No terraço, os três irmãos gêmeos desceram pela escada metálica dos fundos do prédio. Michal vinha na frente com uma barra de ferro apoiada no ombro. Logo atrás estavam Maykon e Miguel, idênticos entre si até no sorriso torto.

    O calor sufocante do sol fazia o suor escorrer pelo rosto dos três enquanto atravessavam o beco estreito ao lado do edifício.

    — Tão vendo? — disse Michal, sorrindo. — O chefe confia plenamente em nós. Depois disso, aposto que ele vai dar uma cadela pra cada um de nós.

    Maykon soltou uma gargalhada.

    — Agora fiquei animado com essa tarefa.

    — Só espero que não sejam aquelas malucas da ala leste — comentou Miguel. — Uma delas tentou me esfaquear dormindo.

    Os três riram.

    Um ruído rouco interrompeu a conversa.

    Uma mulher infectada surgiu tropeçando entre carros abandonados, os olhos esbranquiçados e a boca cheia de sangue seco.

    — Ih… apareceu diversão — disse Maykon.

    Michal bateu o cano contra a parede para chamar atenção.

    A criatura avançou correndo de forma desajeitada.

    Miguel foi o primeiro a atacar, acertando uma das pernas dela com violência. O osso quebrou em um estalo alto e a infectada caiu no chão.

    Maykon desceu o facão logo depois.

    Um braço foi arrancado.

    Depois o outro.

    A criatura continuava tentando rastejar e morder mesmo mutilada.

    — Cara… eu nunca enjoo disso — disse Maykon, respirando pesado.

    Miguel segurou a cabeça da infectada contra o concreto enquanto Michal terminava de cortar as pernas.

    Mesmo sendo pressionada contra o chão, ela ainda tentava avançar.

    Miguel pegou um graveto no chão e aproximou da boca da criatura.

    Ela destruiu a madeira em uma mordida só.

    Os três começaram a rir.

    — Viu? — disse Miguel. — Essa coisa arranca um dedo fácil. Certeza que é uma vadia da ala leste.

    — Pode crê — disse Michal, rindo. — Mas vou te falar, essa vadia tem uns peitão, mané. Aposto que a espanhola dela era das boas.

    Miguel deu uma cotovelada nele, junto de um olhar carregado de segundas intenções.

    — Não me diga que você tá pensando no que eu acho que tá pensando — disse Michal, abrindo um sorriso torto.

    — E se estiver? — disse Miguel com um sorriso discreto.

    — No meio da rua? — perguntou Maykon. — Com infectado pra todo lado?

    — Isso é o de menos — respondeu Michal. — Se for o caso, é só um ficar de olho nos caminhantes enquanto os outros dois se divertem e depois troca. Mas o ruim seria fazer isso e a gente ser infectado também, né?

    — Não esquenta — disse Miguel tirando sacolas do bolso. — Vim preparado.

    — Cara — disse Michal, fazendo uma pequena pausa. — Você já veio pensando nisso?

    Miguel apenas riu de fininho.

    Os três trocaram olhares. Então começaram a rir novamente.

    — O chefe vai arrancar nossas cabeças — disse Maykon.

    — Ele consegue esperar até a gente terminar aqui — respondeu Michal.

    Os irmãos assentiram em concordância

    No terceiro andar do prédio em que estavam antes, escondida no escuro, uma mulher observava tudo através de uma fresta entre as tábuas.

    O rosto e o corpo estavam cobertos de hematomas antigos e sujeira.

    Ao presenciar a cena que os irmãos executavam, ela os olhou com olhos repudiados e resmungou:

    — Que nojo…

    Minutos depois, os irmãos chegaram ao Vulcan.

    Os três pararam em frente ao prédio. O sol se escondia atrás da construção, projetando uma enorme sombra sobre a rua.

    Na calçada, não havia sinal de nenhum morto-vivo. Tudo estava mergulhado em um silêncio inquietante.

    Para confirmar que o local estava vazio, Michal pegou uma pedra e a lançou pela entrada principal do Vulcan.

    A pedra quicou uma única vez antes de atingir algo de vidro na escuridão do hotel, produzindo um estalo alto.

    Os irmãos ficaram imóveis por alguns segundos.

    Nenhum morto-vivo apareceu.

    Nenhum som respondeu ao impacto.

    Aquilo parecia significar que o lugar estava seguro.

    Trocaram um último olhar, respiraram fundo e entraram no Vulcan com confiança.

    Assim que cruzaram a entrada, a escuridão os envolveu.

    Maykon parou na mesma hora.

    — Caramba… não dá pra enxergar quase nada — ele puxou uma lanterna do bolso e apertou o botão.

    Nada.

    Apertou outra vez.

    Deu um tapa na lateral.

    Continuou apagada.

    — Ah, droga… acabou a carga — resmungou, balançando a lanterna.

    Miguel pegou a lanterna da mão do irmão e tentou ligá-la também.

