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Capítulo 198 — Vagalumes e suas Luzes
As palavras de Tristana agiam como um veneno lento, entorpecendo os sentidos de Celina. O mundo ao redor era preenchido pelo vácuo e pela dor de uma infância roubada. Lentamente, o punho do seu ARGENTEC subiu; a lâmina de luz sibilava enquanto se alinhava ao centro de seu peito. A ponta vibrante quase tocava a superfície de sua própria pele, buscando o caminho mais curto para o silêncio eterno.
Redgar deu um passo à frente, sua silhueta fundindo-se à escuridão da Sombra. Ele se aproximou com uma lentidão quase carinhosa, inclinando o rosto na direção dela. Não havia ódio em seu olhar, apenas uma compaixão doentia e distorcida.
— Isso… — ele sussurrou, a voz de Tristana sobrepondo-se à dele como um eco de ninar. — Deixe o peso cair. Não há sentido em lutar por um vazio. Abrace a única verdade que restou para você.
Celina podia sentir o hálito frio da magia dele. Redgar parecia um mentor orgulhoso, pronto para confortá-la no momento da desistência. Sua mão pairou perto do ombro dela, como se fosse apoiá-la naquele ato final de misericórdia. Celina manteve os olhos baixos, as lágrimas começando a minar enquanto seu corpo tremia sob a pressão da melancolia.
Mas, no milésimo de segundo em que o rosto de Redgar relaxou na certeza da vitória, o tremor cessou.
Os olhos elétricos de Celina se ergueram, subitamente límpidos e afiados. Um sorriso debochado, carregado de um desdém gélido, cortou sua face pálida.
— Você fez uma ótima tentativa — a voz dela saiu firme, sem qualquer rastro da hesitação anterior.
Em um movimento tão rápido que o ar pareceu estalar, ela girou o pulso. A lâmina de raios, que antes ameaçava seu próprio coração, descreveu um arco curto e violento, mergulhando fundo no peito de Redgar por baixo da armadura anã.
O som do metal sendo perfurado e da carne sendo cauterizada ecoou pela clareira. O choque paralisou Redgar; seus olhos arregalaram-se e o sorriso psicótico transformou-se em uma careta de agonia pura.
— Mas chegou atrasado para usar esse tipo de discurso — continuou Celina, aproximando seu rosto ao dele enquanto a lâmina elétrica rugia dentro da caixa torácica do adversário. — Aquele homem já fez isso antes. Ele já me mostrou o vazio… e depois me deu um novo propósito. Uma razão que dá sentido a cada gota de sangue que derramo dos meus inimigos, e a cada gota que sai das minhas próprias veias. Uma forma de iluminar esse mundo com minha existência por apenas ser quem eu já sou, como um vagalume.
A aura negra da Sombra da Tristeza oscilou violentamente, como se a própria magia estivesse engasgando com a invasão de luz e dor. De repente, o breu se dissipou. O ambiente voltou a ser tomado pelo verde vibrante das árvores e da mata.
Celina removeu a lâmina com um solavanco. Redgar tombou para trás, atingindo o solo com um baque seco.
— AAAAAAHH!!! — Ele começou a gritar, contorcendo-se em total desespero. — EU VOU MORRER! EU VOU MORRER!
— Ouvi dizer que um dos soldados da escolta dos príncipes fora criado na Floresta das Árvores Andantes pelas lendárias Sete Sombras e ele sempre mantém um tom neutro sem emoção… — disse Celina, observando-o de cima com um olhar de desprezo absoluto. — Ira, Esperança, Tristeza, Inveja, Felicidade, Amor e Preguiça. Pelo que me lembro, não existe uma “Sombra do Medo”.
Ela desativou a espada de raios, guardando o punhal na cintura com uma frieza mecânica.
— Então este é você de verdade: apenas uma criança apavorada. Que decepção, Redgar de Lyberion.
* * *
A algumas centenas de metros dali, Marco, que recebia um tratamento emergencial dos ajudantes de Isaac, sentiu a mana de Redgar oscilar violentamente.
— Red… — O nome escapou por seus lábios, carregado de uma preocupação que ele não podia se dar ao luxo de aprofundar. Ele precisava manter o foco.
— Isaac — chamou Marco, voltando-se para o líder do suporte que ainda trabalhava febrilmente no corpo de Bane. — Enquanto eu recuava da ThunderBlade, senti outra fonte de mana. Algo ameaçador.
Sem desviar os olhos do corpo brutalmente eletrificado e marcado, Isaac respondeu com rapidez cirúrgica:
— Apenas uma fonte ou várias?
— Não tenho certeza — admitiu Marco, frustrado. — A oscilação de Redgar estava abafando tudo ao redor, e eu não tive tempo para sondar o terreno com precisão enquanto ele perdia o controle.
