Capítulo 4: A Travessia da Noite
Ao chegar em casa, Arthur trancou a porta e seguiu direto para a sala. Seu corpo ainda estava coberto de fuligem, suor e pequenas manchas de sangue seco, mas naquele momento não havia espaço para se preocupar com isso. O coração ainda batia forte, os músculos continuavam tensos e suas mãos tremiam levemente, como se seu corpo ainda não tivesse entendido que o combate havia acabado.
Sentado no sofá, Arthur abriu a janela de status.
[Nome: Arthur Silva | Nível: 05 | Rank: –
Classe: Nenhuma Profissão: Nenhuma
Título: Assassino de Goblins
ATRIBUTOS [00/171]
Força: 45
Agilidade: 45
Constituição: 30
Inteligência: 16
Percepção: 35
Vida: 175 Mana: 105
HABILIDADES
Reversão.
]
Ele observou os números. Ainda parecia absurdo pensar que, poucas horas antes, era apenas um cara comum. Agora, havia explodido um posto de gasolina, enfrentado monstros sozinho e continuava vivo para ver aqueles números crescendo diante de seus olhos.
Antes que terminasse distribuir os novos pontos de atributo, outra notificação surgiu em sua visão.
[Por atingir o nível cinco você ganhou o direito a aprender uma habilidade. Por favor escolha entre “Inspeção” e “Regeneração de mana ampliada” ]
[Inspeção – Permite ao usuário inspecionar informações a respeito de objetos ou criaturas.]
[Regeneração de mana ampliada – Aumenta a taxa natural de regeneração de mana em 25%]
Arthur praticamente não hesitou e escolheu Inspeção. Regeneração de mana até poderia ser útil em outro momento, mas de que adiantava recuperar mana mais rápido se ele sequer tinha habilidades para gastar? Se funcionasse do jeito que imaginava, Inspeção talvez pudesse responder perguntas muito mais urgentes.
Não parecia haver custo de mana ou comando específico para ativá-la; bastava concentrar a atenção em algo e desejar analisá-lo. Curioso, voltou o olhar para o sabre de ossos em sua mão e uma nova janela surgiu diante de seus olhos.
[Mandíbula de Mamute
Descrição: Uma arma de baixa qualidade produzida ao afiar a mandíbula de um mamute contra uma pedra.
Rank: F
Durabilidade: 96/180]
Arthur observou a durabilidade e percebeu que estado do sabre estava pior do que imaginava. Embora ainda estivesse longe de se quebrar, o desgaste já era visível.
Ao se levantar, dispensou a janela de inspeção e pegou a chave do carro sobre o aparador. Pouco tempo antes, a simples ideia de sair sozinho pelas ruas da cidade pareceria suicídio. Agora, porém, a sensação era diferente. O medo continuava ali, escondido no fundo do peito, mas já não o paralisava como antes. Enquanto apertava o cabo do sabre, Arthur percebeu que, pela primeira vez desde o início daquela noite, não se sentia completamente indefeso.
…
Arthur dirigiu até a casa de Lara às pressas. A cidade estava mergulhada em um silêncio estranho. Não havia buzinas, vozes nas calçadas ou televisões ligadas ao longe. Nada da vida comum que deveria existir àquela hora. Apenas o ronco do motor rompia o vazio, acompanhado, vez ou outra, pelo ranger metálico de algum carro abandonado no meio da rua.
Ele segurava o volante com força enquanto pensamentos sobre Lara voltavam sem parar. O sorriso cansado, as mensagens ignoradas no celular, a última conversa interrompida pela própria indiferença dele.
“Por que eu não respondi?”
O apartamento dela ficava no bairro ao lado, mas as ruas tomadas por veículos abandonados tornaram o caminho mais difícil do que deveria. Depois de desviar por alguns quarteirões, Arthur foi obrigado a parar o carro longe do prédio e seguir a pé.
A pressão em seu peito aumentava a cada passo. Quando finalmente virou a esquina e avistou o prédio de Lara, seu coração quase parou. Cerca de quinze goblins se aglomeravam próximos à entrada, emitindo chiados irritantes enquanto golpeavam o portão como animais famintos.
Por um instante, Arthur só conseguiu encarar a cena. Tudo o que tentava controlar explodiu de uma vez e, sem perceber, ele já estava correndo. Seu corpo disparou pela rua como um vulto. Os goblins só notaram sua presença quando ele já estava perto demais e ergueram suas armas tarde demais. Arthur não desacelerou.
