Capítulo 3: O Trono dos Goblins
Arthur deixou a segurança de sua casa. Seus passos eram firmes, mas, no instante em que cruzou o portão e pisou na rua, seu corpo travou.
Uma criatura estava parada poucos metros à sua frente.
Tinha cerca de um metro de altura, pele verde e orelhas pontudas. O nariz comprido e deformado ocupava boa parte do rosto, enquanto tufos de cabelo ralo cresciam de forma desordenada sobre a cabeça parcialmente calva. Em uma das mãos, segurava uma faca cuja lâmina era coberta por dentes afiados, semelhante a uma serra enferrujada. Vestia trapos grosseiros que lembravam sacos de estopa costurados às pressas.
A criatura estava agachada ao lado do corpo de um dos vizinhos de Arthur. O peito do homem havia sido aberto, e ela arrancava pedaços de carne com as próprias mãos antes de levá-los à boca. O som úmido da mastigação ecoava pela rua silenciosa. Os olhos vermelhos se ergueram lentamente até encontrarem os de Arthur. Sangue escorria por sua boca enquanto ela continuava mastigando sem qualquer pressa.
Arthur sentiu o estômago embrulhar.
A criatura se ergueu lentamente até ficar de frente para ele. Então uma sensação violenta de perigo atravessou a mente de Arthur. Seu corpo reagiu antes mesmo que pudesse pensar. Ele se impulsionou para o lado no instante em que a faca serrilhada rasgava o ar e se cravava profundamente no portão da casa com um som seco.
Arthur arregalou os olhos enquanto o mundo parecia desacelerar ao seu redor. Seu corpo havia se movido muito além do que imaginava ser capaz. Só compreendeu o que tinha acontecido quando viu a lâmina cravada profundamente no portão atrás dele.
Quando voltou o olhar para a criatura, ela já disparava rua abaixo.
Arthur girou o corpo e lançou o sabre de ossos. A lâmina rasgou o ar antes de atravessar as costas da criatura. Um grito agonizante ecoou pela rua enquanto o sabre atravessava completamente seu corpo e se fincava no asfalto metros adiante.
[Você derrotou um Goblin.]
[Você ganhou experiência.]
Arthur permaneceu imóvel, olhando para as próprias mãos. Os atributos que havia distribuído começavam finalmente a mostrar seus efeitos. Seu corpo ainda parecia estranho, como se não estivesse totalmente acostumado às próprias capacidades. O movimento que usou para desviar da faca e a força necessária para atravessar a criatura daquele jeito… nada daquilo parecia possível antes.
Depois de alguns segundos, caminhou até o sabre fincado no asfalto e o puxou de volta. Em seguida, aproximou-se do corpo da criatura caída, golpeando sua cabeça mais uma vez para garantir que realmente estivesse morta antes de abrir o crânio com o sabre em busca de algo semelhante à esfera encontrada dentro do crocodilo humanoide, mas não havia nada ali.
Antes que pudesse pensar mais sobre aquilo, um arrepio percorreu sua espinha.
Arthur girou o corpo num reflexo e lançou o sabre para trás. Um grito agonizante ecoou pela rua no mesmo instante.
[Você derrotou um Goblin.]
[Você ganhou experiência.]
Outro goblin estava empalado na lâmina do sabre. A criatura havia saltado de uma árvore próxima tentando atacá-lo pelas costas, mas Arthur percebeu sua aproximação no último instante. Ele puxou a arma para trás e deixou o corpo do goblin cair no chão antes de examiná-lo rapidamente. Assim como o anterior, aquela criatura também não possuía nenhuma esfera em seu interior.
Arthur então pegou a faca serrilhada caída próxima ao cadáver e a observou. A arma era velha, desgastada e malcuidada, mas ainda parecia útil. Após um breve instante de hesitação, ele a prendeu na cintura antes de voltar a caminhar pelas ruas silenciosas do bairro, mantendo o sabre firme na mão.
“Essas criaturas são muito mais fracas que o crocodilo humanoide…”
Seus olhos percorriam os arredores atentamente enquanto avançava.
“Quando matei o crocodilo humanoide, subi dois níveis de uma vez… Mas mesmo depois de matar dois desses monstros, ainda não evoluí de novo…”
Enquanto refletia sobre aquilo, Arthur começou a se aproximar da praça do bairro.
