Capítulo 83 - Estranhos Nas Terras Cintilantes
Tem alguma coisa estranha, Anayê concluiu.
Antes mesmo de entrar no vilarejo, ela fora acometida de um formigamento nos dedos e achou que era por conta da longa viagem.
Estava enganada.
— Oh, finalmente, um vilarejo — Fenrir apontou.
E o formigamento subiu dos dedos para as mãos apenas avistando um vilarejo contido e pacato, com casas de madeira e telhados de barro. Calmo, quieto e perfeito demais.
Ela virou a cabeça e seus olhos vasculharam a densa floresta ao redor. Grandes árvores verdes com troncos robustos e frutas se destacando com cores vivas nos galhos.
Nada fora do lugar.
Ela se voltou para Fenrir. Sua expressão exausta não dizia nada além de “preciso de um banquete e um banho quente.”
Quando entraram no vilarejo, o formigamento piorou. Subiu pelos braços até o cotovelo e as rédeas quase escorregaram de seus dedos. Anayê apertou com força.
Neste momento, uma jovem loira veio correndo ao encontro deles.
O sorriso estava no rosto antes mesmo de chegar.
— Sejam bem vindos ao vilarejo das Terras Cintilantes, meus amigos! Me chamo Bretna.
Anayê não respondeu de imediato. Seus olhos perceberam a coroa de flores coloridas que usava e depois ficaram presos no sorriso. Largo demais, perfeito demais.
— Bons sóis para você — Fenrir cumprimentou. — Eu sou Fenrir, e esta é a minha amiga, Anayê.
A ceifadora estava olhando ao redor e se estivesse mais perto, ele a teria cutucado.
Bretna manteve o sorriso.
— Há alguma hospedaria onde possamos passar a noite?
— Claro, vou levar vocês até lá — a garota falou com muito entusiasmo.
Eles a seguiram.
Os olhos da ceifadora não puderam evitar reparar que todas as portas das casas estavam enfeitadas com flores coloridas. E todas as pessoas também.
Um homem muito alto passou por eles, sorriu e desejou-lhe boas vindas. A voz era gentil e os dentes brancos demais.
Depois foi a vez de uma mulher de corpo escultural e cabelos pretos e compridos.
— Bons sóis, estrangeiros. Sejam bem vindos.
O mesmo tom gentil. O mesmo sorriso.
O que havia de errado com aqueles sorrisos? Anayê esfregou as mãos suadas na roupa.
— Vocês chegaram em boa hora. Hoje é dia de grande comemoração para nosso povo — Bretna contou quando notou o olhar de Anayê.
— O que vocês estão comemorando? — a ceifadora perguntou, direta.
Fenrir virou a cabeça para Anayê.
— Pela proteção, pelas boas colheitas e pela saúde de nossas famílias — ela disse como se fosse uma coisa ensaiada.
— Precisa de uma festa para comemorar isso?
Fenrir puxou o ar, prontou para intervir, mas Anayê fez um gesto, impedindo.
Bretna se voltou para ela, parando um pouco a caminhada. Sorriso firme.
— Você não acha isso importante?
— Isso não respondeu a minha pergunta.
O tom da ceifadora chamou a atenção e alguns passos ao redor cessaram.
— Que tipo de festa é essa? — Anayê insistiu.
— O que você está fazendo? — Fenrir murmurou, tenso.
Anayê franziu o cenho.
— Amiga — ele falou, forçando um sorriso. — Desculpe a minha companheira. É o cansaço da viagem.
Por um instante, Anayê captou o sorriso fugir dos lábios finos da garota. E então voltou exatamente como antes.
— Tudo bem. Talvez nossos costumes possam parecer… diferentes.
Fenrir assentiu, aliviado.
— Obrigado.
— Além disso, não conheço ninguém que não fique bem depois da refeição da Marta.
Bretna apontou uma casa de madeira que, acompanhada pelas outras casas, faziam um círculo completo em torno de um palco de pedra, ocupado por um poço.
A atenção de Anayê se deteve no poço por um longo tempo até sentir a mão de Fenrir cutucando sua perna.
— Ei, vamos, eu preciso de um banho.
