Índice de Capítulo

    Siegfried estava terminando de pôr a brunea, quando Eva se aproximou timidamente:

    — Você não precisa fazer isso.

    — Sim. Eu preciso.

    Silêncio.

    Siegfried havia aceitado seguir para a guerra ao lado de Brandon Donoghan, para o espanto de sua pequena esposa. E por quê? Bem! Por vários motivos, na verdade.

    Brandon Donoghan lhe parecia alguém cheio de arrogância e orgulho frágil. Recusar o seu pedido teria (muito provavelmente) feito com que o idiota puxasse pelas armas e tentasse tomar o Castelo dos Ossos — teria falhado, mas ainda assim…

    Se Brandon Donoghan morresse, então não demoraria para que o pai dele enviasse uma centena de homens em sua busca. E mesmo que o capturassem com vida, dificilmente as coisas seriam melhores; o Conde Donoghan ainda enviaria um exército atrás do seu filho, embora nesse caso pudesse trocar Brandon pela paz… Mas por quanto tempo?

    Era pouco provável que o Conde Donoghan ou mesmo Brandon aceitasse de bom grado tamanha humilhação.

    Um simples barão nas ruínas de um castelo no meio do pântano, derrotando e usando a vida do futuro conde como moeda de troca. Mesmo que a honra impedisse a retaliação imediata, certamente haveria uma no futuro. Qualquer cenário levaria-os à guerra com a casa Donoghan. Cedo ou tarde.

    Recusar o pedido estava fora de questão.

    Além do mais, não queria recusar.

    Responsabilidades mais imediatas o levaram por um caminho diferente e o inverno ergueu um muro ao seu redor. Estava preso. Mas as palavras de Brandon Donoghan deram-lhe um norte e renovaram a sua esperança.

    Ainda podia salvar Lavina. Ainda podia lavar a sua honra. Ainda podia parar a guerra. Desde que fosse capaz de capturar a Condessa Essel — e haveria melhor oportunidade de fazer isso do que como convidado no seu castelo?

    Ardiloso? Desleal? Talvez. Mas vir até a sua casa, ameaçá-lo e exigir lealdade era tão ruim quanto (senão pior). E, tecnicamente, Siegfried nunca prometeu nada.

    — Pois bem! — havia dito. — Você pergunta onde repousa a nossa lealdade. E aqui está a minha resposta! Eu e meus homens iremos com você. Mas não espere que eu lhe dobre os joelhos!

    Nojento.

    Sentia-se sujo ao lembrar de suas próprias palavras. Mentiras. Mentiras sutis, sim. Mas mentiras da mesma forma. Ainda assim, não lhe incomodava tanto quanto deveria. Estava em Thedrit há mais de um ano e aprendeu: a honra era um conceito bastante subjetivo por aquelas terras.

    Em Qaredia, a honra é escrita em pedra. Os anões tinham conceitos bem claros e pouca liberdade de interpretação. Um covarde é um covarde e sabe disso. Sentar-se à mesa de alguém e depois traí-lo era sempre algo vil e não havia dúvidas a esse respeito. Mesmo o próprio traidor saberia disso.

    Em Thedrit, era apenas uma tática militar.

    A honra era um teatro de sombras. Se suas ações favorecessem os seus aliados, então qualquer coisa era desculpável. Honra nada mais era do que uma palavra vazia. Apenas um manto que alguns homens vestiam para fingir serem melhores do que os outros; não muito diferente de uma criança que chama o seu gato de dragão para fingir que há poder nele.

    Só havia um tipo de lealdade em Thedrit; e era aquela devida à sua família. Aquela que era devida a si próprio.

    Nesse sentido, o que estava fazendo ainda tinha algum tipo de honra, pois o fazia pelas pessoas que lhe eram importantes. Fazia-o tanto para salvar Lavina, como para proteger Eva e todos naquele castelo… Será mesmo?

    Abandonou Dara e Lavina uma vez. Estaria apenas abandonando Eva e os outros também? Mas, e que outra opção restava? Permanecer no Castelo dos Ossos e envelhecer? Governar as pessoas daquele lugarejo pelo resto da sua vida? Esperar até que Eva tivesse idade para lhe dar um filho? Construir ali uma família? Se contentar com tão pouco?