Então seu corpo parou.
A cena diante dele fez seu estômago afundar.
Dezenas de goblins estavam espalhados pela praça. No centro, várias pessoas permaneciam ajoelhadas no chão com as mãos amarradas atrás das costas. Algumas choravam em silêncio. Outras apenas mantinham a cabeça baixa, tremendo.
Mais à frente, uma estrutura grotesca chamava atenção. Um trono rudimentar feito de madeira bruta era carregado por vários goblins.
Sentada sobre ele estava uma criatura muito maior que as demais.
Sua expressão endureceu.
O goblin gigantesco tinha quase dois metros de altura e um corpo absurdamente robusto. Os músculos pareciam inchados sob a pele esverdeada, enquanto presas deformadas escapavam da boca parcialmente aberta. Apenas encarar aquela criatura já fazia Arthur sentir o ar pesar ao seu redor.
“Que diabos é aquilo…?”
Arthur recuou rapidamente e se escondeu atrás de um muro parcialmente destruído, continuando a observar a praça à distância.
Uma grande fogueira queimava no centro do local. Sobre ela, um enorme caldeirão de ferro negro pendia sustentado por correntes enferrujadas. A fumaça densa subia lentamente junto ao cheiro forte de carne queimando.
Ao lado da fogueira, um goblin segurava um cutelo enferrujado enquanto cortava pedaços do que claramente era um braço humano sobre uma tábua de madeira.
Risadas estridentes e grunhidos grotescos ecoavam pela praça enquanto as criaturas circulavam ao redor dos prisioneiros ajoelhados como predadores cercando animais prestes ao abate. Tudo aquilo parecia algum tipo de ritual macabro.
Os rostos das pessoas capturadas estavam tomados pelo desespero. Algumas choravam compulsivamente, com lágrimas misturadas ao catarro escorrendo pelo rosto. Outras permaneciam imóveis, como se já tivessem desistido completamente.
Uma mulher mantinha os braços ao redor do próprio filho enquanto tentava consolá-lo, mas o terror estampado em seus olhos deixava claro que ela mesma já havia perdido qualquer esperança.
Arthur apertou o cabo do sabre com tanta força que os dedos começaram a doer. Voltou o olhar para o goblin gigantesco sentado no trono. Enfrentar aquilo no meio daquela multidão seria suicídio.
Ele queria fazer alguma coisa. Queria acabar com aquelas criaturas. Mas os goblins eram numerosos demais, e aquela coisa sentada no trono fazia cada instinto dentro dele gritar perigo desde o momento em que apareceu. Se fosse inteligente, iria embora agora. Mesmo assim… seus pés continuavam imóveis.
“Merda…”
Por mais que tentasse racionalizar, não conseguia simplesmente virar as costas para aquilo. Talvez ainda existisse alguma forma de ajudar sem se jogar diretamente em uma missão suicida.
No fim, Arthur decidiu continuar observando por mais um tempo. Se realmente não houvesse nada que pudesse fazer… iria embora.
Enquanto observava a praça à distância, seu olhar acabou se desviando para o posto de gasolina do outro lado da rua. Os olhos passaram rapidamente pelas bombas de combustível e, aos poucos, um plano começou a tomar forma.
Arthur respirou fundo. Era arriscado, mas enfrentar aquela quantidade de goblins diretamente seria suicídio.
Aproveitando o momento em que parte das criaturas permanecia distraída ao redor da fogueira, avançou agachado em direção ao escritório do posto. O coração batia forte no peito enquanto atravessava a rua tentando manter o máximo de silêncio possível. Assim que alcançou a porta, lançou o ombro contra ela, fazendo o trinco ceder imediatamente.
Arthur entrou no pequeno escritório e começou a vasculhar o local às pressas. Gavetas eram reviradas uma atrás da outra enquanto seus olhos percorriam o ambiente procurando qualquer coisa útil até encontrar o cartão de acesso utilizado pelos frentistas para liberar as bombas de combustível. Também pegou alguns pedaços de arame espalhados próximos ao balcão e um isqueiro velho esquecido dentro de uma gaveta antes de voltar para a área das bombas.
Usando o cartão, destravou o sistema de abastecimento e começou a liberar combustível no chão enquanto mantinha os gatilhos das mangueiras pressionados com pedaços de arame. Gasolina, álcool e diesel passaram a escorrer lentamente pelo asfalto enquanto o cheiro forte de combustível se espalhava rapidamente pelo ambiente.