Ela piscou, como se estivesse voltando, assentiu e desmontou.
— Desculpe… — Bretna disse, inclinando a cabeça. — O que é isso no seu casaco?
Anayê olhou para baixo e levou um segundo para entender.
— Ah, é a minha insígnia de ceifadora.
Ela ergueu o objeto quadrado e mostrou para a garota.
O efeito foi instantâneo.
O sorriso de Bretna desapareceu como vapor esvaindo pelo ar.
Fenrir estreitou os olhos.
— Alguma coisa errada? — ele questionou.
Por um instante, Bretna não respondeu. Seus olhos estavam fixados na insígnia como alguém hipnotizado.
— Esperem aqui — o tom havia mudado.
Sem esperar resposta, a garota saiu correndo até alcançar um edifício de madeira com teto em forma triangular. Ela passou pelas duas portas de entrada e sumiu da vista dos ceifadores.
— O que…? Que diabos aconteceu agora? — Fenrir indagou.
Anayê não respondeu, pois estava observando os moradores do vilarejo parados, distantes. Não havia mais sorrisos em seus rostos.
Sutilmente, ela retirou um frasco de fluido de oração da bolsa na sela.
— O que você está…
— Xiii!
Fenrir passou a mão no cabelo, inquieto.
— Eu só queria um banho — murmurou. — Você está querendo arrumar confusão com essa pobre gente?
— Se você não está sentindo a pressão espiritual — ela falou, controlando a voz. — Então seu treinamento falhou.
Fenrir estreitou os olhos.
— Pressão…?
Pela primeira vez, ele deixou seu cansaço de lado e observou o vilarejo com mais cuidado. E tudo ficou denso de repente. O ar dos pulmões se tornou mais pesado.
Mas antes que pudesse entender direito, Bretna saiu do edifício acompanhada por um idoso careca trajando uma túnica colorida.
— Senhor, peço perdão por qualquer infortúnio que tenhamos causado — Fenrir disse.
O velho curvou a cabeça de leve.
— Não causaram — Foi direto. — Mas temo que nossa amizade termine antes mesmo de começar.
— Terminar? Como assim?
— Infelizmente, não aceitamos ceifadores no nosso vilarejo.
O silêncio caiu pesado.
Anayê cruzou os braços, sem desviar o olhar, enquanto o rosto de Fenrir encarnava uma expressão de dúvida.
O idoso entrelaçou os dedos na altura do peito.
— Não é pessoal, é… histórico — ele fez uma pausa dramática. — Já sofremos por conta de um ceifador. E não vamos repetir o erro.
Os olhos dele escureceram.
— Qual ceifador? — Anayê questionou, abruptamente.
O idoso hesitou por um instante.
— Um que você não vai querer conhecer, com certeza.
De novo, eles ficaram à mercê do som do vento por um momento.
— Portanto, deixem este lugar.
O idoso foi enfático na palavra deixem, mostrando um olhar austero. Atrás deles, os moradores observavam como esculturas de pedra.
Anayê, entretanto, sustentou o olhar.
Um segundo. Dois. Três.
— Tudo bem — foi Fenrir quem falou. — Nós iremos. — Segurou o cotovelo da ceifadora com gentileza. — Não é, Anayê?
Ela não respondeu de imediato, mas então, assentiu.
O idoso suspirou como se tivesse segurado o mundo inteiro por alguns instantes.
Os ceifadores montaram e partiram.
Ou pelo menos foi o que os moradores das Terras Cintilantes pensaram.
**
— Aquilo foi… estranho — Fenrir soltou quando já estavam a uma boa distância do vilarejo.
A ceifadora estava em silêncio absoluto.
— Anayê?
Ela puxou as rédeas e o cavalo parou.
— Eles mentiram.
Fenrir ficou imóvel.
— Não foi apenas por causa do ceifador que nos expulsaram. Existe algo a mais. Eu senti — ela revelou.
Fenrir nunca tinha visto a ceifadora com tamanha presença. Era como se ela fosse um gigante de repente, impossível de ignorar.
— Nós não vamos embora — ela afirmou com um olhar determinado. — Seja qual for o segredo deles, nós iremos descobrir.

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