SCHAK!
O sabre de ossos desceu com brutalidade e partiu o primeiro goblin ao meio. Sangue espirrou pelo asfalto enquanto o corpo da criatura tombava sem vida.
Os outros hesitaram por um instante, mas Arthur avançou novamente. O sabre se movia em suas mãos de forma brutal e descontrolada, cortando carne, quebrando ossos e espalhando sangue pelo chão. Os gritos estridentes dos goblins ecoavam pela rua, mas ele mal conseguia ouvi-los. Cada golpe parecia mais leve que o anterior. Mais rápido. Mais preciso.
Mesmo agora, matar ainda parecia errado em algum lugar dentro dele. Havia uma sensação estranha toda vez que sua lâmina atravessava um corpo. Mas aquilo desaparecia no instante seguinte, sufocado pelo medo de chegar tarde demais.
[Você acertou um golpe crítico.]
A mensagem surgiu diante de seus olhos no momento em que o sabre atravessou o peito do último goblin. A criatura caiu de joelhos, tossindo sangue escuro. Arthur puxou a lâmina com força, e o corpo tombou junto aos outros espalhados pela entrada do prédio.
Ofegante, Arthur encarou a janela azul flutuando diante dele.
“Golpe crítico…? Isso tem a ver com o título?”
A janela do sistema desapareceu tão subitamente quanto surgiu.
Arthur ignorou os corpos caídos e se aproximou do prédio. O portão estava travado com alguma coisa do outro lado e felizmente os goblins não haviam conseguido ultrapassar. Sem perder tempo, ele chutou a entrada com força. O metal entortou sob o impacto, e o som de madeira se partindo e móveis sendo arrastados ecoou do outro lado.
Arthur atravessou a barricada improvisada e subiu as escadas às pressas. Seus passos ressoavam pelo prédio silencioso, cada vez mais rápidos, enquanto o coração batia com força crescente dentro do peito. Porém, quando finalmente alcançou o corredor do apartamento de Lara, seu corpo desacelerou por instinto.
Uma criatura gigantesca permanecia imóvel diante da porta.
O ser tinha quase três metros de altura e um corpo inteiramente formado por pedra e barro compactados. Sua estrutura lembrava a de um humano musculoso moldado de forma grotesca, com braços enormes e um tronco largo e desproporcional. O rosto sem expressão fazia a criatura parecer uma estátua mal acabada, abandonada naquele corredor escuro.
Arthur ergueu o sabre diante do corpo, mas o gigante não reagiu. Nem mesmo pareceu notar sua presença. Não respirava, não piscava, não fazia qualquer movimento. Apenas permanecia ali, imóvel, bloqueando a entrada do apartamento como parte da própria parede.
Ainda assim, Arthur não abaixou a guarda, manteve os olhos fixos naquela massa de pedra e barro enquanto se aproximava da porta. Nada aconteceu. Só então percebeu as marcas profundas espalhadas pela madeira reforçada. Cortes, rachaduras e sinais claros de impacto cobriam a superfície, como se algo tivesse tentado arrombá-la repetidas vezes.
Os goblins claramente haviam chegado até ali. Havia manchas escuras de sangue pelo chão e até uma faca serrilhada quebrada próxima à parede, mas, por algum motivo, nenhum corpo das criaturas estava à vista. Aparentemente, a porta tinha resistido. Arthur soltou o ar lentamente ao perceber aquilo, antes de segurar a maçaneta e tentar abrir.
Trancada.
— Lara! Você tá aí?! — gritou imediatamente.
Nenhuma resposta veio do outro lado.
Arthur recuou um passo e chutou a porta com força. A madeira rachou violentamente antes de ceder ao impacto, mas sua perna atravessou a abertura de forma desajeitada, deixando-o preso por um instante numa posição estranha e desconfortável.
“Tsc…”
Ele respirou fundo e tentou se soltar, mas, no mesmo instante em que sua perna atravessava a entrada, uma sensação brutal de perigo percorreu todo o seu corpo, fazendo Arthur se jogar para trás por puro instinto.
BOOOOM!
Um enorme punho de pedra esmagou o chão exatamente onde ele estava um segundo antes. O impacto abriu rachaduras pelo corredor enquanto fragmentos do piso voavam para todos os lados.
