Capítulo 8: Confiança (I)
“Dizem os estudiosos que, em caçadas em equipe, o Foco revela um último fundamento. Eu, nesta pesquisa, decidi chamá-lo de ‘Confiança’. Em verdade, de nada adianta Atenção, Intenção e Controle se não houver confiança entre dois Caçadores, que compartilham juntos o Juramento da Vigília…” ~ Comentários sobre “A Natureza do Foco”, de Seraphine Valemont, do Espelho de Prata.
— Agora, por quem eu começo primeiro? — Merida pôs os dedos no queixo. — O Caçador bonito, ou a bela vampira.
Tocou Alucaria na bochecha uma outra vez. Essa a encarou com seus rubis luminescentes. Mostrou as presas e abriu a boca.
A bruxa recolheu a mão no último segundo.
— Ora! — Cerrou os dentes. — Tão silenciosa e tão violenta! Estou decidida; usarei seu sangue em meus rituais para transformar aquele. — E apontou para Hansel com o rosto.
Aproximou seu cajado, que tinha um chifre na ponta, do rosto da mulher. Riscou-o de leve, e um filete de sangue rubro escorreu. A princesa contorceu o rosto, que tomou uma forte cor carmesim, e deixou um grunhido abafado sair de sua boca.
— Não há necessidade de se enfurecer — a bruxa riu. — Afinal, você terá de se acostumar com isto.
Hansel não podia ver as duas por completo. Ainda assim, podia imaginar as consequências de se utilizar o sangue de uma vampira como Alucaria num ritual. Resmungou, com dificuldades de respirar por entre o tronco retorcido que o prendia, e tentou brandir a espada contra ele, sem sucesso.
Balançou a cabeça. Apertou a única mão livre sobre uma das raízes e sussurrou:
— Marca Ígnea. — Brasas estalaram, e sua mão gravou uma impressão na madeira.
— Aaargh!
Ouviu a bruxa gritar. No mesmo instante, as raízes tremeram. O ar escapou dos seus pulmões, e as brasas expandiram-se em fogo.
Com isso, sua prisão cedeu. Assim que sentiu os pés no chão, pulou com toda a força que tinha e virou-se para sua inimiga.
Alucaria ainda estava presa pelas mãos, mas com o resto do corpo liberto. A bruxa caira de joelhos diante dela, com o cajado no chão e mãos sobre a testa.
Trocaram olhares por um único segundo, e Alucaria chutou a mulher com sua perna direita.
Merida rolou, deixando escapar um gemido. Apoiou-se nos joelhos e ergueu o rosto.
A ponta da lâmina quase tocava seu nariz. Encontrou o olhar azul e pálido de um Caçador diante de sua presa. Esse brandiu a lâmina num arco diaconal.
A bruxa gritou. O chão rugiu, e rachaduras atravessaram a rocha. Hansel titubeou, e a mulher jogou-se sobre ele.
Sem apoio, ambos caíram. Merida forçou os dedos em seu rosto. Gritava e debatia-se, como um animal.
— Seu! Seu! — dizia ela, tentando tirar os braços do caçador do caminho de seus próprios.
Hansel amparou-se com o chão. Jogou a cabeça para frente e bateu-a com a da bruxa. Ela berrou e espasmou para trás.
O homem a agarrou pela cintura. Lançou o corpo de volta para o chão e rolou junto dela. Soltou-a no meio do processo e caiu agachado, enquanto a bruxa caia na pedra.
— Ugh… — Merida apoiou o antebraço no chão. Sua cabeleira escura ocultava Hansel de sua visão.
Ele respirou fundo e estendeu o braço. Ergueu o indicador e o dedo médio. Deles, saiu uma agulha de fogo.
— Dardo de Fogo! — exclamou, e a seta flamejante acorreu na direção de Alucaria.
Perfurou as algemas naturais que a mantinham cativa. Tornaram-se cinzas, e a princesa encontrou-se liberta.
— O cajado! — bradou Hansel.
Alucaria atirou-se contra o objeto. Uma raiz o tirou de seu alcance no mesmo instante.