    Nada.

    — Melhor voltar e pegar outra — sugeriu, devolvendo a lanterna.

    Michal soltou um suspiro impaciente.

    — Tá de brincadeira? — olhou para os irmãos.

    — A gente mal tá vendo onde pisa — retrucou Maykon.

    — Relaxa. Se tivesse caminhante aqui dentro, já tinha aparecido quando joguei a pedra. Isso aqui tá vazio — Michal apoiou a barra de ferro no ombro. — Não vamos perder tempo voltando por causa de uma lanterna.

    Miguel deu de ombros.

    — É… faz sentido — concordou.

    Os três voltaram a caminhar, agora mais devagar.

    O frio parecia aumentar a cada passo.

    Maykon esfregou os braços.

    — Que lugar gelado… — murmurou.

    Miguel respirou fundo e imediatamente fez uma careta.

    — Credo… que fedor — reclamou, cobrindo o nariz.

    — Tá fedendo pra cacete — concordou Maykon.

    Michal também torceu o nariz.

    — Como aquele cara consegue morar aqui sem vomitar? — perguntou, olhando para a escuridão.

    — Sei lá… deve nem sentir mais o próprio nariz — respondeu Miguel.

    — Ou ficou maluco faz tempo — completou Maykon, soltando uma risada.

    Os passos dos três ecoavam pelo prédio.

    Nenhum outro som respondia.

    O silêncio era tão profundo que até a respiração deles parecia alta demais.

    Mesmo assim, continuaram avançando sem enxergar muito além de alguns metros à frente.

    Os três continuaram andando em silêncio por alguns instantes.

    Uma gota caiu em algum lugar.

    Depois outra.

    Maykon olhou para os lados.

    — Odeio esse silêncio — murmurou.

    — Tá com medo? — provocou Miguel.

    — Medo? Eu? Só tô dizendo que esse lugar dá arrepios — retrucou Maykon.

    Michal bateu a barra de ferro contra uma pilastra.

    O estrondo atravessou toda a recepção.

    Os três ficaram imóveis.

    Esperaram.

    Nada.

    Michal abriu um sorriso.

    — Tá vendo? Não tem porra nenhuma aqui.

    — Falei que tava vazio — disse Miguel.

    Maykon ainda observava a escuridão.

    — Mesmo assim… tenho a impressão de que tem alguém olhando pra gente.

    — Para de viajar — respondeu Michal. — Se tivesse alguém aqui, já tinha aparecido.

    Miguel deu alguns passos à frente, ergueu os braços e olhou para o teto escuro.

    — Ei! Tem alguém aí?

    A voz percorreu toda a recepção e desapareceu pelos corredores.

    Nenhuma resposta.

    Miguel sorriu de canto.

    — Acho que o chefe mandou a gente caça fantasma.

    Os irmãos riram.

    Miguel gritou ainda mais alto.

    — Ô, SEU COVARDE! CADÊ VOCÊ? A GENTE VEIO TE BUSCAR!

    O eco da provocação morreu lentamente.

    E, mais uma vez, o silêncio permaneceu.

    Miguel baixou os braços.

    — Tá vendo? Falei que ele não vinha — abriu um sorriso.

    Os três caíram na gargalhada.

    De repente, uma silhueta saltou da escuridão.

    Miguel mal teve tempo de virar o rosto.

    A criatura se lançou sobre ele com uma violência brutal.

    Os dois caíram no chão.

    — MIGUEL! — gritou Maykon.

    Um grito agonizante rasgou a recepção.

    O morto-vivo afundou os dentes no pescoço de Miguel.

    O som da carne sendo rasgada ecoou pelo salão.

    Miguel se debatia desesperadamente, tentando arrancar a criatura de cima dele, mas ela continuava cravada em sua garganta.

    Michal correu e desceu a barra de ferro com toda a força sobre a cabeça do infectado.

    O cadáver despencou para o lado.

    Miguel permaneceu caído, com as duas mãos pressionadas contra o pescoço enquanto o sangue escorria entre seus dedos.

    Maykon e Michal mal tiveram tempo de processar o que havia acontecido.

    Então eles ouviram um gemido baixo e rouco vindo de uma direção. Depois outro na direção opostas e mais outros surgindo de todas direções.

    Os dois prenderam a respiração.

    Na escuridão, as sombras começaram a se mover.

    Era impossível saber quantas.

    Os gemidos aumentavam a cada segundo.

    O barulho que haviam feito finalmente chamou a atenção dos mortos-vivos espalhados pelo Vulcan.

    Maykon deu um passo para trás.

    — Michal… tem coisa demais aqui… — sua voz saiu baixa, tomada pelo nervosismo.

    Michal apertou a barra de ferro com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.

    Pares de olhos esbranquiçados começaram a surgir no breu.

    Depois outro.

    E mais outros.

    Silhuetas cambaleantes apareciam lentamente de todos os lados.

    O cerco estava se fechando.