O coração de Arthur disparou. Se tivesse demorado apenas um instante, teria sido esmagado junto da porta.
— Filho da puta… você tava esperando eu baixar a guarda? — rosnou, recuperando o equilíbrio.
O gigante de pedra recolheu lentamente o braço e voltou o corpo colossal na direção dele. Agora a criatura parecia viva. Arthur ajustou a empunhadura do sabre e preparou o corpo para avançar.
Mas antes que qualquer um dos dois pudesse agir…
— Parem!
A voz ecoou pelo corredor, e Arthur a reconheceu imediatamente.
Seus olhos se voltaram para o apartamento no mesmo instante em que Lara surgiu na entrada. Inteira. Sem nenhum ferimento aparente. O alívio o atingiu de uma vez só, forte o bastante para quase fazê-lo perder a firmeza nas pernas.
O gigante de pedra também parou. A criatura virou lentamente a cabeça para Lara e permaneceu imóvel, como um guarda aguardando as ordens de sua senhora.
Lara chamava atenção com facilidade. Seus cabelos castanhos desciam até abaixo dos ombros, emoldurando um rosto delicado e olhos cor de mel que, naquele momento, observavam Arthur com uma tensão quase dolorosa.
— Amor!
Lara praticamente se jogou nos braços dele. Arthur mal teve tempo de reagir antes de senti-la contra o peito, os braços envolvendo seu corpo com força, como se ela precisasse confirmar que ele realmente estava ali. Por um instante, em meio ao cheiro de sangue, fumaça e suor que ainda impregnava suas roupas, Arthur sentiu o perfume dela e toda a tensão em seu peito pareceu diminuir. Mas então Lara se afastou abruptamente e virou o rosto na direção do gigante de pedra.
— Seu idiota! Por que você atacou ele?!
Arthur piscou algumas vezes, ainda tentando processar a cena. O mais absurdo não era Lara brigando com aquela criatura gigantesca… era o fato de o monstro parecer realmente constrangido.
— O que… é essa coisa? — perguntou Arthur.
— Ah, isso? — Lara apontou para o golem como se aquilo fosse completamente normal. — É a minha habilidade. Eu consigo invocar golems de pedra.
Arthur ficou em silêncio por um instante.
“Claro…” Todo mundo parecia ter recebido habilidades absurdas enquanto ele ficou preso com uma habilidade de uso único.
Lara suspirou enquanto olhava para o golem.
— Eu mandei ele impedir aquelas coisas de entrarem aqui… mas acho que ele levou isso um pouco a sério demais.
Arthur soltou uma risada curta e cansada.
— Não importa. O importante é que você tá bem.
Lara finalmente percebeu o sabre de ossos ainda coberto de sangue na mão dele.
— Que diabos é isso na sua mão…?
— Depois eu explico. A gente precisa sair daqui agora.
Lara franziu levemente a testa.
— Sair pra onde?
— Pra algum lugar seguro. Vem.
Sem esperar resposta, Arthur segurou a mão dela e a puxou para fora do apartamento. Enquanto passavam pelo corredor, percebeu movimentos discretos atrás das portas fechadas. Gente espiando pelos visores, sombras se afastando quando eram notadas, fechaduras girando com cuidado. Ainda havia moradores no prédio, mas ninguém parecia disposto a colocar os pés para fora. Depois do que tinha acontecido naquela noite, Arthur não podia culpá-los. Apenas apertou a mão de Lara com mais força e continuou descendo as escadas.
Ao chegarem ao carro, Lara parou por um instante ao lado do enorme golem de pedra. Com um simples toque, a criatura começou a se desfazer em silêncio. O corpo colossal perdeu forma, encolhendo sobre si mesmo até se transformar em uma pequena pedra de barro, que ela guardou no bolso como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Arthur lançou um olhar estranho para ela, mas decidiu não comentar nada.
Entraram no carro logo em seguida, e ele arrancou pelas ruas vazias da cidade. Enquanto dirigia, Arthur explicou rapidamente tudo o que havia descoberto até então sobre os monstros, os níveis, as habilidades e a área segura que os militares haviam montado no batalhão. Lara permaneceu em silêncio durante boa parte do caminho.
