Capítulo 266 - Indo até o interior
O céu estava limpo.
Depois de três meses em que nenhuma grande guerra havia abalado Tokyo, a cidade parecia respirar novamente. As ruas continuavam agitadas, os becos ainda escondiam criminosos, e pequenas brigas ainda aconteciam, mas nada sequer se comparava ao caos dos meses anteriores.
Era estranho.
Até mesmo Yoru desconfiava daquela tranquilidade. Charles nunca era do tipo que ficava parado.
Se estava em silêncio…
…era porque estava preparando alguma coisa.
Foi justamente durante esse período que Yoru decidiu agir antes do inimigo.
Ele precisava de respostas.
E existia apenas uma pessoa capaz de fornecê-las.
Akira Tanaka, o antigo Rei de Tokyo. Um homem pertencente à lendária Primeira Geração.
O homem conhecido como…
A Foice Dilacerante.
…
Uma caminhonete velha seguia por uma estrada estreita cercada por árvores gigantescas.
O motorista cantarolava uma música antiga enquanto o veículo balançava sobre a estrada de terra.
No banco de trás…
Hudson olhava pela janela completamente desacreditado.
— Eu ainda não acredito que isso faz parte de Tokyo…
— Nem parece a mesma cidade — Ben também observava tudo.
Yoru permanecia em silêncio.
A paisagem era completamente diferente, não existiam prédios,nem letreiros, nem barulho de motores
Apenas montanhas, campos verdes, ar puro e riachos cristalinos.
E um vento constante que balançava o capim como se o próprio campo estivesse respirando.
Algumas casas de madeira apareciam de vez em quando.
Em frente delas…
Crianças corriam.
Velhos conversavam sentados em bancos.
Mulheres estendiam roupas.
Galinhas atravessavam a estrada sem qualquer preocupação.
Hudson coçou a cabeça.
— Cara… esse lugar é muito longe. Nunca imaginei que o interior fosse tão longe da capital — O motorista riu.
— Vocês são da cidade, né?
Ben respondeu.
— Dá pra perceber?
— Fácil — ele deu um sorriso de canto
— Como? — o Ben perguntou em dúvida
— Vocês olham pra tudo como se fosse outro planeta.
Os três ficaram em silêncio.
O homem continuou.
— Aqui ninguém corre, ninguém tem pressa, o tempo passa diferente.
Yoru finalmente falou.
— Talvez seja por isso que ele escolheu morar aqui.
O motorista lançou um olhar pelo retrovisor.
— Então vocês vieram atrás daquele velho…
Yoru apenas confirmou com a cabeça.
O sorriso do motorista desapareceu.
— Entendo…
Depois disso…
Ninguém falou mais nada.
…
Horas depois…
Eles desceram da caminhonete.
A pequena vila parecia congelada no tempo.
Havia apenas uma rua principal.
Uma mercearia.
Uma oficina.
Uma pequena delegacia.
Uma padaria.
E dezenas de plantações ao redor.
Hudson respirou profundamente.
— Cara…
— Até o ar daqui é diferente.
Ben sorriu.
— Parece que finalmente encontrei um lugar onde ninguém quer me matar.
Yoru respondeu.
— Não tenha tanta certeza.
Enquanto caminhavam, encontraram um senhor já bastante idoso empurrando um carrinho cheio de verduras.
Seu chapéu de palha estava gasto.
As mãos eram marcadas pelo trabalho de décadas.
Mesmo assim…
Seu sorriso era tranquilo.
Yoru fez uma leve reverência.
— Boa tarde, senhor.
O velho sorriu.
— Boa tarde, rapazes.
— Vieram passear?
Ben respondeu.
— Na verdade estamos procurando alguém.
— Quem?
Yoru respondeu.
— Akira Tanaka.
O sorriso do velho desapareceu lentamente.
Ele ficou olhando para Yoru durante alguns segundos.
Longos segundos.
Depois suspirou.
— Então…
— Finalmente alguém voltou a procurá-lo.
Hudson estranhou.
— Voltou?
O velho assentiu.
— Faz muitos anos.
— Quase ninguém fala mais desse nome.
Ben perguntou.
— O senhor conhece ele?
O velho respondeu.
— Conheço.
— Mas…
— Eu aconselho vocês a irem embora.
Um Silêncio tomou conta do ar, mas o Yoru manteve os olhos fixos nele.
— Por quê?
O velho parecia procurar as palavras certas.
— Porque existem histórias…
— Que deveriam continuar enterradas.
Hudson cruzou os braços.
— Isso não explica nada.
O velho respirou fundo.
— Vocês conhecem Charles?
Os três congelaram.
Yoru respondeu lentamente.
— Conhecemos.
O velho olhou para o horizonte.
O vento começou a soprar mais forte.
— Então…
— É justamente por isso…
— Que vocês deveriam voltar.
Ben franziu a testa.
— O que Charles tem a ver com Akira?
O velho fechou os olhos.
— Eles pertencem ao mesmo passado.
— Um passado que destruiu muita gente.
Ninguém respondeu.
O fazendeiro voltou a empurrar o carrinho.
Antes de ir embora…
Disse apenas uma frase.
— Se encontrarem Akira…
Perguntem…
Se ele ainda consegue dormir durante a noite.
Os três permaneceram imóveis.
Hudson foi o primeiro a falar.
— Cara…
— Isso foi assustador.
Ben concordou.
— Muito.
Yoru apenas continuou caminhando.
— Vamos.
Pouco depois…
Eles chegaram à pequena delegacia.
Era tão pequena que parecia mais uma casa comum.