    — CORRE! — gritou Michal.

    Os dois dispararam sem olhar para trás.

    Os gemidos se transformaram em uma cacofonia ensurdecedora.

    Agachado na escada que ligava aos segundo andar, Derek estava totalmente imóvel observando tudo.

    Os gritos ecoavam pelos corredores do hotel.

    Depois vieram os sons de luta. Metal contra osso. Vidro quebrando. Mais gritos.

    Ele fechou os olhos por um instante.

    “Bem que senti um cheiro diferente. Humanos.”

    “E, pelo jeito, não vieram procurar abrigo.”

    Derek apoiou a mão no cabo do bastão.

    “Certeza que mais voltaram. Mas vou estar preparado.”

    Ele se levantou lentamente.

    Sem fazer o menor ruído, começou a subir os últimos degraus da escada, enquanto os gritos continuavam ecoando pelos andares inferiores.

    Horas passaram. 

    A porta da sala do pequeno prédio abandonado foi aberta.

    Maykon entrou cambaleando, coberto de sangue e respirando com dificuldade.

    Os poucos sobreviventes que conversavam no salão se levantaram imediatamente.

    O líder observou ele por alguns segundos.

    Depois franziu a testa.

    — Cadê seus irmãos?

    Ele abaixou a cabeça.

    — Eles… morreram.

    O salão mergulhou em silêncio.

    — Tinha morto-vivo demais naquele lugar — disse entre uma respiração e outra. — Eles apareceram de todos os lados… a gente nem viu de onde vieram…

    Enquanto falava, mantinha o braço esquerdo colado ao corpo.

    O líder não desviava os olhos.

    Esperou Maykon terminar, então perguntou, em um tom calmo:

    — Por que você tá escondendo o braço?

    Ele sorriu sem jeito.

    — Eu? Tô escondendo nada, não.

    — Mostra o braço.

    O sorriso desapareceu.

    — É que… eu machuquei ele quando tava correndo. Não foi nada demais.

    O líder continuou encarando Maykon por alguns segundos.

    Depois olhou discretamente para os outros membros do grupo.

    Eles entenderam o recado sem que uma única palavra fosse dita.

    Os homens avançaram ao mesmo tempo.

    — Ei! Que porra é essa?! — Maykon tentou recuar.

    Dois deles o agarraram pelos braços.

    Outro puxou com força o braço que ele escondia junto ao corpo.

    A manga rasgou.

    E lá estavam marcas de mordidas.

    O salão mergulhou em silêncio por breves segundos, logo, alguns homens começaram a rir.

    — Eu sabia!

    — Falei que ele tava escondendo alguma coisa.

    — Olha a cara dele — um deles apontou para Maykon e caiu na gargalhada.

    Maykon tentava se soltar.

    — Não! Calma! Eu tô bem! Foi só uma mordidinha!

    Mais risadas.

    O líder caminhou até ele com um sorriso tranquilo no rosto.

    Parou bem na sua frente. Olhou para a mordida e depois para Maykon.

    — Rapaz… você teve coragem de entrar aqui achando que ninguém ia perceber isso? — sorriu.

    — Eu… eu fiquei com medo…

    — E fez certo — o líder deu uma risada curta. — Eu também ficaria.

    Os homens ao redor riram junto.

    Maykon começou a chorar.

    — Por favor… não me mata.

    O líder inclinou a cabeça.

    — Matar você? Quem falou em matar?

    Os olhos de Maykon se encheram de esperança.

    O líder abriu um sorriso ainda maior.

    — A gente só vai arrancar seu braço.

    Uma gargalhada tomou conta do salão.

    — Traz o facão!

    — Não! Espera! Espera!

    Maykon começou a se debater.

    Os homens quase não conseguiam segurá-lo de tanto rir.

    Um deles comentou:

    — Vai ficar igual um caranguejo.

    Outra rodada de risadas ecoou pela base.

    O líder bateu de leve no ombro de Maykon.

    — Relaxa… se der certo, você vive — fez uma pequena pausa. — Se der errado… pelo menos rende uma boa história.

    Mais gargalhadas.

    Maykon já chorava desesperadamente.

    — Segura ele firme — disse o líder, ainda sorrindo para os outros homens. — Não quero que ele estrague o corte.

    Enquanto arrastavam Maykon para a enfermaria, seus gritos se misturavam às risadas do grupo.

    O líder observou por alguns segundos antes de voltar sua atenção aos demais.

    — Bom… agora sabemos de uma coisa.

    Todos olharam para ele.

    — Aquele desgraçado tá vivendo num formigueiro de caminhantes.

    Um homem deu uma risada.

    — Então como ele entra e sai sem virar jantar?

    O líder abriu um sorriso de canto.

    — É simples… ele conhece um caminho que nós não conhecemos.

    Ele passou a língua pelos dentes.

    — Da próxima vez… eu mesmo vou buscar esse filho da puta.

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