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    Um intrometido indesejado reluz com o clarão amarelo. Ao vê-lo, os olhos com cílios longos de Engard estreitam-se ao ponto de quase desaparecerem. O cenho franzido e o sorriso de lábios, enfim, contrastam com a sua beleza perversa.

    一 Essa faixa iridescente no ombro, um corpo robusto para os mestiços e o coque esparramado como uma bomba… Você deve ser o comandante Huiki. 一 mantendo-se na borda da fenda, o humano caminha por ela em passos lentos graciosos.

    一 Você me conhece, princesa? Para uma humana, até que você é bem bonita. 一 com cócegas no estômago, o meio-sangue escora a haste da grande foice no ombro.

    一 Quanta vulgaridade… Para sua infelicidade, eu sou homem. 一 os suspiros que saem da risada sem pressa, são abafados pelo atrito do punho dele com o cabo de sua grande lança.

    一 Não me leve a mal, boneca, mas elogiar a sua aparência não quer dizer que eu esteja interessado em alguém podre como você… Como me conhece? 一 acompanhando-o com os cantos dos olhos, Huiki ajeita a gola alta pontiaguda do seu uniforme.

    一 O tamanho do seu cérebro encolheu por conta dos músculos? À esse ponto, imaginei que estava óbvio como conseguimos as informações sobre essa cidade miserável. 一 balançando a cabeça em negação, Engard escora parte do rosto na palma esquerda enquanto ri. 

    Em silêncio, a feição do musculoso desce. Apontada para a direção do chão, os ombros trêmulos tomam firmeza de repente e o olhar sobe até o oponente. Empunhando a haste da foice com ambas as mãos, o comandante dos rebeldes meio-élficos enrijece a feição.

    “Koram… O que você pensou que estava fazendo trazendo esses malditos pra cá…? Ele derrotou Leander. Não consegui ver direito, mas minha intuição diz que preciso tomar cuidado ao acertar aquele escudo.”

    Posicionado no lado esquerdo do corpulento a alguns metros, o Cavaleiro eleva o broquel acoplado no braço esquerdo para frente. Inclinando um pouco o torso, os pés separados ligeiramente, enfatizam a sua postura de luta mais defensiva.

    “Ele definitivamente é mais experiente do que o outro. Uma foice e um grande corpo… Será que em termos de agilidade eu tenho a vantagem? Não sei… Preciso finalizar isso o mais rápido possível.”

    Como um espasmo, as orelhas pontiagudas de Huiki se movem. No outro segundo, a foice é brandida na horizontal numa inclinação para o alto. O golpe rápido é afiadíssimo, projetando uma lâmina fina de energia no qual rapidamente fatia a terra e começa a desmoronar a base em que Engard está.

    Desequilibrado momentaneamente, a única opção do humano é saltar e assim o fez. Mas no ar, a silhueta do outro surge um pouco mais acima. As sobrancelhas de Engard elevam-se com a surpresa e, num reflexo, a lança age interceptando o caminho da lâmina adversária como uma barra. Com o atrito entre as armas, o meio elfo usa da perna para um chute frontal contra a barriga do Cavaleiro. Contudo, bem atento, esse golpe é bloqueado com o pequeno escudo.

    Dessa forma, na primeira troca de golpes, ambos se afastam pousando fora da fenda. Entretanto, sem dar espaço ou intervalo algum, Engard rapidamente firma os pés contra o chão e mentaliza:

    “Zweites Anzeichen: Wespennest!” 一 à partir de um único estender de lança para frente, a oscilação da ponta perfaz um carrossel de vultos pontiagudos!

    Contra esse vespeiro, Huiki gira a haste da foice como um disco para os seus arredores com extrema velocidade. Á partir do manuseio dessa superfície giratória, cada estocada é defendida e repelida devido a rotação rapidamente acumulada. Logo, o grandalhão salta enquanto torce o corpo para a liberação de um potente golpe em queda!

    Avaliando a potência do ataque numa fração de segundos, Engard salta para trás. A foice crava contra o chão e a lança se estende para uma perfuração. Mas, ao ajustar a posição da lâmina, a arma levanta de forma rastejante para cravar sobre o abdômen do Cavaleiro, concomitantemente a um passo para o lado para evitar a estocada.

    O estridente som dos metais colidindo alastra-se junto do vácuo da pancada. O braço esquerdo do homem de cabelos púrpuros está para o alto após o bloqueio preciso com o broquel, tendo o seu rosto se contorcendo ao apertar os dentes. Do antebraço até o ombro, todo o braço canhoto está trêmulo…

    Sorrindo com confiança, Huiki puxa a foice de volta para baixo, as centelhas do conflito entre as armas acende os arredores mais uma vez. O ataque pesado faz Engard ser empurrado e parte dos fios de seu cabelo caem como pétalas ao vento, conforme as gotas de sangue despencam da sua bochecha.