Arthur observou o combustível se espalhando pelo posto enquanto sentia um nó apertar sua garganta. Aquilo podia dar muito errado. Mesmo assim, arrancou a bandeira do posto e a amarrou ao redor de uma pedra usando o restante do arame, improvisando uma espécie de funda.
Depois, voltou pelo caminho recolhendo algumas pedras espalhadas pela rua enquanto mantinha o olhar fixo na praça ao longe. As mãos estavam cobertas de suor. Sabia exatamente o que aconteceria se aquele plano desse errado. Ainda assim, continuou avançando.
Já não existia espaço para hesitação.
Aproximando-se silenciosamente da praça, Arthur percebeu que a maioria dos goblins permanecia distraída ao redor da fogueira e do caldeirão. As criaturas pareciam completamente absorvidas pelo ritual grotesco que acontecia no centro do local.
Arthur segurou duas pedras com força antes de arremessá-las na direção da praça.
As pedras atravessaram o ar e atingiram os goblins em cheio, arrancando gritos irritados das criaturas. Um deles caiu segurando o rosto ensanguentado enquanto outro tropeçava para trás após ser atingido na cabeça, mas nenhum morreu. Mesmo com sua força aumentada, aquelas criaturas ainda eram resistentes o suficiente para sobreviver ao impacto.
Antes que os goblins entendessem o que estava acontecendo, outras pedras já atravessavam o ar na direção da praça.
A confusão se espalhou instantaneamente. Grunhidos agressivos ecoaram pela praça enquanto os goblins procuravam o responsável pelos ataques. Então dezenas de olhos vermelhos se voltaram na direção de Arthur. No mesmo instante, uma sensação de perigo explodiu em seu peito.
Ele se virou e começou a correr.
Atrás dele, o goblin gigantesco sentado no trono soltou um rugido brutal que fez toda a praça estremecer. A reação foi imediata. Dezenas de goblins avançaram em perseguição, gritando e brandindo armas enferrujadas enquanto corriam atrás dele.
Embora goblins isolados já não fossem uma grande ameaça, enfrentar aquela quantidade de monstros seria suicídio. Mesmo assim, Arthur controlou a própria velocidade. Precisava garantir que os goblins continuassem seguindo atrás dele.
Quando alcançou o posto de gasolina, acelerou repentinamente e contornou as bombas de combustível. Os goblins avançaram logo atrás. Nenhuma das criaturas pareceu se importar com o combustível espalhado pelo chão enquanto atravessavam o posto em meio aos próprios grunhidos furiosos.
Os pés dos goblins rapidamente ficaram encharcados pela mistura inflamável, enquanto Arthur continuava correndo até alcançar uma distância segura. Só então parou.
Ofegante, voltou o olhar para trás enquanto acendia a funda improvisada. As chamas começaram a consumir rapidamente o tecido da bandeira enquanto mais goblins avançavam para dentro do posto sem perceber o perigo.
Arthur aguardou apenas mais alguns segundos antes de arremessar. A pedra em chamas atravessou o ar em uma curva irregular e caiu no meio do combustível espalhado.
Por um breve instante, tudo pareceu silencioso.
BOOOOOM!
Uma coluna de fogo e fumaça rasgou o céu noturno enquanto as bombas de combustível explodiam uma após a outra. A onda de impacto atravessou a rua violentamente, lançando destroços e pedaços de metal retorcido em chamas para todos os lados. Vidros estilhaçaram instantaneamente nas casas próximas enquanto parte da estrutura do posto desabava em meio às chamas.
Mesmo à distância, Arthur sentiu o calor escaldante atingir seu corpo. A explosão foi tão violenta que o ar o lançou para trás, fazendo suas costas se chocarem contra a parede de uma casa próxima.
O impacto arrancou o ar de seus pulmões.
Arthur caiu no chão atordoado enquanto o estrondo da explosão ainda ecoava pela vizinhança. Aquilo tinha sido muito mais forte do que imaginava. Um arrepio percorreu sua espinha ao imaginar o que teria acontecido se aquele posto fosse maior.
Por alguns segundos, permaneceu caído, sem conseguir se levantar.