Na porta…
Um policial jovem varria a calçada.
Ele tinha cabelos pretos.
Olhos tranquilos.
Um sorriso amigável.
Assim que viu os três…
Levantou a mão.
— Boa tarde!
Hudson sorriu.
— Finalmente alguém simpático.
O policial riu.
— Vocês parecem turistas.
Ben respondeu.
— Estamos procurando uma pessoa.
— Quem?
Yoru respondeu novamente.
— Akira Tanaka.
O policial parou de sorrir.
O silêncio tomou conta da rua.
Depois de alguns segundos…
Ele perguntou.
— Vocês realmente querem encontrá-lo?
— Sim.
— Por quê?
Yoru respondeu.
— Charles.
Foi como se aquela única palavra tivesse pesado toneladas.
O policial olhou para o chão.
Respirou lentamente.
Depois sorriu novamente.
Mas agora…
Era um sorriso triste.
— Entendo…
Ele guardou a vassoura.
— Venham.
Os três o seguiram até um banco de madeira na frente da delegacia.
O policial sentou.
— Posso dar um conselho?
— Claro.
— Voltem pra casa.
Hudson bufou.
— Mais um…
O policial riu.
— Parece que o velho Haru falou a mesma coisa.
Os três se entreolharam.
Ele conhecia o fazendeiro.
— Escutem.
— Akira já pagou pelos próprios pecados.
— Não faz sentido abrir antigas feridas.
Yoru perguntou calmamente.
— Charles matou alguém importante?
O policial permaneceu calado.
Muito calado.
Depois respondeu.
— Existem mortes…
— Que nunca acabam.
Essas palavras fizeram um silêncio estranho surgir.
Ben sentiu um arrepio.
Hudson também.
Yoru permaneceu sério.
O policial levantou.
— Se mesmo assim vocês insistirem…
Sigam pela estrada dos girassóis.
Depois atravessem o grande pasto.
Existe uma casa velha no fim dele.
Talvez encontrem alguém
Os três agradeceram.
E seguiram viagem.
A estrada dos girassóis era enorme.
Centenas…
Milhares deles balançavam com o vento.
O cenário parecia uma pintura.
Hudson sorriu.
— Nunca pensei que fosse ver uma coisa tão bonita.
Ben respondeu.
— Nem parece Tokyo.
Yoru caminhava em silêncio.
Mas pela primeira vez…
Parecia relaxado.
Depois de quase uma hora andando…
Eles chegaram ao enorme pasto.
Vacas caminhavam lentamente.
Cavalos corriam livres.
Alguns trabalhadores cuidavam da plantação.
Yoru aproximou-se de um deles.
— Com licença.
O homem levantou a cabeça.
— Sim?
— Estamos procurando Akira Tanaka.
O trabalhador olhou para os outros.
Todos ficaram em silêncio.
Outro homem respondeu.
— O velho Akira?
— Sim.
Ele apontou para uma colina.
— Continuem por ali.
— Existe uma casa.
— Mas…
Antes que pudesse terminar…
Uma voz apareceu atrás deles.
— Eu já falei que vocês deveriam desistir.
Os três olharam para trás.
Era o policial.
Ele caminhava tranquilamente até eles.
Hudson ficou confuso.
— Você seguiu a gente?
O policial deu de ombros.
— Achei que fariam isso.
Ben riu.
— Então veio prender a gente?
— Não.
— Vim tentar convencer vocês pela última vez.
Yoru encarou o policial.
— Por quê?
O homem ficou alguns segundos em silêncio.
Então perguntou.
— Você sabe o que acontece quando alguém passa a vida inteira lutando?
Yoru respondeu.
— Fica forte.
O policial balançou a cabeça.
— Não.
— Fica vazio.
O vento voltou a soprar.
O sorriso amigável desapareceu.
Sua postura mudou completamente.
As costas antes curvadas ficaram retas.
O olhar ficou pesado.
Muito pesado.
A presença tranquila que ele escondia desapareceu.
Hudson sentiu o corpo congelar.
Ben arregalou os olhos.
Yoru permaneceu imóvel.
O policial respirou profundamente.
Levou lentamente a mão até o próprio boné.
Retirou-o.
Depois…
Retirou também a pequena estrela metálica presa ao uniforme.
Sorriu.
Um sorriso completamente diferente.
— Faz muito tempo…
— Desde que alguém me chamou pelo meu verdadeiro nome.
Silêncio.
Ele olhou diretamente para Yoru.
— Eu sou… Akira Tanaka, a Foice Dilacerante da primeira geração e também o antigo Rei de Tokyo.
O vento atravessou todo o pasto.
Nenhum dos três conseguiu dizer uma única palavra.
Hudson estava completamente paralisado.
Ben mal conseguia acreditar.
— Você…
— Era o policial?
Akira deu uma pequena risada.
— A vida muda bastante depois que uma guerra termina.
Yoru continuou olhando para ele.
Agora entendia.
Não existia nenhum guarda-costas.
Nenhuma mansão.
Nenhum castelo.
Nenhum exército.
O antigo homem mais poderoso de Tokyo…
Escolhera viver como um simples policial de uma pequena vila esquecida.
Akira colocou novamente o boné.
Seu olhar voltou a ficar sereno.
Mas havia uma tristeza impossível de esconder.
— Então…
— Vamos conversar sobre Charles.
Porque, se vocês vieram até aqui…
É sinal de que o passado finalmente voltou para buscar todos nós.
E, pela primeira vez em muitos anos…
Akira Tanaka demonstrou medo.

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