Capítulo 10: Contrato Fechado
Os irmãos Vonwyll entregaram os pequenos Hansel e Gretel para Fiora, sua mãe, que os acolheu em choros. Estavam acordados, depois das misturas que Grety lhes preparou, soluçando, agarrados aos braços da mulher.
Gretel os observou, em silêncio. Uma brisa fresca pairava entre seus cabelos, e pareciam alcançar sua própria mente. Tinha as mãos sobre o peito, que estava quente e palpitando. Não mostrou os dentes, embora os lábios se curvassem para cima.
No dia seguinte, os moradores de Apple Hollow decidiram dar uma pequena festa para os Caçadores. Não os viam com constância na cidade, e os que passavam por ali permaneciam por pouco tempo. Os Leshies da floresta surgiam em longos espaços de tempo, e não perturbavam aqueles que não atravessavam seu território. A Bruxa de Redbrook, a quem Hansel chamou de “Merida”, era a única assombração do vilarejo.
Trouxeram as melhores garrafas de sidra, guardadas nas adegas subterrâneas dos melhores alcoviteiros. Mesas grandes de carvalho jaziam no centro da cidade, e esbanjavam longas travessas.
O olor de gordura invadia seu nariz, assim como o fogo estalava em suas orelhas. Carne pendia sobre uma fogueira, com pequenas peças de sal caindo e a alimentando. O bafo do pão assado ardia em sua face, e os temperos desciam junto dele pela garganta a cada mordida.
Escutava uma mistura de sinos dançando. Mesmo na tarde da noite, os sons de um rouxinol misturava-se com essa dança, num único canto que ardia os corações e resfriava as mentes dos que a ouviam.
Alucaria encontrava-se cercada de crianças e junta de homens e mulheres. Seguravam instrumentos: violinos e harpas finas e tambores trovejantes. Ela os acompanhava com sua voz; saltitava ao som das batidas dos pés dos homens e brandia sua saia junto das notas.
Trajava agora um vestido da cor de seus cabelos, imaculado dos rios de sangue que a acompanharam na saída do covil da bruxa. Cobria-se de babados e costuras complexas de flores e videiras. Rebrilhavam em tons de ouro, junto de sua pele, e davam-lhe o ar de uma fada desvanecente que vagava alegre entre os homens.
Grety assustou-se quando lhe contaram o ocorrido. A princesa e seu irmão explicaram como a primeira sofreu de um ataque surpresa da bruxa, e que precisou beber de seu sangue para sobreviver. Hansel usou suas vestes de Caçador para estancar o sangramento, o que a impediu de morrer de hemorragia.
Roderic, claro, tremeu da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Insistiu em carregar sua mestra, “de acordo com os costumes e morais de um verdadeiro servo”. A princesa, no entanto, mandou que carregasse o pequeno Hansel, enquanto o caçador a levaria nas costas.
“Você está ferido, Roderic. Não exagere”, foram suas palavras. Naquela hora, cutucara seu criado nas costelas. O homem contorceu o rosto e o corpo num gemido.
Em seguida, aceitou as ordens de sua senhora, embora a contragosto.
“Meu irmão é um idiota”, pensou Gretel, que observava Hansy ao lado da grande fogueira.
Tinha uma túnica limpa, porém seu casaco não estava com ele, assim como Grety. Segurava uma caneca de sidra na mão e escutava o senhor que girava carne de javali com uma manivela. Esboçava um fraco sorriso, acenando de minuto em minuto como resposta.
Por um instante, encontrou a irmã o encarando. Ergueu seu copo, e gotas de sidra voaram. Mostrou-lhe as pérolas da boca num sorriso antes de retomar o foco no velho churrasqueiro.
Gretel fitou seu pescoço, revirando os olhos. Roderic, cuja atenção circundava apenas Alucaria, não notara a ausência do corpo da bruxa na sala de rituais subterrânea. A irmã Vonwyll, contudo, percebeu isso e o pescoço escondido de Hansy. Em sua mente, não havia dificuldades em ligar os pontos.
“Ele podia ter me contado.”
Hansy nunca a preocupava. Mantinha a cabeça fria, analisava a situação e guiava a irmã em seus planos. Porém, quando fazia algo perigoso, o revelava apenas se descoberto.
