Não foi apenas no Império que o mar rejeitou os mortos. Pelo contrário, com exceção de dois lugares excepcionalmente únicos, todo resto do mundo sentiu o arrepio subir pela espinha, todos testemunharam o começo do fim do mundo.

    Em Mollitian, as outras duas nações que também tinham acesso ao mar eram Malus e Frei . Devido à distância relativamente curta do Império, os desastres não diferiam entre as nações. Perdidas em trincheiras e espalhadas pela terra banhada de sangue uma mistura de almas de diversas nacionalidades se coalizou para o estuário mais próximo mais próximo de onde pereceram. 

    Os campos de batalha da guerra dos cem anos se tornaram um mar de névoa impenetrável, à medida que o peso da morte se acumulava no fronte.

    Ao sul de Calicies, nas areias escaldantes dos desertos de Merviki, o povo da região sentiu, pela primeira vez, que suas tecnologias revolucionárias eram impotentes diante da natureza cruel de um desastre sem precedentes.

    Vivendo dentro da redoma de aço negro, enfrentavam um problema estrutural. No buraco no gelo bem no meio da estrutura: o único lugar onde conseguiram derreter o gelo para ter acesso a água salgada, mar negava a entrada dos mortos com veemência.

    Os mortos, se aglutinando contra a vontade, tentaram de toda forma fugir da redoma. Invadiam as tubulações das máquinas a vapor, infestavam a subsistência daquele povo enclausurado. Não tardou para que a névoa vazasse por aquecedores, exaustores e qualquer saída, buraco ou vazamento que encontrassem.

    A leste e oeste de Calicies, nos manguezais, estava o povo nômade que de alguma forma, ainda era aceito pelas águas. Viviam no mar, para o mar. Em grandes deques móveis que viajavam por todo mar das almas, margeando o continente apenas para comércio e relações internacionais.

    Seus rituais, cânticos e orações para o oceano pareciam deixá-los no bom lado das águas. 

    Ainda mais distante, um monólito de pedra perfura o céu. Ninguém nunca viu seu topo. Nem mesmo o povo que vivia em suas paredes. 

    Ali na ilhota de Twr, um gigantesco cilindro sólido de pedra se erguia além do conhecido pela humanidade. Tamanha era o fascínio pela “torre” de pedra, que ali em suas paredes nasceu um povo sem nome, uma nação afastada.

    Nas paredes da montanha que corta os céus, eles viviam apenas para subir. Ali, não havia como as almas os alcançarem para lhes fazerem mal. Afinal, os mortos estavam destinados a cair. 

    Claro, o cheiro nas regiões mais baixas era insuportável, e o sopé daquele paredão era uma mistura imunda de corpos, lixo, e névoa. A névoa de toda uma nação, tão densa quanto se pode imaginar.

    Mas isso não era problema para eles, bem, não para todos eles, como em todo lugar, poucos se importavam com aqueles abaixo…

    A impotência diante de um desastre natural, uma revolução que o próprio mundo jogou ao colo da humanidade.

    A sensação de desalento e medo naquele momento, o desespero das pessoas enquanto fugiam dos mortos era basicamente universal. A vista horrível que Yaci testemunhava não era única. Ou melhor, era, de fato, única, já que ela via através de seu mundo.

    Seus olhos percorriam a multidão em pânico. Através das lentes do seu mundo, a realidade se tornou suja. A tinta perdia a saturação, vazando dos esboços manchando tudo com violência. Histórias, momentos, lembranças, milhares delas desvanecendo em um momento.

    Em instantes, o conhecido e cotidiano girou, ficou de ponta cabeça e agora, eles não podiam fazer nada, além de continuar a viver ou pelo menos, tentar.

    — Vamos indo, precisamos ir mais longe, todo mundo conseguiu recuperar o fôlego? — Yaci perguntou.

    Hilda ainda dormia nos braços de Marco. Já ele e sua mãe, agora que todos estavam em segurança, olhavam para as duas crianças pedindo por explicações.

    — O que foi aquilo? Benjamin pegou fogo e Yaci, sei lá o que você fez?! E aquela coisa com a voz e os olhos dela, que porra tá acontecendo?

    A conversa não afastou o medo do oceano, então voltaram a andar, agora com mais calma, para o mais longe possível da orla. 

    — Não sei… só fiz o que parecia certo. Nem pensei, apenas fiz. — Yaci respondeu com sinceridade.

    Ao lado dela, Benjamin mantinha as perguntas guardadas para outra hora. Caminhando cada vez mais rápido para se afastar.

    Eles deixaram para trás a cena infernal que tomava o beira-mar e o porto, mas no céu, voando em círculos, diversos abutres ainda podiam ser vistos rondando a área.

    Foi a primeira vez que Yaci tinha visto um pássaro, então mesmo sabendo que eles estavam ali para se alimentar dos mortos, não pôde deixar de sentir um fascínio por aqueles seres voadores.

    Eles já estavam perto do centro de Verdemar, o povo se acalmava aos poucos, enquanto informações dos acontecimentos chegavam para aqueles que não participaram do evento.

    Ali, finalmente se deram o luxo de parar.

    Lá no alto, os abutres ainda eram vistos, cada vez mais deles apareciam e dominavam o céu, como uma nuvem de anunciadores da tragédia.