A bruxa de Redbrook apoiou-se sobre ele. Os joelhos tremiam, e sua respiração inconstante ardia nos ouvidos de quem a ouvia.
Olhos verdejantes surgiram por entre seus cabelos. Risos vieram outra vez, e ela lhes apontou com o bastão.
Num instante, bateu-o no chão. Dois pedaços de pedra se desprenderam dele. Ela os encarou, e seus projéteis jogaram-se sobre eles.
Alucaria permaneceu imóvel. Hansel, que percebeu, a empurrou para a esquerda. Rolou para o lado oposto e ergueu a mão, de joelhos.
Lançou outro virote flamejante. A bruxa estendeu o cajado na horizontal, e uma nuvem escura engoliu as chamas. Brandiu-o uma segunda vez, e a nuvem tornou-se uma esfera de trevas.
Atirou contra o Caçador, que se preparou para repetir o último ataque. No entanto, a esfera fez uma curva no ar.
— O que? — virou-se para Alucaria, que estava no chão.
Tinha as palmas viradas para Hansel. Depois, ao mesmo tempo em que a sombra girou no ar, jogou-as na direção de Merida.
A bruxa contorceu-se no ar, e o som de seu corpo arrastando na rocha dançou pelos ouvidos de ambos.
— Sombra…? — Hansel observou a princesa vampira, boquiaberto.
— O que está esperando? — urgiu-o, ofegante e com o rosto suado. — Antes que se levante!
Hansel acenou com a cabeça. Focou-se uma última vez. As chamas o consumiram; não por fora, mas por dentro.
Elas correram até sua mão esquerda. Em sequência, em sua espada. Irrompeu em um crepitar carmesim, por entre as luzes vindas das runas.
Pulou sobre a bruxa, que mal se aguentava de pé. Ela tirou o cabelo de cima do rosto, e ergueu-o. Quando o fez, arregalou os olhos.
A lâmina de fogo atravessou-lhe na barriga. As brasas começaram a consumi-la por esse ponto, e seus olhos pareceram perder o foco.
— Mas — sussurrou, com lágrimas escorrendo dos olhos — mas eu… Trabalhei tanto…
— Olbert…
Elevou uma das mãos, tentando tocar Hansel no rosto, mas essa tremeu e caiu. O caçador puxou sua arma, e o corpo tombou de costas no chão.
Fitou-a por alguns segundos, em meio às brasas que aos poucos se espalhavam. Virou-se então, para Alucaria, que gritou:
— Venha, mestre Hansel! Temos de ajudar estas crianças!
[…]
Gotas caíam em intervalos longos, ecoando por entre as paredes de pedra. Passos erguiam a terra batida ao ar. Grety tossia, com a mão sobre a boca.
— Nenhum sinal de uma saída — tossiu outra vez. Seus olhos já estavam marejados. — Vovô?
Voltou-se para seu acompanhante, que passava a mão na rocha enquanto a seguia.
— Todas estas paredes são densas e opacas — concluiu Roderic, com um baque abafado, que fez fragmentos e poeira voarem. — E as raízes também não vão a lugar algum.
Gretel estalou a língua. Chutou o chão, e mais detritos voaram ao ar.
— Também não consigo sentir nada. — Cruzou os braços e suspirou. — Espero que Hansy esteja bem.
Roderic tomou a dianteira e, com os braços atrás das costas, disse:
— Espero que aquele caçador esteja protegendo a jovem senhorita. — Encarou-a com um rosto inexpressivo. Ainda assim, pôde perceber a pressão escondida entre as palavras ditas.
Diante de tal, Gretel Vonwyll foi incapaz de conter sua risada.
— O que…? — O rosto do vampiro enrugou-se. Seus olhos brilharam rubros e seus punhos se fecharam. — Está caçoando de mim, criança?!
— Hah, essa foi boa, vovô! — Ela acenou para cima e para baixo com uma mão, enquanto enxugava uma lágrima com a outra. — Você não entendeu.
A garota tomou fôlego e esticou os braços para frente. Roderic permaneceu rígido, entre pensamentos inflamados e a ânsia de seus instintos de combate. Gretel, no entanto, apenas o respondeu:
— Você não entende, já que não o conhece — declarou, dando de ombros. — Falo de Hansel, claro. Ele nunca deixa alguém se machucar no lugar dele. Não mais.
