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    Um pouco mais adiante de onde o grupo de suporte atendia os feridos que haviam recuado do centro do combate, Celina se encontrava submersa em uma lembrança vivida provocada pela magia melancólica de Redgar.

    Ela via o caminho que jamais pudera esquecer. A estrada de terra principal que saia dos portões externos de Ossuia até um conglomerado de
    vilarejos militares para crianças e adolescentes.

    Celina ainda lembrava, mesmo que possuísse apenas três anos na época, o evento traumático de ser retirada dos braços da mãe que possuía os mesmos olhos que ela.

    Em Ossuia, o poder advindo do mérito era a única coisa que verdadeiramente tinha valor. Cada muralha interna possuía um limite rígido de
    habitantes; para viver ali, era preciso provar seu valor através de sangue, combate e intelecto. Era uma prova que, salvo raras e divinas exceções, uma criança jamais poderia realizar.

    ​Para evitar que o privilégio da herança corrompesse as raízes meritocráticas do Império, existia a implacável lei dos Filhos do Império.

    ​Toda criança nascida sob a proteção das muralhas, fruto do sangue dos “Corajosos”, deveria ser entregue ao exército. Elas eram recolhidas de seus lares e exiladas nos vilarejos de formação, fora da segurança de pedra.
    Lá, longe do afeto familiar e sob a disciplina de ferro do exército ossuiano, eram forjadas como armas. Só retornariam às muralhas se, e somente se, conquistassem sua posição partindo do absoluto zero.

    E assim foi com Celina.

    ​Ela não guardava na memória o nome da mãe ou do pai. Na verdade, sequer se lembrava se havia uma figura paterna presente no momento em
    que foi entregue.

    ​O que permanecia vívido era o vazio que tomou seu coração quando sua mãe lhe deu um beijo breve na têmpora. Celina era pequena demais
    para compreender a complexidade do que acontecia, mas, no fundo, ela sentia:
    aquela era a última vez que veria o rosto de sua mãe.

    Ela se lembrava do momento em que subiu no grandioso CSR de vinte lugares. O veículo era colossal, cinco vezes maior que os modelos comuns que transitavam pelas ruas de Ossuia. Quase duas décadas haviam se passado, mas
    a lembrança permanecia nítida, clara como as águas do Rio Vida.

    ​O veículo serpenteava pelas ruas internas das muralhas, recolhendo mais e mais
    crianças em cada parada. Vez ou outra, o silêncio era quebrado pelo grito desesperado de uma mãe tentando manter o filho nos braços; um som que era prontamente silenciado após um clarão branco e gélido. Através da janela fosca,
    os olhos de Celina varriam as ruas enquanto o transporte atravessava os portões, deixando o Império para trás.

    ​O primeiro dia foi inesquecível. Ela ainda conseguia visualizar o rosto da oficial que os recebeu no vilarejo militar: uma mulher de cabelos escuros, cacheados e curtos, com olhos cinzentos que não refletiam piedade.

    ​— A partir de hoje, vocês não são mais crianças — a frase ecoou na mente de Celina, tão cortante quanto no dia em que foi dita.

    ​Seguiram-se anos de um treinamento excruciante. Ela foi lapidada para ser uma arma viva, digna de reivindicar seu lugar na muralha de onde fora arrancada. Naquele lugar, o afeto era um conceito inexistente; não havia amor, apenas eficiência.

    ​Aos quatorze anos, sua trajetória tomou um rumo inesperado. Um anão mestre da
    forja, atraído pelos boatos sobre sua aptidão excepcional com lâminas, foi visitá-la. Contudo, ao ser testada pelo Diamante Negro, a sorte não sorriu para ela. A jovem não possuía sequer uma gota de mana.

    ​Ela fazia parte dos 60% que não possuíam mana é portando não poderia despertar um ARGUEM.