“Droga… eu quase morri agora…”
Mesmo longe das chamas, suor frio escorria pelo rosto de Arthur.
As criaturas que estavam próximas ao centro da explosão simplesmente desapareceram em meio ao fogo e aos destroços. Outras tiveram os corpos incendiados e agonizavam enquanto rolavam pelo chão tentando apagar as chamas.
Alguns goblins rastejavam pelo chão deixando rastros de sangue enquanto tentavam fugir das chamas. Outros agonizavam com metade do corpo carbonizado. Uma das criaturas gritava desesperadamente enquanto tentava se arrastar com apenas um dos braços e o que sobrou das pernas despedaçadas.
Então uma enxurrada de notificações surgiu diante dos olhos de Arthur.
[73 x Você derrotou um Goblin.]
[Você ganhou experiência.]
[Você subiu um nível.]
Mesmo depois da explosão, algumas criaturas ainda morriam queimadas em meio às chamas, mas Arthur logo percebeu algo estranho. Após alcançar o nível 4, as notificações de experiência simplesmente pararam de aparecer. Antes que pudesse pensar muito sobre aquilo, uma nova janela surgiu diante de seus olhos.
[Você desbloqueou o título “Assassino de Goblins”.]
[Título: “Assassino de Goblins”
Descrição: Você possui elevada experiência no combate contra goblins. Concede 15% de bônus de dano e 10% de chance de acerto crítico contra criaturas desse tipo.]
Arthur permaneceu alguns segundos encarando a janela em silêncio.
“Títulos…?”
Em meio ao caos e às chamas consumindo o posto, Arthur rapidamente abriu sua janela de status e começou a distribuir os atributos recebidos após subir de nível.
[Nome: Arthur Silva | Nível: 04 | Rank: –
Classe: Nenhuma Profissão: Nenhuma
Título: Assassino de Goblins
ATRIBUTOS [00/141]
Força: 35
Agilidade: 35
Constituição: 30
Inteligência: 16
Percepção: 25
Mana: 100
HABILIDADES
Reversão.
]
Arthur fechou a janela de status e avançou em direção aos goblins sobreviventes com o sabre de ossos firme em sua mão. As criaturas ainda tentavam se arrastar para longe das chamas, mutiladas e desorientadas pela explosão. Nenhuma delas conseguiu oferecer resistência real.
A expressão em seu rosto permanecia séria enquanto avançava entre os sobreviventes. Alguns goblins ainda tentavam erguer armas tremendo de dor. Outros apenas gritavam desesperadamente ao vê-lo se aproximar. A reação pouco importava. A cada passo, o sabre de ossos voltava a cair, atravessando carne e ossos com facilidade perturbadora. Nenhum deles foi capaz de detê-lo. Nenhum deles conseguiu sequer tocá-lo.
Quando o último goblin tombou, o silêncio voltou a dominar aquela parte da rua.
Sangue escuro se espalhava pelo asfalto, misturado ao fogo e aos corpos carbonizados enquanto Arthur caminhava em direção à praça.
Para os prisioneiros ajoelhados no centro do local, a cena parecia surreal.
O incêndio ainda consumia parte do posto de gasolina ao fundo, lançando reflexos alaranjados sobre a praça. Muitos encaravam as chamas em choque absoluto, ainda atordoados pela explosão que havia feito o chão tremer sob seus joelhos. Outros mantinham os olhos fixos em Arthur, incapazes de acreditar no massacre diante deles.
A fumaça densa avançava lentamente pelo local, arrancando tosses enquanto o cheiro de combustível queimado dominava o ar. Entre os capturados, alguns começaram a se debater discretamente tentando soltar as cordas amarradas aos pulsos. Havia também aqueles que apenas permaneciam imóveis, tomados pelo medo e pela incredulidade.
Mas nem mesmo o incêndio, os gritos ou o massacre pareciam afetar a criatura sentada sobre o trono rudimentar ao centro da praça.
Mesmo vendo dezenas de goblins morrerem na explosão e os remanescentes serem massacrados diante de seus olhos, o goblin gigantesco permaneceu imóvel. Um sorriso carregado de desprezo estampava seu rosto grotesco, como se nada daquilo realmente importasse.
Ao perceber Arthur se aproximando, sequer se deu ao trabalho de se levantar. Aquele humano simplesmente não era digno de sua atenção.