    Com os olhos marejados, Yaci continuou a observá-los a voar, não teve coragem de olhar nos olhos de Benjamin para perguntar.

    — Quero ouvir você falando. Não quero olhares de pena, nem tratamento de silêncio, quero a verdade. Ben, cadê todo mundo?

    O silêncio tomou conta do grupo por um tempo, mas ela sabia que era temporário, suspirando cada vez mais alto, Benjamin estava tomando coragem para falar.

    — Yaci…

    Ela também tomou coragem para encará-lo dizer aquilo que ela já sabia. Mas quando foi fazê-lo algo chamou sua atenção nos abutres.

    Ali no meio deles, parecia surgir das penas que caíram, mesmo a distância Yaci conseguia ver quão horrendo era, com um pescoço longo e careca, com asas e penas sujas e manchadas de sangue seco. Com vermes saindo de sua pele enrugada e caindo por terra como uma chuva nefasta.

    Estava se formando devagar, como se não tivesse pressa em dar a desgraça da sua presença.

    — Yaci? — Benjamin a chamou.

    — O que? — ela se virou para ele, um pouco distraída com a situação.

    O clima parecia diferente, a tensão anterior parecia uma lembrança distante.

    — Sobre a sua pergunta, me desculpe não ter te contado isso antes, devia ser a primeira coisa a falar quando te vi de novo. 

    O coração dela acelerou, já sabendo do que se tratava. Eles estavam todos…

    — Estão todos bem, na medida do possível é claro. Tivemos que nos esconder enquanto nós recuperamos, a maioria daqueles pestinhas ainda está de cama, ou precisando de ajuda, mas estão todos vivos. — Ele completou, com um sorriso radiante.

    “O que?”

    Dona Heloísa e Marco também sorriam.

    — Ele veio até nós, procurando ajuda médica, e é claro que não podíamos negar. 

    Ela deu uma risadinha complementando o clima leve que se criou.

    Marco, aquele gigante gentil que mal conhecia, se aproximou, colocando a mão em seu ombro.

    — Sabemos que você passou por muitos apertos, garotinha, mas tem ideia de quão perigoso foi a viagem que você fez até aqui sozinha?

    — Eu não estou sozinha. Vim com uma caravana de um mercador, acompanhada de muitas pessoas!

    Todos levantaram uma sobrancelha para aquela afirmação, desconfiados que a menina estivesse mentindo para não ficar encrencada.

    Marco abaixou-se e se apoiou no joelho para ficar na altura de Yaci. Fazendo um rápido exame na menina

    — Sem cortes, contusões. Abra a boca e diga: Aaaaaaaaaah.

    Depois de acabar o exame ele bagunçou o cabelo dela. — Você está bem! De fato, mas não muda o fato de que vir aqui foi perigoso.

    — Está tudo bem Marco! Acho que você nunca esteve nas favelas dos miseráveis, mas ficar lá também é perigoso. Você fez bem em chegar aqui Yaci. — Benjamin disse, seu rosto relaxando.

    — Vamos para casa, de lá podemos dar algo para ela comer e tomar os devidos cuidados. Você deve estar morrendo de fome querida, venha, venha. 

    Todos se levantaram e começaram a caminhar pelas ruas novamente, aquelas ruas calmas, cheias de vida e rotina. Na distância, o porto fervilhando de pessoas e navios atracando e saindo e o céu vazio mas não silencioso, límpido sem nenhuma nuvem com um sol iluminando um dia lindo.

    Estranhamente, o céu ria e grasnava. Olhando o céu resplandecente, Yaci não conseguiu evitar de piscar. A luz delicada e gentil a cegou levemente. Foi uma piscada longa, parecia que o tempo naquele lugar escuro dentro de suas pupilas era mais vagaroso.

    Quando abriu os olhos já estava lá, naquele lugar desconhecido.

    — Venham, podem entrar. 

    Heloísa abriu a porta e todos foram entrando. Yaci ainda não entendia o que estava acontecendo. 

    Estavam com tanta pressa de fugir. Mas fugir de que? Porque precisavam fugir?

    Passaram por um corredor com diversas caixas de correio nas laterais.

    Heloisa parou por um instante.

    — Querido, aproveite e veja se recebemos algo.

    Marco abriu a caixa para ver alguns papéis coloridos: propagandas de restaurantes chamativos.

    Não perca! Grande promoção de estreia! Venha comer a melhor pizza de Verdemar.

    Junto de papéis de banco, contas atrasadas.

    Entre em contato para renegociar sua dívida!

    — Merda, esqueci de pagar a água de novo! Hmm, amanhã eu resolvo…

    Yaci não tinha ideia do que era aquilo, nem suas utilidades, mesmo depois de ler, não fazia ideia do que era pizza. Mas antes de ver os papéis estranhos estava pensando em algo importante… O que era?

    — Tudo bem Pequena? Parece confusa — Marco perguntou.

    — Sim. — respondeu em voz baixa. — Só um pouco confusa. Sinto que estou esquecendo algo importante.

    — Se você está esquecendo, não deveria ser tão importante. Não se preocupe tanto.

    — É, você tem razão, acho que eu preciso descansar.

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