Capítulo 9 - Reflexo da Verdade, parte 2
O cheiro de álcool destilado, sangue seco e suor azedo empesteava a enfermaria da caserna oeste.
Sentado na beirada de uma maca dura, Vorn trincou os dentes. Um médico novato apertava a nova tala de madeira ao redor de seu antebraço esquerdo fraturado, puxando as ataduras com uma força desnecessária. O gigante conteve o impulso de jogar o rapaz contra a parede. Sobrevivera ao impacto da cauda de um Alfa; não seria uma atadura apertada a arrancar-lhe um grito.
Passos pesados e ritmados ecoaram pelo corredor. Um soldado de elite, vestindo as cores pessoais do General Gravios, parou ao lado da maca. O mensageiro não saudou o médico, tampouco disse uma palavra. Apenas estendeu a mão enluvada, oferecendo um pequeno pergaminho dobrado.
Vorn pegou o papel. Os dedos calosos do veterano roçaram a cera negra sem brasão. Ele conhecia aquele selo. Significava urgência, silêncio absoluto e, acima de tudo, problemas extraoficiais.
O gigante dispensou o médico com um abano brusco da mão direita. Assim que ficou sozinho, quebrou o selo com o polegar e correu os olhos pelas duas linhas curtas.
Na minha casa. Ao pôr do sol.
Vorn amassou o pergaminho na palma da mão até transformá-lo numa bolota irreconhecível. A corte, os lordes e os Arquivistas podiam ter engolido o relatório oficial horas atrás, mas os veteranos do Fronte sabiam reconhecer o cheiro de uma mentira bem contada. A Lenda de Lancrey escondia algo. E, pelo visto, cobraria a lealdade de seu esquadrão naquela mesma noite.
Longe dali, nas docas de suprimentos da fortaleza, o vento gelado do crepúsculo assobiava entre as cordas de elevação.
Trok esfregava graxa escura no mecanismo metálico de sua besta de repetição. O atirador trabalhava isolado no canto de um armazém mal iluminado. Cada clique da arma o levava de volta aos escombros da praça subterrânea. Os pesadelos não o deixavam dormir, então ele limpava seu equipamento até os dedos sangrarem.
Uma sombra bloqueou a luz fraca da lamparina à sua frente. Trok ergueu o olhar, a mão escorregando instintivamente para a adaga no cinto. Relaxou ao reconhecer a farda do mensageiro de Gravios.
O soldado entregou o pergaminho e desapareceu na mesma velocidade em que surgiu.
Trok leu as instruções. Sem expressar qualquer reação, levou a ponta do papel à chama da lamparina. Observou o pergaminho escurecer, contorcer-se e virar cinzas, caindo esfarelado no chão de pedra. Um encontro secreto. Um sorriso sombrio repuxou o canto de sua boca. O atirador sempre preferiu operar nas sombras.
Nos alojamentos femininos da ala leste, o silêncio era uma dádiva rara.
Mirel sentou-se no chão de pedra do próprio quarto, abraçou os joelhos e cravou os olhos na parede nua. A garota não usava a cama. Os colchões de Lancrey pareciam macios demais para alguém cujo corpo ainda sentia o peso esmagador de uma pata monstruosa.
A mente dela fervilhava. O fedor de memórias queimadas, as vozes distorcidas do abismo, o lamento enlouquecedor do fogo devorado. O Fronte havia deixado uma marca em seu sangue, uma conexão doentia que ninguém ali compreendia.
Um leve raspar na madeira da porta chamou sua atenção.
Não houve batida. Apenas o som suave de um papel deslizando por baixo da fresta inferior da porta.
Mirel levantou-se devagar, os pés descalços sem produzir qualquer ruído. Apanhou o pergaminho no assoalho. A cera negra quebrou-se facilmente sob seus dedos finos. Ela leu as palavras de Gravios.