Arthur sentiu a pressão sufocante que emanava daquele goblin. Mesmo depois da explosão e do massacre, ainda não tinha a confiança de que seria capaz de derrotar aquela criatura. Ainda assim, continuou avançando. Retirou uma das facas serrilhadas presas à cintura e a arremessou na direção do goblin gigantesco.
Sua falta de precisão era evidente. A lâmina girou torta pelo ar antes de atingir o cabo da enorme clava com um som metálico seco e cair no chão logo em seguida. O goblin apenas observou a faca tombar aos seus pés, como se aquilo não passasse de uma provocação infantil. Então se levantou.
A madeira do trono rangeu sob o peso de seu corpo robusto enquanto o goblin erguia a enorme clava apoiada ao lado do assento. Sua postura fazia lembrar um carrasco prestes a executar um condenado.
Logo os dois ficaram frente a frente, separados por apenas alguns metros. Os olhos estreitos do goblin percorreram Arthur antes de se fixarem no sabre de ossos em suas mãos. Pela primeira vez, parte do desprezo estampado em seu rosto diminuiu levemente. A criatura parecia ter reconhecido que aquela arma representava algum tipo de ameaça.
Sem qualquer aviso, atacou.
BOOM!
A clava desceu de cima para baixo com uma violência monstruosa, esmagando o chão e fazendo os blocos de concreto da praça se partirem. O ataque foi tão forte que os prisioneiros perderam o equilíbrio. Por um instante, acreditaram que Arthur havia sido esmagado.
Mas então o goblin girou a arma para o lado.
CLANG!
O som da colisão ecoou pela praça quando a clava interceptou um golpe vindo de seu flanco. Arthur havia escapado no último instante, surgindo ao lado da criatura e desferindo um corte horizontal com o sabre de ossos. O choque fez as duas armas vibrarem violentamente.
O goblin recuou um passo, enquanto Arthur era lançado vários metros para trás. Seus pés arrastaram pelo concreto numa tentativa desesperada de recuperar o equilíbrio. A força do impacto percorreu seus braços, deixando-os dormentes. Um estalo seco ecoou brevemente e uma pequena rachadura surgiu na lâmina do sabre de ossos.
“Que força monstruosa…”
Arthur ergueu o olhar para a criatura enquanto tentava ignorar a dor que ainda percorria seus braços. Aquele único choque de armas havia sido suficiente para fazê-lo entender o tamanho do erro que cometera. O goblin não era apenas forte. Era forte o bastante para danificar seu sabre com um único golpe. Ainda assim, reajustou a empunhadura da arma e voltou a firmar a postura.
Movendo-se pela esquerda, tentou explorar uma abertura na guarda da criatura, mas o goblin reagiu quase instantaneamente. A enorme clava cortou o ar em um movimento brutal na direção de sua cabeça. No último instante, Arthur impulsionou o corpo para trás e o golpe passou raspando diante de seu rosto. A pressão deslocou o ar com tanta violência que ele sentiu a pele arder.
Sem lhe dar tempo para recuperar o equilíbrio, Arthur voltou a avançar. O sabre de ossos atravessou o ar em uma estocada rápida e abriu um corte profundo na lateral do abdômen do goblin. Sangue escuro escorreu pela ferida enquanto a criatura soltava um rugido furioso. Mas Arthur mal teve tempo de registrar o resultado do ataque.
BOOM!
A enorme clava avançou como um borrão e atingiu o sabre de frente, lançando Arthur violentamente para longe. Mesmo conseguindo bloquear o golpe, a colisão quase arrancou a arma de suas mãos. Um novo estalo seco ecoou no mesmo instante, e outra lasca se desprendeu da lâmina já rachada.
Arthur foi arremessado vários metros pela praça enquanto uma dor brutal explodia dentro de seu corpo. Seus órgãos pareciam ter sido esmagados pelo impacto. O gosto metálico de sangue subiu por sua garganta enquanto sua visão tremia levemente.
“Droga…”
O goblin avançou novamente, brandindo a enorme clava em um golpe horizontal brutal. Arthur se abaixou no último instante e sentiu o vento violento do ataque passar sobre sua cabeça antes de destruir parte dos blocos de concreto atrás dele. Sem perder tempo, deslizou para o lado e ganhou distância.
