Cap 16 - Chinelos não são crime!
Um jovem caminhava pelas ruas movimentadas. Uma pequena espada pairava sobre seu ombro direito, sussurrando algo em seu ouvido.
— Então… Para onde vamos agora? Derrotar alguns vilões? Roubar uma catedral? Bater em gente desconhecida?
Miguel lançou um olhar de desaprovação à espada.
— E como você planeja fazer tudo isso? Um ventinho já te derruba.
A espada soltou um suspiro cansado.
— Me respeite, garoto! Para onde estamos indo então?
Miguel pensou por alguns segundos. Ele tinha acabado de ter uma ótima ideia, usar Sorlot como seu guia!
— Bem… Eu queria comprar roupas — soltando um suspiro, ele continuou — Eu estou com essa roupa faz umas duas semanas… Meus pés estão congelando nesses chinelos.
Sorlot encarou o garoto com desdém.
— Quando você falou para acompanhá-lo em sua aventura, eu não esperava um dia de princesa — soltando um suspiro, ele acrescentou — Bem, tanto faz… Eu conheço uma!
A espada ignorou a revirada de olhos de Miguel, saindo na frente.
— Sigam-me os bons!
A espada cortava a multidão, como um pequeno raio. Miguel acelerava o passo para não perdê-lo de vista.
Eles passaram por todos os tipos de barracas, desde as baratas até as mais luxuosas. Não parando em nenhuma, no entanto.
Eles estavam prestes a passar uma ponte, que ultrapassava um córrego. Até a espada parar abruptamente e então dizer.
— É ali embaixo — ele disse apontando sua lâmina para baixo da ponte.
Miguel encarou a escuridão debaixo da ponte, seus olhos se estreitando em pura desconfiança.
— Ou… A gente pode procurar uma loja normal?
Sorlot girou no ar de forma dramática, claramente ofendido com a sugestão.
— Loja normal? Garoto, você quer qualidade ou quer pagar caro por pano costurado?
Miguel suspirou pesadamente, esfregando o rosto.
“Eu só queria um par de sapatos e não ser esfaqueado em um beco escuro”
— Eu quero não ser assaltado, de preferência — sua voz soava cansada.
A espada balançou a lâmina para cima e para baixo, concordando vigorosamente.
— Exatamente! Por isso estamos vindo aqui. Ladrões não assaltam alfaiates debaixo de pontes!
Miguel deu um sorriso nervoso.
— Grande analogia Sir. Sorlot! — balançando a cabeça, Miguel assumiu a frente para descer a ponte. A espada o seguiu.
Assim que desceram, a sombra da ponte engoliu a luz do dia. Apenas uma porta de madeira acinzentada era iluminada por fios de luz que caíam das frestas da ponte.
— Devemos bater? — Miguel lançou um olhar defensivo para a espada voadora.
— Deixa comigo! Consigo até um descontinho — Sorlot flutuou até a porta.
“Deuses…”
A pequena espada usou o próprio cabo para bater na porta.
Toc. Toc. Toc.
— Tem alguém vivo aí ou você faliu? — a espada perguntou.
Tudo ficou em silêncio por alguns instantes, fazendo Miguel engolir em seco. Até que a porta se abriu em um rangido.
Uma garota de óculos apareceu atrás dela, seu cabelo rosa estava bagunçado, ela usava um macacão de urso, devia ser um pijama. Enquanto piscava levemente, ela bocejou.
— Quem ousa me atormentar durante meu sono da beleza… Malditos sejam!
Ela estreitou bem os olhos encarando a dupla.
— Cacete! Sorlot! Você ainda está vivo?
Desviando o olhar para o outro garoto, ela perguntou.
— E quem é esse menino? — fazendo uma expressão surpresa, ela acrescentou — Não me diga que voltou a extorquir pessoas indefesas de novo!?
Miguel virou lentamente o rosto para a espada.
— Você fazia o quê?
Sorlot ficou em silêncio por um segundo.
— Vamos para o que interessa! Many! Há quanto tempo, vejo que sua personalidade continua horrível!
Many lançou um olhar feroz para a espada.
— Olha o jeito que você fala, desgraçado!
A espada não retrucou, mudando de assunto.