    Girando a foice sutilmente para escorá-la novamente no ombro, o grandalhão diz:

    一 Nada mal. Conseguiu evitar que a sua cabeça voasse para o alto usando o cabo… 一 escorando a haste com a lâmina arqueada no ombro, o comandante inicia um andar lento até o seu adversário.

    De cabeça baixa, o Cavaleiro o encara por entre a franja. Diferente de antes, sua expressão está congelada na seriedade. A pouca luz iluminando a sua feição enfatizam bem o brilho contido em seus olhos roxos.

    “Esse cara é forte e perspicaz… Odeio admitir isso, mas em uma luta de artes armadas direta, ele é mais habilidoso do que eu. Nesse caso…”

    Abaixando e lateralizando os braços, o homem levanta o rosto completamente para o alto. O ritmo da sua respiração muda para uma duração mais longa de inspirar e expirar. Levantando uma das sobrancelhas, Huiki cessa o passo e observa com atenção. Mas, os lábios do invasor se movem, dizendo:

    一 Vai pro inferno. 一 consumindo a si e o ambiente com um clarão púrpuro.

    O Gewissen liberado ascende até os céus como uma erupção. A floresta e suas raízes começam a ranger com tanta potência que toda a área sofre com um terremoto, não só terrestre, mas também aéreo por conta da pressão dos ventos e seu fluxo ser alterado.

    一 FICOU LOUCO!? 一 agachando-se e levando uma das mãos ao solo, Huiki encara o outro com um suor escorrendo no semblante.

    Rindo, Engard e seu fulgor púrpuro desaparecem de uma só vez por uma sucção enegrecida. Como um reflexo, o mestiço olha para a direção da fenda causada no chão e concentra suas forças nas pernas para saltar diversas vezes. Lá dentro, Leander desacordado está quase completamente soterrado.

    一 Tsc!

    Estendendo o palmo para a direção do companheiro, um círculo mágico projeta uma espécie de corda que puxa o ferido até si. Agarrando-o e pondo-o em cima do seu ombro esquerdo, Huiki volta a saltar para esquivar-se de cada buraco ou cratera que se abre pelo chão. As raízes enlouqueceram à procura da existência indesejada do humano, mas ele já não estava ali. Por conta disso, o que sobra para os mestiços presos nesse caos é sobreviver assim como os animais que vivem por aqui!

    As enormes raízes decaem e se debatem como forças da natureza. Uma cortina de poeira imensa se levanta a cada pancada entre a madeira. Apesar de estarem no limite da floresta de Yothergran, ou seja, na área em que as árvores-muralhas não possuem tanta extensão, ainda assim, uma catástrofe se estabelece rapidamente.

    Todavia, mesmo nessa situação, algo fisga a audição de Huiki. Não é uma vinha ou raiz, mas algo mais pesado… vindo em sua direção!

    Girando até isso com a arma empunhada apenas com a mão destra, o musculoso bloqueia uma grande espada negra encurvada usando a haste!

    一 AHAHAHA! VAMOS MORRER JUNTOS! 一 o moreno ensanguentado com uma  insígnia de Estrela de Seis Pontas no peito, urra enquanto arrasta o meio elfo no ar!

    一 DE ONDE VOCÊ SAIU, DESGRAÇADO!?

    Após alguns instantes, eles colidem contra uma das árvores e acabam entrando em um ninho gigante abandonado. Lá dentro, Huiki confere com o canto dos olhos se Leander está bem, mas esse mero deslize em sua atenção lhe custa caro. A mão direita é dividida do resto do corpo e, assim como a sua palma, a foice fica para trás.

    “Merda…! Esse maluco realmente vai me segurar aqui até algum de nós morrer!” 一 sem escolha, a Constelação de Dorado surge para reparar o membro decepado. “Gastei o último Peeling do dia… Não posso mais ficar ferido…”

    A foice cai no chão após o desaparecimento da mão cortada, mas, poucos instantes depois, a arma também some em partículas amareladas foscas. Estendendo a palma destra para o lado, ela aparece sendo segurada firmemente outra vez.

    Porém, pouco antes do caos ser instaurado, ou melhor, das lutas acontecerem, o comerciante submerge nas profundezas do Grande Esqueleto em busca de sua esposa.

    Iluminando os arredores com um cristal feito de sua energia, a luz azulada fria revela uma arquitetura há muito esquecida…

    “Essas ruínas… uma antiga aldeia de elfos vivia aqui?” 一 olhando os arredores, os óculos arredondados curiosamente captam os desenhos e ilustrações gravadas nas paredes e pilares de mármore. 

    No fim desta passagem estreita, um misterioso fulgor esbranquiçado ofusca a sua visão.

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