As chamas do posto ainda queimavam intensamente ao fundo, lançando nuvens densas de fumaça negra pelo ambiente. Aproveitando a cobertura, Arthur recuou diretamente para o meio da fumaça. O goblin avançou logo atrás, rugindo furiosamente enquanto tentava encontrá-lo entre a fumaça, mas sua visão pareceu vacilar por um breve instante.
BOOM!
A enorme clava atravessou a fumaça violentamente e esmagou o chão da praça, espalhando fragmentos de concreto para todos os lados.
Mas Arthur já não estava ali.
No instante seguinte, surgiu pelo flanco da criatura e abriu outro corte profundo em suas costas antes de desaparecer novamente em meio à fumaça. O goblin rugiu de dor e girou a clava descontroladamente, espalhando fumaça e destroços para todos os lados.
Arthur sabia que só precisava continuar com sua estratégia para vencer. Mas, por um breve instante, as chamas do posto iluminaram parcialmente sua figura e revelaram sua posição. O rugido monstruoso da criatura ecoou enquanto ela avançava furiosa em direção a Arthur.
BOOM!
A clava atravessou o local onde ele estava um segundo antes. Arthur se jogou para o lado, rolando pelo chão enquanto o impacto abria novas rachaduras no concreto. Durante a queda, seu corpo raspou contra uma viga metálica retorcida deixada pela explosão. O tecido da camisa se rasgou e um corte superficial se abriu em seu abdômen.
“Tsc!”
Arthur mal teve tempo de reagir antes que outro golpe viesse logo em seguida.
BOOM!
Outro golpe atingiu o chão ao seu lado. Fragmentos de concreto e poeira foram lançados contra seu corpo enquanto tentava se afastar. O goblin rugia furiosamente, destruindo tudo em seu caminho numa tentativa obsessiva de esmagá-lo.
Arthur se levantou às pressas, respirando pesadamente. Seus pulmões queimavam e cada músculo do corpo protestava. Aos poucos, a fumaça voltou a engolir a praça, ocultando sua presença mais uma vez. Ainda assim, seus olhos permaneceram fixos no vulto gigantesco que se movia entre as sombras.
Apanhando uma pedra caída próxima aos pés, Arthur a arremessou na direção da criatura. O goblin reagiu imediatamente, erguendo a enorme clava diante do rosto para bloquear o projétil. No instante em que a arma deixou sua guarda aberta, Arthur avançou através da fumaça e golpeou.
O sabre de ossos atravessou o peito da criatura. Os olhos do goblin se arregalaram enquanto a lâmina perfurava profundamente sua carne. A enorme clava escapou de suas mãos e caiu pesadamente no chão da praça. Mas a criatura ainda resistia. Com um rugido desesperado, o goblin agarrou a lâmina com as próprias mãos, tentando impedir que ela avançasse ainda mais através de seu corpo.
Arthur sentia os braços queimarem enquanto forçava o sabre cada vez mais fundo. A criatura rugia diante dele, tentando conter a lâmina com as próprias mãos, mas ele se recusava a ceder. Cada centímetro conquistado parecia exigir toda a força que ainda restava em seu corpo.
Mas a resistência da criatura começou a falhar. Seus dedos foram rasgados pelo fio do sabre enquanto a lâmina avançava através de sua carne. Sangue escuro explodiu entre suas mãos enquanto a arma penetrava cada vez mais fundo em seu peito. O goblin cambaleou e então caiu pesadamente no chão com o sabre empalado em seu tórax.
Arthur permaneceu imóvel, ofegante. Seu corpo inteiro tremia de exaustão enquanto ele passava a mão pelo rosto tentando limpar a fuligem e o suor que escorriam em seus olhos.
Mas naquele instante, os olhos do goblin se abriram novamente. A criatura agarrou a enorme clava caída ao lado do corpo e desferiu um golpe repentino diretamente contra ele.
“Merda…!”
Era tarde demais para desviar. Seu corpo exausto simplesmente não conseguia reagir a tempo.
Mas então uma explosão violenta de ar atingiu a clava.
BOOOOM!
O golpe foi desviado no último instante, passando a poucos centímetros do rosto de Arthur. O coração dele quase parou, mas seu corpo se moveu antes que o medo pudesse prendê-lo. Com os dedos cerrados ao redor do cabo, Arthur arrancou o sabre ainda cravado no peito do goblin, trazendo junto um jato de sangue escuro. Aproveitando o próprio impulso, girou o corpo e desferiu outro golpe.
