“Que bom que estão bem”

    Com essas palavras, fechou os olhos e começou a cair.

    Hansy abaixou-se de súbito. Deixou primeiro Hansel deitado, depois Gretel ao seu lado, em um único segundo. Arrastou-se na pedra, quase sem conseguir se levantar.

    De fato, ele deslizou no chão até chegar bem a tempo de impedir que Alucaria caísse.

    A raiz que a flagelara caiu logo em seguida, desfeita em cinzas. Mais atrás, jazia Merida, a Bruxa de Redbrook. Tinha o cajado nas duas mãos, que se mantinham em brasas. Seu rosto esbanjava um sorriso torto e olhos tremidos, incapazes de encarar nada além o próprio Hansel.

    Cedeu por fim, com a face voltada para o solo. O fogo a devorou, e sequer seu velho báculo de olmo restou.

    — Alucaria! — Hansel gritou, com a mulher em seus braços.

    Tossiu, e mais sangue escapou de seus lábios.

    O caçador arrancou o próprio casaco. Pressionou-os sobre o lado da vampira; havia um enorme buraco onde deveria existir carne e ossos.

    — Mestre… Hansel… As crianças…

    — Não fale! — impeliu, colocando-a sobre seu colo. — Você está fraca! Precisa se regenerar!

    — Pouco… Sangue… — sussurrou, de olhos semiabertos. — F-Fraca…

    Seu peito subia para puxar ar, mas se interrompia, congelado no lugar, e se recolhia. Uma mão etérea apertava-a em sua caixa torácica, agarrando-a pelas costelas e interrompendo o movimento de seus pulmões.

    Tinha a pele pálida por natureza, semelhante ao brilho da Lua cheia nos dias mais belos. Agora, sua alvura deu lugar ao minguar silencioso de um fantasma, que brilhava por conta das torrentes de suor que a cobriam.

    Hansel voltou-se para o corpo da bruxa. As chamas consumiam seus restos, já estilhaçados, no tom de carvão.

    Cerrou os dentes. Vampiros Derradeiros, maiores que seus primos mais fracos e menos racionais, não tinham a necessidade real de consumirem sangue humano. O sangue animal servia como substituto razoável, e seus sistemas digestivos recebiam bem os nutrientes vindos de qualquer alimento.

    Decerto, o sangue era para eles uma iguaria, mas também um remédio. Deliciavam-se de seu gosto, tratando-o como um vinho cerimonial diante de suas caçadas e incursões contra pequenas aldeias; beber sangue era degustar de um grande banquete. Passava por seus corpos como veias de relâmpagos, instigando suas narinas, alfinetando suas mentes. Corações incendiavam-se e batiam em frenesi, e seus instintos alcançavam a sutileza e precisão de uma fera das florestas.

    Aumentavam uma das características mais marcantes e reconhecidas dessa raça: enquanto bebessem sangue humano, seriam capazes de sobreviver à maioria das feridas e flagelos que caíssem sobre eles. Tal habilidade era natural, e até funcional diante do consumo de sangue animal, embora capaz de minguar.

    A afirmação “Não bebo sangue de humanos”, de Alucaria, ecoou em todos os cantos de sua mente.

    Privados desse alimento, mantinham suas forças curativas; contudo, maiores feridas seriam demais para que seus corpos se recuperassem.

    Perante algo daquele nível, como a princesa poderia se curar? Sem o sangue de dezenas de animais? Sem o sangue de humanos?

    O pulsar de seu peito vinha em espaços cada vez maiores. Olhos, semicerrados, jaziam fechados por completo. Sua mão segurava a de Hansy, firme, mas trêmula, e desvanecendo a cada segundo.

    Fitou o local onde Merida estava outra vez; a bruxa desaparecera nas chamas, por fim. Logo pensou que a incendiar foi um erro. Girou a cabeça, em todas as direções; não encontrou nada, claro.

    Arregalou os olhos, parando de respirar por um instante. Viu a princesa vampira minguando diante de si.

