Cap 18 - Laminazinha
A sala estava fria, Sorlot encarava Many atônito, até que ela falou.
— Aquele monstro… Eu quase morri! — seu tom era indecifrável.
Sorlot pareceu pensar por um segundo, então perguntou.
— O rei Mantis…
Ela pressionou o dedo contra os lábios, interrompendo.
— Não fale esse nome, as paredes têm ouvidos… E só os Deuses sabem se aquele desgraçado consegue ouvir a gente!
Sorlot enrijeceu sua lâmina, lembrando o curto momento em que presenciou o homem.
Era um homem alto e belo, seus louros caíam como uma cachoeira. Seus olhos, no entanto, eram vis e maldosos. Mantis já havia feito muitas coisas em seu legado, muitas coisas ruins.
Sorlot o viu batalhar uma vez, sua lâmina estremeceu com a lembrança. Era lindamente letal, ele dançava entre as criaturas, como um redemoinho de morte.
— O que exatamente ele tem que quase te matou? — Sorlot perguntou com cuidado.
— Eu não sei direito… Mas eu tenho uma teoria — Many estremeceu com a ideia — Acredito que ele tenha o coração de algum ser acima…
Desviando seu olhar para o garoto desmaiado a sua frente, ela acrescentou.
— Igual ao olho desse moleque!
Sorlot balançou seu cabo em descrença.
— Espera… O Miguel!? Como assim ele tem um capeta dentro do olho?
Sorlot recuou lentamente, sem parar de falar.
— Como eu não percebi uma coisa dessas!!?
Antes que Many o respondesse, um som ecoou o salão.
Knock!!
Knock!!
Sorlot saiu do choque e girou no ar, assumindo uma posição defensiva.
Many já estava ao seu lado, uma katana apareceu em sua mão. Ela gritou dali mesmo.
— Quem é!!??
Não houve uma resposta, no entanto.
Knock!!!!!!!
Knock!!!!!!!
As batidas estavam mais fortes, a madeira da porta rangeu. Uma chuva de pó caiu das vigas.
O som atravessou o salão como um trovão. Até Miguel, desacordado, franziu a testa.
Então, uma voz zombeteira veio de trás da porta. Era uma voz masculina.
— Manyzinha… Por que você sempre sai por aí arrumando problemas? — a voz riu.
O salão ficou estranhamente silencioso.
Sorlot congelou no ar. Pela primeira vez naquela noite, sua lâmina não girou.
Many apertou o cabo da katana até os nós dos dedos ficarem brancos.
Sorlot estremeceu, então sussurrou.
— Tira Miguel daqui… — sua voz de Sorlot saiu firme. Firme demais.
Many conhecia aquela voz. Era a voz que ele usava quando estava preocupado demais para admitir.
Many balançou a cabeça.
— Por que você é sempre tão confiante?
Sorlot já estava flutuando em direção a porta, antes mesmo de Many concordar.
— Eu sempre saio vivo no final… A menos que mandem um Deus em pessoa, eu serei confiante! — sua voz era calma e zombeteira.
Many não respondeu, colocando Miguel em suas costas, o garoto não era pesado… Seu peito subia e descia, fazendo Many não esquecer que ele estava vivo.
Indo para o fundo do salão, Many parou diante de uma parede de pedra lisa. Ela se inclinou levemente e sussurrou alguns nomes esquecidos.
Por um instante, nada aconteceu. Então ondulações percorreram a superfície da parede, como gotas caindo sobre a água de um lago. A pedra perdeu sua cor, tornando-se translúcida aos poucos.
Atrás dela, um corredor oculto revelou sua silhueta nebulosa.
Sem hesitar, Many atravessou a barreira. A superfície oscilou ao seu redor como a água de uma lagoa sendo tocada.
Enquanto a parede lentamente voltava ao normal, ela se virou por um momento. Seu rosto estava calmo. Seus olhos, tristes. Então ela sussurrou, baixo o bastante para que Sorlot não ouvisse.
— É melhor você não morrer antes de pagar o que me deve.
Assim ela correu, seus passos não fizeram nenhum barulho sequer.
— Ei! Sua mãe não te ensinou que atrapalhar reencontros é falta de respeito? — Sorlot zombou.
