Índice de Capítulo

    Estava quase amanhecendo quando terminamos de arrumar um canto da oficina.
     

    O lugar estava sujo, coberto por poeira antiga e fuligem. Algumas ferramentas ainda estavam espalhadas pelo chão, esquecidas e quebradas. A estrutura, porém, permanecia firme. Pedra grossa, construída para durar.
     

    Eu tirei os sacos de dormir do cubo dimensional que Lock tinha me dado. Abrimos espaço empurrando o que atrapalhava, criando um abrigo improvisado no fundo da oficina, longe das janelas.
     

    Comemos o que tínhamos.
     

    Ninguém falou muito.
     

    O cansaço estava ali, mas não era só físico.
     

    — É melhor operarmos à noite — falei, mantendo a voz baixa.
     

    As três concordaram sem discutir. Era o óbvio.
     

    Com um gesto, o globo de luz que flutuava se apagou e me deitei, enrolado em Claire.
     

    O chão era duro, mas ela era quente e macia.
     

    O silêncio, incompleto. Vilka nunca ficava totalmente quieta. Sempre havia um som distante, metal, passos, vento passando por estruturas abertas.
     

    Fechei os olhos.
     

    A sensação de estar de volta não era conforto. Era peso. Como se o corpo lembrasse antes da mente.
     

    Mas o sono veio rápido e inquieto.
     

     

    Selune me olhava.
     

    O rosto dela era o mesmo. Eu tentava ler alguma coisa ali, mas não encontrava. Seu sorriso trazia algo ilegível.
     

    Então ela começou a correr atrás de mim.
     

    Nix vinha logo depois. A barriga inchada se movia junto com o corpo, pesada. Ela ria, como se aquilo fosse uma brincadeira.
     

    Eu corri sem entender porque. Só sabia que precisava manter distância.
     

    — Não foge, Lior… — a voz de Nix chegou clara. — A gente não vai fazer nada…
     

    Uma pausa curta.
     

    — Não é porque flagramos você e Pandora que estamos bravas… ou mesmo Claire…
     

    A forma como ela disse isso não combinava com o sorriso.
     

    Tentei acelerar. Não adiantou. Elas continuavam se aproximando.
     

    Procurei meu sol de mana. Nada. O vazio veio imediato.
     

    Meu corpo respondeu antes de eu processar. A respiração ficou curta. O peito apertou. Eu estava quebrado de novo.
     

    A mesma sensação de impotência. Como se algo essencial tivesse sido arrancado.
     

    Tropecei e cai. O impacto me tirou o ar.
     

    Antes de conseguir reagir, Nix já estava sobre mim. O peso me prendeu contra o chão.
     

    Pesado demais.
     

    — Meus filhotinhos vão crescer sem pai — disse, sem pressa. — Igual o seu… e o da Selune.
     

    Meu corpo travou. Sua voz era cheia de desprezo.
     

    Selune tinha sido levada. Eu não fiz nada.
     

    Ela grávida, Sozinha.

    — Não… — minha voz saiu baixa. — Eu nunca quis…

    Selune se aproximou. A mana ao redor dela era diferente. Densa, irregular. Cheia de miasma oleoso e corrosivo.

    Seu ventre estava vazio agora. Senti o coração parar.

    Ela não falou.

    Só levantou a mão sorrindo, e apontou.

    Tentei entender a magia. Nada fazia sentido. Como? Eu conhecia padrões. Fluxos. Estruturas. Era, afinal, o herdeiro de Mahteal.

    Não era nenhuma magia que eu conhecesse.

    Senti quando entrou. Primeiro frio. Depois dor.

    Meu corpo começou a ceder. Os braços encurtaram, a forma mudou sem controle. Tentei me mover, mas não reconhecia mais o próprio corpo. Tentei gritar. O som não saiu como antes. Apenas um grasnado.

    — Quéin.

    O pânico veio de uma vez.

    Nix me levantou com facilidade. As unhas pressionaram minha pele, ou melhor, minhas penas.

    Eu não tinha força para evitar.

    Selune se afastou por um instante. Quando voltou, trazia objetos nas mãos. Utensílios de cozinha.

    Ela se aproximou mais.

    Nix me segurou contra um cepo de madeira, esticou meu pescoço fino.

    Não havia espaço para reagir.

    Selune ergueu um cutelo. Ambas riam sem parar.

    — Um belo pato — disse, sem alterar o tom. — Que vai para a panela.

    Tentei me debater, sem sucesso.

    O braço dela desceu.
     


     

    Acordei de uma vez.
     

    O ar veio de forma irregular, como se eu tivesse esquecido como respirar. Claire estava sentada do meu lado, batendo levemente em minhas costas.
     

    Levei alguns segundos para entender onde estava.
     

    A oficina.
     

    O cheiro de fuligem.
     

    Passei a mão pelo rosto, sentindo o suor frio.
     

    — Tive um pesadelo… — expliquei. Claire me olhava sem entender. Pandora também tinha acordado. Senti um calafrio quando meus olhos cruzaram com os dela.
     

