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    Aquela voz continuou açoitando a minha mente até eu tomar uma atitude e colocar um basta nesta opressão. Contra a vontade da força que pesava o meu corpo e a todo custo queria me manter de joelhos, soltei um grito daqueles que um guerreiro solta no campo de batalha e levantei com uma pose firme.

    — Aaaaaaah!

    Depois bati minha cabeça como se estivesse expulsando essa voz pulsante. Apesar dela não ter saído, me senti aliviado.

    — Escuta aqui, rei! Eu não vou me render ao medo!!! Pois eu sei que no final você será derrotado. Está escrito!

    — O fim deste mundo está próximo.

    Não importava o quanto eu falasse, ele parecia um papagaio que repetia a mesma coisa. Acho que esse era o limite dele em se comunicar comigo. Então decidi sair ali, porque não aguentava mais ouvir aquela voz irritante e opressora, que trazia sobre o meu corpo um peso que já estava me deixando muito cansado.

    — Fique falando sozinho!

    Comecei a escalar aquele buraco através das raízes e das pedras irregulares na parede rochosa enquanto lutava contra a pressão que tentava me puxar para trás. Foi com muito esforço e suor, mas consegui chegar à superfície enquanto a voz ficava menos intensa na minha mente.

    Dei um suspiro, descansando na superfície daquela sala.

    — É melhor eu me apressar.

    Depois de mais um suspiro, me levantei. Mas antes de deixar aquele recinto, criei duas esferas de mana e lancei contra o telhado para que aquele buraco fosse fechado. Assisti já na saída os rochedos caindo sobre o buraco, provocando uma poeira tão densa que não era mais possível contemplar a sala com exatidão.

    Antes que aquela poeira chegasse às minhas narinas, sai dali. Missão cumprida. Se aquela voz fosse real, eu teria a prova, mas segundo o livro aquelas criaturas não podem interagir com o mundo físico diretamente, mas podem influenciar ele.

    Não pretendia contar nada a ninguém, mas selar esse segredo comigo nesse mundo não iria ajudar muito. Embora eu incoresse ao risco de me traterem como louco por ouvir vozes, no entanto, ainda assim, eu não queria esconder mais nada.

    Não queria mentir mais. Percebi na catedral, que cada vez que minto, uma corda se enrola no meu pescoço ao mesmo tempo em que o nó frágil da confiança nos meus amigos vai se desfazendo. Ainda que eles sorriam e digam que acreditam em mim, no fundo eu sabia que eles ainda carregavam muitas dúvidas ao meu respeito.

    “ Então seja verdadeiro a partir de agora” Foi o que Theresa disse. E eu prometi que iria tentar, mas não estou fazendo um mínimo esforço para tal. Agora significa agora e eu apenas estava adiando isso, colocando os meus parceiros em perigo.

    Quando penso nas palavras do rei das trevas, me pergunto se ainda tenho o futuro em minhas mãos. Meio contraditório após eu dizer aquelas palavras para ele, mas um sentimento de insegurança passou a tomar conta de mim. E se o futuro acabar mudando drasticamente e eu não tiver mais controle dele? O que será daqueles que confiaram em mim?

    “Será que fiz bem em entrar na vida deles?”

    Essa pergunta ecoava em mim enquanto eu caminhava.

    “Eu pertenço a esse mundo?”

    Era algo que eu queria saber. Era algo que estava procurando saber. E com esses pensamentos tomando conta da minha mente como um tormento, acabei chegando na saída onde encontrei o Rein.

    — Bom trabalho. Embora precise de um banho mais tarde.

    Seus olhos olharam para mim que estava completamente sujo de terra, do rosto ao cabelo.

    — Aconteceu algo que preciso contar a vocês.

    Eu tomei a minha decisão. Eu serei verdadeiro a partir de agora, claro que sob uma certa medida para que o conhecimento que carrego não exploda suas cabeças e altere o rumo deste mundo. Serei verdadeiro e contarei tudo o que for necessário para vencermos o presente, ser verdadeiro em cada época determinada porque há coisas às quais eu jamais poderia dizer, ainda que eu queira.

    Pelos menos por agora.

    — Fala.

    — Aqui não… Depois.

    — Certo.

    Depois que ele disse isso, caminhamos em direção a onde estava Meredith sendo segurada por um soldado enquanto discutia com Zernen. Ele e o soldado que o segurava, estavam ambos chamuscados.

    — Espere aqui.

    Agora entrava em ação a segunda parte do plano. Rein me deixou escondido na moita e se revelou aos soldados e aqueles dois, reunindo seus olhos.

    — Olá, desculpa a confusão que os meus afilhados estão causando.