Disse isso esfregando o ombro esquerdo. Tinha os olhos caídos, mas um pequeno sorriso que não mostrava seus dentes.
— O fato é que: Alucaria se propôs a salvar essas crianças, Hansy decidiu acompanhá-la. Portanto, mesmo que seja uma vampira, meu irmão vai proteger ela e as crianças.
— Essa é a natureza de Hansel Heavens Vonwyll. Entendeu, vovô? É melhor ir anotando se quiser trabalhar conosco!
Ela riu outra vez, demonstrando a arcada perolada em sua boca.
[…]
“Por que?! O que falta em mim?!”, pensou Hansy, diante da cena em sua frente.
Os pequenos Hansel e Gretel estavam bem. Ainda dormiam, sem sinal de acordarem; mas, como todas as misturas alquímicas, Hansy sabia que o efeito passaria em algum momento. Sua respiração era leve, e agora a menina, abraçada ao irmão, esboçava um sorriso.
Hansy fez a mesma expressão. Tal visão o encheu de certa nostalgia de tempos que não retornariam.
Queria proteger essa tenra infância. Por que não conseguia?
Alucaria também os observava, com os olhos brilhando.
“Eles acordarão, certo?”
Foi o que perguntara. Hansy respondeu que sim, mas que poderiam preparar um antídoto assim que saíssem daquela caverna. A princesa sorriu, e disse que ajudaria a os carregar.
Hansy, na tentativa de ser educado, recusou. Tinha força o suficiente para carregar os dois pequenos nas costas. E a bruxa havia morrido, claro, então não existia razão para se preocuparem.
Por que sempre tomava as piores decisões?
Se não tivesse insistido, teria a possibilidade de tomar outra atitude. Como Caçador, era seu dever dar a vida por civis.
Alucaria era uma vampira, de fato; contudo, também era sua contratante.
E diante de tudo que viu nas últimas horas, Hansy não conseguia colocá-la no mesmo patamar dessas feras sangrentas.
Sua mente dava-lhe pontadas na consciência. Sua circulação sanguínea aumentava, e suor escorria de seu rosto ao pensar nessas possibilidades.
Não. Não confiaria nela. Alucaria era uma vampira, a princesa dos vampiros.
“Que seja! Tudo isto pode ser um plano para conquistar nossa confiança!”
Sabia que dissera a Grety para auxiliar a vampira e seu criado, mas nunca entregaria sua vida a eles. O objetivo era reunir informações; entregá-las à sua mestra, Rouge Grimm.
Contudo, se esta era a sua missão, por que via tal cena em sua frente?
“Mestre, Hansel, cuidado!”
Uma enorme raiz surgira do chão, na direção de seu peito.
Se tivesse as mãos livres, teria decerto bloqueado o ataque com sua espada. Porém, com Hansel e Gretel em cada braço, hesitou.
Jogava-os no chão? Eram crianças, estavam em coma; não poderia arriscar. O mesmo ocorreria se ele próprio se jogasse junto delas.
Nesse quarto de segundo, um vulto passou em sua frente. O brilho de milhares de fios de prata arderam diante de seus olhos. Junto deles, o vestigo negro arfou, como diante de um forte vento, que deveria ser impossível naquela caverna.
A raiz interrompeu-se. Sua ponta enrugada estava pintada de escarlate.
O som oco de algo caindo no chão ecoou nos ouvidos de Hansel. Logo viu que se tratava de um braço, donde vazava sangue. Sua dona permanecia de pé, com o outro braço agarrado sobre a lança que a empalara.
Poderia o preto de seu vestido escurecer-se ainda mais? Poderia o alvo leite de seus cabelos tingir-se do rubro de seus olhos?
— Ah — tossiu Alucaria. Sangue descia de seus lábios. A mão tremia, enquanto o resto de sua figura permanecia ereta, imóvel.
— Que bom que estão bem.
Seus olhos se fecharam, o corpo pesou, e então cedeu à gravidade.

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