    Mas isso não a abalou. Não, naqueles campos de treinamento os instrutores sabiam muito bem que as chances de novos ARGUEMs serem despertos eram baixas mesmo sendo como descendentes de pessoas poderosas como era o caso das crianças que iam para lá para não herdar as glórias dos pais.

    Então a abordagem com ela e com os demais que haviam falhado em seu despertar mudou. Eles foram apresentados a ciência.

    Celina entregou-se ao estudo com a mesma ferocidade que dedicava à espada. Desenvolveu o conhecimento necessário para projetar seu
    próprio ARGENTEC: um dispositivo capaz de disparar e conter feixes de luz em uma massa sólida, estável e afiada. Foi esse Armamento de Guerra Tecnológico que a permitiu autoproclamar-se a ThunderBlade. No fundo de seu peito, em uma pequena parte que o rigor militar ainda não conseguira endurecer, ela
    alimentava a esperança de rever sua mãe.

    ​— “Mas você falhou, não foi?” A voz trágica de Tristana atravessou os ouvidos de Celina. A imagem de seu passado começou a se distorcer
    e murchar como uma folha seca. Anos de luta, aprimoramento e sangue derramado para finalmente retornar às muralhas, o lugar de onde fora arrancada na infância, apenas para encontrar o vazio.

    Ela descobriu que a possível mulher que seria sua mãe poderia ter sido morta durante um desafio nas arenas de ascensão da Cidade dos
    Corajosos para a Cidade de Ferro.

    As imagens da Cidade de Ferro começaram a oscilar, perdendo a cor, enquanto a voz de Tristana, que vinha da boca de Redgar, se tornava um sussurro gélido que parecia vir de dentro do próprio crânio de Celina.

    — Todo esse esforço… Toda essa ciência e sangue… Para quê, Celina? — A Sombra surgiu no reflexo das memórias, distorcida e cruel. —
    Você lutou para voltar ao ninho, mas o ninho foi limpo há muito tempo.

    A visão mudou. Celina viu as arenas de ascensão da Cidade de Ferro, onde o solo era manchado pelo sangue fresco. No centro da arena da
    floresta, uma mulher com os mesmos olhos elétricos de Celina caía, sem vida, sob o peso de um desafio que não pôde vencer.

    — Ela tentou ascender para a Cidade de Ferro, é verdade. Mas não foi por amor a você — Tristana riu, um som seco e melancólico. — Ela lutou
    para esquecer que um dia teve uma filha. O Império a convenceu de que você era um fardo, uma fraqueza que ela precisava purgar para provar seu próprio mérito.
    E ela o fez. Ela morreu tentando subir um degrau onde você não estava convidada.

    As memórias de infância de Celina voltavam como flash… o beijo na têmpora… o olhar de despedida… começaram a apodrecer sob as
    palavras da Sombra.

    — Você não é uma “Filha do Império”, Celina. Você é apenas um peso que sobreviveu ao descarte. Olhe para si mesma… Não tem mana, não tem família, não tem um nome que alguém se importe em pronunciar sem medo. Você
    criou essa lâmina de luz para iluminar um caminho que leva ao vazio.

    Redgar aproximou-se, sua presença pesando sobre a alma da guerreira.

    — Por que continuar carregando o peso desse metal? Por que respirar o ar de um mundo que a expulsou antes mesmo de você saber falar? A
    verdadeira força não é a superação, Celina… é a aceitação. Aceite que o propósito que você inventou morreu naquela arena. Descanse. Use essa lâmina em seu próprio peito e deixe o silêncio finalmente abraçar o que restou de você.
    Seria uma misericórdia… o único ato de amor que você receberá nesta vida.

    Lentamente, como se cada centímetro pesasse toneladas, Celina ergueu o punho do seu ARGENTEC. O feixe de luz sólida, a tecnologia que ela criou para provar seu valor ao mundo, sibilou no ar com um brilho instável.

    As palavras de Tristana haviam realmente chegado ao seu coração.

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