Quando a contagem zerou, um silêncio sobrenatural tomou conta de tudo ao redor. Até mesmo os insetos pararam de cantar. A cidade inteira pareceu prender a respiração antes que um rugido bestial rasgasse a noite. O som se espalhou como uma explosão. Alto demais. Estranho demais. Arthur já havia ouvido rugidos de monstros em filmes e jogos, mas aquilo era diferente. Havia uma malícia naquele som, algo que fazia seu corpo reagir antes que sua mente conseguisse compreender. Todos os pelos de seus braços e nuca se arrepiaram. Os cachorros tremiam no chão ao seu lado, com os corpos rígidos e os pelos eriçados. Nenhum deles latiu. Parecia que o mundo inteiro havia se reduzido àquele único rugido. Arthur pousou a mão sobre os animais, tentando acalmá-los… ou talvez tentando acalmar a si mesmo.

    Depois do que pareceu uma eternidade, o rugido cessou. Gritos desesperados ecoaram pela rua, misturados a risadas estridentes e cruéis. Arthur tentou controlar a própria respiração, mas o caos do lado de fora tornava aquilo quase impossível. Então os cachorros pararam de tremer.

    Os dois ergueram a cabeça ao mesmo tempo e olharam para a porta do quarto. Arthur virou o rosto na mesma direção, mas não viu nada fora do comum.

    CRASH!

    O som de vidro estilhaçando ecoou pela casa. A porta da cozinha havia sido destruída. Passos pesados esmagavam os cacos espalhados pelo chão enquanto algo se aproximava pelo corredor. Soava pesado, arrastado, desumano. 

    Antes que aquela pressão o engolisse por completo, Arthur cravou os dentes na própria mão. A dor veio aguda e imediata, arrancando um som abafado de sua garganta. Foi o suficiente para romper a paralisia.

    BAM! 

    Com um estrondo violento, a porta do quarto explodiu. Lascas de madeira voaram, e a cama foi arremessada contra o guarda-roupa, espalhando objetos pelo chão. Do fundo do cômodo, Arthur viu uma criatura atravessar a entrada destruída, arrastando parte da parede consigo. Os ombros rasparam no concreto, abrindo rachaduras ao redor do vão. Cada passo fez o piso tremer. 

    A criatura possuía uma forma humanoide grotesca, mas sua cabeça lembrava a de um crocodilo gigantesco. Os olhos brilhavam em um amarelo vítreo, enquanto dentes irregulares se projetavam da mandíbula entreaberta. Músculos anormalmente inchados cobriam seu corpo, e em uma das mãos ela carregava um sabre deformado, feito da mandíbula de algum outro animal.

    O monstro permaneceu imóvel, os olhos amarelos fixos em Arthur. Havia algo cruel naquela quietude, como um predador saboreando o medo da presa antes do ataque. Quando a criatura deu o primeiro passo, Arthur recuou antes mesmo de decidir se mover e esbarrou na mesa do computador. Seu olhar correu pelo quarto em busca de qualquer coisa que pudesse usar, até seus dedos encontrarem a garrafa de água sobre a mesa. Sem pensar, ele a arremessou contra a criatura.

    A reação do monstro foi instantânea. O sabre deformado atravessou a garrafa no ar, e a água explodiu pelo quarto, encharcando parte de seu corpo. Os olhos amarelos da criatura pareceram cintilar em deboche.

    Antes que ele desse outro passo, Toby avançou. O vira-lata saltou contra a criatura e cravou os dentes em sua perna com toda a força. Rosnava furiosamente, tentando afundar as presas naquela massa absurda de músculos, mas era como morder uma parede de pedra. O monstro apenas virou o rosto, como se finalmente tivesse notado sua presença, e desferiu um chute brutal contra o cachorro, como quem afasta um inseto.

    Com um estalo seco, Toby foi arremessado contra a parede do quarto. O impacto ecoou pelo cômodo antes que o cachorro caísse no chão, soltando um ganido agonizante. Uma pequena mancha de sangue se espalhou próxima ao focinho do animal e escorreu pelo piso do quarto.

    — TOBY! — Arthur gritou.

    Arthur agarrou a cadeira ao lado da mesa e avançou contra o monstro em um grito desesperado. Antes que pudesse atingi-lo, porém, a mão monstruosa do crocodilo humanoide se fechou em volta de seu pescoço e o ergueu do chão com uma facilidade absurda. A cadeira escapou de seus dedos e bateu contra o piso com um estrondo seco.