    Ela se jogou em sua frente. Salvou a vida de Hansel, um Caçador. |Resgatou aquelas duas pequenas crianças.

    Hansel, por sua vez, duvidou de suas intenções até o fim.

    “Não mais.”

    — Alucaria, Alucaria — repetiu-lhe o nome, na espera de que abrisse os olhos. — Alucaria.

    — … Hansel? — Sequer podia completar suas falas.

    — Meu sangue — disse, com o dedo sobre o pescoço. — Beba meu sangue.

    A princesa ergueu a cabeça de leve. Seus olhos saltaram por um único instante.

    — N-Não…

    Em resposta, Hansel desabotoou a gola de sua túnica. Abaixou-a, deixando o lado esquerdo de seu pescoço à vista. Ergueu a mulher rumo ao seu rosto, e repetiu:

    — Beba meu sangue, ou você vai morrer.

    Balanço a cabeça, de boca fechada.

    O Caçador estalou a língua. Como convencê-la?

    Refletiu sobre os poucos momentos que teve para conhecer a mulher chamada Alucaria Vlad Dracule. Tinha uma curiosidade nata e falta de noção em certos momentos de interação social; dizia o que pensava e era fiel aos seus princípios e promessas. De fato, prometera que levaria os irmãos sequestrados à sua mãe, realizando tudo ao seu alcance para tal.

    Desta vez, o cérebro de Hansel que estalou, num choque que vinha diante duma ideia.

    — Você disse que levaria Hansel e Gretel para sua mãe, não é? Vamos, a caçada só terminará quando os virmos sorrindo nos braços dela.

    Jogou-a sobre o ombro. Sua cabeça permanecia ao lado do pescoço do rapaz.

    — Não quer salvar os humanos de sua própria espécie? Como vai fazer isso estando morta?! Será que toda aquela força de vontade não passava disto?! — gritou, ao lado do ouvido dela.

    — Levante-se, Alucaria!

    O braço direito da princesa agarrou nas costas. Em seguida, todo o seu corpo rugiu.

    Viu-se em sua casa, quando criança, lendo histórias para Grety ao lado da lareira. Então, encontrou-se diante de seu avô, que não passava de um vulto, e entregava-lhe sua primeira espada. Em seguida, recebia seu medalhão de Caçador e sua presa de salamandra.

    Segurou um grito, de dentes cerrados. As veias em seu rosto saltaram, e seus olhos eram apertados por suas bochechas. Em seu pescoço, sentia a mais fina das lanças perfurando sua carne, atravessando a pele e tecidos e descartando fogo líquido em duas veias.

    Fez o possível para não apertar as mãos; Alucaria apoiava seu corpo sobre seus braços. Optou por uni-las, e o aperto que realizou o entre elas poderia matar um urso castanho adulto.

    Todas as eras de Vespera correram diante dele, quando experienciou as agulhas desgrudarem da garganta. O ar finalmente escapou de seus pulmões, que permanceram imóveis até então.

    Alucaria empurrou-o, e Hansel afrouxou a força dos músculos. A princesa pôs a mão em seu ombro; as duas mãos.

    — Obrigada, mestre Hansel! — Ela sorriu, agora esfregando o sangue seco em seu queixo.

    Sentou-a na pedra, como alguém colocaria um recém nascido em seu berço. O casaco ainda permanecia em seu lado, tingido de vermelho escuro.

    Ela o removeu, grunhindo de leve, e Hansel não pode deixar de arregalar os olhos. Sua barriga, que estava exposta, esbanjava marcas rubras por entre a pele alva.

    — Estou ótima! — Deu alguns soquinhos no ar. — Ah, você deveria estancar esse sangramento!

    Elevou a mão para o pescoço de Hansel, mas esse a segurou. Levou-a ao colo da mulher, e então pôs-se de pé. Estendeu-lhe a mão, que foi aceita sem hesitação.

