Mesmo na escuridão, Arthur viu a figura verde antes que ela saltasse. A boca coberta de sangue. As mãos vermelhas. Os olhos brilhando no escuro com aquela cor odiosa. 

    O goblin avançou com a faca apontada para seu peito, mas Arthur não desviou nem recuou. Sua mão se fechou sobre a lâmina antes que percebesse o que estava fazendo. O sangue escorreu por sua palma e desceu pelo braço. Mesmo assim, Arthur não desviou o olhar da criatura, como se o ferimento não existisse. Com a mão livre, agarrou o pescoço do goblin e o arremessou contra o balcão da cozinha. 

    A criatura atingiu a pedra com força. O granito rachou, e a faca escapou de seus dedos, caindo no chão. Ainda tentou alcançá-la, arrastando a mão pelo piso, mas Arthur já estava sobre ela. Agarrou-a pelas orelhas, puxou sua cabeça para trás e a esmagou contra o balcão. O som foi horrível.

    A criatura estremeceu, mas Arthur não a soltou. Puxou sua cabeça outra vez e repetiu o golpe. Depois outra vez. O goblin já não conseguia resistir; apenas tremia sob suas mãos. Arthur continuou. Os nós de seus dedos se chocavam contra o granito a cada golpe, abrindo novas feridas, mas ele não parecia perceber. Só via a pele verde, o sangue na boca da criatura e o rastro vermelho que cortava o chão da casa. O goblin já não se movia. Havia parado de gritar. Arthur, porém, continuou até que seus braços começaram a pesar. Até que o balcão não tinha mais para onde ceder. Até que o único som que restava era sua própria respiração, irregular e pesada, misturada ao silêncio absoluto da casa.

    O cavalo relinchou lá fora, e Arthur parou. Permaneceu imóvel, os punhos apoiados nos destroços do balcão, encarando o que havia sobrado da criatura à sua frente. Só então sentiu a dor nas mãos. Ele recuou um passo e olhou para as próprias palmas cobertas de sangue, sem conseguir dizer ao certo quanto era seu e quanto era do goblin. Arthur respirou fundo, mas permaneceu em silêncio. Só então percebeu que seu rosto estava molhado. Levou a mão aos olhos e sentiu as lágrimas nos dedos. Nem havia notado quando começaram. Limpou os olhos com o antebraço, num movimento brusco, quase irritado consigo mesmo, e começou a vasculhar a casa. 

    A sala estava revirada. Cadeiras tombadas, objetos espalhados pelo chão, marcas vermelhas cruzando o piso em direção ao fundo. Arthur seguiu o rastro com o olhar, ainda com a respiração pesada, até encontrar o freezer caído perto da parede. A tampa estava aberta. Embalagens rasgadas se espalhavam ao redor, e pedaços de carne crua se misturavam ao líquido vermelho que havia manchado o piso.

    Ele ficou imóvel, tentando organizar o que via. Não havia corpos. Nenhum sinal claro de luta além dos móveis derrubados. Nenhum rastro que sugerisse alguém arrastado pelo chão. O sangue vinha da carne espalhada pelo piso. Arthur soltou o ar devagar, mas o peito continuava pesado. Onde eles estavam?

    Percorreu os outros cômodos rapidamente, abrindo portas e verificando cantos. Nada. A casa estava vazia. Parte da pressão em seu peito afrouxou, não o suficiente para respirar com calma, mas o bastante para pensar. Sua atenção voltou para as próprias mãos. O sangue ainda escorria entre seus dedos, misturado ao do goblin, e os cortes abertos ardiam agora que a adrenalina começava a passar. Arthur foi até a pia e lavou as mãos como pôde, cerrando os dentes quando a água atravessou o sangue e encontrou as feridas. Depois pegou uma toalha limpa no quarto e a rasgou em tiras largas, enrolando o tecido em volta das palmas até a pressão conter parte do sangramento. Só então voltou à sala e recolheu o sabre do chão quase sem olhar. 

    Saiu pelos fundos. O cavalo estava lá, parado perto da cerca, atento à escuridão. Arthur caminhou até ele, mas algo chamou sua atenção antes que se aproximasse: um pedaço de tecido preso no arame da cerca. Alguém havia passado por ali. Com pressa, mas por conta própria. Arthur soltou o ar. Não era certeza, mas era alguma coisa.