    Os dedos escamosos esmagavam sua garganta enquanto seu corpo balançava no ar. A pressão aumentava a cada segundo. O rosto começou a latejar à medida que a respiração falhava. Os olhos amarelos da criatura permaneceram fixos nos dele, saboreando cada instante de seu desespero. Arthur tentou se soltar, mas era como se o braço da criatura fosse feito de aço. Seus dedos arranhavam inutilmente a mão monstruosa enquanto o ar desaparecia de seus pulmões.

    No canto do quarto, Jack rosnou. O cachorro avançou contra a criatura, saltando em direção à perna dela. Pela primeira vez, o monstro pareceu irritado. O crocodilo humanoide virou o rosto para ele e ergueu o sabre de ossos.

    SCHAK!

    O som da lâmina atravessando carne ecoou pelo cômodo. Arthur viu o golpe partir Jack antes que o corpo caísse em duas partes no chão. Sangue se espalhou pelo piso e pelas paredes próximas, enquanto um último som fraco escapava da garganta do cachorro. Seus olhos permaneceram presos no corpo de Jack, e por um momento até a falta de ar pareceu distante diante do horror daquela cena.

    A criatura ainda segurava Arthur pelo pescoço com facilidade absurda, como se o sacrifício dele não tivesse significado nada. Arthur encarou o sangue espalhado pelo chão. A visão tremia. A mandíbula travou. Os dedos deixaram de arranhar a mão monstruosa. Seu olhar subiu até o rosto da criatura. Arthur juntou o pouco ar que conseguia e cuspiu nele.

    O crocodilo humanoide permaneceu imóvel, como se não acreditasse no que acabara de acontecer. Os olhos amarelos se estreitaram. Arthur mal teve tempo de reagir antes que a criatura o lançasse contra a mesa do computador. A madeira rachou no impacto, e o monitor despencou junto com teclado, cabos e objetos espalhados. Uma dor violenta atravessou suas costas, e o ar desapareceu de seus pulmões. Arthur tossiu enquanto tentava recuperar o fôlego. Tudo girava. Seu braço tremia, sua visão oscilava, e a dor parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.

    Em meio aos destroços, seus olhos encontraram a extensão caída no chão. Arthur agarrou o fio com uma das mãos e a régua de tomadas com a outra, puxando com força até a carcaça plástica se romper e expor os cabos metálicos desencapados. A criatura avançou em sua direção, mas, atrás dela, Toby voltou a se mexer. Ferido e coberto de sangue, o cachorro forçou as patas trêmulas contra o chão e se lançou contra o crocodilo humanoide. O salto perdeu força no meio do caminho, mas seu corpo atingiu a parte de trás do joelho da criatura.

    O crocodilo humanoide vacilou. A perna atingida cedeu, e o corpo colossal tombou para a frente, apoiando uma das mãos no chão para não cair de vez. Toby desabou logo atrás dele, incapaz de continuar em pé. Arthur avançou no mesmo instante, enquanto o monstro ainda tentava recuperar o equilíbrio, e cravou os fios desencapados diretamente em sua orelha. O corpo da criatura se arqueou com violência.

    — RAAAAARGH!

    O cheiro de carne queimada tomou o quarto quase imediatamente. As luzes começaram a piscar. Faíscas explodiam da extensão enquanto a corrente elétrica estalava pelo ambiente. O corpo do crocodilo humanoide se debatia sem controle, golpeando o chão e espalhando pequenos fragmentos de piso pelo quarto. Rugidos de dor ecoavam entre os estalos da eletricidade queimando carne e músculos.

    Arthur recuou alguns passos, ofegante, sem conseguir desviar os olhos. O cheiro de plástico derretido se misturava ao odor nauseante de carne carbonizada enquanto os espasmos da criatura perdiam força.

    Uma avalanche de janelas surgiu diante dele.

    [Você derrotou um Caiman Carniceiro.]

    [Você derrotou um inimigo de alto nível. Bônus de experiência será atribuído devido à diferença de níveis.]

    [Você ganhou experiência.]

    [Você subiu um nível.]

    [Você subiu um nível.]

    [Existem pontos de atributos a serem distribuídos. Acesse a janela de status.]

    [Parabéns, por atingir o nível 3 o sistema de mascotes foi liberado.]