    Alucaria apoiou-se com o braço curado no cotovelo de Hansel. Os joelhos tremeram, e seu corpo pendeu para trás. O caçador a manteve ereta, mas logo a fez ajoelhar-se.

    — Seu corpo está fraco — explicou, com um vago sorriso. Apresentou-lhe seu casacão, deixando-o nas mãos da princesa. — Vista isso por enquanto, senhorita.

    Em resposta, ela arregalou os olhos. Fitou o chão e acenou de leve. Jogou a veste sobre os ombros e permaneceu naquela posição, sem soltar um único pio.

    — Podemos esperar a senhorita se recuperar. — Checou as duas crianças no chão, que ainda jaziam no mundo dos sonhos. — Sente algum mau estar, senhorita Alucaria?

    Ela negou com a cabeça.

    — Apenas me feri demais — hesitou, coçando a bochecha —, e há muito que não bebo sangue humano.

    — A abstinência cria efeitos adversos?

    Desta vez, a cabeça moveu-se num aceno positivo.

    Hansy deixou o ar entrar em seus pulmões. Contemplou Hansel e sua irmãzinha Gretel, ainda deitados, e princesa dos vampiros, Alucaria, caída em seus pensamentos. Passou a mão no próprio queixo algumas vezes, até que algo veio em sua mente.

    — Senhorita Alucaria — chamou-a —, já sei como sairemos daqui.

    […]

    — Por aqui, vovô.

    Gretel ia na frente, com seu medalhão sobre uma das mãos. Enfim ele reagiu, e o pequeno topázio nele incrustado brilhava como um vagalume na noite.
    As raízes, quase que ao mesmo tempo, secaram e contorceram-se. Seu número aumentava a cada passo, alinhadas ao caminho que o medalhão indicava em seus zumbidos. Pareceriam mais cordas escuras, não fosse a pouca luz que ainda pulsava em padrões circulares.

    Roderic não a respondeu. Fitava o caminho, com a testa enrugada e contorcida. Respirava fundo, em intervalos longos, e dava passos que ecoavam pelo labirinto subterrâneo.

    Grety suspirou. Revirou os olhos e, tendo a mão na cintura, chamou-o:

    — Meu medalhão está reagindo cada vez mais, Roderic. — Levantou a mão, com o punho fechado. — Vamos encontrar Alucaria. Tenha certeza disso.

    — A jovem senhorita estava há alguns dias sem comer. — Não olhou a caçadora nos olhos, mas permaneceu com o foco no caminho. — Ela também não possui experiência em combate.

    Gretel engoliu seco e balançou o rosto para cima e para baixo uma única vez. Desta vez, encontraram o olhar um do outro. O mordomo permaneceu com seu semblante de uma estátua.

    “Hansy, tome cuidado com essa princesa vampira”, gritou para o irmão, nas profundezas da própria mente.

    “Telepatia Vonwyll! Ouça, Hansy, ouça!”

    Pôs as mãos sobre as têmporas, e forçou os olhos fechados. Roderic uniu as sobrancelhas, franzidas e erguidas de leve.

    Seguiram a deixa do medalhão, ambos quietos. Gretel analisava as raízes recaídas com seus olhos, que nunca lhe mostraram uma mentira. E desta vez não poderia ser diferente.

    Com a cabeça calma, por fim lembrou-se do que sua mestra, Rouge Hood Grimm, dizia-lhe sobre a raça das bruxas.

    “Deturpadoras da ordem; víboras que, descontentes com o estudo da plenitude do Círculo, buscaram deturpá-lo” eram seus ditos sobre o assunto. E em vista da paisagem que contemplava, Gretel por fim sentiu os ensinamentos de sua mestra entranharam-se em seu crânio.

    A Bruxa de Redbrook demonstrou a eles o controle de três dos seis Aspectos do Círculo dos Elementos: Terra e Água, na formação da casa de doces e das raízes; e Sombras, na construção do labirinto que atravessaram. Já vira o uso de Sombras e Terra pelas mãos de muitos caçadores experientes, e a própria irmã Vonwyll possuía uma afinidade inata com a Água desde a tenra idade.