    — Afilhados? — Um dos soldados questionou.

    — É isso mesmo, eu sou o padrinho de casamento desses dois.

    O soldado semicerrou os olhos, tentando assimilar aquela situação.

    — Isso é verdade — disse Meredith, parecendo menos convincente. — Ele é o nosso padrinho!

    — É, acreditem!

    Zernen que já não era convincente, acabou cavando mais o buraco da nossa sepultura. Os soldados ficaram mais desconfiados.

    — Você não me parece estranho. Eu lembro de você. Você é o cara dos caçadores de lua que finalizou essa masmorra, não é?

    O soldado que segurava o Zernen parecia ser muito esperto.

    — Ei, ei, como assim? O que um caçador de lua estaria fazendo aqui? Pelo que eu saiba, eles atuam somente em Ahrmanica.

    — Ele não está errado. Mas devido a problemas familiares como esse que aqui, tive que vir quando me chamaram.

    — Oh, pior que eu já passei por isso. Não sou padrinho, mas quando meu irmão teve problema, tive que acudi-lo, então eu te entendo.

    Muito compressível era o soldado do lado da Meredith, mas o que estava com Zernen ainda mantinha um olhar afiado.

    — Bom, se é assim, podem ir — ele disse com um tom frio. — Ou tem algo contra eles?— Olhou para seu companheiro, que balançou a cabeça negativamente.

    — Muito obrigado.

    Rein sorriu enquanto Meredith e Zernen eram libertos, ambos dando um suspiro. — Vamos, meus afilhados.

    Quando assentiram e viraram com um sorriso de vitória, o soldado desconfiado mandou com que eles parassem.

    — Eu também sou padrinho de um casamento e já fui chamado várias vezes a mediar conflitos e o vosso me pareceu peculiar. Desde o princípio. Apenas deixei que vocês continuassem, porque queria ver até onde iriam chegar. — Afinou os olhos como se fosse uma águia prestes a caçar sua presa. — Me digam a verdade… Vocês não são um casal, não é?

    — Nós somos sim, olha! — Meredith pegou a mão do Zernen, o puxando para perto do seu corpo enquanto ambos davam um sorriso, mostrando os dentes.

    — Pensei que estivessem brigados…

    —Ah, é claro!

    Imediatamente Meredith tirou a mão do braço do Zernen e o empurrou para bem longe, apontando sua espada para ele. Ao mesmo tempo, Zernen cerrava os punhos numa postura de combate.

    — Eu ainda estou com raiva de você! Não vou te perdoar!

    — Isso mesmo, eu também!

    Dei um tapa na cara de decepção por aqueles dois não terem percebido que haviam afundado de vez seu show teatral. Definitivamente, coloquei minhas expectativas neles ao ver a Meredith se comportando conforme a postura mandava, mas parece que depois da realidade, ela não sabia fantasiar.

    Como resposta, o soldado sacou a espada e correu em direção a Meredith, que reagiu instintivamente. Algumas faíscas saíram voando.

    — De fato, é mesmo a princesa Meredith.

    — Como você…

    — Eu sei, nunca tivemos contato cara a cara, mas já a vi algumas vezes quando trabalhei no distrito real antes de ser escalado para aqui. Tive a oportunidade de vê-la caçando aquele bandido, mas o que me leva a deduzir que é você, é minha intuição. Você tem aura de alguém da realeza.

    — Nossa, então essa é mesmo a princesa Meredith? Você é mesmo analítico, Charks.

    — Eu também já estava cansado de fingir isso, eu quero é lutar de verdade — Zernen, que estava do lado da Meredith, cerrou os punhos.

    — Por hoje, penso que é tudo — disse Rein, segurando o ombro dos dois. Não levou nem um segundo para eles desaparecem da minha visão. O soldado guardou a espada.

    — Ah, que droga! Se eu tivesse percebido a tempo — disse o soldado nada visionário.

    — Não se preocupe, Étora. Ainda temos um peixe pequeno deixado para trás. Minha intuição me diz que ele está ali.

    Apontou para direção em que eu estava, mas aquilo não era intuição nada, porque momentos antes dele dizer aquilo, uma fruta verde, cujo ramo havia sido atacado por uma praga, acabou caindo na minha cabeça e eu soltei um “aí” que denunciou a minha presença.

    — Você deve ser o charlatão manipulador, não é?

    Sua mão grande parecia querer me devorar. Meus olhos mal haviam processado aquela velocidade.

    — Minha intuição me diz que é você, porque sua cara parece muito igual a do cartaz. — Ele tirou aquele maldito cartaz do cara que não era nada parecido comigo. — Foi mal, mas eu terei que te capturar aqui e agora!

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