As mãos dela estavam apertadas no colo, os dedos entrelaçados com força enquanto encarava a rua escura pela janela. O batalhão não ficava tão longe, mas, conforme avançavam pela cidade, as luzes dos postes começaram a se apagar uma após a outra. Quando a escuridão tomou conta da rua, Lara se aproximou um pouco mais dele no banco.
— A energia acabou…? — perguntou ela em voz baixa.
— Provavelmente — respondeu Arthur enquanto desviava de outro carro abandonado.
As ruas estavam em completo caos. Havia veículos atravessados, portas abertas, vidros quebrados e manchas de sangue espalhadas pelo asfalto. Depois de mais alguns minutos tentando encontrar passagem, Arthur acabou sendo obrigado a estacionar algumas quadras antes do batalhão. Ele desligou o motor e ficou alguns segundos em silêncio observando a rua escura pela janela.
— O que foi? — perguntou Lara baixinho.
Arthur continuou olhando para a escuridão lá fora por um instante antes de responder.
— Nada… Só tô esperando alguma coisa dar errado.
Lara ficou em silêncio por um momento.
— Você sempre faz isso?
Arthur exalou pelo nariz, quase rindo.
— Normalmente dá menos errado.
O comentário arrancou dela um pequeno sorriso nervoso. Arthur respirou fundo, pegou o sabre no banco ao lado e abriu a porta do carro.
— Vamos.
Sem dizer mais nada, os dois seguiram a pé. O vento frio soprava pelas ruas silenciosas enquanto ele mantinha o sabre firme em uma das mãos. Conforme avançavam entre os carros abandonados, mais corpos começaram a aparecer pelo caminho. Goblins. Muitos deles. Quase todos mortos a tiros. Arthur diminuiu os passos ao perceber outra criatura caída próxima da calçada. Era um rato gigantesco, quase do tamanho de um cachorro.
“Então existem outras criaturas…”
O cheiro de sangue e carne podre parecia impregnar o ar. Arthur apertou involuntariamente a mão de Lara e acelerou os passos, tentando afastá-la daquele cenário o mais rápido possível. Foi quando um estalo metálico ecoou à frente, fazendo-o parar no mesmo instante.
Antes que pudesse distinguir qualquer coisa na escuridão, uma luz forte atingiu diretamente seus rostos. Arthur ergueu o braço diante dos olhos enquanto puxava Lara para trás do corpo por reflexo.
— Senhor! Aqui tem mais dois sobreviventes! — gritou uma voz à frente.
Outra voz respondeu de algum ponto mais distante, firme o bastante para atravessar a escuridão.
— Traga os dois para a base. Rápido.
O soldado se aproximou mantendo a lanterna baixa, atento aos carros abandonados e às sombras entre as casas. Quando chegou perto o suficiente para ver Arthur e Lara, desviou o facho de luz do rosto deles. Sua expressão parecia cansada, mas ainda tentava transmitir alguma segurança.
— Venham comigo. Vocês estão em segurança agora.
Arthur assentiu, ainda piscando e levemente ofuscado pelo brilho da lanterna.
— Obrigado…
Lara deu um passo à frente, a voz baixa e trêmula.
— O que está acontecendo? De onde vieram essas criaturas?
O soldado hesitou por um instante. A firmeza em seu rosto vacilou apenas o suficiente para denunciar o cansaço por trás do uniforme.
— Não sabemos — respondeu. — Mas estamos fazendo o possível para contê-las.
Guiados pelo soldado, Arthur e Lara avançaram pelo labirinto de carros abandonados enquanto o facho da lanterna cortava a escuridão à frente. Arthur seguia logo atrás, mantendo o sabre firme em uma das mãos e Lara próxima o bastante para alcançá-la se algo surgisse de repente. Ao redor, corpos se espalhavam pelo asfalto, alguns mutilados de um jeito que ele preferiu não encarar por tempo demais. Mesmo assim, percebeu quando Lara prendeu a respiração ao seu lado. O rosto dela estava pálido, os olhos arregalados enquanto tentava absorver tudo aquilo sem desmoronar.
De repente, um grito desesperado ecoou mais adiante, seguido por guinchos agudos, baixos e ásperos, que fizeram os pelos de sua nuca se arrepiarem. Lara olhou para ele, e Arthur viu o medo estampado no rosto dela antes mesmo de entender o que estava vindo. O soldado também percebeu.
— Corram! Eles estão vindo!
