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    Nunca gostei de física como gostava agora.

    — Maldito manipulador da natureza! Não vai se achando! Eu vou… — Quando levantou ambas mãos, arregalou os olhos. Eu podia sentir os raios entrarem naquele buraco profundo e estreito. Uma chuva deles. — O que? Não pode ser…

    No fim, ele caiu de joelhos, decepcionado. Aquela cara… Eu estava gostando daquilo. Ah, agora sim, eu estava me sentindo vivo novamente. Estufei o meu peito com fôlego e estiquei os braços como um pássaro livre. Como se tivesse finalmente descarregado todas minhas frustrações neste belo vento.

    — Pelos vistos, você também é capaz de manipular a natureza também… Realmente, você é muito perigoso.

    — Eu não manipulei nenhuma natureza! — Apoiei uma das mãos no quadril. — Isso aqui se chama física. Não estudaram física na escola?!

    — Não.

    — Nem eu — Theresa disse.

    Bem, não era de se esperar. Física aqui era algo quase irrelevante, visto que as magias daqui desafiavam as leis da física. Então, qual era realmente o sentido de estudar física nesse mundo?

    — Entendi. Mas na escola que eu estudava tinha física e ela ensina que a terra é uma espécie de aterramento para raios. Foi graças a esse conhecimento que consegui vencer essa sua habilidade!

    — Então quer dizer que eu fui vencido por um conhecimento escolar? Que decepção… — Ele cobriu o rosto de vergonha. — Por que eu não estudei mais?

    — Qual…

    Olhei para Theresa, que fazia uma expressão num misto de curiosidade e fascínio.

    — Qual escola você estudou?

    Eita, que eu havia amarrado a corda no meu pescoço.

    — Eu não posso dizer aqui e agora! É segredo! Se pessoas como ele descobrirem a escola que eu estudei, poderão ir atrás dos meus conhecidos.

    Um nó havia se formado.

    — Ah, entendi! Você tem toda razão!

    — Se você tem tanto conhecimento assim como foi acabar como um mendigo enganador de princesas? — questionou Charks com aquele olhar desconfiado, que me lembrava um tubarão. Reparando bem, seus traços também se assemelhavam a desse animal marinho.

    — Eu não estou enganando ninguém! Tudo o que eu disse é verdade. Se for—

    Era melhor eu não mencionar que havia passado pela catedral, caso não, eu estaria colocando eles em mãos lençois.

    — Se for?

    — Nada.

    — Olhem, pensem comigo. — Theresa avançou alguns passos para frente de mim. — Por que uma pessoa como ele estaria se arriscando tanto assim?Enganar uma princesa para sair correndo? Por que? Para quê? Não vejo sentido nisso. Pessoas enganadoras dão o golpe e fogem. São pessoas capazes de assinar acordos falsos de rendas mensais… — Por algum motivo ela estava olhando para mim. — São pessoas que mentem para obter dinheiro. Enfim, se esse homem estivesse mentindo, ele não estaria aqui se arriscando. Pelo menos eu fugiria.

    Espero que esse discurso da Theresa tenha resultado. No fim das coisas, guerras e perseguição sempre acabam na mesa do diálogo.

    — Minha intuição me diz que você está certa…

    — Vai mesmo acreditar neles? — Étora se levantou. — Tudo bem, tudo bem que o que ela disse faz sentido, mas vai mesmo acreditar neles?

    Mas espera um pouco? Se o que ela diz faz sentido, não seria normal acreditar nas palavras dela? Eu não estava entendendo a lógica desse cara.

    — Mas nós não somos juízes. Então não cabe a nós fazer julgamento de suas palavras. A nós cabe cumprir a lei e levar vocês à barra da justiça. Lá vocês podem provar a vossa inocência.

    É mesmo… Eu havia me esquecido sobre que comando estavam estes soldados. Xavier, o homem da lei, havia envenenado esses homens com sua filosofia sobre a lei. Para eles, ela estava acima de tudo e de todos. Seu dever era cumprir ela até o fim, mesmo que isso implicasse sacrificar seu raciocínio lógico.