    Ele olhou na direção da mata além da cerca. Havia algo ali que conhecia bem: uma formação de pedras a alguns minutos dali, onde o terreno subia de repente antes de se abrir em uma caverna baixa e comprida. Seu pai sempre dizia que gente havia morado naquele lugar antigamente. Ninguém acreditava muito, mas Rafael repetia a história com satisfação toda vez que alguém questionava. Era exatamente o tipo de lugar para onde ele levaria a família se precisasse se esconder.

    Arthur começou a correr. O mato se abriu conforme ele subia pelo terreno inclinado. Avançava rápido, desviando das pedras quase sem olhar, até que viu um corpo entre os arbustos. Um goblin caído de lado, com o peito marcado por vários furos pequenos e escuros. Chumbo de espingarda. Seu pai tinha passado por ali. Arthur continuou subindo, mais rápido, até que a entrada da caverna surgiu entre as rochas, estreita e parcialmente escondida pelo mato.

    Ele travou no mesmo instante.

    — Mais um passo e eu atiro!

    — Pai, sou eu! — Arthur gritou, erguendo as mãos. — Sou eu, Arthur!

    A resposta não veio de imediato. Houve apenas o silêncio da mata ao redor, até Rafael surgir na entrada da caverna com a espingarda ainda erguida. Seus olhos esverdeados percorreram Arthur de cima a baixo, passando pelo sangue nas roupas, pelas mãos enfaixadas e pelo sabre de ossos. Só então abaixou a arma.

    — Arthur…

    O nome saiu baixo, como se ele ainda precisasse confirmar. Rafael desceu os degraus de pedra e abraçou o filho com força, mantendo a espingarda segura em uma das mãos enquanto a outra apertava suas costas.

    — Achei que não ia te ver de novo — murmurou.

    Cecília surgiu logo atrás, os olhos marejados antes mesmo de chegar perto. Segurou o rosto de Arthur com as duas mãos, como se precisasse confirmar que era real, antes de puxá-lo para perto. Clara veio por último, os cabelos negros e encaracolados presos de qualquer jeito, abraçando o irmão pelo lado sem dizer nada, o corpo ainda tenso de quem havia passado horas contendo o medo. Arthur os abraçou de volta em silêncio.

    — Vocês estão bem — disse, por fim. Não era uma pergunta.

    — Estamos — respondeu Cecília, afastando-se apenas o bastante para olhá-lo melhor. O olhar dela desceu para o sabre de ossos, depois para as mãos enfaixadas. — Meu Deus, Arthur… você está ferido?

    Arthur olhou para a própria mão, como se só então se lembrasse do sangue.

    — Não é tão ruim quanto parece. Muita coisa aconteceu.

    Ele contou o que conseguiu. Falou das criaturas na cidade, do domo e do perigo lá fora. Quando mencionou o crocodilo humanoide, Cecília levou a mão à boca, e Arthur parou antes de contar o quanto havia chegado perto de morrer. Ela já parecia no limite. Clara mal piscava. Rafael mantinha a espingarda apoiada no antebraço, em silêncio, mas a tensão em seu maxilar era evidente. Eles já haviam passado por coisa demais naquela noite. O resto podia ficar com ele.

    Quando Arthur terminou, o silêncio se prolongou dentro da caverna.

    — Uma horda — repetiu Rafael.

    Arthur assentiu, ainda olhando para a entrada escura.

    — Centenas. Talvez mais.

    Cecília apertou os braços contra o próprio corpo.

    — Estavam vindo pra cá?

    Arthur balançou a cabeça.

    — Não quando eu vi. Mas estavam perto demais. Precisamos voltar para a cidade. O batalhão é o lugar mais seguro agora.

    Rafael olhou para Cecília. Ela assentiu sem precisar falar.

    — Tudo bem — disse ele.

    Quando saíram da caverna, Arthur parou ao ver o cavalo na entrada, de frente para a mata, completamente imóvel. Não estava pastando nem se movendo. Apenas ficava ali, como se estivesse de guarda. Arthur observou o animal, tentando não tirar conclusões demais. Era impossível. Provavelmente estava enxergando intenção em um cavalo que apenas o seguira até ali. Provavelmente. 

