Dica para leitura: aspas simples são para pensamentos internos, que é esse símbolo: ’
Aspas duplas para conversa mental: “
Travessão para falas em voz alta: —
Capítulo 115 — Novidades
O cheiro de terra molhada e vegetação invadiu suas narinas assim que ele colocou a cabeça para fora da tenda. Seus olhos receberam um flash de luz, mas, conforme se acostumavam com a claridade do sol, a visão do acampamento foi se desdobrando diante de si.
O calor do dia passava facilmente pela fina camiseta que estava usando. Alguém havia tirado os restos de sua armadura e o vestido com uma peça de péssima qualidade. O sol ardia, mas, por enquanto, aquela sensação era estranhamente reconfortante.
O acampamento ficava na retaguarda, muito recuado e bem protegido. Havia magia de terra por toda parte, garantindo que o local ficasse camuflado, assemelhando-se a uma colina cercada por uma densa vegetação. Flügel mal conseguia ver por cima das folhas, o que significava que os magos tinham feito um trabalho impecável para ocultá-los em meio à floresta.
Ao longe, o som que ecoava era o estrondo de explosões em larga escala e a risada bizarra de Ophiornis. Era assustador o quão altos eram aqueles barulhos, considerando a distância segura em que se encontravam do front1.
Olhando ao redor, ele notou outras tendas espalhadas. Mais ao canto, um fogão a lenha exalava fumaça. Uma fila de soldados famintos, cada um com uma tigela na mão, aguardava pela sopa que fervia dentro do caldeirão, perfumando todo o ambiente.
Levando o copo à boca, Flügel deu um gole generoso no tônico verde. Era amargo, asqueroso, e provocou-lhe uma ânsia de vômito instantânea assim que tocou sua língua, mas ele se forçou a engolir. Sabia que seu corpo precisava daquilo agora.
A enfermeira não o havia seguido para fora, o que o fez apertar o copo com um pouco mais de força.
— Eu não te fiz uma pergunta? — sussurrou para si mesmo, irritado.
Decidindo não remoer a grosseria da mulher que o ignorara, resolveu procurar outra pessoa para se atualizar sobre o status da guerra. Passou os olhos pela multidão, avaliando os rostos para encontrar o melhor alvo para uma conversa básica. Seu olhar foi direto para a maior concentração de soldados, perto da cozinha, onde todos comiam.
Apesar das feições cansadas, os homens carregavam um resquício de alívio e felicidade. Ainda assim, não pareciam muito amigáveis. Talvez pelo esgotamento, estavam todos de cara fechada, silenciosos, ocupados demais devorando a refeição.
Mais afastada, sozinha, havia uma jovem… ou ao menos Flügel julgava ser uma mulher pelos traços mais finos do rosto. Ela tinha cabelos curtos e um porte atlético, o que a fazia parecer um pouco com um garoto, deixando-o em dúvida sobre seu gênero. Não que fizesse diferença. Ela ainda era uma das únicas ali a usar uma armadura. Havia tão poucos soldados com armadura naquele lugar, que dava para contar todos eles nos dedos das duas mãos. O mais importante era que ela parecia a única que não arranjaria briga se fosse interrompida durante o almoço. Por outro lado, sentar-se isolada já era um forte indício de que queria privacidade, não?
“Ela não está com uma cara tão ruim…”, pensou. Olhando para o outro grupo, que não comia, mas conversava e ria alto, Flügel achou melhor arriscar uma resposta ríspida da jovem solitária do que tentar se intrometer na conversa fluida daquele bando.
Dando mais um gole generoso na bebida medicinal, ele se aproximou da garota no canto. À medida que encurtava a distância, o arrependimento começou a bater.
“Droga, ela é bonita demais, Nytheris”, comentou em sua mente, diminuindo o passo. Ele sempre ficava terrivelmente nervoso perto de mulheres atraentes.
Flügel esperou pela resposta habitual de seu companheiro, a voz que sempre estava ali para interagir com ele, mas o silêncio foi ensurdecedor. Só então se lembrou de que não havia mais ninguém ali. Estava sozinho. Cogitou dar meia-volta e procurar outra pessoa, mas a garota já havia notado sua aproximação. Seria ridículo recuar agora.
