Capítulo 143 - Destino final
No trecho da floresta em que Brok se encontra, os ânimos se acalmam. Os orcs caídos recuperam-se do atordoamento e se levantam devagar, em sequência, recolhendo suas lanças do chão.
Enquanto isso, Brok, de canto de olho, examina os dois rapidamente e, para sua surpresa, reconhece um deles.
Aquele é… um dos que fez um acordo com a lorde. Pulapedra… se me lembro bem, ele pensa.
Não demora muito e o mesmo orc arregala os olhos, percebendo Brok, também reconhecendo-o. A respiração dele trava, as mãos dele tremem, segurando a arma, e ele baixa o olhar, acuado.
Então ele se lembra de mim, conclui Brok.
Nesse tempo, Mindinho e Folha Seca também se levantam. Eles encaram cada um dos orcs ao seu redor, começando a rosnar na mesma hora.
“São as cores da tribo de Estoratora…”, pontua Mindinho, checando cada uma das proteções que eles usam.
A não ser por Pulapedra, que está intimidado, os outros fecham o olhar e devolvem um rosnar baixo.
O clima controlado após o combate é trocado por um mais resignado, com a trocação de chiados dos membros das duas tribos tomando conta.
“Por que estão aqui?”, pergunta o orc diante de Brok.
O chefe volta a prestar atenção nele e percebe a tensão aumentando. Ele ergue a mão e, como se tivesse dado uma ordem inaudível, seus companheiros se calam.
Como um efeito em cadeia, os orcs de verde também param de rosnar. Mas, apesar do retorno da quietude, a maior parte dos orcs mantém seus rostos tensos, deixando claro o desprazer de estarem na presença uns dos outros.
“Estávamos por perto. Viemos do sul… e vamos para a capital”, responde Brok, seco e um pouco áspero. “Se estão fazendo guarda por aqui… podem ir mais para o oeste. Temos um grupo maior. Damos conta.”
O orc diante dele fica quieto, encarando-o por alguns instantes, analisando Brok de cima a baixo, enquanto os dedos da mão se ajeitam na lança. “Certo”, diz ele, tão direto quanto a resposta que obteve. Na mesma hora, já se vira e sai andando para a mata densa. “Vamos embora.”
Apesar da ordem, os outros orcs de seu grupo ficam parados, sem reação.
“Ferrão?”, questiona um deles.
“Nós… só vamos assim?”, indaga outro.
Ferrão não para de andar, nem sequer olha para trás. “Vamos logo. Tem tribos demais andando por aqui”, diz ele, deixando o lugar, com a última parte soando mais como um resmungo.
Os três se entreolham rapidamente, ainda confusos. Mas, apesar de estarem levemente perdidos, partem atrás do orc.
Antes de desaparecer na mata, Pulapedra olha uma última vez para Brok. Receoso por algo, engole seco o sentimento e volta a seguir os outros.
Mindinho bufa pesado. “Sabia que eles estariam por aqui?”, ele pergunta.
“Eu sabia que eles poderiam ter patrulhas deles na região que íamos cruzar…”, comenta Brok.
Após isso, o chefe se volta na direção de onde veio e segue caminhando, enfiando-se pelas moitas, seguido logo atrás por seus companheiros.
“Por que nós os ajudamos mesmo?”, Folha Seca questiona, um pouco desorientado.
“De um jeito ou de outro… eles também estão nos ajudando no momento”, Bron responde. “As coisas são… diferentes agora.”
Folha Seca ri. “Pode ser. Mas um deles ainda ficou todo tremido quando te viu”, ele comenta.
“É verdade. Ele parecia estar com muito medo de você, Brok. Até achei que ele iria sair correndo”, Mindinho complementa.
“É… eu também achei que ele fosse fugir”, pontua o chefe.
Mas tenho certeza de que não era de mim que ele tinha medo, ele pensa.
O grupo de Brok se reúne, logo retornando à sua cruzada.
Por mais um dia, eles seguem pela floresta, com a mata ficando cada vez mais densa a cada metro avançado.
Na metade do quarto dia, os que vão à frente avistam algo diferente em seu caminho.
Em meio à mata densa, luz clara brilha em uma linha extensa no horizonte.
“O que é aquilo?”, um orc pergunta.
Outros também acham estranho.
“É magia?”, outro indaga, afoito.
Murmúrios preocupados começam entre eles, mas, diferente dos outros, Brok sorri confiante, sabendo do que se trata.
“É nosso destino”, afirma o chefe.
Sem medo, Brok o lidera, indo na frente. Algumas dezenas de metros depois, do meio da floresta escura, os orcs avistam a imensa clareira aberta, onde ficam as ruínas que buscam.
O ritmo dos passos subitamente aumenta, ao ponto de alguns correrem entre as plantas, apenas para ficar ao lado do chefe no momento da chegada.
Como se realmente fosse magia, a floresta desaparece diante deles, dando espaço à um grande campo aberto, com vegetação rasteira e cheio de ruínas antigas.
Admiração e espanto preenchem os semblantes da tribo. Os orcs olham para as rochas no chão como se fossem imensas pilhas de tesouros à plena vista.
Enquanto isso, Brok examina o chão adiante cuidadosamente.
Entre a grama e as rochas, ainda está o grande tapete de vinhas que cobre o lugar inteiro. Mas, em vez do tom completo verde e vivo, outras cores aparecem naqueles cipós rasteiros.
Em algumas partes, especialmente nas bordas, as vinhas apresentam uma cor cinzenta e um aspecto seco, como uma raiz solta na terra. Em outras, mais ao centro, o tom verde-claro ainda aparece.
Elas parecem estar morrendo… mas… , analisa Brok.
O orc se abaixa, pega um galho no chão e, em um teste, o arremessa contra as vinhas secas.
Nada acontece.
Ele respira pesado. “Vamos entrar”, ele declara. “Mas… se virem cipó verde no chão, não encostem. É numa armadilha do dragão. Até elas secarem, vamos ficar só na borda.”
Orcs começam a murmurar, repassando o recado aos mais ao fundo.
Em um último passo decisivo, a tribo de Brok entra na capital. O sentimento de conquista toma a todos.
Eles rugem, tocam a grama, rochas no chão e nas ruínas com brilho nos olhos.
Brok os observa com um sorriso largo no rosto, especialmente quando vê Mindinho, um dos últimos a entrar, observar as ruínas maravilhado e boquiaberto.
Além disso, ele vê, ainda dentro da floresta, o corvo cinzento sentado em um galho, observando-o.
Feliz, Brok acena para o pássaro estático. Foi tudo bem até agora, ele constata, como se de alguma forma o corvo pudesse ouvir o que se passa em sua cabeça.
O chefe ergue o machado ao alto. Sob a luz direta do sol, sua armadura e sua lâmina brilham fortes e captam a atenção de toda a tribo.
“Nós finalmente… chegamos. E não temos tempo a perder. Quem puder, pegue… pedras e madeira. Vamos montar o acampamento, começando pelo muro.”, declara ele, eufórico.
Toda a tribo levanta as mãos ao alto e urra firmemente.
Agora as coisas vão começar a melhorar de verdade, pensa Brok.

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