    Arthur ignorou as janelas diante dos olhos, arrancou a extensão da tomada e correu até Toby. O cachorro soltava pequenos grunhidos, o peito subindo em espasmos curtos. A respiração era fraca, irregular, atravessada por um chiado doloroso. Arthur se ajoelhou ao lado dele e estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar seu pelo manchado de sangue. Pensou nas muitas vezes em que Jack e Toby corriam ao seu redor em busca de atenção, e em como aquela alegria quase sempre o irritava. Durante anos, havia tratado os dois com uma indiferença cômoda. Agora, diante de Toby coberto de sangue, aquelas lembranças pesavam como pedras em seu peito.

    — Calma… eu tô aqui — murmurou, embora nem soubesse se dizia aquilo para Toby ou para si mesmo.

    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Arthur enquanto ele alisava a cabeça do cachorro ferido. Mesmo naquele estado, Toby ainda se mexeu e lambeu seus dedos, como se tentasse confortá-lo. Arthur passou a mão trêmula pelo focinho dele, tentando limpar o sangue que escorria com a respiração irregular. O cachorro tossiu fraco, espalhando pequenas gotas vermelhas sobre sua mão, e logo começou a se engasgar. O peito subia em espasmos descompassados enquanto sangue escorria entre seus dentes.

    — Ei… ei…

    Arthur ergueu a cabeça do cachorro com as duas mãos, tentando ajudá-lo a respirar. Cada puxada de ar parecia mais fraca que a anterior. Ele apertou os dentes.

    — Eu não vou deixar você morrer.

    Fechou os olhos e se concentrou nas informações que o sistema havia deixado em sua mente, procurando alguma forma de salvar Toby. Entre termos soltos e regras que pareciam surgir por instinto, uma possibilidade se destacou: o sistema de mascotes. Assim que Arthur se agarrou a essa ideia, uma nova janela surgiu diante de seus olhos:

    [O sistema de mascotes permite criar um vínculo com uma criatura e integrá-la ao sistema de evolução. Apenas uma mascote pode ser contratada por vez. Após o contrato, a criatura poderá evoluir de acordo com sua qualidade e limitações.]

    Se realizasse o contrato, Toby teria uma chance de sobreviver. Arthur colocou a mão sobre a cabeça do cachorro ferido.

    — Abrir contrato.

    Uma nova mensagem surgiu diante dele:

    [Criatura de nível inferior detectada. A espécie selecionada mal se classifica na categoria F. Você só poderá possuir uma mascote por vez. Deseja continuar? ]

    — Sim.

    O sistema podia considerar Toby uma criatura inferior, mas aquilo não importava. Uma luz azulada começou a irradiar da palma de sua mão, envolvendo o corpo do cachorro. Toby desapareceu em meio ao brilho enquanto uma sensação estranha de calor percorria o braço esquerdo de Arthur. Então uma runa surgiu nas costas de sua mão.

    [Contrato realizado. Criatura rank F adicionada como mascote.]

    [A criatura encontra-se debilitada e permanecerá inconsciente durante o processo de recuperação.]

    Arthur fixou o olhar na runa recém-aparecida em sua mão. A marca lembrava uma tatuagem antiga, formada por símbolos estranhos e incompreensíveis. Ainda assim, por algum motivo, ele entendia o significado daquela palavra.

    Toby.

    Seus dedos passaram sobre a runa, buscando conforto naquele pequeno vínculo recém-formado. O olhar de Arthur acabou voltando para o corpo de Jack. Ele caminhou até o cachorro e se ajoelhou ao seu lado. As lágrimas que haviam cessado retornaram enquanto encarava o corpo imóvel à sua frente. Os olhos de Jack permaneciam abertos, vazios, como se ainda procurassem por ele. Arthur desviou o olhar, ergueu a mão trêmula e fechou os olhos do cachorro. Várias vezes tentou dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra saiu. No fim, apenas uma conseguiu escapar.

    — Obrigado…

    A voz falhou no meio do sussurro. Arthur pegou alguns lençóis espalhados pelo quarto e enrolou o corpo de Jack com cuidado, apertando o tecido antes de colocá-lo sobre a cama caída. Cada movimento parecia pesado, quase mecânico. Quando terminou, permaneceu alguns instantes olhando para o cachorro. Só então voltou o rosto para a criatura caída no chão.

    Agarrou o sabre deixado por ela e avançou contra o cadáver. A lâmina desceu repetidas vezes sobre a cabeça do crocodilo humanoide, esmagando carne e osso enquanto sangue escuro se espalhava pelo piso a cada impacto. Arthur apertava o cabo com tanta força que seus dedos ficaram esbranquiçados. A vibração de cada golpe atravessava suas mãos, mas ele continuou. Mesmo assim, nada daquilo preenchia o vazio no peito.