— Aquele seu companheiro… é uma baita dor de cabeça, não é? — Isaac comentou enquanto fechava o livro de capa metálica de seu ARGUEM, o brilho de cura finalmente se dissipando. — Então a lenda é real. Ele é mesmo a criança criada pelas Sete Sombras… Sempre achei que fosse apenas uma história que os lyberianos contavam para intimidar o resto do continente.
Marco inclinou-se para observar o estado de Bane. Isaac, percebendo a apreensão do soldado, fez um sinal tranquilizador.
— Eu o tirei da zona de morte. Ele vai resistir — afirmou Isaac, limpando o suor da testa. — Mas se ele quiser voltar a lutar um dia, precisa desistir da ascensão agora e buscar tratamento especializado imediatamente. Se ele forçar esse corpo novamente hoje, não haverá magia que o salve.
A resposta de Isaac mal teve tempo de ecoar. O ar, antes pesado apenas pela mana, subitamente se encheu com o som metálico de lâminas sendo sacadas em uníssono.
— ABAIXEM-SE! — Marco gritou, ao sentir manas hostis serem subitamentes disparadas antes mesmo de seus olhos processarem os vultos.
O ataque foi cirúrgico. Aproveitando o momento de vulnerabilidade total, o restante dos desafiados, aqueles que espreitavam como abutres esperando o desgaste dos líderes, saltou da mata. Eram vultos rápidos, sombras letais que ignoraram os guerreiros feridos para focar no pescoço dos curandeiros.
Cerca de dez homens e duas mulheres surgiram de todos os ângulos, uma coreografia de morte coordenada para aniquilar o suporte em segundos.
— Eles estão focando os curandeiros! — Isaac rugiu, reabrindo seu ARGUEM com violência, enquanto um dos vultos passava raspando por seu ombro, a lâmina cortando o tecido da farda.
Os atacantes não gritavam; agiam com a frieza de quem sabe que a janela de oportunidade é curta. Enquanto Marco tentava se colocar entre os curandeiros e o aço inimigo, percebeu que a situação era desesperadora: Bane estava imóvel, Vell e Yssa ainda se recuperavam, e ele próprio estava longe de sua força total.
A floresta, que antes parecia ser o cenário de um duelo de titãs, transformou-se em um abatedouro desordenado. Os “abutres” da ascensão haviam chegado para terminar o trabalho que a ThunderBlade começara.
O caos da emboscada ganhou um rosto que emanava o cheiro de enxofre e metal superaquecido.
Por entre as sombras dos atacantes, um homem caminhava com uma calma que contrastava com a violência ao seu redor. Em seu braço direito, uma manopla leve e metálica pulsava em um tom rubro, servindo de base para três garras longas, laminadas e incandescentes, que soltavam pequenas fagulhas de chamas a cada movimento. Um ARGUEM sem dúvidas.
Era Haron, um dos “vagalumes” de Blando e companheiro de Celina. O calor que emanava de suas garras fazia o ar ondular, criando uma miragem letal em meio ao verde da floresta.
— Mas que desperdício… — Haron quebrou o silêncio, sua voz carregada de um deboche preguiçoso. — Eu estava ansioso para ver o que aquele moleque do Redgar tinha para oferecer, mas Celina se empolgou e decidiu brincar sozinha. Sobrou para mim o trabalho de limpar o lixo.
Ele varreu o local com o olhar, observando seus aliados cercando os curandeiros e os feridos, antes de fixar os olhos em Marco.
— E você deve ser o Marco, não é? O famoso “Soldado Copiador” de Lyberion. — Haron sorriu, as garras estalando com a alta temperatura. — É uma pena que esteja nesse estado deplorável. Celina te pegou de jeito, hein? Esperava mais de um troféu como você.
Marco forçou-se a assumir uma postura de combate. Suas costas ainda protestavam a cada movimento, mas Isaac havia feito o suficiente para soldar suas costelas e permitir que ele ficasse de pé. O soldado respirou fundo, ignorando a dor aguda.
Haron fez um sinal casual com a mão esquerda para os outros desafiados.
— Cuidem desses curandeiros inúteis. Acabem com os feridos logo para encerrarmos isso aqui o mais rápido possível — ordenou, sem tirar os olhos de sua presa. — Não pretendo deixar Ross com toda a diversão de caçar os príncipes sozinho.
Os olhos de Marco se semicerraram ao ouvir que seus príncipes estavam sendo caçados. Isso poderia comprometer o plano de Cassian.
Haron deu um passo à frente. Suas garras rasgaram o ar, deixando trilhas de fumaça quente pairando entre eles.
— Quer saber? Que se foda toda essa merda! Vamos ver o quanto de técnica você consegue copiar enquanto queima vivo, Marco de Lyberion.

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