O facho da lanterna tremeu quando ele começou a recuar, e então Arthur viu as criaturas surgirem entre os carros abandonados.
Ratos gigantes avançavam pela rua com movimentos rápidos e irregulares, grandes quase como bezerros recém-nascidos. A pele escura parecia doente, coberta por falhas, crostas e placas endurecidas. Os olhos vermelhos brilhavam no escuro, e dentes longos escapavam das mandíbulas abertas enquanto guinchos estridentes rasgavam o silêncio. Eles corriam rente ao chão, desviando dos veículos com uma agilidade repulsiva.
Arthur ergueu o sabre diante do corpo.
— Fica atrás de mim.
O soldado ergueu o fuzil às pressas e disparou contra o primeiro rato que surgiu entre os carros. Os tiros ecoaram pela rua, iluminando a escuridão em lampejos curtos, mas as criaturas não pararam. Uma delas tombou rolando pelo asfalto; outras simplesmente desviaram, guinchando enquanto avançavam ainda mais rápido.
Diferente dos goblins, aquelas coisas não vinham de pé, brandindo armas enferrujadas. Elas se moviam rente ao chão, rápidas demais, atacando pelas laterais, entre os carros abandonados. Quando o primeiro rato saltou contra ele, Arthur girou o sabre quase no susto. A lâmina atravessou o pescoço da criatura, mas o peso do corpo ainda atingiu seu ombro e quase o fez perder o equilíbrio.
Outro veio logo em seguida. Arthur recuou um passo e chutou a criatura antes que ela alcançasse sua perna. O rato bateu contra a lateral de um carro, amassando a lataria, mas se ergueu quase no mesmo instante, rosnando com a boca cheia de saliva escura.
“Rápidos demais…”
Um disparo explodiu ao lado de seu ouvido. O soldado acertou um dos ratos que tentava contorná-lo pela direita, fazendo a criatura tombar aos guinchos. Ainda assim, mais dois avançaram pela esquerda. Arthur puxou Lara para trás com uma das mãos e golpeou com a outra. O sabre abriu o crânio do primeiro, mas o segundo passou por baixo da lâmina e mordeu sua perna.
— Argh!
A dor subiu como fogo. Arthur cerrou os dentes e desceu o sabre contra a cabeça do rato até sentir algo estalar. A criatura soltou sua perna e caiu se debatendo no asfalto. Não havia tempo para respirar. Mais guinchos ecoaram entre os carros.
Um rato surgiu por trás de um carro capotado e saltou direto contra seu peito. Arthur ergueu o sabre a tempo, mas o movimento saiu ruim, atrasado demais. As mandíbulas da criatura estalaram a poucos centímetros de seu rosto, o bafo podre atingindo sua pele enquanto as garras raspavam sua camisa.
O impacto quase o fez ceder. Seus braços tremeram, e ele precisou torcer o corpo para desviar o peso da criatura para o lado.
Arthur girou logo em seguida. O movimento saiu torto, pesado, mas rápido o suficiente. O rato tentou se lançar novamente, porém ele desceu o sabre antes que a criatura o alcançasse. A lâmina atingiu a cabeça em um golpe bruto, atravessando a carne com um estalo úmido antes que o corpo despencasse sobre o asfalto.
Arthur mal teve tempo de puxar o ar quando um grito agudo cortou a rua.
— Aaaaah!
Ele se virou no mesmo instante e viu outro rato avançando contra Lara. Os olhos vermelhos brilhavam na penumbra, as mandíbulas abertas em um guincho faminto. Arthur tentou correr, mas soube antes mesmo do primeiro passo que não chegaria a tempo. A distância era pequena demais para a criatura. Grande demais para ele.
Um clarão explodiu ao lado, seguido pelo estampido seco do fuzil. O tiro atingiu a cabeça do rato antes que ele alcançasse Lara. A criatura tombou aos pés dela com um último espasmo, deixando uma mancha escura se espalhar pelo asfalto.
Arthur se aproximou com o sabre ainda pingando sangue. O peito subia e descia rápido, os músculos continuavam tensos, mas tudo isso perdeu importância quando viu o rosto pálido de Lara.
— Você está bem? — perguntou, a voz rouca.
Lara assentiu, ainda atordoada demais para responder de imediato. Os olhos dela desceram para o corpo do rato caído aos seus pés, e só então ela pareceu entender o quão perto tinha chegado.