    — De onde veio esse cavalo? — perguntou Clara.

    — Longa história — respondeu Arthur, e começou a descer o morro.

    A volta levou menos tempo do que Arthur esperava, mas pareceu mais longa do que deveria.

    Cecília e Clara seguiram montadas no cavalo enquanto ele e Rafael caminhavam ao lado, atentos à mata e aos ruídos ao redor. O animal avançava com passos firmes, sem precisar de comando, seguindo pelo caminho como se soubesse exatamente para onde ir. Arthur preferiu não pensar muito nisso.

    Rafael manteve a espingarda nas mãos durante todo o trajeto, os olhos varrendo os arbustos a cada passo. Em certo momento, um goblin surgiu entre as árvores, e ele ergueu a arma e disparou antes que Arthur precisasse se mover. A criatura caiu na terra seca, e uma janela azul surgiu diante dos olhos do pai. Rafael ficou imóvel, encarando o vazio à frente.

    — Subi de nível — disse, baixo. — Nível dois.

    Arthur olhou para ele.

    — Você sabe como distribuir os pontos?

    Rafael franziu o cenho, como se a pergunta fosse estranha.

    — Sei.

    Arthur não respondeu. Não havia explicado nada sobre aquilo, mas Rafael sabia. Talvez todos soubessem. As informações pareciam surgir no momento em que eram necessárias, como se o mundo empurrasse o essencial diretamente para dentro da cabeça de cada pessoa. Ele não sabia se aquilo deveria tranquilizá-lo ou incomodá-lo ainda mais.

    Não demorou muito para que as primeiras construções próximas ao batalhão surgissem à frente. Os soldados no portão ergueram as lanternas assim que os viram se aproximar, e Arthur levantou as mãos antes que algum deles desse ordem para parar. Poucos minutos depois, estavam do lado de dentro.

    O pátio do batalhão estava mais movimentado do que antes. Lanternas adicionais haviam sido espalhadas pelos cantos, e grupos de civis se organizavam em fileiras para receber água e cobertores distribuídos pelos soldados. A chegada de Arthur com mais três pessoas, além de um cavalo que ninguém parecia entender de onde tinha vindo, arrancou alguns olhares, mas ninguém questionou.

    Lara o viu antes que ele a chamasse. Ela se levantou do lugar onde estava sentada, os olhos indo direto para ele. Ao perceber que Arthur não vinha sozinho, demorou um instante antes que um pequeno sorriso surgisse.

    — Você conseguiu — disse ela, quando Arthur chegou perto.

    Arthur não soube o que dizer de imediato, mas Cecília se adiantou e segurou as mãos de Lara entre as suas.

    — Lara, graças a Deus você está bem — disse Cecília, com a voz cansada, mas sincera. — Estávamos preocupados com você.

    — Eu também.

    Rafael cumprimentou Lara com um aceno breve antes de se afastar com Clara para verificar a situação do batalhão. Cecília continuou segurando as mãos de Lara por mais alguns segundos, dizendo algo baixo demais para Arthur ouvir, e Lara assentiu em silêncio.

    Mais tarde, depois que a família se acomodou e Rafael conseguiu informações com um dos soldados, Arthur se sentou encostado contra a parede do pátio. Lara ficou ao lado dele em silêncio. O cavalo havia sido amarrado a uma das árvores, mas Arthur podia vê-lo dali, imóvel como sempre.

    — Sua mãe é gentil — disse Lara, depois de um tempo.

    — É.

    Ela olhou para Cecília, que ajeitava um cobertor sobre Clara alguns metros adiante.

    — Ela gosta muito de você.

    Arthur demorou um pouco para responder.

    — É minha mãe.

    Lara sorriu de leve.

    — Eu sei.

    Ela não disse mais nada. Arthur tampouco. Aos poucos, o peso das horas anteriores começou a cobrar seu preço. Os sons do pátio ficaram mais distantes, as vozes se misturaram ao barulho de fundo, e Arthur deixou os olhos fecharem.

    Dormiu sentado contra a parede, com o sabre apoiado no joelho e o pátio ainda iluminado ao redor.


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