— Bem, meu amigo aqui… Meu novo chefe! Quer uma roupa super legal para ele salvar o mundo!
A garota encarou Miguel por alguns segundos. Então, uma luz etérea percorreu seu corpo.
O macacão de urso desapareceu, transformando-se em um elegante terno preto. Uma gravata branca surgiu em seu pescoço, enquanto uma fita métrica se acomodava sobre seu ombro. Os cabelos bagunçados se prenderam sozinhos em um coque impecável, atravessado por um lápis.
Em um instante, a garota sonolenta havia desaparecido. Em seu lugar estava uma profissional.
Miguel encarou atônito.
— Qual a necessidade dessa entrada triunfal?
Many já estava voltando para dentro, quando respondeu.
— Quase nunca recebo visitas! Me deixe aproveitar pelo menos um pouco!
Ela entrou pela porta sem sequer olhar para trás.
Sorlot soltou um suspiro.
— Types…
Miguel deu-lhe um olhar curioso.
— O quê?
A espada balançou seu cabo em descrença.
— Todos eles adoram fazer uma entrada dramática. Quanto mais raro o Type, maior o ego.
Os lábios de Miguel se curvaram em um sorriso. Ele já tinha a piada pronta!
— Você é um Type?
A espada o encarou com desdém.
— Não! Pelos Deuses, não me compare a eles. É uma ofensa.
Miguel soltou uma risada abafada.
— Pois parece!
A espada saiu flutuando atrás de Many.
— Porque eu sou melhor que eles!
Miguel ficou em silêncio por um segundo, seguindo-o.
— Certo…
— Finalmente alguém que me entende.
“Eu queria ter essa autoestima”
Dentro da casa de baixo da ponte, fazia jus ao nome. O salão era grande, mesas estavam espalhadas com tecidos jogados por todo lugar. Um colchão estava em um canto, um quadro de desenho com quase 3 metros de altura, os encarava imponente, vários projetos estavam desenhados.
Era uma verdadeira bagunça!
“Tanta apresentação para isso! Meu Deus e outros Deuses!”
Many encarava o quadro, nada tirava sua atenção. Até que Sorlot quebrou o silêncio.
— Ei! A gente não tem o dia todo!
Many coçou a cabeça.
— Sabia que não se deve atrapalhar um profissional? — como mágica, o pedaço de tecido que estava em sua mão se transformou em uma tesoura.
Os olhos de Miguel se arregalaram surpresos, o fazendo cochichar para a espada que flutuava acima de seu ombro.
— O que essa maldita é?
A espada não desviou seu olhar, falando baixinho.
— Garoto, as pessoas a chamavam de moldadora de almas… Tire sua própria conclusão.
Miguel estremeceu… Era um nome um tanto assustador. Ele não sabia exatamente o significado, mas para a chamarem assim… Bom não devia ser!
“Tomara que ela só molde roupas”
Many finalmente se virou, ajeitando os óculos no rosto. Seus olhos varreram Miguel dos pés à cabeça, como se analisassem uma tela em branco… que estava completamente manchada.
O silêncio reinou no salão por alguns segundos longos e desconfortáveis.
— Horrível — a voz dela cortou o ar como a tesoura em sua mão.
Miguel piscou algumas vezes, processando o insulto gratuito.
— O quê?
— Tudo.
Ela apontou a tesoura na direção do casaco que ele usava.
— Horrível.
A ponta da ferramenta desceu para a calça.
— Horrível.
Finalmente, seus olhos pararam nos chinelos nos pés do garoto.
Seu rosto se contorceu em uma expressão de puro nojo e desdém.
— Crime.
Os lábios de Miguel tremeram levemente.
“Eu estava em coma, o que você esperava de mim? Queriam que eu dormisse com algum traje de luxo?”
O rosto de Miguel se curvou em um sorriso sarcástico.
— Se tá ruim, faz melhor, desgraçada!
Many congelou, Sorlot congelou. O salão inteiro pareceu congelar.
A espada sussurrou lentamente.
— Boa, garoto!
Lentamente, um sorriso surgiu no rosto da costureira.
— Ah… Parece que temos um cliente corajoso.
Miguel não sabia, mas naquele momento, conheceria o verdadeiro terror.

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