— Eu… acho que sim.
Arthur respirou fundo e olhou para o soldado.
— Obrigado.
O homem manteve o fuzil erguido por mais alguns segundos, atento à rua escura, antes de apenas balançar a cabeça.
— Agradece depois. Ainda não acabou.
Arthur apertou o cabo do sabre, frustrado com a própria demora. Se aquele tiro tivesse vindo um segundo depois, Lara estaria morta. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz firme ecoou mais à frente.
— Vinte e três, leve os dois para dentro. Agora. O resto fica comigo na patrulha.
O soldado respondeu sem tirar os olhos da rua.
— Sim, senhor.
Ele então fez um gesto rápido para Arthur e Lara.
— Vamos. Fiquem perto e não parem por nada.
Os dois obedeceram sem discutir.
O soldado abriu caminho entre os carros abandonados com a lanterna presa ao fuzil, avançando rápido, mas sem correr. Arthur seguia logo atrás, mantendo Lara próxima enquanto o sabre ainda pingava sangue em sua mão. Cada sombra entre os veículos parecia esconder alguma coisa, e o silêncio da rua só tornava o caminho mais tenso.
Poucos minutos depois, os muros do batalhão surgiram na escuridão. Arthur já havia passado por ali várias vezes antes, mas nunca tinha prestado tanta atenção à altura das paredes, aos portões de aço ou aos soldados posicionados na entrada. Naquela noite, tudo aquilo parecia mais um abrigo do que uma instalação militar.
— Dois civis! — gritou o soldado.
O portão foi aberto apenas o suficiente para que eles passassem. Assim que entraram, fechou-se novamente com um rangido pesado.
Do outro lado, o mundo parecia diferente.
Lanternas iluminavam corredores improvisados, soldados armados se moviam de um lado para o outro, e dezenas de pessoas ocupavam o pátio em pequenos grupos. Algumas estavam sentadas no chão com cobertores sobre os ombros. Outras falavam baixo, choravam ou apenas encaravam o vazio, como se ainda tentassem entender como tudo havia chegado àquele ponto.
O que mais chamou a atenção de Arthur, porém, foi a quantidade de civis armados. Havia homens segurando facões, pedaços de madeira, barras de ferro e até algumas espingardas antigas apoiadas entre os joelhos. Em qualquer outra noite, boa parte daquilo já seria motivo para abordagem antes mesmo de alguém chegar perto do portão. Dentro de um batalhão, então, seria impensável. Mas agora ninguém parecia se importar. Os soldados passavam por eles sem dizer nada, como se até aquelas regras tivessem sido engolidas pelo desespero lá fora.
O cheiro de suor, sangue e fumaça trazido das ruas pairava no ar. Ainda assim, depois de tudo o que tinha visto, Arthur sentiu o peito afrouxar por um instante.
Havia muita gente viva ali.
Mas o alívio durou pouco. Seus pais ainda estavam na roça. Sua irmã talvez estivesse com eles. E ele não fazia ideia do que havia acontecido fora da cidade.
O soldado parou próximo à entrada do pátio e apontou para uma área onde outros civis estavam sendo recebidos.
— Fiquem ali por enquanto. Alguém vai orientar vocês.
Arthur assentiu.
— Obrigado. Se você não tivesse atirado naquele rato… — Ele interrompeu a própria frase, apertando o cabo do sabre. — Obrigado por salvar ela.
O soldado pareceu desconfortável com aquilo. Desviou o olhar por um instante e ajustou a empunhadura do fuzil.
— Você também ajudou lá fora — respondeu, em tom baixo. — Só… tentem não sair daqui.
Antes que Arthur pudesse responder, o militar já se afastava, retornando para o portão com passos apressados.
Arthur e Lara trocaram um olhar breve.
Por mais que o lugar estivesse longe de parecer tranquilo, ainda era o ponto mais seguro que Arthur havia encontrado desde o início daquela noite. Havia muros, soldados, armas e pessoas tentando se organizar em meio ao desastre. Para Lara, ficar ali era a melhor chance.
Mas esse pensamento não trouxe paz. Seus pais ainda estavam em algum lugar além daqueles muros, e Clara talvez estivesse com eles. Arthur não conseguia aceitar a ideia de ficar ali, protegido, enquanto sua família continuava sozinha lá fora.