Endireitando a postura, ele passou a mão pelo cabelo, jogando-o para trás, tentando adotar uma aparência minimamente apresentável, e voltou a caminhar.
— Ei, posso conversar um pouco com você? — perguntou, parando ao lado dela. Ele olhava ao redor e dava pequenos goles no copo, tentando agir com naturalidade, o que só tornava seu nervosismo mais evidente.
Levantando a cabeça, ela colocou uma mecha dos cabelos prateados atrás da orelha e respondeu:
— Claro. O que seria? — Ela o mediu de baixo para cima, olhou novamente para a própria sopa e estalou a língua.
“Ela está brava”, foi a única coisa que passou pela mente de Flügel. Esforçando-se para manter a postura e não gaguejar, ele foi direto ao ponto:
— Como está a guerra? Qual é a situação? Eu estive desacordado, então estou completamente por fora das notícias.
— O reforço do império chegou e o rumo da batalha mudou — explicou ela, sem manter contato visual em nenhum momento. — Estamos conseguindo encurralar o Lich. Nossos soldados e magos finalmente estão descansando, enquanto o império assume a maior parte do combate.
Aquilo era um impacto, mas não uma surpresa total. Antes de iniciarem o ataque, Garrick havia avisado que eles não conseguiriam esperar pelos reforços, mesmo que faltasse pouco tempo. Lá no fundo, Flügel já imaginava que a virada só viria com a chegada deles.
— Faz sentido todo esse barulho então… — Ele virou o restante do líquido verde, os lábios se contraindo em uma linha fina devido ao amargor extremo.
A garota, mantendo a expressão neutra, apenas assentiu com um leve aceno de cabeça.
O esforço mínimo que ela fazia para manter o diálogo o deixou terrivelmente desconfortável. Forçando um sorriso torto e sem prática, Flügel estendeu a mão direita.
— Obrigado pela ajuda. Eu me chamo Flügel. Qual o seu nome? — Seu plano era apenas trocar apresentações formais e ir embora.
Ela encarou a mão estendida por dois segundos inteiros antes de corar de leve e desviar o rosto, retribuindo o cumprimento. A mão dela era quente e áspera pelo treino, mas, ainda assim, incrivelmente macia.
— Meu nome é Sigrid… Prazer em te conhecer, Flügel — disse em voz baixa, com as bochechas rosadas e o olhar fixo no chão ao lado.
Só então a ficha de Flügel caiu. Ela não estava brava; era apenas tímida e sem jeito para conversar. Por isso agia de forma tão seca e monossilábica.
Sentindo o próprio rosto esquentar de vergonha, Flügel soltou a mão dela e, com um sorriso mais leve, despediu-se antes de caminhar em direção à fila da cozinha. Ele parou um instante para perguntar a um soldado onde conseguir os utensílios e recebeu a instrução: bastava pedir para o cozinheiro. Cada um cuidava dos seus próprios talheres e tigela, pois eram de uso individual para todas as refeições.
Assim ele fez. Saiu da fila principal, contornou o balcão da cozinha, informou seu nome e recebeu seus itens. Ao retornar para o fim da fila da comida, seus olhos buscaram mecanicamente por Sigrid.
A garota de cabelos prateados bem curtos, que mal passavam das orelhas, já exibia novamente o semblante fechado e introspectivo, comendo sozinha em silêncio. Havia algo nela que o magnetizava. Ela era linda, sim, mas não era só isso — ele já estava acostumado com pessoas bonitas naquele mundo, especialmente com a existência dos elfos. Havia algo mais profundo.
De certa forma, a postura dela o lembrava de si mesmo em sua outra vida. Pela primeira vez desde que havia chegado àquela realidade, Flügel sentiu a vontade genuína de se aproximar de alguém, de construir uma amizade. E a pessoa que despertara esse sentimento nele era Sigrid.
- “Front” se refere à linha de frente da batalha[↩]

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