    Mas não era pouco.

    Era mais do que qualquer mercenário jamais teria. Mais do que qualquer plebeu sonharia em conquistar. Ousaria ter mais?

    — Sieg? — chamou Eva. — Você tá bem?

    De repente, Siegfried estava de volta em seu quarto no Castelo dos Ossos. Frio e fechado. A primavera havia chegado, mas o inverno ainda mantinha as suas garras geladas bem afiadas.

    — Sieg?

    — Eu tô bem. Só tava pensando.

    — …

    — O que foi?

    — Por que você não manda o meu avô?

    — …

    — Eu entendo que você não podia recusar. Ofender o Conde Donoghan… Eu entendo o porquê de você precisar aceitar. Mas por que você não manda o meu avô? Você não tem que ir também, né? Pode mandar ele. Os nobres fazem isso o tempo todo. Eles sempre mandam seus irmãos ou filhos ou até mesmo um tio.

    — Covardes e velhos fazem isso.

    — Não é verdade! Ah! D-desculpa. E-eu quero dizer… Eles fazem isso porque precisam manter a casa viva, não é? Se você morrer sem um herdeiro… E-eu só acho que o senhor não devia se arriscar assim. Só mais alguns anos. O meu avô pode lutar no seu lugar.

    — Eu não confio no seu avô!

    Brandon Donoghan estava no castelo há não mais de meio dia, mas agia como se fosse o dono do lugar. E Melias Kroft estava próximo demais dele. Ocasionalmente via-os falando em segredo. E quando não os via, as servas sempre diziam a mesma coisa:

    — Você viu o nosso convidado?

    — O lorde Brandon? Acho que ele está com o lorde Melias. Vi os dois passando por aqui há alguns instantes.

    Estaria Melias Kroft preparando um golpe? Ora! E por que não? Certamente Brandon Donoghan poderia lhe dar um exército grande o bastante para conquistar o Castelo dos Ossos. Mas o que Melias Kroft estaria lhe oferecendo em troca? Seja o que for, não confiava nele. Em nenhum deles.

    Por isso, deixaria o Castelo dos Ossos nas mãos de Eva.

    Tinha apenas sete anos, mas era agora lady do Castelo dos Ossos e sua esposa; logo, a responsabilidade de governar (na ausência de Siegfried) pertencia a ela.

    Em relação à Melias Kroft, era complicado. Sim, não confiava nele. Mas o que fazer com ele? Levá-lo consigo? Por quê? Para servir como vice-comandante de uma tropa com duas dúzias de homens? Não levaria mais do que isso para a guerra, independente do quanto Brandon Donoghan reclamasse — o vilarejo era pequeno demais para suportar uma perda maior do que essa.

    Não precisava de Melias Kroft ao seu lado no campo de batalha. De fato, tê-lo por perto apenas o deixaria inquieto.

    Mas deixá-lo sozinho no Castelo dos Ossos era tão perigoso quanto. Seria Eva capaz de controlá-lo? Seria ele tão desprezível a ponto de tentar um golpe contra a sua própria neta? Se alguém tentasse atacar o vilarejo em sua ausência, Melias Kroft era o único com algum fiapo de conhecimento militar; ironicamente, era justamente isso que o tornava perigoso.

    — Eva.

    — S-sim?

    — Estou deixando o castelo nas suas mãos.

    — …

    — Não vou levar o Melias. Se alguém tentar atacar o vilarejo, ele ainda é a pessoa mais qualificada para organizar as defesas. Mas não confie nele! Você é a baronesa! A sua palavra é lei! Ele será só o capitão das suas tropas. Se houver um ataque, ordene a ele que o impeça. Mas não o deixe treinar nenhum soldado, a menos que tenha um inimigo em nossas portas. Se treinar, serão leais a ele. Não permita isso! Seja vista. Vou deixar a Mimosa com você. Ela vai te ajudar a fazer o papel de boa governante. Mas nunca se esqueça: o castelo é seu!

    — S-sim, senhor. Não irei falhar. Eu juro.

    Não pôde evitar o sorriso. Deu um beijo na cabeça dela e então deixou o quarto. Sabia que Eva daria o seu melhor, mas precisava de mais. Precisava de Eroth.

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