    — Então mesmo que minhas palavras façam sentido, vocês não vão nos deixar passar, não é mesmo?

    Ambos concordaram.

    — Lei é lei — disse Charks.

    — Mesmo que isso implique ter que matar seus próprios familiares?

    Aí estava algo que eu queria saber. Se estes homens teriam coragem de colocar a lei acima de suas famílias.

    “Mandou bem, Theresa!”

    Como esperado, um silêncio pairou sobre sua boca fechada. Soltar uma resposta nunca foi tão difícil como estava sendo agora. Seus lábios tremiam.

    — A minha família, é claro — disse Charks. — Antes de soldados, eu sou pai e filho.

    Ouvir aquilo me deixou impressionado. Ele poderia ter mentido que estaria tudo bem, a gente não iria saber. E ele iria executar a lei sem remorsos para desconhecidos, mas ele optou por ser sincero como um verdadeiro homem

    — Eu também… Sei que lei é lei, mas punir minha família seria difícil.

    — Viram? Até vocês são humanos.

    Theresa deu um sorriso não tão acolhido. Charks semicerrou seus olhos, e levantou uma esfera de água.

    — Mas vocês não são nossos familiares.

    — É, isso mesmo. — Uma esfera de raio surgiu numa das mãos de Étora.

    Então quer dizer que esse todo discurso de leis e família foi para no final das contas chegarmos nisso? Por um momento, eu pensei que eles iam se compadecer e se colocar em nosso lugar, mas não, esses soldados só tinham coração para seus familiares.

    — Vocês são um lixo mesmo.

    Não esperava que tais palavras fossem sair dos lábios cultos de Theresa.

    — É por isso que o reino está do jeito que está. Você disse que há pouco que antes de tudo era pai, não é? Pois eu te digo que antes de tudo você é um ser humano.

    — É isso mesmo, nós somos da mesma espécie. Leões ajudam leões. Macacos ajudam macacos. Então por que não acontece isso justo com seres racionais como seres humanos?!

    — O que são leões?

    Charks questionou, seguido de seu companheiro.

    — É, é! E macacos? São uma espécie de monstros?

    Ah, eu havia me esquecido que uma algumas espécies nem tinha nome e se tinham nome, com certeza eram nomeadas por nomes que se distanciavam do nome do meu mundo.

    — Tanto faz, o que ele quis dizer é que nós, diferente de outras espécies, por sermos racionais, deveríamos demonstrar mais amor.

    “Obrigado, Theresa!”

    — E o amor seria deixar vocês fugirem? Até mesmo monstros precisam prestar contas aos monstros chefes. E diferente dos monstros, nós humanos usamos a racionalidade para fazer julgamentos racionais.

    Étora balançou a cabeça três vezes.

    — Pois, se vocês se entregarem, só precisam provar a sua inocência!

    — Mas é justamente isso que estamos tentando fazer! — eu disse. — Reunindo provas para provar nossa inocência.

    — Na minha vida nunca vi um ladrão ir procurar provas que provem que ele nunca roubou.

    Aí ele tinha um ponto. Droga, Charks. Por que você teve que vir com essa?

    Mas o bom disso tudo era que os nossos companheiros estavam acordando. Havíamos ganhado tempo suficiente, ao menos. Aqui eles jamais iriam nos deixar sair sem lutar. Soldados são mais difíceis de convencer do que os aventureiros, porque eles são daqueles que acreditam no que vem.

    — A vida é feita de pedras. E vocês são uma pedra no nosso caminho — disse Theresa. Nesta altura, nossos companheiros haviam se levantado como ossos que saem da tumba, se juntavam e ficavam de pé. Com os olhos severamente apontados para eles.

    Cada um farmando aura com um sua pose específica. Meredith empunhava a espada com as duas mãos. Zernen ligeiramente agachado com um dos punhos sobre a terra. Rein como um homo erectus. Aqueles dois abracinhos como um dia normal em São Valentim. E por fim, Theresa e eu carregamos nossas esferas na mão.

    — Então, se nos der licença, saiam do nosso caminho! — finalizou ela.

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