    A tarde já caía quando decidimos sair. Niana e Pandora ficaram na oficina. Ambas podiam se defender dos bêbados e sem teto da região. Eu e Claire saímos atrás de informações. Eu queria entender onde minha mãe e irmã podiam estar. Como as ruas estavam sendo patrulhada e o nível de atenção.
     

    Saímos pela porta dos fundos usando a magia de ocultação reforçada. O gasto de mana era alto. Cada passo nas ruas fazia o ar vibrar contra minha pele, como se milhares de dentes minúsculos tentassem morder o fluxo de mana que escapava de nós. Vesúvia não tinha túneis de esgoto, apenas valetas fundas. Não havia onde se esconder de verdade. Qualquer erro seria fatal.
     

    Claire mantinha uma linha sutil de suporte entre nós. Seu sol de mana respondia ao meu, criando uma ligação mais estável. Juntos, resistíamos melhor à sucção constante dos equipamentos criados por Kas.
     

    Andamos pelas ruas da periferia enquanto o céu escurecia. O cheiro de forjas ainda quentes misturava-se ao fedor de esgoto das valetas e as cinzas que caiam do céu.
     

    — Dois guardas à frente — Enviei para Claire pela rede mental. — Armaduras simples, mas portavam um peitoral com a tecnologia manaclaste reduzida.
    Ela assentiu. Senti seu sol de mana reagir, empurrando contra a sucção.

    Um mago comum, que usasse círculos já teria desabado. Nós aguentávamos, mas o cansaço se acumulava rápido.
     

    Paramos perto de uma praça pequena, onde mercadores recolhiam as barracas antes do anoitecer. Escutei fragmentos de conversas. A Legião manaclaste tinha reforçado a vigilância na cidade toda, mas principalmente, na mansão e no tribunal de Thalos, onde criminosos eram julgados, presos e executados.

    Senti a garganta apertar. Eu não conhecia o interior do tribunal. Meu tio, Augustus, era um pretor da igreja. Os membros do clero eram fortes e perigosos.
     

    — Eles sabem que estamos em guerra. Juliani e meu pai sabem que viríamos atrás de Cass e minha mãe. Tudo cheira como uma armadilha.
     

    Ela apertou minha mão por baixo do manto.
     

    — Precisamos de mais informações.
     

    Viramos para uma rua lateral mais estreita. Dois guardas Vulkaris saíram de uma viela, armaduras com a runa de disrupção zumbindo. Um deles ergueu a mão, ativando uma runa de detecção. Minha magia era mais forte.

    Passaram por nós.
     

    Claire soltou um gemido baixo. Seu suporte vacilou por meio segundo.
     

    — Eles sentiram algo errado mas não detectaram nada — enviei para ela, já puxando mana do sol para reforçar a runa de ocultação.
     

    O guarda olhou para trás.
     

    Corremos de volta para a oficina. Pulamos em uma valeta, pés chapinhando na água fétida e quente.
     

    Como se pressentissem algo voltaram, botas pesadas batiam no calçamento. Um cão latiu ao longe.
     

    Não podíamos lutar ali e nos revelar tão cedo.
     

    — Esquerda! — Claire enviou.
     

    Entramos num beco estreito entre duas forjas. O calor das paredes era quase insuportável. A disrupção ali era mais fraca, talvez por causa da interferência das fornalhas. Usamos isso. Claire reforçou nossa ocultação com um esforço final, e eu empurrei o sol de mana para mascarar nosso rastro.
     

    Os guardas passaram direto, xingando.
     

    Paramos num canto escuro, ofegantes. Meu peito queimava. O sol de mana pulsava irregular, recuperando-se devagar enquanto a noite caía de vez.
     

    — Emoções suficientes por hoje — murmurei. — Pouca informação, temos que pensar num plano melhor para prosseguir.
     

    Claire encostou a testa no meu ombro por um segundo.
     

    — Vamos conseguir.
     

    O caminho de volta foi tenso, mas silencioso. Quando finalmente entramos na oficina pelo fundo, a noite já dominava Vesúvia.
     

    Niana e Pandora estavam alertas, armas em mãos.
     

    — Sentimos algo — disse Pandora. — Um zumbido estranho.
     

    Niana farejava o ar, orelhas erguidas.
     

    — Tem alguma coisa se aproximando…
     

    Então ouvimos.
     

    Dois passos pesados ecoaram do lado de fora da porta principal. Metal rangendo contra pedra.
     

    Uma pancada. A porta tremeu violentamente.
     

    Dois golens de aço surgiram na escuridão, corpos altos e largos, olhos de cristal brilhando em vermelho vivo. Placas grossas cobriam cada junta, runas brilhando enquanto sugavam a mana do ambiente. Máquinas de guerra projetadas por Mestre Kas.
     

    Um deles ergueu o braço. Uma runa de detecção ativou, varrendo o interior da oficina com um zumbido baixo.
     

    Claire apertou minha mão com força.
     

    Niana rosnou baixo, já começando a mudar para a forma híbrida.
     

    O silêncio da oficina quebrou quando o primeiro golem deu um passo pesado para dentro, o chão tremendo sob seu peso.
     

    Tinha feito algo de errado, muito errado. Tinha sido descoberto.

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