soterrar uma vila.

    Caelan virou o rosto lentamente. Um médico militar, vestindo um avental manchado de ervas e sangue antigo, moía algo em um pilão de pedra na mesa ao lado. Ao notar que o paciente havia despertado, o homem limpou as mãos em um pano e se aproximou da maca.

    — Como você se sente? — perguntou o médico, segurando o pulso de Caelan para checar os batimentos.

    Caelan abriu a boca, mas a garganta parecia lixa. Ele engoliu em seco. O pânico subitamente arrepiou sua espinha quando ele tentou mover os pés para se sentar e percebeu que o comando não chegou aos membros.

    — Minhas pernas… — a voz do garoto saiu num sussurro rouco e desesperado. — Eu não… não sinto minhas pernas.

    O médico deu um sorriso brando e empurrou o ombro de Caelan de volta para o travesseiro.

    — Fique calmo. É o efeito dos analgésicos. Você estava com tantas microfraturas e distensões musculares que, se deixássemos você acordar sentindo tudo, entraria em choque. O bloqueio vai passar em algumas horas. O General Gravios e os outros também estão apagados pelas mesmas poções. Vocês trouxeram o inferno nas costas, garoto.

    Caelan soltou o ar, o alívio lavando o terror que havia se formado em sua mente. Eles estavam vivos. Gravios, Vorn, Trok, Mirel. Eles haviam sobrevivido ao impossível.

    Antes que pudesse fazer mais perguntas, o tecido da entrada da tenda foi empurrado bruscamente para o lado.

    A claridade do dia invadiu o espaço por um segundo, delineando a silhueta da garota que havia acabado de entrar. Ela era alta, a postura rígida de quem carrega mais preocupação do que deveria. Os cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo prático e um tanto bagunçado, com duas mechas trançadas caindo simetricamente pelos ombros até o peitoral superior. Suas roupas careciam do couro pesado e do metal militar; eram as vestes simples e utilitárias de uma arquivista e pesquisadora.

    Era Liriel.

    O médico olhou da garota para Caelan e fez um aceno sutil com a cabeça.

    — Vou buscar um pouco de água limpa e deixá-los a sós — disse o homem, recolhendo o pilão e saindo silenciosamente da tenda, garantindo que a lona caísse e fechasse o ambiente.

    O silêncio reinou.

    Liriel ficou parada a dois passos da maca. Seus olhos desceram pelas faixas brancas no peito do irmão, pelos curativos no rosto, pelos hematomas escuros que adornavam seus braços. A respiração dela estava acelerada. A imagem romântica do Explorador triunfante não existia ali; o que restava na cama era apenas um garoto quebrado que por um milagre escapou do túmulo.

    — Caelan… — ela sussurrou. A voz, geralmente tão carregada de lógica, fatos e cinismo, agora soava frágil e trêmula, como se temesse que ele fosse uma ilusão feita pelas cinzas do Fronte.

    Caelan tentou sorrir. O canto do lábio repuxou um machucado na bochecha.

    — Oi, Liri… — ele murmurou, a voz falhando. — Eu… acho que perdi minha capa.

    Os olhos de Liriel brilharam. Ela apertou os lábios, a fachada de pesquisadora séria desmoronando por completo. A distância fria de quem estudava o Fronte através de pergaminhos não servia para nada quando era o seu irmão quem quase não voltava.

    Lentamente, uma única e pesada lágrima escapou do olho da garota, escorrendo pelo rosto sardento e caindo no chão da tenda, tão real e vívida quanto o sangue que Caelan havia deixado nas Terras Exímias.

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