Apesar de ter a fama de inconsequente, Grety sabia que superar seu irmão em tal área representava um desafio. Deixar uma vampira beber seu sangue? Decerto ele a repreenderia por algo assim.
O homem ainda concordou em carregá-la por todo o trajeto. Tinha-na sobre seu pescoço, com os braços imobilizados e incapaz de se defender. Em que momento Hansy fez isso com alguém que acabara de conhecer?
Não sabia a razão, mas entendera que seu irmão confiava na princesa Alucaria Vlad Dracule. O que ela fez para conquistar sua confiança? Gretel podia apenas imaginar.
Porém, se Hansy acreditava em Alucaria, Grety acreditaria nele.
Sentiu um baque na barriga, seguido do som de terra voando. Uma das meninas que corriam em volta dos focos de fogo a encarou, de olhos lacrimosos.
Colocou-a de pé, em meio a risos, e deu tapinhas em suas costas. A pequena a espiou de canto de olho, e, meio boquiaberta, juntou-se às suas amigas.
— …
Quando entregaram os filhos de Fiore, as outras mães de Apple Hollow logo os cercaram, questionando sobre suas próprias crianças. Agarraram Gretel e seu irmão, e fizeram perguntas aos gritos, uma por cima da outra.
“Sinto muito.”
Disse-lhes de cabeça baixa, olhos caídos e punhos cerrados. Todas as vozes interromperam-se. Os gritos deram a vez aos soluços, iguais aos guinchos de agonia de um animal selvagem diante da morte.
Logo, transmutaram-se em fogos e urros. Tornaram a indagar aos Caçadores, questionando o motivo de não terem atuado antes. Menos de um minuto depois, recordaram-se de quem obrigou-as, com chantagens e ameaças, a silenciarem-se: Gideon Viremont, o prefeito de Apple Hollow.
Invadiram a prefeitura, que não passava de uma casa grande de dois andares. O velho Gideon encontrava-se em sua cadeira, fuçando documentos.
Decerto, a rasa explicação de Fiora não fazia jus à mentalidade daquele homem. Negou com veemência até o último instante, quando Hansel e Gretel adentraram sua sala. Chorou sobre seus pés, agarrado às barras de suas vestes e puxando suas capas.
Grety o chutou no rosto, e Gideon rolou no chão. Agarrou um de seus canhões e mirou no homem. Hansy adentrou em seus pensamentos, caído, cercado pelos choros das mães, envolto em escuridão. Os casulos secos, donde escorriam fluídos escuros e grudentos, surgiram em sua mente. Quantos deles existiam ali? Grety não pôde sequer os contar.
“Você tem noção do que fez?!”
Lembrava-se de ter dito essas palavras. Seu peito ardia em chamas de dragão, junto de sua cabeça, invadida por um turbilhão tempestuoso.
Seu irmão a impediu, pondo a mão em seu ombro. Com o rosto imóvel, agachou-se e encontrou Gideon com os olhos. Se Grety urgira como um mar de fogo, Hansy assemelhava-se a uma montanha gélida e silenciosa. O prefeito engoliu seco.
Momentos depois, entregaram-no para os soldados que guardavam a vila. Por conta da confissão diante de grande parte da cidade e dos dois Caçadores, sua prisão foi rápida.
Naquela noite, a agonia das mães ressoou pelos ouvidos de todos.
E agora, no pôr do Sol seguinte, davam-lhes uma festa.
Gretel debruçou-se sobre um poste de madeira, onde pendia uma lâmpada a óleo. Tinha um pedaço de pão em mãos, que mastigava entre fortes batidas de sua mandíbula.
— Senhorita Gretel — uma voz cantou em seus ouvidos, como sinos. — Aí está você!
Alucaria saltitou em sua direção, de braços estendidos. Carregava uma caneca de madeira em uma mão, e tinha o rosto de marfim manchado de rosa.
Agarrou Gretel pela cintura, ronronando como um gato em busca de afeto. A primeira arregalou os olhos, voltando-se para o irmão logo em seguida.
“O que você é? Um gato?”
Hansy observava agora o corte dos pedaços de carne, com as costas viradas para a irmã. Deveria gritar por ele?
“Pensando bem, ela tomou uma única xícara naquele dia.”
Segurou a princesa pelos ombros. O rosto afundou em sua barriga.
Gretel Vonwyll suspirou.
“Achei que eu fosse a criança mimada do grupo, Hansy.”