Os grandes olhos da garota piscaram lentamente no escuro. Ela dobrou o bilhete e o guardou no bolso interno de sua túnica gasta. Precisava ver Caelan. Precisava saber se o garoto refletia o mesmo pavor que ainda gelava suas próprias veias.
O sol afundou no horizonte, arrastando a luz consigo e afogando Lancrey nas sombras do crepúsculo. As fogueiras nos altos muros crepitaram com mais força, travando sua guerra diária contra a noite.
A residência do General Gravios ficava em um setor reservado, erguida em pedra maciça, sem a ostentação dos lordes, mas fortificada como um reduto militar. O beco nos fundos da casa era um corredor estreito, úmido e mergulhado num breu quase completo.
Trok adorava aquele tipo de ambiente.
O atirador deslizou pelo beiral do muro adjacente, os passos leves amortecidos por botas de couro macio. Desceu para o beco com a graciosidade de um gato, caindo sobre as pontas dos pés sem produzir um único estalo. Ajustou a besta nas costas e sorriu, convencido. Sobreviver ao Fronte afiava os sentidos de um batedor à perfeição.
Ele avançou dois passos em direção à porta dos fundos de carvalho escuro, mas parou abruptamente.
O instinto pinicou sua nuca. O vento mudou de direção, trazendo um leve farfalhar de tecido vindo de cima.
Trok nem sequer sacou uma arma. Apenas cruzou os braços, tombou a cabeça para trás e cravou os olhos na borda do telhado da mansão de Gravios. Lá, fundida às telhas e à chaminé apagada, a pequena silhueta de Mirel observava o beco.
— Sua técnica de ocultação está enferrujada, novata — Trok sussurrou para o alto, a voz carregada de um sarcasmo amistoso. — Dá pra ouvir sua respiração do outro lado do muro. Da próxima vez, controle a ansiedade. E cuidado para não escorregar no musgo dessas telhas.
Mirel não respondeu. Apenas inclinou a cabeça, os olhos brilhando levemente na penumbra, focados não em Trok, mas em algo imediatamente atrás dele.
O arrepio na nuca do atirador se transformou num bloco de gelo.
Antes que Trok pudesse girar o corpo ou levar a mão à adaga, uma massa colossal bloqueou a pouca luz que restava no beco.
— Quem está enferrujado aqui é você, atirador — uma voz profunda, grave e perigosamente silenciosa ressoou a um palmo do ouvido direito de Trok.
Trok sobressaltou-se, os ombros enrijecendo. Virou o rosto milímetro por milímetro.
Vorn estava ali. O gigante veterano, mesmo ostentando uma tipoia grossa no braço esquerdo e uma armadura pesada, havia percorrido os últimos cinco metros do beco sem emitir o menor som de bota contra pedra.
O veterano olhou para a expressão perplexa de Trok e soltou um sopro curto pelo nariz, um riso contido e rasgado que balançou seus ombros largos.
— Como… — Trok gaguejou, recuperando a postura e ajeitando a túnica. — Como um armário de metal feito você anda sem fazer barulho?
— O tamanho não importa no escuro, Trok. Importa saber onde pisar — respondeu Vorn, o tom voltando à seriedade letal de sempre. Ele lançou um olhar para cima, acenando de leve para Mirel, que desceu do telhado pelas treliças com uma agilidade silenciosa, pousando ao lado deles.
Vorn olhou para a porta de carvalho fechada à frente. A brincadeira acabou ali. O peso da realidade esmagou o breve alívio do reencontro.
— Ninguém nos seguiu — informou Vorn, abaixando ainda mais a voz. — Gravios deve estar esperando.
O gigante ergueu a mão boa e bateu a junta do indicador duas vezes contra a madeira grossa. Dois baques ocos e secos.
O trinco de ferro girou internamente, e a porta abriu com um rangido arrastado, revelando a escuridão do interior da casa, pronta para engolir os três sobreviventes

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