    Quando os braços começaram a pesar, o sabre escapou de seus dedos e caiu no chão com um som seco. Arthur sentou-se ao lado do cadáver, ofegante. O quarto estava destruído, e o cheiro de queimado ainda impregnava o ar.

    Fechou os olhos antes de abrir novamente a janela de status. Ainda não entendia completamente aquele sistema, mas uma coisa havia ficado clara: precisava se tornar mais forte. Com a mandíbula tensionada, Arthur começou a distribuir os pontos de atributos que havia recebido após subir de nível duas vezes consecutivas.

    [Nome: Arthur Silva | Nível: 03 | Rank: –

    Classe: Nenhuma Profissão: Nenhuma

    Título: Nenhum

    ATRIBUTOS [00/111]

    Força: 25

    Agilidade: 25

    Constituição: 20

    Inteligência: 16

    Percepção: 25

    Mana: 95

    HABILIDADES

    Reversão.

    ]

    Após distribuir os pontos de atributo, Arthur sentiu parte do cansaço desaparecer. A exaustão nos músculos diminuiu, e até sua respiração pareceu mais leve. Seu olhar voltou para o corpo do crocodilo humanoide caído no chão. Havia sobrevivido por pouco. A ajuda de Jack e Toby, somada à fraqueza da criatura contra eletricidade, havia tornado aquela vitória possível. Contra outro monstro… talvez o resultado tivesse sido diferente.

    Foi quando algo chamou sua atenção. Uma luz fraca surgia entre os cortes na cabeça deformada do monstro. Arthur estreitou os olhos. Era sutil, quase imperceptível em meio ao sangue escuro espalhado pelo rosto esmagado, mas estava lá. Com cautela, usou o sabre para afastar parte da carne destruída e se aproximou. A luz parecia vir de dentro da cabeça. 

    — Eu não acredito que vou fazer isso…

    Fazendo o possível para ignorar o cheiro forte de sangue, enfiou a mão na cavidade aberta da cabeça. O calor viscoso da carne esmagada envolveu seus dedos, e algo mole cedeu sob sua palma enquanto fragmentos de osso raspavam contra sua pele. Quando tocou algo sólido, agarrou o objeto e o puxou para fora. Sangue escuro escorreu por seus dedos enquanto Arthur observava a pequena esfera brilhante repousando em sua mão.

    — O que é essa coisa…?

    Tinha o tamanho de uma pérola pequena, mas sua superfície avermelhada e translúcida parecia pulsar sob a camada de sangue escuro. No interior da esfera, Arthur conseguiu distinguir uma pequena silhueta semelhante ao crocodilo humanoide morto no chão. Não fazia ideia do que era aquilo, nem por que estava dentro da cabeça da criatura. Ainda assim, guardou o objeto no bolso.

    O silêncio dentro do quarto parecia estranho agora. Os gritos e rugidos vindos da rua continuavam ecoando ao longe, mas a pressão sufocante que antes esmagava seu peito havia enfraquecido. Arthur respirou fundo. Seu olhar se voltou para o cronômetro ainda visível em sua mente.

    [Tempo para integração com os níveis 6 ao 10: Dias: 20 | Horas: 23 | Minutos: 16 | Segundos: 50. Ao fim do prazo, as criaturas serão integradas]

    Aos poucos, as peças começaram a se encaixar. As criaturas tinham níveis. A primeira integração havia trazido monstros entre o nível 1 e 5. Quando aquela nova contagem chegasse ao fim, criaturas ainda mais fortes surgiriam. Ele havia matado o crocodilo humanoide, ganhado experiência, subido de nível e ficado mais forte. Aquela era a lógica do novo mundo.

    Pegou o sabre de ossos. O peso da arma parecia menor agora, sinal de que a distribuição recente de atributos havia fortalecido seu corpo. Apoiou a parte sem fio da lâmina sobre o ombro e caminhou em direção à porta destruída do quarto. O medo ainda permanecia em seu peito. Medo da morte. Medo de perder as pessoas que amava. A imagem do corpo de Jack e o estado debilitado de Toby continuavam vivos em sua mente, mas agora havia algo além disso. Ele precisava chegar até Lara. Precisava encontrar seus pais e Clara antes que aquelas coisas chegassem primeiro.

    A casa de Lara não ficava tão longe. Arthur pensou em usar a moto ou o carro, mas descartou a ideia quase no mesmo momento. O barulho chamaria atenção demais. Ir a pé parecia a melhor escolha. 

    Algo dentro dele começava a mudar.


    Jack:

    Toby

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