    Porém, nada se assemelhava com o que via.

    A disciplina dos Caçadores era o Foco. Nele, aprendiam a caminhar no ritmo do mundo e a direcionar seus Aspectos, refletidos pelo Círculo dos Elementos. Suas técnicas tinham a necessidade de focar em seu cerne, e seus resultados incandesciam os ares, batiam a terra, moviam os ventos e faziam fluir as correntezas.

    Bruxas, por sua vez, arrancavam essa beleza das entranhas do mundo.

    Seus ritos, suas runas e seus encantos torciam o Círculo dos Elementos.

    Não satisfeitas em estudar a natureza das ervas e minerais como herbalistas, as bruxas cravavam suas presas na terra, e embebedavam as linhas do mundo com seu ritualismo.

    “Tolo é aquele que tenta controlar o que não pode ser controlado”, dizia um Grão-Mestre que escreveu um dos livros que Gretel leu enquanto vivia na Escola de Salamandra. “A Deturpação do Círculo” era o nome do escrito, mas qual seu autor? Sequer lembrava de algo além de tal citação.

    As raízes, mais veias saltadas do que partes de plantas, lembravam-na dessa frase. Que espécie de ritual se dava ali? E por que precisaria das crianças? Grety podia apenas observar os traços dos Elementos da Terra e das Sombras que fluíam para fora das veias, tornando-as mais murchas.

    Ainda assim, sentia os pelos de sua nuca eriçarem-se quando os encarava demais. Via, ao mesmo tempo que não via, um fantasma profundo por trás da vegetação. Frio percorria por seu corpo, não como o gelo que usava; mas sim uma mão que a puxava num abismo em que seus sentidos minguavam e o mundo perdia a cor.

    Quando voltou para si, parecia-lhe que acordou de um pesadelo. Seria possível alcançar algo assim através do Círculo?

    — Há uma entrada logo à frente. — Roderic levantou o indicador. — As raízes parecem ainda maiores.

    Gretel retomou o foco à passagem. De fato, havia uma entrada. Quando entraram, viram estranhas formações pretas por entre as vinhas, murchas e enrugadas, semelhantes a uvas passas.

    Após esse corredor enegrecido, encontraram um salão circular de pedra. Assim que o adentraram, a caçadora engasgou.

    Encontrou os olhos de Hansy. Em seguida, percebeu que tinha sobre si o peso de três corpos.

    Em suas costas, havia uma mulher. Seus braços pendiam em torno de seu pescoço, e sua face jazia sobre seu ombro esquerdo. No peito, recostavam-se as cabeças de duas crianças, uma de cada lado, de olhos fechados. As mãozinhas entrelaçavam-se entre si, e um sorriso pendia nos lábios de ambos.

    — Ah — Hansel arfou. Deu um passo pesado, mas se interrompeu. — Grety, Roderic.

    Tinha apenas sua túnica sobre o peito, que tinha manchas avermelhadas sobre o alvo algodão.

    A cabeça em seu ombro ergueu-se. Alucaria sorriu ao vê-los, e sua boca possúia restos de sangue seco. Os braços estavam cobertos por mangas pretas, com os ombros decorados de escamas vermelhas; era o casaco de caçador de Hansel.

    — Senhorita Alucaria! — Roderic exasperou-se. Avançou na direção do amontoado de pessoas, com as mãos estendidas.

    Unindo-se a ele, Gretel riu. Queria socar o irmão no peito, mas as crianças descansavam sobre ele.

    — E como você iria se defender desse jeito, eim? — Cruzou os braços, num sorriso largo. Hansy deu de ombros.

    — Eu daria um jeito.

    — Heh. — Ela soltou um risinho seco, e tomou a menina de seu braço esquerdo. — Depois eu sou a inconsequente da família.

    Uma única risada escapou da boca de seu irmão, e juntos, partiram em busca de uma saída.

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