— Aqui você vai ficar segura — disse ele, voltando-se para Lara.
Ela entendeu antes mesmo que ele continuasse. A expressão em seu rosto mudou aos poucos, como se cada palavra não dita já tivesse aberto uma distância entre os dois.
— Você vai sair agora…?
Arthur apertou os lábios por um instante.
— Meus pais estão na roça. Clara pode estar com eles. Eu não consigo ficar aqui sem saber o que aconteceu.
— Então eu vou com você.
— Não. — A resposta saiu mais rápida do que ele pretendia. Arthur respirou fundo e tentou suavizar a voz. — Lara, se alguma coisa der errado, eu só tenho chance de sair vivo se estiver sozinho. Com você junto, eu…
Ele não terminou.
Lara desviou o olhar. Os dedos dela se fecharam com força, e a resposta demorou a vir.
— Minha família está longe — murmurou ela. — Eu nem sei se eles estão vivos.
Arthur sentiu aquilo atingir um lugar mais fundo do que esperava. Por um instante, não soube o que dizer.
— Lara…
— Eu sei que são seus pais. Eu sei que você precisa ir. — A voz dela tremeu, mas os olhos permaneceram fixos nos dele. — Só queria que, pelo menos uma vez, você não me deixasse pra depois.
Arthur ficou imóvel. A frase doeu mais do que deveria porque não era mentira. Ele desviou o olhar por um instante, sentindo o peso de tudo o que havia empurrado para depois como se sempre fosse existir tempo.
Lara respirou fundo, como se estivesse desistindo aos poucos.
— Eu não vou te impedir — disse ela, quase num sussurro. — Acho que eu nunca consegui mesmo.
Arthur desviou o olhar, incapaz de responder de imediato.
— Eu vou voltar — disse ele, baixo.
Os olhos dela brilharam, mas as lágrimas não chegaram a cair.
— Então volta.
Lara se aproximou e o beijou. Foi um beijo curto, trêmulo, quase desesperado. Ainda assim, por um instante, o gosto de sangue e fumaça pareceu desaparecer. Arthur sentiu os lábios dela contra os seus, o calor de sua respiração, o tremor contido em seus dedos. Ela sempre tremia assim quando fingia que estava bem.
Ele correspondeu ao beijo, mas por dentro a sensação era estranha. Não era reencontro, tampouco alívio. Era como tocar algo que um dia foi quente e descobrir, tarde demais, que agora restava apenas o costume de procurar calor. Arthur não soube dizer se aquilo era o mundo desabando ou algo entre os dois que já vinha desabando havia mais tempo, bem antes dos monstros e das janelas flutuantes. Provavelmente os dois.
Ao se afastar, Arthur olhou para o bolso onde Lara havia guardado a pequena pedra de barro.
— Se acontecer qualquer coisa, chama ele — disse, em voz baixa. — Não espera pra ver se alguém vai resolver. Só chama.
Lara fechou a mão sobre o bolso.
— Tá.
A resposta saiu pequena, quase perdida no barulho do pátio. Arthur permaneceu olhando para ela por mais um instante, como se ainda houvesse algo a dizer, mas nenhuma palavra parecia suficiente. Então se virou para os portões do batalhão. Do lado de dentro, havia luz, vozes e soldados tentando manter alguma ordem. Do lado de fora, apenas ruas escuras, carros abandonados e a incerteza sobre sua família.
Arthur deu alguns passos na direção da saída, mas parou antes de chegar perto dos soldados posicionados no portão. Se pedisse para sair, provavelmente tentariam impedi-lo e se explicasse perderia tempo.
Ele desviou pelo pátio, passando entre civis sentados no chão e caixas empilhadas perto de uma das laterais do muro. Aquele trecho estava menos iluminado, encoberto pela sombra da construção principal. Arthur olhou ao redor uma última vez, flexionou levemente os joelhos e saltou.
Poucas horas antes, aquilo teria sido impossível. Agora, seu corpo subiu com uma facilidade assustadora. Arthur passou por cima do muro em um único movimento e caiu do outro lado com um baque seco, dobrando os joelhos apenas o bastante para absorver o impacto. Do outro lado, as vozes do batalhão continuavam abafadas, como se pertencessem a outro mundo.
Ele apertou o cabo do sabre e seguiu pela noite em direção ao lugar onde havia deixado o carro.


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