A lâmina atravessou a cabeça da criatura.
O corpo do goblin estremeceu por um breve instante antes de finalmente tombar imóvel no chão da praça.
[Você derrotou um Hobgoblin.]
[Você ganhou experiência.]
[Você subiu um nível.]
— Quem está aí? — perguntou Arthur, com um tom desconfiado.
Ele sabia que quem quer que fosse não pretendia atacá-lo. Se fosse um inimigo, teria aproveitado o momento em que ele lutava contra o hobgoblin para agir. Além disso, não havia motivos para alguém hostil salvá-lo no último instante.
— Calma aí, não precisa se assustar desse jeito… — uma voz brincalhona ecoou pela praça tomada pela fumaça.
Duas figuras começaram a surgir lentamente em meio à névoa escura, como se estivessem se revelando aos poucos no vazio da praça. Arthur demorou alguns segundos para reagir ao reconhecê-los.
Lucas e Felipe.
Lucas observou o posto destruído, os corpos espalhados e a fumaça subindo aos céus antes de encarar Arthur novamente.
— Moço… que porra foi essa? Você explodiu um posto de gasolina. Você é completamente maluco? — perguntou, incrédulo.
— Acho que ele estava tentando se matar… — comentou Felipe, dando de ombros. — Como o posto não funcionou, resolveu desafiar aquela coisa ali.
— Vocês? Mas que porra… Como apareceram assim do nada? — perguntou Arthur, ainda surpreso.
Pela primeira vez desde o início do caos, Arthur sentiu o peso nos ombros diminuir um pouco. Ver rostos familiares trazia uma sensação estranhamente reconfortante. Fazia tempo desde a última vez que os três conversavam daquele jeito.
— É a minha habilidade — respondeu Lucas, com um sorriso orgulhoso. — Você também recebeu uma, não recebeu?
— É… por algum motivo ele consegue ficar invisível junto com qualquer um que toque. Um cara como ele com esse tipo de poder é um sério risco pra sociedade — comentou Felipe com um sorriso provocativo.
— Ei, ei… para de me difamar, caralho — retrucou Lucas.
— E aquela explosão que desviou a clava foi minha habilidade — continuou Felipe, ignorando completamente a reclamação. — Eu consigo criar pequenas explosões usando pressão do ar.
Arthur ficou em silêncio por um instante.
— Vocês podem usar as habilidades assim à vontade? E se precisarem delas depois?
— Relaxa. Contanto que a mana não acabe totalmente, dá pra continuar usando. Ela se recupera com o tempo — respondeu Lucas.
Arthur franziu a testa.
— Espera… então vocês podem usar isso quantas vezes quiserem?
Lucas demorou alguns segundos para responder.
— Claro? Enquanto tiver mana. Por que não poderíamos? Não faria sentido nenhum.
Arthur ficou em silêncio por um instante.
Então chutou o corpo do hobgoblin enquanto resmungava reclamações praticamente inaudíveis. “Então só eu peguei uma habilidade fodida dessas?”
— Cof cof… A propósito, nós tiramos aquelas pessoas da praça enquanto vocês lutavam. — comentou Felipe, tentando mudar o assunto.
— Então vocês estavam aqui o tempo todo?
— Na verdade não. A gente tava na casa do Lucas quando tudo começou — respondeu Felipe. — Depois de matar alguns goblins usando nossas habilidades, nós dois chegamos no nível dois. Mas depois disso a experiência começou a diminuir bastante.
— Quando ouvimos a explosão do posto, corremos pra ver o que estava acontecendo — continuou Felipe. — A gente viu você lutando contra aquele monstro, mas sinceramente? Não tinha muito como ajudar naquela luta.
Felipe apontou discretamente na direção dos antigos cativos.
— Então aproveitamos pra soltar aquelas pessoas dali enquanto vocês estavam lutando. Voltamos só no final… bem na hora daquele golpe da clava.
— Podemos levar eles pro batalhão da polícia — continuou Felipe. — Os policiais conseguiram montar uma área segura. Parece que muita gente da cidade começou a se reunir lá.
Lucas assentiu logo em seguida.
— Goblins são perigosos pra gente normal… mas contra policiais armados eles não conseguem fazer muita coisa.