Cantos elevaram-se às alturas na noite estrelada, e o coro dos instrumentos retumbou como trovões pelo resto da noite.
[…]
— Tudo pronto. — Hansel puxou uma tira de couro, e o alforge subiu de leve.
Velora, sua égua, relinchou. Bateu os cascos na terra, e os alvos pelos de suas pernas pularam; sua crina, de mesma cor, dançou no ar.
O rapaz acariciou-a, e o focinho do animal arrastou-se em sua face.
— Isso mesmo. Certo, Fellwind? — Gretel esfregou as mãos pelas orelhas de seu cavalo, que pareceu acenar com a cabeça.
Os dois equinos jaziam lado a lado, já fora da estrebaria em que permaneceram nos últimos dias. Velora, castanha, como que morena pela exposição ao Sol; Fellwind, albino, esconderia-se sem dificuldades nas montanhas nevadas de Argent Vale.
Velora tinha a força do verão. Insistia em bater com as patas contra a estrada, e os pelos em suas pernas eram como avalanches que subiam e desciam uma montanha. Tinha nos olhos escuros o fogo, e na crina toda a fúria dos ventos quentes do Sul. Fellwind não se movia mais que o necessário, com o silêncio do inverno espelhado no olhar de safiras brilhantes. Permaneceu fitando o horizonte, e o Sol que vinha além dele, capaz de desaparecer em plena luz do dia, se estivessem na temporada de nevascas.
Ignorava também o peso extra que tinha em sua traseira, em meio aos costumeiros frascos e bolsas de couro, cheios de ingredientes. Era um toco com buracos em sua frente, seco e podado de todos os galhos em seu topo.
Hansel suspirou, mas antes que falasse, outra voz tomou sua chance:
— Senhorita Gretel, mestre Hansel! — Ouviram um canto em seus ouvidos. A “cantora” aproximou-se e, ao olhar para os alforges de Grety, deu um pulo. — Ora! Este é o Leshie que você e Roderic eliminaram, senhorita Gretel?
Alucaria remexeu na carcaça com a ponta do indicador. Abriu-lhe a boca, agora fraca, e esfregou a casca da seiva seca com o polegar. Tinha estrelas no olhar e o sorriso de uma criança.
— Senhorita — Roderic tossiu —, sua postura atual não é própria para a ocasião.
Corando, a princesa ajeitou-se.
— Certamente. — Ereta, sacudiu o vestido e arranhou a garganta.
Sua sombrinha defendia-a contra os feixes dourados que fugiam da linha do horizonte. Surgiam pelas bordas de sua proteção, misturando nela os aspectos da luz da manhã e as trevas da noite. Assemelhava-se a um eclipse, e a transformava numa figura etérea, quase uma aparição.
E suas vestes de cobalto lembravam uma noite estrelada, balançando nas correntes de ar. Um véu de prata as acompanhavam, num mar de fogo alvo sobre o eclipse sombrio que vinha de suas costas.
— Vocês nos chamaram aqui logo pela manhã! Qual o motivo?
Os irmãos trocaram olhares. Na noite passada, conversaram sobre o que ocorreu. Hansel, claro, disse à Gretel que Alucaria bebera o sangue da bruxa. De toda forma, Grety alegrou-se pelas ações da princesa de Nocturnia. Portanto, após sua conversa, Hansy questionou sobre sua opinião.
“Você estava mais desconfiada. Quero saber o que acha, Grety.”
Gretel deu um passo à frente. Estendeu a mão, e sorriu.
— Queremos oficializar nosso contrato, senhorita Alucaria. — Ergueu mais a mão.
Alucaria a observou, voltou-se para Hansel, que tinha a mesma expressão que a irmã, então para Roderic, que apenas acenou de leve. Mostrou os dentes perolados e, com os olhos brilhando, apertou as duas palmas na mão de Gretel.
— Certamente! Será um prazer trabalhar com vocês! — Balançou os braços quase num frenesi, e Grety perdeu o equilíbrio por um instante. — Muito obrigada!
Sangue subiu em suas bochechas de porcelana, e seu sorriso cresceu e cresceu.
Apertou também a mão de Hansy, que também sorriu. Em seguida, correu para Roderic, e pulou em volta dele, dizendo:
— Conseguimos, Roderic!
E assim, o maior contrato de Hansel e Gretel Vonwyll fechou-se.

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