Tudo ficou em silêncio por um segundo, a poeira pareceu congelar no ar. Então a voz respondeu.
— Oh, laminazinha… Há quanto tempo! Não pensei que te encontraria aqui!
Ele soltou uma gargalhada.
— Que felicidade!
Então, a porta se partiu ao meio. Estilhaços de madeira voaram por todo o lugar.
Um homem de cabelos rosados surgiu do que restava da porta. Seus olhos eram lilases, e seus lábios se curvavam em um sorriso.
Ele olhou em volta, suspirando, então falou.
— Laminazinha… Pode me dizer onde estão os outros? — sua voz era ameaçadora.
Sorlot riu.
— Você vai encontrar eles no inferno, traidor!
Sorlot não esperou uma resposta. Ele avançou, o ar explodiu atrás dele. Sua lâmina atravessou o salão como um relâmpago prateado, rápida o bastante para transformar o próprio corpo em um borrão impossível de acompanhar.
Então o mundo desacelerou, não para Sorlot… para o homem.
Enquanto a espada avançava com toda sua velocidade, o desconhecido apenas virou a cabeça na direção dela. Como se estivesse observando uma folha carregada pelo vento.
O golpe passou. Não porque Sorlot errou, e sim porque o homem já não estava mais ali. Um arrepio percorreu a lâmina. De repente, ele estava ao lado dele. Sem pressa, sem esforço, sem sequer mudar a expressão.
— Continua impaciente, laminazinha — em sua voz não havia desdém, apenas um certo sentimento de dó.
Então ergueu um dedo, apenas um.
Toc.
O peteleco atingiu a ponta da lâmina. O mundo voltou ao normal no mesmo instante. Um som ensurdecedor rasgou o salão.
Sorlot desapareceu, não voou, ele desapareceu. O solo explodiu dezenas de metros adiante, toneladas de pedra sendo arrancadas como se fossem terra solta. Um segundo depois veio o estrondo.
Toda Umbrália tremeu.
Um buraco de quase quinze metros foi aberto na rocha, rachaduras se espalharam pelas paredes como teias negras. Lá em cima, nas ruas de Umbrália, janelas vibraram. Algumas se quebraram. Pessoas ergueram a cabeça assustadas. Como se um trovão tivesse nascido debaixo da cidade.
Sorlot desligou por um segundo, então voltou para o salão.
— Tai… Por que você sempre é tão desrespeitoso com os mais velhos — Sorlot se chacoalhava para tirar a poeira.
— Por que eu teria respeito por um trambiqueiro? — ele riu.
— Por isso sua irmã fugiu… Talvez se você fosse um pouco mais normal… Ela ainda estivesse aqui.
O sorriso desapareceu do rosto de Tai, o tempo desacelerou mais uma vez. Caminhando calmamente em direção da espada, ele lhe deu um chute.
Sorlot voou novamente… Indo parar no mesmo buraco que estava. Sua mente estava em branco, ele não conseguiria ganhar aquela luta se continuasse assim.
“Maldição! Pensa, pensa! Como eu derroto alguém que deixa tudo lento?”
Sua lâmina vacilou por um instante, então brilhou em descoberta. Uma risada abafada escapou dele.
“É só eu ser mais rápido que ele! Deuses… Como eu posso ser tão inteligente?”
Sorlot se concentrou. O mundo pareceu mudar, o ar ficou pesado, os sons se distorceram, o salão desapareceu. Não havia pedra, não havia poeira, não havia Tai. Apenas velocidade.
Então ele avançou, o chão explodiu por onde ele passou. Uma onda de vento percorreu o salão, sua lâmina cortou o ar tantas vezes que parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo.
Tai ergueu os olhos e pela primeira vez foi tarde demais. O tempo não desacelerou, não porque Tai falhou, mas porque Sorlot já estava lá. Um corte atravessou o rosto impecável do homem.
Uma fina linha vermelha surgiu em sua pele, então o sangue escorreu. Uma gota, depois outra. Pingando sobre a pedra lisa do salão. O sorriso de Tai desapareceu. Sorlot soltou uma gargalhada.
— Tenta me acompanhar, criança maldita!

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