Ele então voltou os olhos para o corpo do hobgoblin.
— Agora… essa coisa aí já é outra história.
Arthur soltou um suspiro cansado.
— Imagino que existam outros lugares seguros pela cidade também.
— Provavelmente — respondeu Lucas. — Nós enfrentamos goblins por um bom tempo e não vimos nenhuma criatura daquele nível. Então ou você teve muito azar… ou um milagre absurdo.
Arthur olhou para o corpo do hobgoblin caído antes de suspirar novamente.
— Acho que foi sorte não ter morrido mesmo.
Sem qualquer cerimônia, cravou o sabre na cabeça da criatura e abriu o crânio à força antes de enfiar a mão no interior ensanguentado. Após alguns segundos, retirou uma pequena esfera envolta em sangue escuro.
Diferente da que havia encontrado no Caiman Carniceiro, aquela possuía uma coloração amarelada. Dentro da esfera translúcida, uma pequena figura semelhante ao hobgoblin podia ser vista flutuando lentamente.
Lucas fez uma expressão estranha.
— Cara… isso foi nojento pra caralho.
— O que é isso aí? — perguntou em seguida, olhando para a esfera com curiosidade.
Arthur limpou parcialmente o sangue da mão na própria camisa rasgada enquanto observava o objeto.
— Não faço ideia. Encontrei algo parecido na outra criatura que matei… então imaginei que esse também teria uma.
— A propósito… qual é a sua habilidade? Você tá forte pra caralho — perguntou Lucas enquanto observava o corpo do hobgoblin caído.
Arthur hesitou por um breve instante antes de responder.
— Reversão… Eu consigo reverter outras habilidades, mas ela só pode ser usada uma vez. Depois disso, desaparece.
Lucas encarou Arthur por um tempo.
— Espera… sério?
Arthur apenas soltou um suspiro cansado.
— Infelizmente.
Felipe desviou o assunto antes que o clima ficasse estranho demais.
— Bem… mesmo assim você está muito forte. Nós dois juntos provavelmente não conseguiríamos lidar com aquela coisa. Que nível você tá agora?
— Acabei de chegar no nível cinco depois de matar o hobgoblin — respondeu Arthur.
— O QUÊ?! — Lucas arregalou os olhos. — Cara, a gente tá caçando goblins faz um tempão e ainda nem chegou no nível três!
Arthur passou a mão pelos cabelos bagunçados enquanto tentava processar tudo o que havia acontecido.
— Eu subi dois níveis depois de matar um homem crocodilo. Depois ganhei mais um explodindo os goblins no posto… e agora subi outro matando o hobgoblin.
Felipe estreitou os olhos.
— Espera… aquele homem crocodilo era forte assim?
Arthur assentiu lentamente.
— Pelo menos no mesmo nível daquele hobgoblin.
Lucas ficou encarando Arthur em absoluto silêncio antes de finalmente falar.
— Tá de sacanagem… Como você matou uma coisa dessas sozinho?
Arthur deixou escapar uma risada fraca.
— É uma longa história.
Felipe então cruzou os braços.
— Você pode contar depois. Por enquanto, a gente devia levar essas pessoas para o batalhão…
O semblante de Arthur mudou levemente ao pensar na própria família.
— Não posso. Preciso encontrar meus pais… e a Lara.
Lucas deu um passo à frente.
— Quer ajuda? Nossas famílias estão seguras lá no batalhão.
Arthur ficou em silêncio por um instante antes de balançar a cabeça negativamente.
— Acho melhor vocês ajudarem essas pessoas… Sem a invisibilidade vai ser difícil levar todo mundo até lá em segurança.
Felipe assentiu.
— Certo. Então vamos levá-las até lá. Quando encontrar sua família, procura a gente.
— Combinado — respondeu Arthur.
Os três trocaram um último olhar antes de seguirem caminhos diferentes.
Lucas e Felipe caminharam na direção dos antigos cativos enquanto Arthur seguiu sozinho pelas ruas destruídas da cidade. O cheiro de fumaça ainda dominava o ar. Mas, naquele momento, Arthur mal conseguia pensar nas chamas, nos goblins ou no sangue espalhado pela praça.
Só existia um pensamento em sua mente.
“Por favor… estejam vivos.”



Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.